Ficha da obra
- Autor
- Virgílio
- Título original
- Aeneis
- Publicação
- 19 a.C., depois da morte do autor, por ordem de Augusto
- Gênero
- Poema épico, em doze livros de hexâmetros latinos
- Cenário
- Troia em chamas, o Mediterrâneo da viagem (Trácia, Creta, Sicília, Cartago) e o Lácio, na Itália
- Época
- Os sete anos que se seguem à queda de Troia, no passado mítico da origem de Roma
- Narrador
- Terceira pessoa; nos Livros II e III, o próprio Enéias conta a Dido a queda de Troia e a viagem
- Protagonista
- Enéias
Sobre o autor
Poeta latino da época de Augusto, autor das Bucólicas, das Geórgicas e da Eneida, a epopeia da origem de Roma. Ler o perfil de Virgílio
A história e o seu mundo
Enéias é filho do mortal Anquises e da deusa Vênus, e o poema o apresenta menos pela força do que pela pietas, a lealdade devida aos deuses, à família e à pátria. Quando os gregos tomam Troia pelo ardil do cavalo, ele foge da cidade com o pai nos ombros, o filho Ascânio pela mão e os deuses da casa, os Penates, e passa sete anos no mar à procura da terra que o destino lhe reservou: o Lácio, na Itália, onde os seus descendentes fundarão Roma.
Quem o persegue é Juno, que guarda rancor antigo contra os troianos e protege Cartago, a cidade que o destino manda destruir muito depois. Quem o conduz é Júpiter, que promete aos romanos um império sem limite de espaço nem de tempo. O herói não traça a própria rota: segue sonhos, presságios e ordens de deuses, e cada passo dado assim deixa alguém para trás.
A forma do poema é fácil de reconhecer. Os Livros I a VI são uma viagem de naufrágio em naufrágio, que termina na descida ao mundo dos mortos, e por isso lembram a Odisseia de Homero. Os Livros VII a XII são uma guerra de cerco, combates, mortes de jovens e funerais, que termina num duelo de dois homens, e por isso lembram a Ilíada de Homero. A primeira metade é a odisseica, a segunda é a iliádica, e é na junção entre as duas que Virgílio faz a sua ambição aparecer: dar a Roma uma origem à altura do que ela se tornou sob Augusto.
O argumento que atravessa o poema
O poema pergunta quanto custa fundar, e a resposta é dada em perdas sucessivas, não em conquistas. Enéias não escolhe nada: ele obedece, e cada obediência cobra alguém.
Tantaene animis coelestibus irae!, tanta ira cabe no ânimo dos deuses?
Os três primeiros livros mostram o que ficou para trás, com a queda de Troia contada por ele mesmo e a errância que não acha lugar. O quarto cobra o preço mais alto e é o mais lido do poema: Dido não é obstáculo à missão, é a primeira coisa que a missão destrói.
Tum vos, o Tyrii, stirpem et genus omne futurum / Exercete odiis, cinerique haec mittite nostro / Munera: nullus amor populis nec foedera sunto. / Exoriare aliquis nostris ex ossibus ultor, / Qui face Dardanios ferroque sequare colonos. / Nunc, olim, quocumque dabunt se tempore vires, / Littora littoribus contraria, fluctibus undas / Imprecor, arma armis: pugnent ipsique nepotes, e vós, ó tírios, atormentai com ódios a sua estirpe e toda a raça futura, e enviai isto às minhas cinzas como oferta: que não haja amor nem tratados entre os povos. Que surja de meus ossos algum vingador, que persiga com tocha e ferro os colonos dardânios, agora, depois, em qualquer tempo em que as forças se ofereçam: peço em praga praias contrárias às praias, ondas contra ondas, armas contra armas: que lutem também os netos.
O sexto livro é a dobradiça e o mais importante do conjunto. A descida ao mundo dos mortos transforma o poema de relato de fuga em relato de fundação, porque é ali que o futuro de Roma é mostrado antes de existir.
facilis descensus Averni; / Noctes atque dies patet atri janua Ditis: / Sed revocare gradum, superasque evadere ad auras, / Hoc opus, hic labor est, fácil é a descida ao Averno; noite e dia está aberta a porta do negro Dite; mas voltar atrás e escapar para as auras do alto, esta é a obra, este é o trabalho
Do sétimo ao décimo segundo o poema vira guerra, e a guerra é entre povos que vão se tornar o mesmo povo. O oitavo comprime a história romana inteira na descrição de um escudo forjado pelo deus Vulcano, um dos gestos de propaganda mais sofisticados da Antiguidade.
E o fecho é o problema interpretativo do poema. Enéias mata Turno já rendido, suplicante, e o poema termina ali, sem reconciliação e sem comentário.
Equidem merui, nec deprecor, inquit; / Utere sorte tua. Miseri te si qua parentis / Tangere cura potest, oro (fuit et tibi talis / Anchises genitor), Dauni miserere senectae; / Et me, seu corpus spoliatum lumine mavis, / Redde meis. Vicisti, et victum tendere palmas / Ausonii videre: tua est Lavinia conjux; / Ulterius ne tende odiis, mereci, e não peço que me poupem; usa a tua sorte. Se algum cuidado de um pai infeliz pode te tocar, peço (também tu tiveste um pai assim, Anquises), tem pena da velhice de Dauno; e a mim, se preferes o corpo despojado de luz, devolve aos meus. Venceste, e os ausônios viram o vencido estender as palmas: Lavínia é tua esposa; não leves mais longe o ódio.
Há quem leia isso como triunfo da piedade romana, que não perdoa quem quebrou o pacto, e quem leia como denúncia do custo do império, escrita por um poeta que serviu a Augusto sem endossá-lo. As duas leituras cabem no texto, e o poema não escolhe entre elas.
O verso que saiu do poema e virou programa de outra ciência
A recepção mais improvável do poema não está na literatura, está na psicanálise. O verso em que Juno, derrotada entre os deuses do alto, decide apelar para o inferno, no Livro VII, é o que Sigmund Freud pôs na primeira página de A Interpretação dos Sonhos, em 1900, e repetiu no fecho do último capítulo:
O verso que fecha o balanço de Juno éFlectere si nequeo superos, Acheronta movebo, literalmente "se não posso dobrar os deuses do alto, moverei o Aqueronte" (Eneida, Livro VII).
Ali o verso deixa de descrever uma deusa e passa a descrever um método: o desejo barrado pela consciência força passagem pelo sonho, como Juno, barrada no céu, força passagem pelo Aqueronte. É um caso raro de imagem antiga reaproveitada como formulação técnica moderna, e não como enfeite.
A recepção medieval, e quem o poema deixou de herança
Dante abre a Comédia fazendo de Virgílio o seu guia, e no primeiro canto o próprio Virgílio nomeia, entre os mortos pela Itália, quatro personagens que só existem porque este poema os escreveu:
Di quella umile Italia fia salute / per cui morì la vergine Cammilla, / Eurialo e Turno e Niso di ferute., daquela humilde Itália virá a salvação / pela qual morreu a virgem Camila, / Eurialo e Turno e Niso, de feridas.
Camila, Euríalo, Turno e Niso, os sacrificados dos Livros IX a XII, chegam à Idade Média não como derrotados de uma guerra antiga, mas como os mortos fundadores de uma Itália que ainda espera reparação. É a prova mais curta de que a leitura medieval do poema não separa a epopeia da política do próprio leitor.