Ficha da obra
- Autor
- Mikhail Bulgákov
- Título original
- Мастер и Маргарита (Master i Margarita)
- Escrita
- 1928 a 1940
- Publicação
- 1966 e 1967, com cortes; integral depois
- Gênero
- Romance satírico e fantástico
- Cenário
- Moscou nos anos 1930 e a Jerusalém de Pôncio Pilatos
- Narrador
- Terceira pessoa, um narrador que fala com o leitor; o romance do mestre vem dentro do romance
- Protagonistas
- O mestre e Margarida
Sobre o autor
O médico que virou escritor sob Stálin e escreveu, por doze anos e sem poder publicar, o romance em que o diabo visita Moscou. Ler o perfil de Mikhail Bulgákov
Os três planos, que é o que a obra tem de arquitetura
O romance corre em três planos que só se tocam no fim, e ler qualquer um deles isolado é o modo mais comum de perder o livro. O primeiro é a Moscou dos anos 1930, satírica, onde o diabo chega como professor estrangeiro de magia negra e a cidade não sabe reconhecê-lo, porque decidiu que ele não existe; o que o romance faz dela está reunido em Moscou. O segundo é Yerushalaim, quatro capítulos de romance dentro do romance, sem uma linha de humor, que narram o processo de Yeshua Ha-Notzri diante de Pôncio Pilatos. O terceiro é o plano do além, que se abre com o baile e decide o destino de todos.
A costura entre eles é uma só: o capítulo 1 termina com Woland começando a contar a manhã de Pilatos, e o capítulo 2 continua a história de onde ele parou. Só no capítulo 3, de volta a Moscou, ele afirma ter estado lá em pessoa. O que em Moscou é discussão literária sobre se Jesus existiu, em Yerushalaim é acontecimento.
Eu presenciei tudo isso pessoalmente. Estive na varanda com Pôncio Pilatos, no jardim, quando ele conversou com Caifás, estive também no palanque, só que às escondidas, incógnito
O que o livro afirma, e por onde ele se discute
A tese moral da obra não está na boca de Woland, está na de Yeshua, e é desconfortável de tão simples: não existe gente má, existe gente infeliz. O romance passa quinhentas páginas testando essa frase contra denunciantes, burocratas, delatores e um procurador que manda matar.
O mais resignado de todos era Yeshua.
O contraponto vem do próprio diabo, e é o que impede o livro de ser piedoso: Woland não corrompe ninguém em Moscou, ele apenas dá a cada um o que a pessoa já queria, e a cidade se encarrega do resto. A frase dele sobre o problema habitacional é a mais citada do romance justamente porque isenta o sobrenatural e acusa o cotidiano.
São pessoas como outras quaisquer. Gostam de dinheiro, mas sempre foi assim... A humanidade gosta de dinheiro, independentemente do que seja feito: de couro, de papel, de bronze ou ouro. Bom, são levianas... fazer o quê... a misericórdia às vezes bate em seus corações... são pessoas comuns... em geral fazem lembrar as pessoas de antigamente... só que o problema habitacional as corrompeu...
O desfecho não dá ao mestre a luz, dá o refúgio, e a diferença entre as duas coisas é o ponto em que a crítica mais discorda. Quem lê o livro como redenção precisa explicar por que a recompensa é menor do que a que Yeshua alcança; quem o lê como derrota precisa explicar por que o texto a apresenta como dádiva, e não como castigo.
Ele não fez por merecer a luz, fez por merecer a tranquilidade
O elo do outro lado é o pacto fáustico, e o romance o declara na primeira página: a epígrafe vem de Fausto, e é Mefistófeles quem a diz.
Sou parte da força que eternamente deseja o mal e eternamente faz o bem., epígrafe, atribuída no livro a Fausto, de Goethe
O Woland de Bulgákov é o que essa linhagem produz depois de passar pelo século XX: um Mefistófeles que não precisa tentar ninguém, porque a cidade já quer o que ele tem a oferecer.