Clavis Libri

Autor

Homero

Nascimento
séc. VIII a.C. (incerta)
Morte
séc. VIII a.C. (incerta)
Retrato de Homero
Retrato: o busto de Homero em Aristóteles com o busto de Homero, de Rembrandt (1653), detalhe. Domínio público.

Homero é o nome que os gregos deram ao poeta da Ilíada e da Odisseia, os dois poemas mais antigos da literatura europeia. Quase nada se sabe da pessoa: a tradição o fazia cego e disputava o lugar do nascimento entre várias cidades da Ásia Menor e das ilhas, como Esmirna e Quios, e os estudiosos o situam por volta do século VIII a.C., vários séculos depois da guerra que os poemas narram. Os dois poemas são compostos em hexâmetros, numa língua literária que mistura dialetos, sobretudo o jônico, e que ninguém falava no dia a dia, e trazem as marcas de uma longa tradição de poesia oral: epítetos que se repetem, cenas típicas, versos inteiros que voltam iguais. Se são obra de um só poeta, de dois, ou o fecho escrito de séculos de recitação, é a chamada questão homérica, que continua aberta. Para os gregos importava menos quem ele foi do que o uso que se fazia dele: Homero era o livro da escola, a fonte dos mitos que a tragédia reescreveu e o modelo que Virgílio imitou para dar a Roma a sua epopeia. Segundo Platão, os admiradores de Homero diziam que ele tinha educado a Grécia, e foi por esse poder que Platão o deixou fora da sua cidade ideal.

Quem foi, e quando: a questão homérica

Aristóteles: o poeta divino, pela unidade da ação

A Poética usa os dois poemas como material de exemplo do tratado inteiro. O elogio central é de construção: Homero não tentou contar a guerra toda, recortou uma ação.

διὸ ὥσπερ εἴπομεν ἤδη καὶ ταύτῃ θεσπέσιος ἂν φανείη Ὅμηρος παρὰ τοὺς ἄλλους, τῷ μηδὲ τὸν πόλεμον καίπερ ἔχοντα ἀρχὴν καὶ τέλος ἐπιχειρῆσαι ποιεῖν ὅλον (1459a), por isso Homero pareceria divino em comparação aos outros, por não tentar compor a guerra inteira, embora ela tivesse começo e fim.
Aristóteles, Poética

É o mesmo recorte que a leitura da Ilíada toma como tese, a cólera de Aquiles no décimo ano, e não a guerra (Ilíada). E a virtude que Aristóteles nomeia como só dele é a de desaparecer como narrador:

αὐτὸν γὰρ δεῖ τὸν ποιητὴν ἐλάχιστα λέγειν· οὐ γάρ ἐστι κατὰ ταῦτα μιμητής (1460a), pois o próprio poeta deve falar o mínimo possível; nisso ele não é um imitador.
Aristóteles, Poética

Nos capítulos iniciais, Homero ainda é a dobradiça dos gêneros: a Ilíada e a Odisseia estão para a tragédia como o Margites, poema cômico hoje perdido, está para a comédia (Aristóteles, Poética, caps. 1-5). Mas o divino perde no fim do livro, e isso costuma ser esquecido:

φανερὸν ὅτι κρείττων ἂν εἴη μᾶλλον τοῦ τέλους τυγχάνουσα τῆς ἐποποιίας (1462b), é evidente que ela seria superior, por atingir mais o seu fim, do que a epopeia.
Aristóteles, Poética

Platão: o legislador que não legislou

Em A República, Homero é o alvo da reforma educativa. Os Livros II e III cortam os deuses que mudam de forma e mentem, os heróis que choram e o Hades aterrador; o Livro X volta com o argumento de fundo, confessando antes o afeto de infância pelo poeta. A acusação não é estética, é de competência: se Homero soubesse de guerra e de governo, alguma cidade lhe deveria as leis.

Isto é, imita a aparência de uma aparência, não a coisa em si, e por isso "não sabe" o que representa, ao contrário do artesão (que sabe fazer) e do usuário (que sabe usar e é quem realmente entende o objeto). Sócrates desafia o prestígio de Homero diretamente: se ele soubesse de verdade sobre guerra, governo e educação, teria deixado alguma cidade melhor administrada (como Esparta deve a Licurgo) ou discípulos que herdassem seu método (como Pitágoras). Nada disso existe. Que Estado te aponta como um bom legislador que veio em seu auxílio? (599d-e)
Platone, A República

Platão não inventou a queixa. O filósofo pré-socrático Xenófanes já acusava Homero de atribuir aos deuses roubo, adultério e falsidade (Tom Holland, Domínio, cap. I).

Auerbach: o estilo sem segundo plano

No primeiro capítulo de Mimesis, a cena em que a ama reconhece Odisseu pela cicatriz, no Canto XIX da Odisseia, é posta contra o sacrifício de Isaac em Gênesis 22. Homero tudo ilumina:

Só que Homero, e teremos de voltar sôbre isto, não conhece segundos planos. O que êle nos narra, é sempre somente presente, e preenche completamente a cena e a consciência. [p. 11]
Auerbach, Mimesis

E a consequência que interessa aqui é a da pretensão de verdade. Homero quer agradar; o texto bíblico quer ser crido, e exclui qualquer rival:

A pretensão de verdade dos dois textos também diverge: Homero busca agradar, a Bíblia exige crença, porque a ordem sagrada da vida descansa na verdade daquela história. A pretensão de verdade da Bíblia não é somente muito mais urgente que a de Homero, ela também é tirânica; exclui qualquer outra pretensão [p. 19]
Auerbach, Mimesis

Carpeaux: a Bíblia que virou literatura

O crítico Otto Maria Carpeaux dá o dado que faltava para pôr os três na mesma mesa: para os gregos, Homero não era poema discutível, era o que a Bíblia seria depois para os cristãos.

Para os gregos antigos, Homero não era uma obra literária discutível, mas norma fechada:

Para os antigos, Homero não era uma obra literária, leitura obrigatória dos estudantes e objeto de discussão crítica entre os homens de letras. [...] Homero era indiscutido: mas não como epopéia, e sim como Bíblia. Era um Código.
Carpeaux, História da Literatura Ocidental

É só para o leitor moderno que Homero se torna, ao contrário, "símbolo de uma grande obra literária":

Para nós outros, Homero não pode ser outra coisa senão símbolo de uma grande obra literária, puramente literária e capaz de ser discutida.
Carpeaux, História da Literatura Ocidental