Ficha da obra
- Autor
- Liev Tolstói
- Título original
- Смерть Ивана Ильича (Smiert Ivana Ilitchá)
- Publicação
- 1886
- Gênero
- Novela
- Cenário
- Cidades de província e a cidade, sem nome, da Câmara Judiciária, na Rússia das décadas de 1850 a 1880, nos tribunais e na casa de um juiz
- Narrador
- Terceira pessoa, que abre no velório e volta à vida de Ivan Ilitch até a morte
- Estrutura
- Doze capítulos
- Protagonistas
- Ivan Ilitch e Gerássim
Sobre o autor
Conde e latifundiário, escreveu os dois grandes romances da Rússia imperial, rompeu com a Igreja Ortodoxa e com a própria ficção, e passou as últimas décadas da vida tentando viver o cristianismo sem Igreja que pregava. Ler o perfil de Liev Tolstói
Tema central
Ivan Ilitch Golovin, membro da Câmara Judiciária, morre aos quarenta e cinco anos depois de alguns meses de doença, e o livro começa pelo velório. Os colegas leem o aviso fúnebre pensando nas promoções que a vaga abre, um deles vai à missa de corpo presente e termina a noite no carteado, e só então o narrador volta ao começo e conta a vida do morto, que chama de a mais simples, a mais comum e a mais terrível. O livro não pergunta se o homem vai morrer, porque o leitor já viu o caixão: pergunta o que a morte faz ver da vida que a precedeu.
A vida contada é a de um juiz que fez tudo como os de cima consideravam correto: estudou na Escola de Jurisprudência, subiu na carreira, casou-se pelo agradável e pelo decoroso, mobiliou a casa nova como as pessoas que querem parecer ricas. A doença começa, ao que ele mesmo acredita, com uma queda banal ao pendurar cortinas. Em volta dele estão a mulher, Prascóvia Fiódorovna, a filha, Lisa, que vai casar, o filho ginasiano, Vássia, os colegas Piotr Ivánovitch e Schwartz, os médicos que discutem rim e apêndice, e o criado de copa Gerássim, o único que não mente sobre o que está acontecendo.
O fio que atravessa a obra
A novela não pergunta se Ivan Ilitch Golovin vai morrer, pergunta o que a vida correta tem a ver com a morte, e responde devagar, na ordem em que narra. O velório do primeiro capítulo mostra os vivos tratando a morte com o mesmo decoro com que o morto tratou a vida, e o narrador generaliza o que eles sentem, sem exceção. O segundo capítulo dá o juízo antes da biografia:
Прошедшая история жизни Ивана Ильича была самая простая и обыкновенная и самая ужасная, A história passada da vida de Ivan Ilitch foi a mais simples, a mais comum e a mais terrível.
Da doença em diante, a mentira muda de lado. A técnica que Ivan Ilitch usava no tribunal, excluir o que é vivo e tratar o caso, é a do médico que discute rim e apêndice diante dele, e o decoro a que serviu a vida toda é o que transforma a agonia num incômodo a ser contornado:
Главное мучение Ивана Ильича была ложь, — та, всеми почему-то признанная ложь, что он только болен, а не умирает, O principal tormento de Ivan Ilitch era a mentira, aquela mentira, por algum motivo aceita por todos, de que ele estava apenas doente, e não morrendo.
A única exceção é Gerássim, que leva o urinol, segura as pernas do patrão noites inteiras e diz que todos vão morrer. A pergunta decisiva nasce na noite em que ele manda Gerássim sair e chora sozinho, e Ivan Ilitch a afasta por três capítulos com a mesma régua que está em julgamento:
«Может быть, я жил не так, как должно?» — приходило ему вдруг в голову. «Но как же не так, когда я делал все как следует?», Talvez eu tenha vivido não como se devia? vinha-lhe de repente à cabeça. Mas como não, se eu fiz tudo como se deve? dizia a si mesmo.
No último capítulo a defesa vira obstáculo: o que o prende no saco preto é a certeza de que a vida foi boa, e ele só passa quando a larga e sente pena do filho e da mulher.
Пролезть же ему мешает признанье того, что жизнь его была хорошая., O que o impede de passar é o reconhecimento de que a sua vida foi boa.
Он искал своего прежнего привычного страха смерти и не находил его. Где она? Какая смерть? Страха никакого не было, потому что и смерти не было. Вместо смерти был свет., Ele procurou o seu medo habitual da morte, o de antes, e não o encontrou. Onde ela está? Que morte? Não havia medo nenhum, porque também não havia morte. Em lugar da morte havia luz.
A queda da escada do capítulo III pode ser lida como eco da primeira queda do Gênesis.
Os três tempos da mentira: Ivan Ilitch mente aos outros e a si do capítulo II ao capítulo III, sofre a mentira dos outros do capítulo IV ao capítulo VIII, e deixa de mentir a si mesmo no capítulo XI e no capítulo XII. A pena dos outros, que ele queria receber como criança no capítulo VII, só o liberta quando ele a dá.