Clavis Libri
ContextoA época, a origem da história e o texto. EnredoO livro inteiro, do começo ao fim. Resumo e análiseDoze livros e o epílogo, um a um. Personagens15 personagens. Temas7 temas e onde aparecem. Pilar dos temasOs temas livro a livro. Símbolos7 símbolos e o que significam. CitaçõesAs passagens que decidem a história. Termos12 termos de época, explicados. Recursos literários15 recursos, com as passagens em que aparecem. MapaA obra num só desenho. DiscussõesPara discutir em aula, em grupo ou sozinho. PerguntasAs dúvidas mais comuns sobre o livro, respondidas. QuizTeste a leitura, capítulo a capítulo. InfográficoA obra numa página. Cronograma de leituraSemanas de leitura sugeridas. Caderno de estudosExercícios por semana, com gabarito. Guia em PDFO guia completo para baixar e imprimir. AutorFiódor Mikhailovitch Dostoiévski.

Ficha da obra

Título original
Братья Карамазовы (Brátia Karamázovy)
Publicação
1879 a 1880, em folhetim no Mensageiro Russo; em livro em 1880
Gênero
Romance
Cenário
Skotoprigónievsk, uma cidade de província russa, e o mosteiro vizinho, por volta de 1866
Narrador
Primeira pessoa, um cronista da cidade que conta os fatos treze anos depois
Estrutura
Um prefácio, quatro partes em doze livros e um epílogo
Protagonistas
Aliócha, Mítia e Ivan Karamázov

Sobre o autor

Cristão ortodoxo, condenado à morte e indultado no cadafalso, voltou da Sibéria crítico do socialismo que tinha abraçado e escreveu os romances em que as ideias são postas à prova na vida de quem as defende. Ler o perfil de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski

Tema central

O romance não pergunta quem matou Fiódor Pávlovitch Karamázov, pergunta quem responde por um parricídio que ninguém comete sozinho, e responde pelo que acontece a cada um que o desejou, o preparou, o ouviu de longe ou o julgou. O pai, proprietário, usurário e bufão, deixa três filhos crescerem em mãos alheias: Mítia, o sensual, que o desafia por dinheiro e por Grúchenka; Ivan, o intelectual, para quem sem imortalidade tudo é permitido; e Aliócha, o noviço do mosteiro, discípulo do stáriets Zossima. A reunião na cela para dividir a herança vira escândalo, e dali em diante cada irmão leva à casa do pai uma resposta diferente à mesma pergunta, o que sustenta uma vida moral quando o sofrimento de uma criança não tem sentido. Ivan devolve respeitosamente o bilhete de entrada, Zossima manda escolher o amor humilde e se reconhecer culpado por todos, Mítia corre atrás da honra e do dinheiro até a prisão, e Smierdiakóv, o quarto filho que ninguém chama de filho, faz o que ouviu.

A ação vai do fim de agosto a novembro, entre a cela do mosteiro, a casa do velho, a hospedaria de Mókroie, a cadeia, o tribunal e o cemitério de uma cidade de província. Em volta dos irmãos estão Grúchenka, que o pai e o filho disputam, e Catierina Ivánovna, a noiva altiva de Mítia, a quem Ivan ama; Grigori, o criado que criou os meninos; Rakítin, o seminarista que faz da fé uma carreira; Lise Khokhlakova, que noiva com Aliócha e quer ser torturada; Kólia Krassótkin e o menino Iliúcha, filho do capitão que Mítia humilhou; e os dois oradores do julgamento, o promotor Hippolit Kiríllovitch e o advogado Fietiukóvitch, que explicam o mesmo crime com os mesmos fatos e nenhum dos dois ouve o acusado. O livro termina sem resolver o destino de Mítia nem o de Ivan: resolve só o que doze meninos podem fazer junto a uma pedra.

O fio que atravessa a obra

O romance não pergunta quem matou o pai, pergunta o que sustenta uma vida moral quando ninguém é obrigado a olhar e quando uma criança sofre sem sentido, e responde pelo que cada filho faz com isso. O Livro II põe as duas respostas em cena: Fiódor Pávlovitch diz ao stáriets que é bufão de vergonha, e Zossima não o corrige, manda-o parar de mentir a si mesmo (capítulo II do Livro II).

Главное, самому себе не лгите., O principal: não minta a si mesmo.
Livro II: Uma reunião intempestiva

A segunda resposta de Zossima vai à dama que duvida da vida futura: a prova é a experiência do amor ativo, que é trabalho e persistência, e o amor sonhado é o que quer plateia (capítulo IV do Livro II).

Любовь мечтательная жаждет подвига скорого, быстро удовлетворимого и что бы все на него глядели. Тут действительно доходит до того, что даже и жизнь отдают, только бы не продлилось долго, а поскорей совершилось, как бы на сцене, и чтобы все глядели и хвалили. Любовь же деятельная — это работа и выдержка, а для иных так, пожалуй, целая наука., O amor sonhador anseia por um feito rápido, logo satisfeito, e que todos olhem para ele. Chega-se mesmo a dar a vida, desde que não dure muito, que se cumpra logo, como num palco, e que todos olhem e louvem. O amor ativo, ao contrário, é trabalho e persistência, e para alguns, talvez, uma ciência inteira.
Livro II: Uma reunião intempestiva

A família, porém, não vive de doutrina. Mítia a descreve a Aliócha como herança de sangue, a de insetos para quem a beleza é terrível porque nela o diabo luta com Deus (capítulo III do Livro III), e Ivan, à mesa do pai, responde que Deus não existe, enquanto Aliócha responde que existe (capítulo VIII do Livro III).

Потому что я Карамазов. Потому что если уж полечу в бездну, то так-таки прямо, головой вниз и вверх пятами, и даже доволен, что именно в унизительном таком положении падаю и считаю это для себя красотой., Porque sou um Karamázov. Porque, se for voar para o abismo, é direto, de cabeça para baixo e pés para cima, e até fico contente de cair justamente nessa posição humilhante e considero isso, para mim, beleza.
Livro III: Os sensuais

O Livro V dá a pergunta sua forma mais dura. Ivan aceita Deus e não aceita o mundo que Ele criou, reúne casos de crianças torturadas e devolve o bilhete de entrada a uma harmonia paga com as lágrimas de uma delas (capítulo IV do Livro V).

свой билет на вход спешу возвратить обратно [...] Не бога я не принимаю, Алеша, я только билет ему почтительнейше возвращаю., apresso-me a devolver o meu bilhete de entrada [...] Não é Deus que não aceito, Aliócha; apenas lhe devolvo, com o maior respeito, o bilhete.
Livro V: Pró e contra

O poema do Grande Inquisidor desenvolve a recusa em sistema: Cristo recusou o milagre, o mistério e a autoridade, a Igreja os retomou para fazer os homens felizes, e o prisioneiro responde com um beijo (capítulo V do Livro V).

Есть три силы, единственные три силы на земле, могущие навеки победить и пленить совесть этих слабосильных бунтовщиков, для их счастия, — эти силы: чудо, тайна и авторитет., há três forças, as únicas três forças na terra capazes de vencer e cativar para sempre a consciência desses fracos rebeldes, para a felicidade deles: essas forças são o milagre, o mistério e a autoridade.
Livro V: Pró e contra
он вдруг молча приближается к старику и тихо целует его в его бескровные девяностолетние уста. Вот и весь ответ., ele de repente se aproxima em silêncio do velho e beija suavemente os seus lábios exangues de noventa anos. Essa é toda a resposta.
Livro V: Pró e contra

O Livro VI responde com uma vida e não com um argumento. Zossima conta que a frase do irmão Márkel, de que cada um é culpado diante de todos, voltou a ele na manhã do duelo, e manda escolher sempre o amor humilde (capítulo II do Livro VI, capítulo III do Livro VI).

воистину всякий пред всеми за всех и за всё виноват. Не знаю я, как истолковать тебе это, но чувствую, что это так до мучения., na verdade cada um é culpado diante de todos, por todos e por tudo. Não sei como lhe explicar isso, mas sinto que é assim, até o tormento.
Livro VI: Um monge russo
Взять ли силой али смиренною любовью?» Всегда решай: «Возьму смиренною любовью». Решишься так раз навсегда и весь мир покорить возможешь. Смирение любовное — страшная сила изо всех сильнейшая, подобной которой и нет ничего., «tomar pela força ou pelo amor humilde?» Decida sempre: «Tomarei pelo amor humilde.» Se decidir assim de uma vez por todas, poderá conquistar o mundo inteiro. O amor humilde é uma força terrível, a mais forte de todas, e nada há que se lhe compare.
Livro VI: Um monge russo

A morte de Zossima prova a doutrina do outro lado: o corpo cheira antes da hora, o mosteiro se alegra com a queda do justo, e Aliócha não se rebela contra Deus, só não aceita o mundo dele. Quem lhe devolve a medida é Grúchenka, com a cebola, e o sonho das bodas de Caná (capítulo I do Livro VII, capítulo II do Livro VII, capítulo III do Livro VII, capítulo IV do Livro VII).

Я против бога моего не бунтуюсь, я только «мира его не принимаю», Não me rebelo contra o meu Deus, apenas «não aceito o mundo dele».
Livro VII: Aliócha
луковку я тебе подал, одну самую малую луковку, только, только!.., uma cebola, foi o que eu te dei, uma só, a menor de todas, só isso, só isso!..
Livro VII: Aliócha

Mítia aprende a mesma lição pelo caminho contrário. Corre atrás do dinheiro, é preso, e na noite do inquérito diz que é impossível viver como canalha e impossível morrer como canalha (capítulo VII do Livro IX); adormece e sonha com a criança que passa frio nos braços de uma mulher de aldeia queimada (capítulo VIII do Livro IX).

Узнал я, что не только жить подлецом невозможно, но и умирать подлецом невозможно… Нет, господа, умирать надо честно!.., Aprendi que não só é impossível viver como canalha, é impossível morrer como canalha… Não, senhores, é preciso morrer honestamente!..
Livro IX: O processo preparatório
почему не кормят дитё?, por que não alimentam a criancinha?
Livro IX: O processo preparatório

O Livro XI mostra o custo da outra resposta. Smierdiakóv devolve a Ivan, em forma de ato, a sua lição de que sem Deus não há virtude, diz que ele queria que outro matasse, e o diabo que visita Ivan recita de volta o artigo em que a consciência vira hábito (capítulo VII do Livro XI, capítulo VIII do Livro XI, capítulo IX do Livro XI).

Это вы вправду меня учили-с, ибо много вы мне тогда этого говорили: ибо коли бога бесконечного нет, то и нет никакой добродетели, да и не надобно ее тогда вовсе., isso o senhor me ensinou de verdade; muitas vezes me disse então que, se não existe um Deus infinito, não há virtude nenhuma, e nem é preciso tê-la.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch
А не ты, не ты?, e não você, não você?
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

O julgamento do Livro XII faz com que essas respostas se encontrem com a lei. O promotor lê os Karamázov como espelho da Rússia, capazes de contemplar os dois abismos, e o advogado responde que a psicologia é uma vara de duas pontas; nenhum dos dois ouve o que o acusado diz de si (capítulo VI do Livro XII, capítulo X do Livro XII).

способные вмещать всевозможные противоположности и разом созерцать обе бездны, бездну над нами, бездну высших идеалов, и бездну под нами, бездну самого низшего и зловонного падения, capazes de abarcar todos os contrários e de contemplar ao mesmo tempo os dois abismos, o abismo acima de nós, dos ideais mais altos, e o abismo abaixo de nós, da queda mais baixa e fétida.
Livro XII: Um erro judiciário
Но ведь психология, господа, хоть и глубокая вещь, а все-таки похожа на палку о двух концах, mas a psicologia, senhores, ainda que coisa profunda, se parece com uma vara de duas pontas.
Livro XII: Um erro judiciário

O Epílogo não resolve a pergunta de Ivan, responde com o que doze meninos podem fazer: Aliócha, junto à pedra, diz que a coisa mais forte para a vida é uma boa lembrança e que se levantarão dos mortos para contar uns aos outros o que aconteceu (capítulo III do Epílogo).

Знайте же, что ничего нет выше, и сильнее, и здоровее, и полезнее впредь для жизни, как хорошее какое-нибудь воспоминание, и особенно вынесенное еще из детства, из родительского дома, saibam, pois, que não há nada mais alto, mais forte, mais sadio e mais útil para a vida daqui por diante do que alguma boa lembrança, sobretudo a trazida desde a infância, da casa paterna.
Epílogo: O enterro de Iliúcha
Непременно восстанем, непременно увидим и весело, радостно расскажем друг другу всё, что было, sem dúvida nos levantaremos, sem dúvida nos veremos e contaremos uns aos outros, alegres, felizes, tudo o que aconteceu.
Epílogo: O enterro de Iliúcha

O livro dá a cada resposta um preço. A de Ivan é lúcida e termina num diabo vulgar, a de Mítia é desordenada e termina numa condenação que o ensina, a de Zossima é uma vida e termina num cheiro, e a de Aliócha só se sustenta no que ele faz depois, com uma cebola e com uma roda de meninos. O texto deixa duas leituras de pé: a de que a boa lembrança do Epílogo é a resposta à revolta de Ivan, e a de que ela corre ao lado dela sem tocá-la, dúvida que o narrador deixa aberta ao dar o manuscrito de Zossima como lembrança de um discípulo e não como ata (capítulo I do Livro VI).