Clavis Libri
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Ficha da obra

Publicação
Em folhetins na Revista Brasileira, a partir de março de 1880; em livro em 1881
Gênero
Romance
Cenário
O Rio de Janeiro, com a passagem por Coimbra e pela Europa
Época
De 1805, quando Brás nasce, a 1869, quando morre: da colônia ao Segundo Reinado
Narrador
Primeira pessoa: o próprio Brás Cubas, depois de morto, que conversa com o leitor
Protagonista
Brás Cubas, filho de família rica do Rio de Janeiro

Sobre o autor

O menino pobre do Morro do Livramento que, quase sem sair do Rio, escreveu os romances em que o Brasil do Império se vê por dentro, com ironia e sem consolo. Ler o perfil de Machado de Assis

Tema central

Um defunto escreve as próprias memórias e, por estar morto, diz o que os vivos calam. Brás Cubas, filho de família rica do Rio de Janeiro, nascido em 1805 e morto em 1869, conta uma vida sem obra: amores pagos ou escondidos, uma candidatura que outro lhe toma, uma cadeira de deputado que perde, um jornal que morre em meses e um único projeto grandioso, um emplasto contra a melancolia da humanidade, que o mata antes de existir. O que faz o livro durar é a voz. O narrador interrompe a história, conversa com o leitor e com a leitora, zomba de si e dos outros, corrige capítulos anteriores, escreve capítulos de uma linha, e expõe, com a franqueza que diz ser a primeira virtude de um defunto, o interesse que move a gente da sua classe, a começar por ele mesmo. A escravidão atravessa esse mundo sem que o narrador se demore nela: o menino que monta o moleque Prudêncio como cavalo, o mesmo Prudêncio, já liberto, castigando na rua o escravo que comprou. No último capítulo, o balanço da vida é feito de negativas, e o pequeno saldo que resta é não ter transmitido a ninguém o legado da nossa miséria.

a franqueza é a primeira virtude de um defunto
Capítulos XVII a XXIV: Coimbra e a morte da mãe

Dedicatória

Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas

A dedicatória já é do defunto: o primeiro leitor que ele reconhece é o verme, e a "saudosa lembrança" é a do corpo que serviu de comida. O livro começa pela piada sobre a própria decomposição, e esse é o tom que o leitor deve esperar.

Prólogo da terceira edição

Machado, assinando, responde a duas observações sobre o livro: Capistrano de Abreu perguntara se era romance, e Macedo Soares lembrara as Viagens na minha terra. Responde com a fala do próprio Brás, que se diz herdeiro da forma livre de Sterne e de Xavier de Maistre, e marca a diferença.

Há na alma deste livro, por mais risonho que pareça, um sentimento amargo e áspero, que está longe de vir de seus modelos

O autor fala por cima do narrador uma única vez, para dizer o que o separa dos modelos: a forma é a dos humoristas que viajaram à roda do quarto ou da própria terra, o fundo é amargo. E encerra recusando entrar "na crítica de um defunto", o que já trata Brás como alguém que se pintou a si mesmo.

Laurence Sterne é o autor de Tristram Shandy e de Uma viagem sentimental; Xavier de Maistre, de Viagem à roda do meu quarto (1794); Almeida Garrett, de Viagens na minha terra (1846). São as viagens a que o prólogo alude: "Xavier de Maistre à roda do quarto, Garret na terra dele, Sterne na terra dos outros".

Ao leitor

Brás Cubas abre o livro prevendo pouquíssimos leitores, menos que os cem de Stendhal, e definindo a obra como difusa e de finado.

Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio

A fórmula descreve o livro inteiro: o riso é o instrumento, a melancolia é a matéria. Brás avisa de antemão que nem os graves nem os frívolos ficarão satisfeitos, e com isso se põe acima dos dois.

A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus

O piparote é a primeira das muitas vezes em que o narrador trata o leitor com intimidade e desdém ao mesmo tempo. Ele se recusa a explicar como escreveu "cá no outro mundo", e a recusa é o primeiro capítulo da relação: quem lê fica sabendo que não será poupado.

O fio que atravessa a obra

Três fios atravessam o livro de ponta a ponta, e cada um se acompanha pelos capítulos em que aparece.

O primeiro é a ideia fixa da glória. O emplasto que o mata nasce do gosto de ver o próprio nome impresso (capítulo II). O pai quer o filho deputado e lhe arranja noiva e candidatura de uma vez (capítulo XXVI, capítulo XXVIII), e Lobo Neves leva as duas em poucas semanas (capítulo XLIII). Ao ver um ministro passar de sege, Brás se pergunta por que não seria ele também (capítulo LIX). Chega à Câmara anos depois, mas o que contém, diante do marido da antiga amante, é a vontade de ser ministro (capítulo CXXVIII, capítulo CXXIX). O ministério não vem (capítulo CXXXIX), ele perde a cadeira, funda um jornal de oposição que morre em meses (capítulo CXLVII, capítulo CL) e acaba na Ordem Terceira, na fase que chama a mais brilhante da vida (capítulo CLVII). Entre as negativas do último capítulo está a de não ter sido ministro (capítulo CLX).

o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas [...] estas três palavras: Emplasto Brás Cubas
Capítulos I a IX: Óbito, emplasto e delírio
Mas eu não tenho aparelhos químicos, como não tinha remorsos; tinha vontade de ser ministro de Estado
Capítulos CXVII a CXXXVI: O Humanitismo, Nhã-loló e os cinquenta anos

O segundo é o amor e o seu preço. Marcela o ama "durante quinze meses e onze contos de réis" (capítulo XVII); Eugênia, bonita e coxa, é deixada na Tijuca (capítulo XXXIII, capítulo XXXV). Com Virgília casada, o amor nasce numa valsa (capítulo L) e se organiza numa casinha da Gamboa guardada por Dona Plácida (capítulo LXVII, capítulo LXX), a quem Brás dá os cinco contos achados na praia, e a consciência dele o acusa de a ter rebaixado a medianeira (capítulo LXXVI). Virgília não separa o amor da consideração pública (capítulo LXVII), e a opinião, que Brás chama boa solda das instituições domésticas, impede tanto a separação como a vingança (capítulo CXII, capítulo CXIII). No fim, ela chora o marido com sinceridade, e Brás, que no trajeto de volta não consegue combinar a traição com o choro, acaba achando a combinação possível, e até fácil (capítulo CLII).

Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.
Capítulos XVII a XXIV: Coimbra e a morte da mãe
Vi que era impossível separar duas coisas que no espírito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração pública.
Capítulos LXIV a LXXVI: A casinha, o vergalho e Dona Plácida

O terceiro é a lei do vencedor. No delírio, a Natureza ou Pandora explica que a onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver (capítulo VII). O menino Brás monta Prudêncio como cavalo (capítulo XI), e o mesmo Prudêncio, liberto, castiga na rua o escravo que comprou, transmitindo a outro as pancadas que recebeu (capítulo LXVIII). Quincas Borba dá a isso uma doutrina, o Humanitismo, em que guerra, fome e crime são funções necessárias e a dor é ilusão (capítulo CXVII); a mesma lei aparece na briga de galos que absorve Damasceno (capítulo CXXI), e Quincas a contempla em êxtase nos dois cães que disputam um osso sem carne (capítulo CXLI), e morre demente, repetindo que a dor é ilusão (capítulo CLIX).

A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal
Capítulos I a IX: Óbito, emplasto e delírio
Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, [...] transmitindo-as a outro.
Capítulos LXIV a LXXVI: A casinha, o vergalho e Dona Plácida
Humanitas, dizia ele, o princípio das coisas, não é outro senão o mesmo homem repartido por todos os homens
Capítulos CXVII a CXXXVI: O Humanitismo, Nhã-loló e os cinquenta anos