Clavis Libri
EnredoO livro inteiro, do começo ao fim. Resumo e análise5 capítulos, um a um. Personagens7 personagens. Temas6 temas e onde aparecem. Pilar dos temasOs temas capítulo a capítulo. Símbolos2 símbolos e o que significam. CitaçõesAs passagens que decidem a história. MapaA obra num só desenho. DiscussõesPara discutir em aula, em grupo ou sozinho. InfográficoA obra numa página. Guia em PDFO guia completo para baixar e imprimir. AutorWilliam Shakespeare.

Ficha da obra

Título original
The Tragedy of Othello, the Moor of Venice
Publicação
Composta entre 1601 e 1604; encenada em 1604; impressa em 1622
Gênero
Tragédia em cinco atos
Cenário
Veneza e a ilha de Chipre
Época
A guerra entre Veneza e os turcos, no século XVI
Narrador
Não há: peça de teatro, em verso e prosa
Protagonista
Otelo, general mouro a serviço de Veneza

Sobre o autor

O ator de província que, em Londres, escreveu as tragédias pelas quais o Ocidente ainda mede a ambição, o ciúme, a vingança e o amor. Ler o perfil de William Shakespeare

Introdução

  • Otelo é a tragédia em que o mal não tem auxílio sobrenatural: sem fantasma, sem bruxa, o estrago inteiro sai da palavra de um homem. A leitura ato a ato mora no guia listadas em Os atos, logo abaixo.
  • Lawrence Flores Pereira, na introdução da edição lida, dá a peça como composta entre 1601 e 1604 e expõe as duas teses da datação: uma a situa em 1602, a outra em 1603-1604, a mais tradicional. O primeiro registro de encenação é de 1º de novembro de 1604, no Banqueting House, em Whitehall, pelos atores do rei.

Tema central

Um general que conquistou Veneza pelo valor e pela palavra é levado a matar a mulher que escolheu, e quem o leva é um subordinado ressentido que engana primeiro com eco e pausa, depois com sonho contado e mentira direta. O que faz a peça durar é o mecanismo, não o ciúme: a confiança de Otelo na aparência de honestidade, a mesma que o absolve no Senado, é o ponto onde Iago aperta, e o preconceito que Veneza já carrega contra o Mouro prepara o terreno antes de qualquer insinuação. A verdade só aparece no último ato, tarde demais para salvar Desdêmona.

A crítica da edição

O mesmo volume traz dois textos críticos que discordam entre si sobre Desdêmona, e a discordância é o que os torna úteis lidos juntos.

  • Introdução a Otelo lê a fortuna crítica da peça como sintoma da armadilha que a peça descreve: o envolvimento passional que corrompe o julgamento de Otelo já corrompeu séculos de leitura.
  • O curinga no baralho tira Iago do registro da vingança e o põe no do pregador de trotes, cujo prazer é mostrar aos outros que agiam como marionetes.
  • A divergência: Pereira cita Auden pelo nome como exemplo do problema, chamando de "realismo cínico" com "espírito de Iago" a especulação dele sobre Desdêmona. Auden de fato a julga com dureza, enquanto Pereira a lê como figura de autonomia real, próxima de Cordélia. A mesma personagem em polos opostos, dentro da mesma edição.

O mal sem sobrenatural

Na aula seguinte do mesmo módulo, a condutora retoma o ponto citando Harold Bloom (A Invenção do Humano, sem tradução):

A falha trágica, em comparação com Romeu e Hamlet

Romeu erra por impulso, Otelo por insegurança, e Hamlet por excesso de reflexão. É a comparação mais direta entre as três tragédias feita até hoje, e situa o eixo de leitura de Otelo (a insegurança, não o ciúme puro) antes de qualquer análise própria.

O ciúme não é a chave: a leitura de Púchkin

Dentro do Livro VIII de Os Irmãos Karamázov, ao narrar o ciúme de Mítia por Grúchenhka, o narrador abre um parêntese sobre a natureza do ciúme verdadeiro, citando Púchkin:

Otelo não é ciumento, é confiante
Karamázov - Livro VIII - Mítia

A citação inverte o senso comum sobre a peça: se Otelo age por confiança traída, não por temperamento ciumento, isso combina com a leitura da falha trágica acima, insegurança diante de uma prova manipulada, e não vício de caráter. Casa canônica da citação é a nota do Karamázov (é lá que Dostoiévski a usa).