Ficha da obra
- Autor
- Luigi Pirandello
- Título original
- Uno, nessuno e centomila
- Publicação
- 1925 e 1926, em capítulos na revista La Fiera Letteraria; em livro em 1926
- Gênero
- Romance
- Cenário
- Richieri, uma cidade de província italiana, onde o narrador é herdeiro de um banco
- Narrador
- Primeira pessoa, Vitangelo Moscarda, que conta a crise depois de passada
- Estrutura
- Oito livros e 63 capítulos curtos, cada um com título do autor
- Protagonistas
- Vitangelo Moscarda, a mulher Dida e Anna Rosa
Sobre o autor
Romancista e dramaturgo siciliano que fez da pergunta sobre quem somos o único assunto de uma obra inteira, do romance regional ao teatro e a Um, Nenhum e Cem Mil. Ler o perfil de Luigi Pirandello
Tema central
Vitangelo Moscarda tem vinte e oito anos, é herdeiro de um banco na cidade de província de Richieri e vive sem se examinar, até uma manhã em que a mulher, Dida, lhe diz de passagem que o nariz dele pende para a direita. O defeito é pequeno, e o que ele descobre com a frase é grande: os outros veem um Moscarda que ele nunca viu, e um homem que só conhecia a si mesmo por dentro precisa, de repente, se haver com um estranho que anda por aí com o seu nome. O livro, que ele conta depois de passada a crise, em primeira pessoa e falando o tempo todo a um leitor tratado por «senhores», segue o raciocínio até o fim. Se os outros o veem de um modo que ele não vê, ele não é um; se cada pessoa o vê a seu modo, ele é cem mil; e se nenhum desses Moscarda é o que ele sente ser por dentro, talvez ele seja ninguém.
A pergunta que organiza o romance é o que fazer com essa descoberta, e Vitangelo responde com experimentos. Quer destruir, um a um, os Moscarda que os conhecidos têm dele, e a primeira prova é dar uma casa a Marco di Dio, o homem que mais o odeia: a multidão que o chamava de usurário passa a chamá-lo de louco. Manda fechar o banco para não ser mais, nem para os outros, o usurário que nunca foi para si, e a mulher vai embora. Pede proteção ao bispo, leva um tiro de Anna Rosa, entrega tudo o que tem e termina num asilo de mendigos, sem nome e sem espelho. O livro não pergunta se é possível ser de verdade um; pergunta o que custa tentar, e o que sobra de quem desiste de tentar.
Em volta de Vitangelo estão Dida, a mulher, que ama de verdade um marido chamado Gengè que ela mesma construiu; Quantorzo e Firbo, os dois amigos que cuidam do banco desde a morte do pai e que na prática mandam nele porque o dono nunca se ocupou dele; Marco di Dio, antigo aprendiz de escultor condenado por um ato de um instante, que vive de projetos de enriquecimento e de ódio ao pai de Vitangelo; Anna Rosa, a amiga órfã de Dida, que o chama para ajudá-lo e acaba atirando nele; e o cônego Sclepis, que arma a penitência pública que fecha a história.
O fio que atravessa a obra
O romance não pergunta quem é Vitangelo Moscarda; pergunta o que sobra de um homem quando se tiram dele as imagens que os outros fazem, e responde com uma série de experimentos que o próprio Vitangelo conta, do asilo onde termina. O Livro I põe a descoberta em cena: o comentário da mulher sobre o nariz vira dúvida sobre o corpo inteiro (capítulo I do Livro I), o estranho que ele surpreende num espelho da rua não é reconhecido (capítulo IV do Livro I), e na tarde em que fica só diante do armário o corpo no vidro não é ninguém (capítulo VII do Livro I). As três palavras do título aparecem juntas pela primeira vez no capítulo do estranho, presas ao nome que ele carrega.
con la scoperta dei centomila Moscarda ch’io ero non solo per gli altri ma anche per me, tutti con questo solo nome di Moscarda, brutto fino alla crudeltà, tutti dentro questo mio povero corpo ch’era uno anch’esso, uno e nessuno ahimè, com a descoberta dos cem mil Moscarda que eu era não só para os outros mas também para mim, todos com este único nome de Moscarda, feio até a crueldade, todos dentro deste meu pobre corpo que era um também, um e nenhum, ai de mim.
O Livro II tira a descoberta do quarto e a entrega ao leitor: a consciência de cada um não basta, porque há a dos outros (capítulo I do Livro II), as palavras estão vazias e cada um as enche com o seu sentido (capítulo IV do Livro II), e o homem se constrói como se constrói uma casa (capítulo XI do Livro II). O argumento vira cena no último capítulo, quando Vitangelo entende que Dida ama um marido que ela mesma fez e sente ciúme dele (capítulo XII do Livro II).
Ma sfido ch’ella conosceva quel suo Gengè più che non lo conoscessi io! Se l’era costruito lei! E non era mica un fantoccio. Se mai, il fantoccio ero io., mas é claro que ela conhecia aquele seu Gengè mais do que eu o conhecia! Ela o construíra! E ele não era de modo algum um fantoche. Se algum, o fantoche era eu.
O Livro III mostra que o que os outros veem em Vitangelo inclui o que ele nunca escolheu: o nome, o corpo, o pai, banqueiro para o filho e usurário para a cidade (capítulo V do Livro III). No Livro IV a tese é posta à prova. Ele entra no cartório do notário Stampa querendo ver como o outro o vê, e conclui que, para quem não enxerga o que o outro enxerga, o cego é o outro (capítulo III do Livro IV); depois assiste ao despejo de Marco di Dio, faz doar a ele uma casa sua, e a multidão que o apupava como usurário passa a gritar «louco» (capítulo VII do Livro IV).
E quello no, non lo vede, perchè vede un’altra cosa lui, quando voi credete che debba vedere la vostra, come pare a voi. La vede invece come pare a lui, e per lui dunque il cieco siete voi., e aquele não, não o vê, porque vê outra coisa, quando os senhores acham que deva ver a coisa dos senhores, como lhes parece. Ele a vê como lhe parece a ele, e para ele, portanto, o cego são os senhores.
O Livro V é o centro do romance. Sentado num terreno vazio, Vitangelo conclui que a consciência, que julgamos a coisa mais íntima, quer dizer os outros em nós (capítulo IV do Livro V).
Ove la vista degli altri non ci soccorra a costituire comunque in noi la realtà di ciò che vediamo, i nostri occhi non sanno più quello che vedono; la nostra coscienza si smarrisce, perchè questa che crediamo la cosa più intima nostra, la coscienza, vuol dire gli altri in noi; e non possiamo sentirci soli, quando a vista dos outros não vem nos socorrer, de algum modo, para constituir em nós a realidade daquilo que vemos, nossos olhos já não sabem o que veem; a nossa consciência se perde, porque isto que julgamos o mais íntimo de nós, a consciência, quer dizer os outros em nós; e não podemos nos sentir sós.
Depois ele entra na sala de casa e conta oito pessoas onde os dois que o esperam veem três (capítulo VI do Livro V); e, no capítulo mais longo, o riso de Dida o fere num ponto que nenhuma das imagens alcança, e ele manda fechar o banco (capítulo VIII do Livro V).
Fuori d’ogni immagine in cui potessi rappresentarmi vivo a me stesso, come qualcuno anche per me, fuori d’ogni immagine di me quale mi figuravo potesse essere per gli altri; un “punto vivo„ in me s’era sentito ferire così addentro, che perdetti il lume degli occhi, fora de toda imagem em que eu pudesse me representar vivo para mim mesmo, como alguém também para mim, fora de toda imagem de mim tal como eu imaginava que pudesse ser para os outros, um “ponto vital” em mim se sentira ferido tão fundo que perdi a luz dos olhos.
O Livro VI cobra o preço da vontade recém-descoberta. Com Dida fora de casa, Vitangelo toca as próprias mãos, diz «eu» e não encontra a quem dizer (capítulo II do Livro VI).
A chi dire “io„? Che valeva dire “io„, se per gli altri aveva un senso e un valore che non potevano mai essere i miei; e per me, così fuori degli altri, l’assumerne uno diventava subito l’orrore di questo vuoto e di questa solitudine?, a quem dizer “eu”? De que valia dizer “eu”, se para os outros tinha um sentido e um valor que nunca podiam ser os meus; e para mim, tão fora dos outros, assumir um (sentido) logo se tornava o horror deste vazio e desta solidão?
O Livro VII dá ao ponto vital um nome, Deus, e manda Vitangelo pedir ajuda ao bispo (capítulo V do Livro VII). É também o livro em que ele ensina a Anna Rosa que conhecer-se é morrer, e em que o ensinamento acaba num tiro (capítulo VIII do Livro VII). O Livro VIII mostra como a sociedade absorve o experimento: o juiz o trata como doente incurável (capítulo II do Livro VIII), Sclepis o converte em penitente exemplar (capítulo III do Livro VIII), e Vitangelo, que só entregou o que tinha, fica sem nome, sem espelho e sem conclusão (capítulo IV do Livro VIII).
Io non l’ho più questo bisogno, perchè muojo ogni attimo, io, e rinasco nuovo e senza ricordi: vivo e intero, non più in me, ma in ogni cosa fuori., eu não tenho mais essa necessidade, porque morro a cada instante, eu, e renasço novo e sem lembranças: vivo e inteiro, não mais em mim, mas em cada coisa fora.
O desfecho tem duas leituras que o texto deixa de pé: a de libertação, em que a vida sem nome é inteira nas coisas, e a de dissolução, em que só se fica inteiro em tudo quando não resta ninguém que responda por alguma coisa. O caminho até ali mostra por que o romance não escolhe. Cada vez que Vitangelo consegue ser «um», o ato é lido pelos outros como mais uma imagem, a do louco, a do penitente, a do apaixonado, e o «um» que ele sente é, antes, a recusa de duas imagens (o usurário e o Gengè) do que algo que ele possa mostrar.