Clavis Libri
ContextoA época, a origem da história e o texto. EnredoO poema inteiro, do começo ao fim. Linha do tempoOs acontecimentos na ordem do poema. Resumo e análise12 livros, um a um. Personagens18 personagens. Temas6 temas e onde aparecem. Pilar dos temasOs temas livro a livro. Símbolos6 símbolos e o que significam. CitaçõesAs passagens que decidem a história. Termos10 termos de época, explicados. Recursos literários14 recursos, com as passagens em que aparecem. MapaA obra num só desenho. DiscussõesPara discutir em aula, em grupo ou sozinho. PerguntasAs dúvidas mais comuns sobre o livro, respondidas. QuizTeste a leitura, capítulo a capítulo. InfográficoA obra numa página. Cronograma de leituraSemanas de leitura sugeridas. Caderno de estudosExercícios por semana, com gabarito. Guia em PDFO guia completo para baixar e imprimir. AutorVirgílio.

Ficha da obra

Título original
Aeneis
Publicação
19 a.C., depois da morte do autor, por ordem de Augusto
Gênero
Poema épico, em doze livros de hexâmetros latinos
Cenário
Troia em chamas, o Mediterrâneo da viagem (Trácia, Creta, Sicília, Cartago) e o Lácio, na Itália
Época
Os sete anos que se seguem à queda de Troia, no passado mítico da origem de Roma
Narrador
Terceira pessoa; nos Livros II e III, o próprio Enéias conta a Dido a queda de Troia e a viagem
Protagonista
Enéias

Sobre o autor

Poeta latino da época de Augusto, autor das Bucólicas, das Geórgicas e da Eneida, a epopeia da origem de Roma. Ler o perfil de Virgílio

A história e o seu mundo

Enéias é filho do mortal Anquises e da deusa Vênus, e o poema o apresenta menos pela força do que pela pietas, a lealdade devida aos deuses, à família e à pátria. Quando os gregos tomam Troia pelo ardil do cavalo, ele foge da cidade com o pai nos ombros, o filho Ascânio pela mão e os deuses da casa, os Penates, e passa sete anos no mar à procura da terra que o destino lhe reservou: o Lácio, na Itália, onde os seus descendentes fundarão Roma.

Quem o persegue é Juno, que guarda rancor antigo contra os troianos e protege Cartago, a cidade que o destino manda destruir muito depois. Quem o conduz é Júpiter, que promete aos romanos um império sem limite de espaço nem de tempo. O herói não traça a própria rota: segue sonhos, presságios e ordens de deuses, e cada passo dado assim deixa alguém para trás.

A forma do poema é fácil de reconhecer. Os Livros I a VI são uma viagem de naufrágio em naufrágio, que termina na descida ao mundo dos mortos, e por isso lembram a Odisseia de Homero. Os Livros VII a XII são uma guerra de cerco, combates, mortes de jovens e funerais, que termina num duelo de dois homens, e por isso lembram a Ilíada de Homero. A primeira metade é a odisseica, a segunda é a iliádica, e é na junção entre as duas que Virgílio faz a sua ambição aparecer: dar a Roma uma origem à altura do que ela se tornou sob Augusto.

O argumento que atravessa o poema

O poema pergunta quanto custa fundar, e a resposta é dada em perdas sucessivas, não em conquistas. Enéias não escolhe nada: ele obedece, e cada obediência cobra alguém.

Tantaene animis coelestibus irae!, tanta ira cabe no ânimo dos deuses?
Livro I: A tempestade e Cartago

Os três primeiros livros mostram o que ficou para trás, com a queda de Troia contada por ele mesmo e a errância que não acha lugar. O quarto cobra o preço mais alto e é o mais lido do poema: Dido não é obstáculo à missão, é a primeira coisa que a missão destrói.

Tum vos, o Tyrii, stirpem et genus omne futurum / Exercete odiis, cinerique haec mittite nostro / Munera: nullus amor populis nec foedera sunto. / Exoriare aliquis nostris ex ossibus ultor, / Qui face Dardanios ferroque sequare colonos. / Nunc, olim, quocumque dabunt se tempore vires, / Littora littoribus contraria, fluctibus undas / Imprecor, arma armis: pugnent ipsique nepotes, e vós, ó tírios, atormentai com ódios a sua estirpe e toda a raça futura, e enviai isto às minhas cinzas como oferta: que não haja amor nem tratados entre os povos. Que surja de meus ossos algum vingador, que persiga com tocha e ferro os colonos dardânios, agora, depois, em qualquer tempo em que as forças se ofereçam: peço em praga praias contrárias às praias, ondas contra ondas, armas contra armas: que lutem também os netos.
Livro IV: Dido

O sexto livro é a dobradiça e o mais importante do conjunto. A descida ao mundo dos mortos transforma o poema de relato de fuga em relato de fundação, porque é ali que o futuro de Roma é mostrado antes de existir.

facilis descensus Averni; / Noctes atque dies patet atri janua Ditis: / Sed revocare gradum, superasque evadere ad auras, / Hoc opus, hic labor est, fácil é a descida ao Averno; noite e dia está aberta a porta do negro Dite; mas voltar atrás e escapar para as auras do alto, esta é a obra, este é o trabalho
Livro VI: A descida ao mundo dos mortos

Do sétimo ao décimo segundo o poema vira guerra, e a guerra é entre povos que vão se tornar o mesmo povo. O oitavo comprime a história romana inteira na descrição de um escudo forjado pelo deus Vulcano, um dos gestos de propaganda mais sofisticados da Antiguidade.

E o fecho é o problema interpretativo do poema. Enéias mata Turno já rendido, suplicante, e o poema termina ali, sem reconciliação e sem comentário.

Equidem merui, nec deprecor, inquit; / Utere sorte tua. Miseri te si qua parentis / Tangere cura potest, oro (fuit et tibi talis / Anchises genitor), Dauni miserere senectae; / Et me, seu corpus spoliatum lumine mavis, / Redde meis. Vicisti, et victum tendere palmas / Ausonii videre: tua est Lavinia conjux; / Ulterius ne tende odiis, mereci, e não peço que me poupem; usa a tua sorte. Se algum cuidado de um pai infeliz pode te tocar, peço (também tu tiveste um pai assim, Anquises), tem pena da velhice de Dauno; e a mim, se preferes o corpo despojado de luz, devolve aos meus. Venceste, e os ausônios viram o vencido estender as palmas: Lavínia é tua esposa; não leves mais longe o ódio.
Livro XII: Turno

Há quem leia isso como triunfo da piedade romana, que não perdoa quem quebrou o pacto, e quem leia como denúncia do custo do império, escrita por um poeta que serviu a Augusto sem endossá-lo. As duas leituras cabem no texto, e o poema não escolhe entre elas.

O verso que saiu do poema e virou programa de outra ciência

A recepção mais improvável do poema não está na literatura, está na psicanálise. O verso em que Juno, derrotada entre os deuses do alto, decide apelar para o inferno, no Livro VII, é o que Sigmund Freud pôs na primeira página de A Interpretação dos Sonhos, em 1900, e repetiu no fecho do último capítulo:

O verso que fecha o balanço de Juno é Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo, literalmente "se não posso dobrar os deuses do alto, moverei o Aqueronte" (Eneida, Livro VII).
Livro VII: A chegada ao Lácio

Ali o verso deixa de descrever uma deusa e passa a descrever um método: o desejo barrado pela consciência força passagem pelo sonho, como Juno, barrada no céu, força passagem pelo Aqueronte. É um caso raro de imagem antiga reaproveitada como formulação técnica moderna, e não como enfeite.

A recepção medieval, e quem o poema deixou de herança

Dante abre a Comédia fazendo de Virgílio o seu guia, e no primeiro canto o próprio Virgílio nomeia, entre os mortos pela Itália, quatro personagens que só existem porque este poema os escreveu:

Di quella umile Italia fia salute / per cui morì la vergine Cammilla, / Eurialo e Turno e Niso di ferute., daquela humilde Itália virá a salvação / pela qual morreu a virgem Camila, / Eurialo e Turno e Niso, de feridas.
Inferno

Camila, Euríalo, Turno e Niso, os sacrificados dos Livros IX a XII, chegam à Idade Média não como derrotados de uma guerra antiga, mas como os mortos fundadores de uma Itália que ainda espera reparação. É a prova mais curta de que a leitura medieval do poema não separa a epopeia da política do próprio leitor.