Clavis Libri
ContextoA época, a origem da história e o texto. EnredoO livro inteiro, do começo ao fim. Resumo e análise14 partes, uma a uma. Personagens14 personagens. Temas7 temas e onde aparecem. Pilar dos temasOs temas parte a parte. Símbolos7 símbolos e o que significam. CitaçõesAs passagens que decidem a história. Termos10 termos de época, explicados. Recursos literários22 recursos, com as passagens em que aparecem. MapaA obra num só desenho. DiscussõesPara discutir em aula, em grupo ou sozinho. PerguntasAs dúvidas mais comuns sobre o livro, respondidas. QuizTeste a leitura, capítulo a capítulo. InfográficoA obra numa página. Cronograma de leituraSemanas de leitura sugeridas. Caderno de estudosExercícios por semana, com gabarito. Guia em PDFO guia completo para baixar e imprimir. AutorMiguel de Cervantes.

Ficha da obra

Título original
El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha (1605) e Segunda parte del ingenioso caballero don Quijote de la Mancha (1615)
Publicação
Em duas partes, 1605 e 1615, com dez anos entre elas
Gênero
Romance
Cenário
A Mancha e os caminhos de Castela e Aragão até Barcelona, no começo do século XVII
Narrador
Um narrador que diz seguir a história escrita em árabe por Cide Hamete Benengeli
Estrutura
Duas partes, com prólogo cada uma: 52 capítulos na de 1605 e 74 na de 1615
Protagonistas
Dom Quixote e Sancho Pança

Sobre o autor

Soldado ferido em Lepanto, cativo em Argel e cobrador de impostos preso por contas, publicou depois dos cinquenta anos o romance que fundou o gênero, Dom Quixote, e o continuou dez anos depois contra um rival que o tinha falsificado. Ler o perfil de Miguel de Cervantes

Tema central

Num lugar da Mancha vive um fidalgo de uns cinquenta anos, magro, madrugador e amigo da caça, que de tanto ler livros de cavalaria deixa de dormir, seca o cérebro e decide viver o que leu. Arma-se com o que acha em casa, dá ao rocim o nome de Rocinante, toma para si o de dom Quixote de la Mancha e inventa para dama uma lavradora de uma aldeia vizinha, a quem chama Dulcineia del Toboso. Sai três vezes de casa, e a partir da segunda leva consigo um lavrador pobre, Sancho Pança, a quem promete uma ínsula. O livro não pergunta se ele enlouqueceu, o que os primeiros capítulos já dizem; pergunta quem decide o que a cena é, e quanto custa discordar. Onde ele vê gigantes, Sancho vê moinhos; onde ele vê um castelo, há uma estalagem; e a cada desmentido o fidalgo tem à mão um mago inimigo que explica a derrota sem corrigir a visão.

A Segunda Parte troca a pergunta. Dez anos depois, todos leram a Primeira: o bacharel Sansão Carrasco, os duques, os hóspedes de estalagem e até um Quixote falso, o de Avellaneda, que Cervantes enfrenta no prólogo e dentro da história. Já não basta saber se o fidalgo vê o que existe; é preciso saber quem fabrica o que ele espera ver. Sancho, que na Primeira Parte era a medida do real, passa a ser o autor da ilusão: é ele quem encanta Dulcineia, e quem governa uma ínsula armada de burla com mais juízo do que seus burladores. O desfecho desfaz o nome: derrotado, o fidalgo volta para casa, acorda sensato e morre como Alonso Quijano, o Bom, com o riso do início cedendo ao desengano.

Em volta estão o padre e o barbeiro da aldeia, que o querem de volta; os duques, que fazem dele espetáculo; o próprio Cide Hamete Benengeli, o historiador árabe de autoridade duvidosa que o narrador diz traduzir; e uma multidão de histórias alheias que o livro encaixa na estrada, a de Marcela e Grisóstomo, a de Cardênio e Doroteia, a do Curioso Impertinente, a do cativo e de Zoraida, a de Ricote. Elas não se deixam encenar nem desmentir como as aventuras do fidalgo, e é isso que o livro põe ao lado dele.

O fio que atravessa a obra

O livro não pergunta se Dom Quixote enlouqueceu; pergunta quem decide o que a cena é, e o que se paga por discordar. A Primeira Parte põe o preço em cena. O fidalgo se fecha nas noites de leitura até perder o juízo (capítulo I da Primeira Parte), toma uma estalagem por castelo e se faz armar cavaleiro por um estalajadeiro que entra na brincadeira para ter de que rir (capítulo III da Primeira Parte), e, quando os moinhos o desmentem, tem a explicação pronta: o sábio Frestón trocou os gigantes para lhe roubar a glória (capítulo VIII da Primeira Parte).

En resolución, él se enfrascó tanto en su letura, que se le pasaban las noches leyendo de claro en claro, y los días de turbio en turbio; y así, del poco dormir y del mucho leer, se le secó el celebro, de manera que vino a perder el juicio, em resolução, ele se embebeu tanto na sua leitura que as noites lhe passavam lendo de claro em claro, e os dias de turvo em turvo; e assim, do pouco dormir e do muito ler, ressecou-se-lhe o cérebro, de tal sorte que chegou a perder o juízo.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

Quem paga, em geral, não é ele. Paga Andrés, que apanha de novo depois que o libertador vai embora (capítulo IV da Primeira Parte), paga o arrieiro de cabeça aberta na vigília das armas (capítulo III da Primeira Parte), paga Sancho, lançado ao ar numa manta (capítulo XVII da Primeira Parte), e Sancho é a medida do que ali houve: o amo explica a surra por um mouro encantado, o escudeiro responde que o que doeu é o que houve.

Si no se dejan ver, déjanse sentir -dijo Sancho-; si no, díganlo mis espaldas, se não se deixam ver, deixam-se sentir, disse Sancho; senão, digam-no minhas costas.
Primeira Parte: Marcela e a estalagem

Nada disso é cegueira de quem não sabe. Na Serra Morena, o fidalgo faz a penitência de Beltenebros sem motivo, de propósito, porque quer imitar Amadis e a loucura sem causa é a que tem mérito, e confessa que a dama é uma invenção que ele pinta na imaginação (capítulo XXV da Primeira Parte).

Así que, Sancho, por lo que yo quiero a Dulcinea del Toboso, tanto vale como la más alta princesa de la tierra [...] píntola en mi imaginación como la deseo, así en la belleza como en la principalidad, assim, Sancho, pelo que eu quero a Dulcineia del Toboso, vale tanto quanto a mais alta princesa da terra [...] pinto-a na minha imaginação como a desejo, tanto na beleza como na primazia.
Primeira Parte: A penitência e Micomicona

Os outros respondem com ficções suas. O padre e o barbeiro copiam o estilo dos livros, com uma princesa e uma jaula, para levá-lo para casa (capítulo XXIX da Primeira Parte, capítulo XLVII da Primeira Parte), e a discussão com o cônego de Toledo mostra o que cada um tem por prova: o cônego pede forma e verossimilhança, o fidalgo responde com a licença do rei e a aprovação de todos (capítulo L da Primeira Parte).

¡Bueno está eso! -respondió don Quijote-. Los libros que están impresos con licencia de los reyes y con aprobación de aquellos a quien se remitieron, y que con gusto general son leídos y celebrados de los grandes y de los chicos, de los pobres y de los ricos, de los letrados e ignorantes, de los plebeyos y caballeros, finalmente, de todo género de personas, de cualquier estado y condición que sean, ¿habían de ser mentira? [...] y más llevando tanta apariencia de verdad, pues nos cuentan el padre, la madre, la patria, los parientes, la edad, el lugar y las hazañas, punto por punto y día por día, que el tal caballero hizo, o caballeros hicieron, está boa essa, respondeu dom Quixote. Os livros que estão impressos com licença dos reis e com aprovação daqueles a quem se remeteram, e que com gosto geral são lidos e celebrados de grandes e de pequenos, de pobres e de ricos, de letrados e ignorantes, de plebeus e cavaleiros, enfim, de todo gênero de pessoas, de qualquer estado e condição que sejam, haviam de ser mentira? [...] e mais levando tanta aparência de verdade, pois nos contam o pai, a mãe, a pátria, os parentes, a idade, o lugar e as façanhas, ponto por ponto e dia por dia, que o tal cavaleiro fez, ou cavaleiros fizeram.
Primeira Parte: A jaula e o cônego

A Segunda Parte começa porque o livro já circula. O bacharel traz a notícia de que a história está impressa (capítulo III da Segunda Parte), os duques a leram (capítulo XXX da Segunda Parte) e recebem o fidalgo como cavaleiro de verdade (capítulo XXXI da Segunda Parte), e Sancho, que no Toboso inventou o encanto de Dulcineia para fugir de um recado que não deu (capítulo X da Segunda Parte), ouve da duquesa que o enganado é ele (capítulo XXXIII da Segunda Parte): a mentira tem agora outro dono, e Merlim a cobra em três mil e trezentos açoites (capítulo XXXV da Segunda Parte).

no será muy difícil hacerle creer que una labradora, la primera que me topare por aquí, es la señora Dulcinea, não será muito difícil fazê-lo crer que uma lavradora, a primeira que eu encontrar por aqui, é a senhora Dulcineia.
Segunda Parte: O livro impresso

Quem governa com juízo é o burlado. Sancho julga com o que o amo lhe aconselhou, passa fome sob um médico de comédia e deixa Barataria como entrou (capítulo XLV da Segunda Parte, capítulo LIII da Segunda Parte). Quando Cervantes mete na história o Quixote falso, o fidalgo muda de rumo para desmenti-lo (capítulo LIX da Segunda Parte), e um personagem do livro rival depõe diante de um alcaide que este é o verdadeiro (capítulo LXXII da Segunda Parte).

Por el mismo caso -respondió don Quijote-, no pondré los pies en Zaragoza, y así sacaré a la plaza del mundo la mentira dese historiador moderno, y echarán de ver las gentes como yo no soy el don Quijote que él dice, por isso mesmo, respondeu dom Quixote, não porei os pés em Saragoça, e assim tirarei à praça do mundo a mentira desse historiador moderno, e as gentes verão como eu não sou o dom Quixote que ele diz.
Segunda Parte: Ricote, Roque e Barcelona

O fim cobra a conta de ambos. O bacharel vence na praia de Barcelona para curar (capítulo LXIV da Segunda Parte), o fidalgo acorda sensato e deixa de ser dom Quixote (capítulo LXXIV da Segunda Parte), e o historiador pendura a pena e reivindica o personagem contra o escritor falso.

Dadme albricias, buenos señores, de que ya yo no soy don Quijote de la Mancha, sino Alonso Quijano, a quien mis costumbres me dieron renombre de Bueno. Ya soy enemigo de Amadís de Gaula y de toda la infinita caterva de su linaje, dai-me parabéns, bons senhores, de que já eu não sou dom Quixote de la Mancha, mas Alonso Quijano, a quem meus costumes deram renome de Bom. Já sou inimigo de Amadis de Gaula e de toda a infinita caterva de sua linhagem.
Segunda Parte: A derrota e a morte
Para mí sola nació don Quijote, y yo para él; él supo obrar y yo escribir; solos los dos somos para en uno, a despecho y pesar del escritor fingido y tordesillesco, para mim só nasceu dom Quixote, e eu para ele; ele soube obrar e eu escrever; só nós dois somos feitos um para o outro, a despeito e pesar do escritor fingido e tordesilhesco.
Segunda Parte: A derrota e a morte

O desfecho tem duas leituras fortes. Uma delas vê nele a derrota social de uma cosmovisão mística, que continua tendo razão do ponto de vista do céu, e um livro que muda de tom como uma sinfonia, da ironia ao amargo.

Erich Auerbach recusa, na outra ponta, a leitura simbólica ou trágica: o que há na cena da Dulcineia encantada é uma brincadeira, e ninguém é condenado no livro, nem o fidalgo nem os que o burlam.

No lugar do trágico e do simbólico, Auerbach propõe uma categoria própria: um jogo que ilumina tudo o que toca sem julgar, porque em Cervantes o próprio processo de julgar nem chega a se abrir. Não é suficiente dizer que não emite juízos e não tira conclusões; o processo nem é iniciado, as perguntas nem são feitas. Ninguém c nada (afora os maus livros e as más peças) é condenado neste livro [...]
Auerbach, Mimesis

O texto deixa as duas leituras de pé, e o que o caminho até o fim mostra é que quem comanda a cena muda de mãos a cada Parte: o fidalgo na Primeira, os leitores na Segunda e, por fim, o autor, que ao pendurar a pena reivindica o personagem. Cada vez que alguém parece ganhar a discussão sobre o que a cena é, o ato é lido pelos outros como mais uma cena, a do louco que ri, a do burlador que é burlado, a do vencedor que cura; só fecha a conta quem escreve.