Ficha da obra
- Autor
- Dante Alighieri
- Título original
- Paradiso, a terceira cântica da Commedia
- Gênero
- Poema narrativo em tercetos encadeados (terza rima)
- Cenário
- Os céus, de esfera em esfera, da Lua ao Empíreo
- Narrador
- Primeira pessoa, o próprio Dante, que conta a viagem depois de feita
- Estrutura
- 33 cantos, pelos nove céus até o Empíreo
- Protagonistas
- Dante e Beatriz; no fim, São Bernardo
Sobre o autor
Poeta florentino, guelfo branco e prior de Florença em 1300, banido da cidade em 1301 e morto no exílio, em Ravena, depois de escrever a Comédia, a viagem de um vivo pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso. Ler o perfil de Dante Alighieri
Tema central
Dante deixa o cume do Purgatório com Beatriz e sobe sem perceber o movimento: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, as Estrelas Fixas e o Primeiro Móvel, até o Empíreo, que é pura luz e onde se abre a rosa dos bem-aventurados. A regra que desfaz a confusão mais comum é que ninguém mora nos planetas. As almas aparecem em cada céu para que Dante entenda os graus, como diz Beatriz no canto IV, e todas têm o seu lugar na rosa, junto de Deus, como ele vê no canto XXX e no canto XXXII.
A matéria da cântica muda. No Inferno havia corpo, sangue e peso; aqui há luz, música, dança e número, e quase não há enredo. Em vez dele, uma sequência de perguntas de Dante e de lições de Beatriz: a ordem do universo, as manchas da Lua, o valor de um voto, a cruz, a ressurreição dos corpos, a justiça que não se mede de longe. E há um problema técnico que o poema assume de frente: como dizer o que excede a vista e a memória. A cada altura Dante confessa que a língua não alcança, e a confissão vira o assunto. Ele não descreve o inefável; descreve o que acontece com quem tenta.
O fio da cântica, porém, não é a doutrina. É a medida do que um homem aguenta ver, e do que consegue contar do que viu. Beatriz não ri e o céu não canta para que o ouvido mortal de Dante resista, o poema avisa que vai saltar, a pena salta, e no fim o ver é maior do que o falar. O que sobra no último terceto é um movimento: o desejo e a vontade de Dante giram, movidos pelo Amor que move o sol e as outras estrelas, e a cântica fecha na palavra que fecha também as outras duas: estrelas.
O fio que atravessa a obra
O Paraíso não pergunta o que cada alma merece; pergunta o que um homem consegue ver, e o que consegue dizer do que viu. A subida é uma vista que cresce, e cada canto mede o que ela já aguenta.
No começo, a subida é explicada como ordem. Dante pergunta como atravessa corpos leves e recebe de Beatriz uma tese sobre o universo (canto I); as manchas da Lua mostram que a diferença de luz vem da forma, e não da matéria (canto II); Piccarda mostra que o degrau não mede a felicidade de quem o ocupa (canto III), e Beatriz separa a vontade que não consente da que cede por medo (canto IV).
Le cose tutte quante / hanno ordine tra loro, e questo è forma / che l’universo a Dio fa simigliante, todas as coisas têm ordem entre si, e esta é a forma que faz o universo semelhante a Deus.
Em Mercúrio e em Vênus a ordem vira conta. O voto vale o que vale a liberdade que nele se oferece (canto V), Justiniano pesa a águia e não decide qual dos dois lados erra mais (canto VI), Beatriz pesa a cruz de dois modos (canto VII) e o espírito de Vênus pesa a linhagem (canto VIII).
Lo maggior don che Dio per sua larghezza / fesse creando, e a la sua bontate / più conformato, e quel ch’e’ più apprezza, / fu de la volontà la libertate; / di che le creature intelligenti, / e tutte e sole, fuoro e son dotate, o maior dom que Deus, por sua largueza, fez ao criar, e o mais conforme à sua bondade, e o que ele mais preza, foi a liberdade da vontade, de que as criaturas inteligentes, todas e só elas, foram e são dotadas.
No Sol, o saber aparece louvado e criticado por quem não é dele. Cunizza se perdoa sem pena e Folquet diz que ali não se arrepende, mas se ri (canto IX); Tomás nomeia e descreve os doze sábios, e Sigieri entre eles (canto X); cada fundador é elogiado pela ordem rival, e cada elogio termina em censura à casa de quem fala (canto XI, canto XII).
Non però qui si pente, ma si ride, / non de la colpa, ch’a mente non torna, / ma del valor ch’ordinò e provide. / Qui si rimira ne l’arte ch’addorna / cotanto affetto, e discernesi ’l bene / per che ’l mondo di sù quel di giù torna, aqui, porém, não nos arrependemos, mas rimos, não da culpa, que não volta à mente, mas do valor que ordenou e proveu. Aqui se contempla a arte que adorna tanto afeto, e se discerne o bem pelo qual o mundo de cima faz girar o de baixo.
Daí o juízo passa a ser o assunto. Tomás manda pôr chumbo nos pés antes de afirmar ou negar (canto XIII), Cacciaguida louva a Florença antiga por ausências e a vê morrer de soberba (canto XV, canto XVI), e a profecia do exílio vem com a ordem de dizer tudo (canto XVII). Logo depois a Águia nega aos mortais a cadeira de juiz (canto XIX).
Or tu chi se’, che vuo’ sedere a scranna, / per giudicar di lungi mille miglia / con la veduta corta d’una spanna?, agora tu, quem és, que queres sentar-te na cadeira para julgar de mil milhas de distância com a vista curta de um palmo?
Em Saturno e nas Estrelas Fixas, o céu se modera para o corpo que sobe. Beatriz não ri e os santos não cantam porque o ouvir de Dante é mortal como a vista (canto XXI); no triunfo de Cristo o poeta confessa que o poema precisa saltar (canto XXIII), e no exame de Pedro a pena salta de novo (canto XXIV).
«Tu hai l’udir mortal sì come il viso», / rispuose a me; «onde qui non si canta / per quel che Bëatrice non ha riso., tens o ouvir mortal como a vista, respondeu-me; por isso aqui não se canta, pela mesma razão por que Beatriz não riu.
Però salta la penna e non lo scrivo: / ché l’imagine nostra a cotai pieghe, / non che ’l parlare, è troppo color vivo., por isso a pena salta e eu não o escrevo: pois a nossa imaginação, não só a fala, é cor demasiado viva para tais dobras.
Antes do último céu, Tiago e João examinam a esperança e a caridade de Dante (canto XXV, canto XXVI) e Pedro faz o céu inteiro corar contra o papado (canto XXVII). No Primeiro Móvel, Dante vê Deus como um ponto, e Beatriz dá a regra do alto: o ser beato nasce do ver, e o amar vem depois (canto XXVIII).
Quinci si può veder come si fonda / l’esser beato ne l’atto che vede, / non in quel ch’ama, che poscia seconda; / e del vedere è misura mercede, / che grazia partorisce e buona voglia: / così di grado in grado si procede, daqui se pode ver como se funda o ser beato no ato que vê, e não no que ama, que depois segue; e do ver é medida o mérito, que graça e boa vontade geram: assim se vai de grau em grau.
No Empíreo o dizer cede ao ver, e o ver cede à memória. O poeta desiste de seguir a beleza de Beatriz em verso (canto XXX), ela responde à última oração dele com um sorriso e volta à fonte (canto XXXI), Bernardo pede a Maria o último passo e Dante avisa o que resta do que viu (canto XXXIII).
Da quinci innanzi il mio veder fu maggio / che ’l parlar mostra, ch’a tal vista cede, / e cede la memoria a tanto oltraggio. / Qual è colüi che sognando vede, / che dopo ’l sogno la passione impressa / rimane, e l’altro a la mente non riede, daqui em diante o meu ver foi maior do que o falar mostra, que cede a tal vista, e cede a memória a tanto excesso. Qual quem sonhando vê, que depois do sonho a emoção impressa fica, e o resto à mente não volta.
O poema não conclui com uma tese, conclui com uma roda que continua girando. A incapacidade que Dante confessa a cada altura tem duas leituras. Na primeira, é humildade verdadeira de quem não tem a palavra e prepara o leitor para uma vista que não cabe no verso. Na segunda, é método: o que o poema pode oferecer de uma visão é a emoção que ela deixou, e por isso a confissão de limite é a única prova possível de que houve visão. O texto sustenta as duas, e o que elas têm em comum é que o leitor sabe, desde o canto II, que o mar fica fundo e que ninguém o obriga a seguir.