Clavis Libri
ContextoA época, a origem da história e o texto. EnredoO livro inteiro, do começo ao fim. Resumo e análise4 partes, uma a uma. Personagens16 personagens. Temas7 temas e onde aparecem. Pilar dos temasOs temas parte a parte. Símbolos7 símbolos e o que significam. CitaçõesAs passagens que decidem a história. Termos11 termos de época, explicados. Recursos literários12 recursos, com as passagens em que aparecem. MapaA obra num só desenho. DiscussõesPara discutir em aula, em grupo ou sozinho. PerguntasAs dúvidas mais comuns sobre o livro, respondidas. QuizTeste a leitura, capítulo a capítulo. InfográficoA obra numa página. Cronograma de leituraSemanas de leitura sugeridas. Caderno de estudosExercícios por semana, com gabarito. Guia em PDFO guia completo para baixar e imprimir. AutorFiódor Mikhailovitch Dostoiévski.

Ficha da obra

Título original
Идиот (Idiót)
Publicação
1868 a 1869, em folhetim no Mensageiro Russo
Gênero
Romance
Cenário
São Petersburgo e a estação de veraneio de Pávlovsk, de um fim de novembro a um começo de julho, na década de 1860
Narrador
Terceira pessoa, um cronista que às vezes confessa não saber tudo
Estrutura
Quatro partes, 50 capítulos (o último é a Conclusão)
Protagonistas
O príncipe Míchkin e Nastácia Filíppovna

Sobre o autor

Cristão ortodoxo, condenado à morte e indultado no cadafalso, voltou da Sibéria crítico do socialismo que tinha abraçado e escreveu os romances em que as ideias são postas à prova na vida de quem as defende. Ler o perfil de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski

Tema central

O príncipe Liev Nikoláievitch Míchkin, de uma antiga família principesca decaída, volta à Rússia depois de mais de quatro anos num sanatório na Suíça, onde se tratou de uma doença nervosa parecida com a epilepsia, e desembarca em Petersburgo numa manhã de fins de novembro sem dinheiro, sem cargo e sem malícia. Em um só dia entra em três casas (a do general Iepántchin, a dos Ívolguin e a de Nastácia Filíppovna Barachkova) e em todas é chamado de idiota. Em todas também encontra uma negociação em curso: o rico Totski quer comprar a liberdade de casar com setenta e cinco mil rublos, Gánia aceita uma noiva que despreza em troca do dote, o comerciante Rogójin sobe o lance de dezoito para cem mil, e Míchkin é o único que não dá preço a nada. O livro não pergunta se a bondade é desejável, pergunta se ela sobrevive onde tudo tem preço: se a compaixão de quem não pede nada pode salvar alguém que se julga culpada, e o que ela custa a quem a oferece. O príncipe desarma quase todos que se aproximam e não salva nenhum, e a história termina com ele de volta ao sanatório, sem reconhecer ninguém.

A ação vai de um fim de novembro ao começo de julho do ano seguinte, entre Petersburgo e a estação de veraneio de Pávlovsk. Em volta do príncipe estão Rogójin, filho de comerciante que herda mais de dois milhões e persegue Nastácia Filíppovna; Nastácia, de vinte e cinco anos, órfã criada por Totski e depois sustentada por ele, que se julga culpada do que lhe fizeram e por isso foge de quem a trata como inocente; a família Iepántchin, com a mais nova das filhas, Aglaia, que o príncipe chega a pedir em casamento diante de todos; Gánia Ívolguin, funcionário que quer se fazer pelo dinheiro; o jovem tísico Hippolit, que lê em voz alta a sua despedida do mundo; e o general Ívolguin e o funcionário Liébediev, que mentem, se confessam e voltam a mentir diante de um príncipe que os acolhe.

O fio que atravessa a obra

O romance não pergunta se Liev Nikoláievitch Míchkin é bom, pergunta o que a bondade sem cálculo consegue num mundo em que tudo tem preço, e responde pelo que acontece a cada pessoa que ele toca. A Primeira Parte põe o preço em cena: em vinte e quatro horas quase todos aparecem com uma cifra na mão, e a mulher que todos negociam é a única que sabe o próprio valor, porque o fixou pelo desprezo que tem de si (capítulo IV da Primeira Parte, capítulo XV da Primeira Parte).

Во сто тысяч меня оценил! [...] Да неужто ты меня в свою семью ввести хотел? Меня-то, Рогожинскую!, me avaliou em cem mil! [...] Será que você queria mesmo me levar para a sua família? A mim, a mulher de Rogójin!
Primeira Parte: A chegada

No meio desse mercado o príncipe não tem lance. O que tem é um hábito de olhar, o de ver no rosto o sofrimento antes da culpa, que praticou com Marie na aldeia suíça (capítulo VI da Primeira Parte) e que é a única forma de compaixão que o livro mostra funcionando por inteiro, entre crianças.

Через них, уверяю вас, она умерла почти счастливая. Через них она забыла свою черную беду, как бы прощение от них приняла, потому что до самого конца считала себя великою преступницей, graças a elas, eu lhes asseguro, ela morreu quase feliz. Graças a elas esqueceu a sua desgraça negra, como se tivesse recebido delas o perdão, porque até o fim se considerou uma grande criminosa.
Primeira Parte: A chegada

A Segunda Parte mostra o que acontece quando essa compaixão encontra adultos. Rogójin a ouve como superioridade (capítulo III da Segunda Parte), o grupo de Burdóvski como esmola (capítulo VIII da Segunda Parte), Hippolit como ofensa (capítulo X da Segunda Parte), e o príncipe a nomeia sem rodeio: ama Nastácia Filíppovna com pena, não com amor (capítulo III da Segunda Parte).

я ее «не любовью люблю, а жалостью», eu a amo não com amor, mas com pena.
Segunda Parte: O quadro

No centro da parte está a cópia do Cristo morto de Holbein, diante da qual, diz o príncipe, alguém pode perder a fé (capítulo IV da Segunda Parte).

на эту картину! Да от этой картины у иного еще вера может пропасть! — Пропадает и то, para esse quadro! Ora, esse quadro pode fazer alguém até perder a fé! E Rogójin: e perde mesmo.
Segunda Parte: O quadro

A Terceira Parte dá a esse quadro a palavra de quem não acredita: na Explicação, Hippolit lê no mesmo Cristo morto uma natureza que mói o melhor que criou (capítulo VI da Terceira Parte), e a beleza do mundo só lhe mostra a festa de que está excluído (capítulo VII da Terceira Parte). O livro não refuta o argumento (o tiro falha por um detalhe técnico, e os convidados riem), e a única resposta que se insinua é a do príncipe, que reconhece na mosca de Hippolit o próprio choro na Suíça (capítulo VII da Terceira Parte).

Природа мерещится при взгляде на эту картину в виде какого-то огромного, неумолимого и немого зверя [...] в виде какой-нибудь громадной машины новейшего устройства, которая бессмысленно захватила, раздробила и поглотила в себя [...] великое и бесценное существо — такое существо, которое одно стоило всей природы и всех законов ее, всей земли, Olhando esse quadro, a natureza assoma na forma de uma fera enorme, implacável e muda [...] na forma de uma máquina gigantesca, de fabricação moderníssima, que sem sentido agarrou, triturou e engoliu [...] um ser grande e inestimável, um ser que sozinho valia toda a natureza e todas as suas leis, a terra inteira.
Terceira Parte: A explicação

A Quarta Parte cobra a conta. Ievguiêni Pávlovitch Radomski diz ao príncipe que ele nunca amou nenhuma das duas mulheres, e o narrador não o desmente (capítulo IX da Quarta Parte); o príncipe aceita casar com Nastácia Filíppovna porque, sem ele, ela morreria, e perde Aglaia Ivánovna Iepántchina no instante em que hesita diante da rival (capítulo VIII da Quarta Parte).

Аглая Ивановна любила как женщина, как человек, а не как… отвлеченный дух. Знаете ли что, бедный мой князь: вернее всего, что вы ни ту, ни другую никогда не любили!, Aglaia Ivánovna amava como mulher, como ser humano, e não como... um espírito abstrato. Sabe de uma coisa, meu pobre príncipe? O mais certo é que o senhor nunca tenha amado nem uma nem outra!
Quarta Parte: O desfecho

Na última noite a compaixão já não tem palavra nenhuma, só uma mão que alisa a cabeça do assassino (capítulo XI da Quarta Parte).

князь протягивал к нему тогда свою дрожащую руку и тихо дотрогивался до его головы, до его волос, гладил их и гладил его щеки… больше он ничего не мог сделать!, o príncipe estendia para ele, então, a mão trêmula e tocava de leve a cabeça dele, os cabelos, alisava-os e alisava as faces dele... nada mais podia fazer!
Quarta Parte: O desfecho

A compaixão do príncipe é bem recebida onde quem a recebe não tem nada em jogo contra ela: as crianças da Suíça (capítulo VI da Primeira Parte), o criado na antessala (capítulo II da Primeira Parte). Onde há preço (Gánia, Rogójin, as duas mulheres), ela é lida como superioridade, como esmola ou como fraqueza, e o romance deixa duas leituras de pé: a de que a bondade é derrotada pela engrenagem social sem ser desmentida, e a de que ela vê tudo e não escolhe ninguém, como acusa Radomski.