Clavis Libri
ContextoA época, a origem da história e o texto. EnredoA cântica inteira, do começo ao fim. Resumo e análiseTrinta e quatro cantos, em oito blocos. Personagens12 personagens. Temas7 temas e onde aparecem. Pilar dos temasOs temas bloco a bloco. Símbolos7 símbolos e o que significam. CitaçõesAs passagens que decidem a história. Termos11 termos de época, explicados. Recursos literários17 recursos, com as passagens em que aparecem. MapaA obra num só desenho. DiscussõesPara discutir em aula, em grupo ou sozinho. PerguntasAs dúvidas mais comuns sobre o livro, respondidas. QuizTeste a leitura, capítulo a capítulo. InfográficoA obra numa página. Cronograma de leituraSemanas de leitura sugeridas. Caderno de estudosExercícios por semana, com gabarito. Guia em PDFO guia completo para baixar e imprimir. AutorDante Alighieri.

Ficha da obra

Título original
Inferno, a primeira cântica da Commedia
Gênero
Poema narrativo em tercetos encadeados (terza rima)
Cenário
O Inferno, da selva escura ao centro da Terra, na Semana Santa de 1300
Narrador
Primeira pessoa, o próprio Dante, que conta a viagem depois de feita
Estrutura
34 cantos: um de introdução e 33 de viagem pelos nove círculos
Protagonistas
Dante, o peregrino, e Virgílio, o guia

Sobre o autor

Poeta florentino, guelfo branco e prior de Florença em 1300, banido da cidade em 1301 e morto no exílio, em Ravena, depois de escrever a Comédia, a viagem de um vivo pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso. Ler o perfil de Dante Alighieri

Tema central

Dante, no meio do caminho da vida, se vê numa selva escura sem saber como entrou nela, é barrado por três feras na subida de um monte iluminado e é resgatado pela sombra do poeta Virgílio, que lhe propõe outro caminho: descer pelo Inferno, ver os que pecaram e, saindo do outro lado, subir. O Inferno é um funil escavado sob Jerusalém, que desce em nove círculos até o centro da Terra, onde Lúcifer está preso no gelo. A cântica é essa descida, que Dante conta em primeira pessoa e que o poema data na Semana Santa de 1300.

O que ele vê está ordenado por uma tese que Virgílio expõe no canto XI: toda malícia visa à injustiça, a injustiça se faz por força ou por fraude, e a fraude, que é o mal próprio do homem, desagrada mais a Deus. Por isso os pecados do desejo, em que o apetite venceu a razão (luxúria, gula, avareza, ira), ficam perto da entrada; a violência fica no meio; e a fraude e a traição, que usam a inteligência para desfazer a confiança entre as pessoas, ficam no fundo. A pena não é castigo decorativo: ela descreve o pecado. Os levados pelo desejo são levados por um vendaval, os adivinhos andam com a cabeça virada para trás, e é por isso que ninguém ali se arrepende, porque cada condenado continua querendo exatamente o que o trouxe.

O fio do livro, porém, não é o catálogo de penas. Dante não só olha, ele reage: tem medo na selva, desmaia de piedade diante de Francesca, deseja ver Filippo Argenti afundado na lama, escuta com gosto demais a briga de dois falsários e, no gelo, trata com dureza os traidores. O poema nunca diz de saída se aprova o que o peregrino sente, e a pergunta que organiza a descida é o que um homem aprende a sentir diante do pecado dos outros. A cântica termina com a saída pelo corpo do próprio Lúcifer e com a palavra que fecha também as outras duas cânticas: estrelas.

O fio que atravessa a obra

O Inferno não pergunta só o que cada pecado merece; pergunta o que um homem sente enquanto olha o pecado dos outros, e dá a Dante, a cada círculo, uma reação diferente que o próprio poema examina.

O medo abre a cântica. Dante se vê numa selva sem saber como entrou (canto I), é empurrado de volta por uma loba e só aceita seguir Virgílio depois de saber que quem o mandou foi Beatriz, enviada por Lúcia e por uma dama do céu (canto II). Virgílio dá à dúvida de Dante o nome de covardia, e a palavra volta na porta, onde toda covardia deve estar morta para que se entre, e no ato do que fez a grande recusa (canto III). No Limbo o erro se inverte: Dante toma por medo a piedade de Virgílio pelos que sofrem ali (canto IV).

l’anima tua è da viltade offesa; / la qual molte fïate l’omo ingombra / sì che d’onrata impresa lo rivolve, / come falso veder bestia quand’ ombra, a tua alma está ferida de covardia, que muitas vezes embaraça o homem a ponto de desviá-lo de honrada empresa, como o falso ver faz a besta quando se assombra.
Cantos I a IV: A selva e a porta

No segundo círculo o medo vira piedade, e a piedade é posta à prova. Dante cai como corpo morto ao ouvir Francesca atribuir ao Amor tudo o que fez (canto V), chora por Ciacco mas pergunta por Florença (canto VI) e, no Estige, amaldiçoa Filippo Argenti e diz que gostaria de vê-lo afundado na lama, o que Virgílio louva e o poema não desmente (canto VIII).

Maestro, molto sarei vago / di vederlo attuffare in questa broda / prima che noi uscissimo del lago, mestre, eu teria muita vontade de vê-lo mergulhar nesta sopa antes de sairmos do lago.
Cantos V a VIII: Os incontinentes

Dentro de Dite o pecado deixa de ser fraqueza e passa a ser escolha, e a questão é o que se consegue ver. Dante tem de fechar os olhos diante de Medusa e abri-los à doutrina escondida sob o véu dos versos (canto IX); os condenados enxergam o futuro distante e perdem o presente, e é isso que derruba a sombra que a tradição chama Cavalcante, por causa de um verbo no passado (canto X); e, enquanto o fedor do abismo obriga a esperar, Virgílio desenha o mapa do que ainda falta ver (canto XI).

No sétimo círculo quase todo condenado que fala pede a Dante que o lembrem. O tronco que a tradição chama Pier delle Vigne quer a memória defendida contra a inveja que o perdeu (canto XIII), Brunetto Latini, o antigo mestre, entrega o Tesoro como único bem que lhe resta (canto XV) e os três cavaleiros florentinos pedem que falem deles quando Dante rever as estrelas (canto XVI). Em quatro dos cinco cantos o assunto é Florença, e quem ouve é um florentino que, no ano da viagem, ainda não foi banido.

Em Malebolge o que se pune é a venda do que não devia ser vendido, e o tom muda a cada vala: nojo, invectiva, lágrimas repreendidas e, no fim, farsa. Dante pode se enfurecer com os simoníacos, e Virgílio o abraça (canto XIX); chora diante dos adivinhos, e Virgílio o repreende (canto XX); teme os ganchos dos demônios e olha mesmo assim, e ninguém o corrige (canto XXI, canto XXII). Quem decide a travessia não é a força de Virgílio, é a vontade do alto que ele invoca diante dos guardas.

sanza voler divino e fato destro? / Lascian’ andar, ché nel cielo è voluto / ch’i’ mostri altrui questo cammin silvestro, sem vontade divina e fado propício? Deixa-nos ir, pois no céu se quer que eu mostre a outro este caminho agreste.
Cantos XVIII a XXII: As cinco primeiras valas

Nas valas seguintes a relação é entre o que se mostra, o que se tem e o que se sabe: hipócritas com capas douradas por fora e de chumbo por dentro (canto XXIII), ladrões que perdem o corpo que era deles (canto XXV) e conselheiros que ardem cada um dentro da própria chama. Antes de ouvir Ulisses, o mais engenhoso dos condenados, o poeta freia o próprio engenho (canto XXVI).

Ninguém fala sem querer algo. Guido da Montefeltro só responde porque acha que ninguém volta do fundo para repetir o que ouviu (canto XXVII), Mosca e Bertran de Born pedem que guardem o nome com a frase que os condenou (canto XXVIII), e Dante, que ouviu com gosto demais a briga de mestre Adão e Sinon, é repreendido por Virgílio e sente uma vergonha maior do que a falta (canto XXX).

Maggior difetto men vergogna lava», / disse ’l maestro, «che ’l tuo non è stato; / però d’ogne trestizia ti disgrava, falta maior com menos vergonha se lava, disse o mestre, do que a tua foi; por isso descarrega-te de toda a tristeza.
Cantos XXVII a XXX: Guido, Maomé, os falsários

No gelo, a traição é o oposto do vínculo, e a pena é a imobilidade de quem o desfez. Em Antenora, Dante puxa os cabelos de Bocca para arrancar-lhe o nome (canto XXXII); no canto seguinte, a piedade que Ugolino desperta convive com a dureza de negar a frei Alberigo o que lhe prometera (canto XXXIII). A saída passa pelo corpo de Lúcifer e termina, como as outras duas cânticas, em estrelas (canto XXXIV).

Ma distendi oggimai in qua la mano; / aprimi li occhi». E io non gliel’ apersi; / e cortesia fu lui esser villano, mas estende agora a mão para cá; abre-me os olhos. E eu não os abri; e foi cortesia ser vilão com ele.
Cantos XXXI a XXXIV: O gelo e Lúcifer

A piedade que derrubou Dante no canto V não aparece mais no fundo, e o poema não diz se isso é o que a descida ensina ou o que ela cobra. O texto sustenta as duas leituras. Na primeira, o peregrino aprende a não confundir compaixão com aprovação, e a dureza com Bocca e Alberigo é a medida desse aprendizado. Na segunda, o fundo do Inferno endurece até quem passa por ele, e a vergonha do canto XXX é o último sinal de que isso ainda incomoda. O que as duas têm em comum é que a cântica não termina numa tese, termina numa saída.