Clavis Libri
ContextoA época, a origem da história e o texto. EnredoA cântica inteira, do começo ao fim. Resumo e análiseTrinta e três cantos, em oito blocos. Personagens15 personagens. Temas7 temas e onde aparecem. Pilar dos temasOs temas bloco a bloco. Símbolos7 símbolos e o que significam. CitaçõesAs passagens que decidem a história. Termos10 termos de época, explicados. Recursos literários17 recursos, com as passagens em que aparecem. MapaA obra num só desenho. DiscussõesPara discutir em aula, em grupo ou sozinho. PerguntasAs dúvidas mais comuns sobre o livro, respondidas. QuizTeste a leitura, capítulo a capítulo. InfográficoA obra numa página. Cronograma de leituraSemanas de leitura sugeridas. Caderno de estudosExercícios por semana, com gabarito. Guia em PDFO guia completo para baixar e imprimir. AutorDante Alighieri.

Ficha da obra

Título original
Paradiso, a terceira cântica da Commedia
Gênero
Poema narrativo em tercetos encadeados (terza rima)
Cenário
Os céus, de esfera em esfera, da Lua ao Empíreo
Narrador
Primeira pessoa, o próprio Dante, que conta a viagem depois de feita
Estrutura
33 cantos, pelos nove céus até o Empíreo
Protagonistas
Dante e Beatriz; no fim, São Bernardo

Sobre o autor

Poeta florentino, guelfo branco e prior de Florença em 1300, banido da cidade em 1301 e morto no exílio, em Ravena, depois de escrever a Comédia, a viagem de um vivo pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso. Ler o perfil de Dante Alighieri

Tema central

Dante deixa o cume do Purgatório com Beatriz e sobe sem perceber o movimento: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, as Estrelas Fixas e o Primeiro Móvel, até o Empíreo, que é pura luz e onde se abre a rosa dos bem-aventurados. A regra que desfaz a confusão mais comum é que ninguém mora nos planetas. As almas aparecem em cada céu para que Dante entenda os graus, como diz Beatriz no canto IV, e todas têm o seu lugar na rosa, junto de Deus, como ele vê no canto XXX e no canto XXXII.

A matéria da cântica muda. No Inferno havia corpo, sangue e peso; aqui há luz, música, dança e número, e quase não há enredo. Em vez dele, uma sequência de perguntas de Dante e de lições de Beatriz: a ordem do universo, as manchas da Lua, o valor de um voto, a cruz, a ressurreição dos corpos, a justiça que não se mede de longe. E há um problema técnico que o poema assume de frente: como dizer o que excede a vista e a memória. A cada altura Dante confessa que a língua não alcança, e a confissão vira o assunto. Ele não descreve o inefável; descreve o que acontece com quem tenta.

O fio da cântica, porém, não é a doutrina. É a medida do que um homem aguenta ver, e do que consegue contar do que viu. Beatriz não ri e o céu não canta para que o ouvido mortal de Dante resista, o poema avisa que vai saltar, a pena salta, e no fim o ver é maior do que o falar. O que sobra no último terceto é um movimento: o desejo e a vontade de Dante giram, movidos pelo Amor que move o sol e as outras estrelas, e a cântica fecha na palavra que fecha também as outras duas: estrelas.

O fio que atravessa a obra

O Paraíso não pergunta o que cada alma merece; pergunta o que um homem consegue ver, e o que consegue dizer do que viu. A subida é uma vista que cresce, e cada canto mede o que ela já aguenta.

No começo, a subida é explicada como ordem. Dante pergunta como atravessa corpos leves e recebe de Beatriz uma tese sobre o universo (canto I); as manchas da Lua mostram que a diferença de luz vem da forma, e não da matéria (canto II); Piccarda mostra que o degrau não mede a felicidade de quem o ocupa (canto III), e Beatriz separa a vontade que não consente da que cede por medo (canto IV).

Le cose tutte quante / hanno ordine tra loro, e questo è forma / che l’universo a Dio fa simigliante, todas as coisas têm ordem entre si, e esta é a forma que faz o universo semelhante a Deus.
Cantos I a IV: A Lua

Em Mercúrio e em Vênus a ordem vira conta. O voto vale o que vale a liberdade que nele se oferece (canto V), Justiniano pesa a águia e não decide qual dos dois lados erra mais (canto VI), Beatriz pesa a cruz de dois modos (canto VII) e o espírito de Vênus pesa a linhagem (canto VIII).

Lo maggior don che Dio per sua larghezza / fesse creando, e a la sua bontate / più conformato, e quel ch’e’ più apprezza, / fu de la volontà la libertate; / di che le creature intelligenti, / e tutte e sole, fuoro e son dotate, o maior dom que Deus, por sua largueza, fez ao criar, e o mais conforme à sua bondade, e o que ele mais preza, foi a liberdade da vontade, de que as criaturas inteligentes, todas e só elas, foram e são dotadas.
Cantos V a VIII: Mercúrio e Vênus

No Sol, o saber aparece louvado e criticado por quem não é dele. Cunizza se perdoa sem pena e Folquet diz que ali não se arrepende, mas se ri (canto IX); Tomás nomeia e descreve os doze sábios, e Sigieri entre eles (canto X); cada fundador é elogiado pela ordem rival, e cada elogio termina em censura à casa de quem fala (canto XI, canto XII).

Non però qui si pente, ma si ride, / non de la colpa, ch’a mente non torna, / ma del valor ch’ordinò e provide. / Qui si rimira ne l’arte ch’addorna / cotanto affetto, e discernesi ’l bene / per che ’l mondo di sù quel di giù torna, aqui, porém, não nos arrependemos, mas rimos, não da culpa, que não volta à mente, mas do valor que ordenou e proveu. Aqui se contempla a arte que adorna tanto afeto, e se discerne o bem pelo qual o mundo de cima faz girar o de baixo.
Cantos IX a XII: Vênus e o Sol

Daí o juízo passa a ser o assunto. Tomás manda pôr chumbo nos pés antes de afirmar ou negar (canto XIII), Cacciaguida louva a Florença antiga por ausências e a vê morrer de soberba (canto XV, canto XVI), e a profecia do exílio vem com a ordem de dizer tudo (canto XVII). Logo depois a Águia nega aos mortais a cadeira de juiz (canto XIX).

Or tu chi se’, che vuo’ sedere a scranna, / per giudicar di lungi mille miglia / con la veduta corta d’una spanna?, agora tu, quem és, que queres sentar-te na cadeira para julgar de mil milhas de distância com a vista curta de um palmo?
Cantos XVII a XX: A profecia e a Águia

Em Saturno e nas Estrelas Fixas, o céu se modera para o corpo que sobe. Beatriz não ri e os santos não cantam porque o ouvir de Dante é mortal como a vista (canto XXI); no triunfo de Cristo o poeta confessa que o poema precisa saltar (canto XXIII), e no exame de Pedro a pena salta de novo (canto XXIV).

«Tu hai l’udir mortal sì come il viso», / rispuose a me; «onde qui non si canta / per quel che Bëatrice non ha riso., tens o ouvir mortal como a vista, respondeu-me; por isso aqui não se canta, pela mesma razão por que Beatriz não riu.
Cantos XXI a XXIV: Saturno e as estrelas fixas
Però salta la penna e non lo scrivo: / ché l’imagine nostra a cotai pieghe, / non che ’l parlare, è troppo color vivo., por isso a pena salta e eu não o escrevo: pois a nossa imaginação, não só a fala, é cor demasiado viva para tais dobras.
Cantos XXI a XXIV: Saturno e as estrelas fixas

Antes do último céu, Tiago e João examinam a esperança e a caridade de Dante (canto XXV, canto XXVI) e Pedro faz o céu inteiro corar contra o papado (canto XXVII). No Primeiro Móvel, Dante vê Deus como um ponto, e Beatriz dá a regra do alto: o ser beato nasce do ver, e o amar vem depois (canto XXVIII).

Quinci si può veder come si fonda / l’esser beato ne l’atto che vede, / non in quel ch’ama, che poscia seconda; / e del vedere è misura mercede, / che grazia partorisce e buona voglia: / così di grado in grado si procede, daqui se pode ver como se funda o ser beato no ato que vê, e não no que ama, que depois segue; e do ver é medida o mérito, que graça e boa vontade geram: assim se vai de grau em grau.
Cantos XXV a XXVIII: As três virtudes e o Primeiro Móvel

No Empíreo o dizer cede ao ver, e o ver cede à memória. O poeta desiste de seguir a beleza de Beatriz em verso (canto XXX), ela responde à última oração dele com um sorriso e volta à fonte (canto XXXI), Bernardo pede a Maria o último passo e Dante avisa o que resta do que viu (canto XXXIII).

Da quinci innanzi il mio veder fu maggio / che ’l parlar mostra, ch’a tal vista cede, / e cede la memoria a tanto oltraggio. / Qual è colüi che sognando vede, / che dopo ’l sogno la passione impressa / rimane, e l’altro a la mente non riede, daqui em diante o meu ver foi maior do que o falar mostra, que cede a tal vista, e cede a memória a tanto excesso. Qual quem sonhando vê, que depois do sonho a emoção impressa fica, e o resto à mente não volta.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

O poema não conclui com uma tese, conclui com uma roda que continua girando. A incapacidade que Dante confessa a cada altura tem duas leituras. Na primeira, é humildade verdadeira de quem não tem a palavra e prepara o leitor para uma vista que não cabe no verso. Na segunda, é método: o que o poema pode oferecer de uma visão é a emoção que ela deixou, e por isso a confissão de limite é a única prova possível de que houve visão. O texto sustenta as duas, e o que elas têm em comum é que o leitor sabe, desde o canto II, que o mar fica fundo e que ninguém o obriga a seguir.