Ficha da obra
- Autor
- Dante Alighieri
- Título original
- Inferno, a primeira cântica da Commedia
- Gênero
- Poema narrativo em tercetos encadeados (terza rima)
- Cenário
- O Inferno, da selva escura ao centro da Terra, na Semana Santa de 1300
- Narrador
- Primeira pessoa, o próprio Dante, que conta a viagem depois de feita
- Estrutura
- 34 cantos: um de introdução e 33 de viagem pelos nove círculos
- Protagonistas
- Dante, o peregrino, e Virgílio, o guia
Sobre o autor
Poeta florentino, guelfo branco e prior de Florença em 1300, banido da cidade em 1301 e morto no exílio, em Ravena, depois de escrever a Comédia, a viagem de um vivo pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso. Ler o perfil de Dante Alighieri
Tema central
Dante, no meio do caminho da vida, se vê numa selva escura sem saber como entrou nela, é barrado por três feras na subida de um monte iluminado e é resgatado pela sombra do poeta Virgílio, que lhe propõe outro caminho: descer pelo Inferno, ver os que pecaram e, saindo do outro lado, subir. O Inferno é um funil escavado sob Jerusalém, que desce em nove círculos até o centro da Terra, onde Lúcifer está preso no gelo. A cântica é essa descida, que Dante conta em primeira pessoa e que o poema data na Semana Santa de 1300.
O que ele vê está ordenado por uma tese que Virgílio expõe no canto XI: toda malícia visa à injustiça, a injustiça se faz por força ou por fraude, e a fraude, que é o mal próprio do homem, desagrada mais a Deus. Por isso os pecados do desejo, em que o apetite venceu a razão (luxúria, gula, avareza, ira), ficam perto da entrada; a violência fica no meio; e a fraude e a traição, que usam a inteligência para desfazer a confiança entre as pessoas, ficam no fundo. A pena não é castigo decorativo: ela descreve o pecado. Os levados pelo desejo são levados por um vendaval, os adivinhos andam com a cabeça virada para trás, e é por isso que ninguém ali se arrepende, porque cada condenado continua querendo exatamente o que o trouxe.
O fio do livro, porém, não é o catálogo de penas. Dante não só olha, ele reage: tem medo na selva, desmaia de piedade diante de Francesca, deseja ver Filippo Argenti afundado na lama, escuta com gosto demais a briga de dois falsários e, no gelo, trata com dureza os traidores. O poema nunca diz de saída se aprova o que o peregrino sente, e a pergunta que organiza a descida é o que um homem aprende a sentir diante do pecado dos outros. A cântica termina com a saída pelo corpo do próprio Lúcifer e com a palavra que fecha também as outras duas cânticas: estrelas.
O fio que atravessa a obra
O Inferno não pergunta só o que cada pecado merece; pergunta o que um homem sente enquanto olha o pecado dos outros, e dá a Dante, a cada círculo, uma reação diferente que o próprio poema examina.
O medo abre a cântica. Dante se vê numa selva sem saber como entrou (canto I), é empurrado de volta por uma loba e só aceita seguir Virgílio depois de saber que quem o mandou foi Beatriz, enviada por Lúcia e por uma dama do céu (canto II). Virgílio dá à dúvida de Dante o nome de covardia, e a palavra volta na porta, onde toda covardia deve estar morta para que se entre, e no ato do que fez a grande recusa (canto III). No Limbo o erro se inverte: Dante toma por medo a piedade de Virgílio pelos que sofrem ali (canto IV).
l’anima tua è da viltade offesa; / la qual molte fïate l’omo ingombra / sì che d’onrata impresa lo rivolve, / come falso veder bestia quand’ ombra, a tua alma está ferida de covardia, que muitas vezes embaraça o homem a ponto de desviá-lo de honrada empresa, como o falso ver faz a besta quando se assombra.
No segundo círculo o medo vira piedade, e a piedade é posta à prova. Dante cai como corpo morto ao ouvir Francesca atribuir ao Amor tudo o que fez (canto V), chora por Ciacco mas pergunta por Florença (canto VI) e, no Estige, amaldiçoa Filippo Argenti e diz que gostaria de vê-lo afundado na lama, o que Virgílio louva e o poema não desmente (canto VIII).
Maestro, molto sarei vago / di vederlo attuffare in questa broda / prima che noi uscissimo del lago, mestre, eu teria muita vontade de vê-lo mergulhar nesta sopa antes de sairmos do lago.
Dentro de Dite o pecado deixa de ser fraqueza e passa a ser escolha, e a questão é o que se consegue ver. Dante tem de fechar os olhos diante de Medusa e abri-los à doutrina escondida sob o véu dos versos (canto IX); os condenados enxergam o futuro distante e perdem o presente, e é isso que derruba a sombra que a tradição chama Cavalcante, por causa de um verbo no passado (canto X); e, enquanto o fedor do abismo obriga a esperar, Virgílio desenha o mapa do que ainda falta ver (canto XI).
No sétimo círculo quase todo condenado que fala pede a Dante que o lembrem. O tronco que a tradição chama Pier delle Vigne quer a memória defendida contra a inveja que o perdeu (canto XIII), Brunetto Latini, o antigo mestre, entrega o Tesoro como único bem que lhe resta (canto XV) e os três cavaleiros florentinos pedem que falem deles quando Dante rever as estrelas (canto XVI). Em quatro dos cinco cantos o assunto é Florença, e quem ouve é um florentino que, no ano da viagem, ainda não foi banido.
Em Malebolge o que se pune é a venda do que não devia ser vendido, e o tom muda a cada vala: nojo, invectiva, lágrimas repreendidas e, no fim, farsa. Dante pode se enfurecer com os simoníacos, e Virgílio o abraça (canto XIX); chora diante dos adivinhos, e Virgílio o repreende (canto XX); teme os ganchos dos demônios e olha mesmo assim, e ninguém o corrige (canto XXI, canto XXII). Quem decide a travessia não é a força de Virgílio, é a vontade do alto que ele invoca diante dos guardas.
sanza voler divino e fato destro? / Lascian’ andar, ché nel cielo è voluto / ch’i’ mostri altrui questo cammin silvestro, sem vontade divina e fado propício? Deixa-nos ir, pois no céu se quer que eu mostre a outro este caminho agreste.
Nas valas seguintes a relação é entre o que se mostra, o que se tem e o que se sabe: hipócritas com capas douradas por fora e de chumbo por dentro (canto XXIII), ladrões que perdem o corpo que era deles (canto XXV) e conselheiros que ardem cada um dentro da própria chama. Antes de ouvir Ulisses, o mais engenhoso dos condenados, o poeta freia o próprio engenho (canto XXVI).
Ninguém fala sem querer algo. Guido da Montefeltro só responde porque acha que ninguém volta do fundo para repetir o que ouviu (canto XXVII), Mosca e Bertran de Born pedem que guardem o nome com a frase que os condenou (canto XXVIII), e Dante, que ouviu com gosto demais a briga de mestre Adão e Sinon, é repreendido por Virgílio e sente uma vergonha maior do que a falta (canto XXX).
Maggior difetto men vergogna lava», / disse ’l maestro, «che ’l tuo non è stato; / però d’ogne trestizia ti disgrava, falta maior com menos vergonha se lava, disse o mestre, do que a tua foi; por isso descarrega-te de toda a tristeza.
No gelo, a traição é o oposto do vínculo, e a pena é a imobilidade de quem o desfez. Em Antenora, Dante puxa os cabelos de Bocca para arrancar-lhe o nome (canto XXXII); no canto seguinte, a piedade que Ugolino desperta convive com a dureza de negar a frei Alberigo o que lhe prometera (canto XXXIII). A saída passa pelo corpo de Lúcifer e termina, como as outras duas cânticas, em estrelas (canto XXXIV).
Ma distendi oggimai in qua la mano; / aprimi li occhi». E io non gliel’ apersi; / e cortesia fu lui esser villano, mas estende agora a mão para cá; abre-me os olhos. E eu não os abri; e foi cortesia ser vilão com ele.
A piedade que derrubou Dante no canto V não aparece mais no fundo, e o poema não diz se isso é o que a descida ensina ou o que ela cobra. O texto sustenta as duas leituras. Na primeira, o peregrino aprende a não confundir compaixão com aprovação, e a dureza com Bocca e Alberigo é a medida desse aprendizado. Na segunda, o fundo do Inferno endurece até quem passa por ele, e a vergonha do canto XXX é o último sinal de que isso ainda incomoda. O que as duas têm em comum é que a cântica não termina numa tese, termina numa saída.