Clavis Libri
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Ficha da obra

Título original
Madame Bovary: mœurs de province
Publicação
1856, em folhetim; 1857, em livro
Gênero
Romance realista
Cenário
Tostes, Yonville-l'Abbaye e Rouen, na Normandia
Época
A França provinciana da primeira metade do século XIX
Narrador
Terceira pessoa, com estilo indireto livre; o primeiro capítulo abre num "nós" de colegas de escola
Protagonista
Emma Bovary

Sobre o autor

O escritor que levou quase cinco anos para escrever Madame Bovary e foi levado a julgamento por ela. Ler o perfil de Gustave Flaubert

Tema central

Uma mulher educada por romances espera da vida o que só existe em romance, e o mundo cobra a diferença. O que faz o livro sobreviver não é o adultério, é o mecanismo: Flaubert mostra que o desejo de Emma não é dela, é copiado do que ela leu e do que viu uma noite só, e que o preço dele não se paga em moral, se paga em dinheiro. A ironia final não pune o vício nem premia a virtude, premia quem nunca arriscou nada por ninguém.

O fio que atravessa a obra

  1. O desejo copiado. Emma não deseja um homem, deseja o que leu. O baile do capítulo 8 da Parte I não a seduz, a envenena, porque lhe mostra por uma noite o que ela vai passar o resto do livro tentando repetir. É o mesmo mecanismo já montado por outra porta, em René Girard: o desejo que vem de um modelo, não do objeto.

  1. A repetição que ela não vê. O vocabulário romântico de Léon reaparece quase idêntico na boca de Rodolphe, e o caso com Léon na Parte III repete o tédio do casamento que ela fugiu. Emma troca de homem três vezes e chega três vezes ao mesmo lugar, e o romance nunca a deixa perceber isso.

  1. A conta chega em dinheiro. Lheureux é o personagem que decide o desfecho, e ele nunca discute moral. O romantismo de Emma termina em planilha, e é a dívida, não a culpa, que a mata.

O primeiro fio é disputado.

Desenvolvimento: o vazio, e o que Emma põe no lugar de Deus

as partes comentadas leem o romance por dentro. Esta seção o põe diante de quatro perguntas que a obra não formula e que outros autores formulam por ela, e em cada uma a passagem vem da casa de quem a disse.

O vazio vem antes, e o que decide é o que se faz com ele

O que o torna trágico não é existir, é a resposta de Emma a ele, e é aqui que ela se afasta das duas saídas que Albert Camus descreve para o mesmo começo:

O absurdo não nasce de uma tese, nasce de um estado, e Camus o descreve com a palavra que a tradição reservava para a origem da filosofia, o assombro: Um belo dia, surge o “por quê” e tudo começa a entrar numa lassidão tingida de assombro. “Começa”, isto é o importante. A lassidão está ao final dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura ao mesmo tempo um movimento da consciência. Ela o desperta e provoca sua continuação. A continuação é um retorno inconsciente aos grilhões, ou é o despertar definitivo.
O Mito de Sísifo

Emma não volta aos grilhões nem desperta. Ela procura objeto. O assombro que em Aristóteles vira pergunta e em Camus vira lucidez vira nela fome, e é essa a distância que a nota Thaumazein mede.

Vício ou incontinência

O romance mostra Emma dos dois lados de uma distinção que Aristóteles faz pela escolha:

Com efeito, a incontinência é contrária à escolha, enquanto o vício segue o que escolheu.
Ética a Nicômaco

E São Tomás de Aquino dá o teste que separa os dois lados na prática:

intemperatus non est poenitivus [...] Omnis autem incontinens de facili poenitet (lib. 7 l. 8 n. 2) O intemperado não se arrepende, mas todo incontinente facilmente se arrepende.
Comentário à Ética a Nicômaco (São Tomás de Aquino) - Livro VII - A incontinência e o prazer
Malitia enim latet [...] Sed incontinentia non latet eum cui inest; scit enim per rationem malum esse id in quod a passione ducitur (lib. 7 l. 8 n. 4) A malícia se oculta de quem a tem, mas a incontinência não se oculta de quem a tem, pois ele sabe, pela razão, que é mau aquilo para onde a paixão o conduz.
Comentário à Ética a Nicômaco (São Tomás de Aquino) - Livro VII - A incontinência e o prazer

No adultério, Emma está do lado do vício: o mal não se mostra a ela como mal, porque o vocabulário dos romances o vestiu de virtude, e diante do espelho ela o celebra.

Tenho um amante! Um amante!
Parte II, capítulo 9

Na devoção depois de Rodolphe, no capítulo 14 da Parte II, e nos momentos em que reconhece a filha, ela se arrepende e tenta voltar, que é o sinal do incontinente pelo critério de Tomás. As duas fases convivem, e nenhuma explica a outra.

Se é doença, Emma é vítima; se é vício, é responsável; se é incontinência, é as duas coisas em momentos diferentes.

A caverna

O baile não tira Emma da caverna. É a fogueira tomada pelo Sol, uma sombra mais luminosa, e por isso envenena em vez de libertar. Toda vez que a realidade dói, ela faz o gesto do prisioneiro:

se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objectos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam (515e)
A República (Platone) - Livro VII - A alegoria da caverna e o currículo do filósofo

A cena que poderia virar o olhar de Emma é a do padre, no capítulo 6 da Parte II, e ele a devolve às sombras tratando a angústia dela como fome ou frio. O que ali falta é exatamente o que Platão chama de educação:

Um ponto conceitual crucial, e menos citado que a imagem em si. A educação seria, por conseguinte, a arte desse desejo, a maneira mais fácil e mais eficaz de fazer dar a volta a esse órgão, não a de o fazer obter a visão, pois já a tem, mas, uma vez que ele não está na posição correcta e não olha para onde deve, dar-lhe os meios para isso (518c-d)
A República (Platone) - Livro VII - A alegoria da caverna e o currículo do filósofo

E o livro termina premiando o melhor leitor de sombras da vila, como a caverna premiava os seus:

E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prémios para o que distinguisse com mais agudeza os objectos que passavam (516c)
A República (Platone) - Livro VII - A alegoria da caverna e o currículo do filósofo
Acaba de receber a Legião de Honra.
Parte III, capítulo 11

O que é posto no lugar de Deus

Pelo critério de Santo Agostinho, Emma não sofre de falta de amor, sofre de amor fora de ordem: põe criaturas concretas, um amante depois do outro, no lugar que era do absoluto. É a primeira das três formas que a nota Ordem do Amor separa, e a razão de nenhuma delas encher é a imagem que Platão já dava da alma intemperante:

a porção da alma dos não iniciados em que se localizam as paixões, justamente por ser incontentável e nada reter, comparou a um tonel furado, por isso mesmo que nunca revela saciedade
Górgias