Ficha da obra
- Título original
- Записки из подполья (Zapíski iz podpólia)
- Publicação
- 1864, na revista Época (Epókha), dos irmãos Dostoiévski
- Gênero
- Novela
- Cenário
- São Petersburgo: o subsolo de onde o narrador escreve, por volta de 1864, e a cidade da década de 1840 que ele recorda
- Narrador
- Primeira pessoa, um ex-funcionário de quarenta anos que escreve as próprias notas
- Estrutura
- Duas partes: «O subsolo» (11 capítulos) e «A propósito da neve molhada» (10 capítulos)
- Protagonistas
- O homem do subsolo e Liza
Sobre o autor
Cristão ortodoxo, condenado à morte e indultado no cadafalso, voltou da Sibéria crítico do socialismo que tinha abraçado e escreveu os romances em que as ideias são postas à prova na vida de quem as defende. Ler o perfil de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski
Tema central
Um funcionário aposentado de quarenta anos, sem nome, escreve de um canto de São Petersburgo para leitores que ele mesmo inventa, e o que faz ao longo da Primeira Parte é recusar tudo: o cálculo do interesse, a ideia de que bastaria mostrar ao homem a sua vantagem para torná-lo bom, o palácio de cristal que promete uma vida sem dúvida. Ele tem lucidez, argumento e ocasião de sobra, e não age, porque cada causa que encontra arrasta atrás de si outra, anterior. O que oferece no lugar da vantagem é o querer independente, o capricho, e o livro pergunta o que resta de um homem que só consegue se afirmar pelo avesso.
Na Segunda Parte a pergunta ganha corpo. Aos vinte e quatro anos, o mesmo homem tenta três vezes entrar na vida dos outros, e nas três a vergonha sai disfarçada de poder: esbarra num oficial que o tirou do caminho sem vê-lo, impõe-se a um jantar de colegas que não o querem e despeja em Liza, uma moça de bordel, o sermão e a crueldade que os colegas lhe deram. É Liza quem faz o gesto que ele não tinha escrito em plano algum, e o livro termina sem reparação, com ele dizendo ter levado ao extremo o que os leitores não levam nem até a metade.
O fio que atravessa a obra
O livro não pergunta se o homem do subsolo tem razão, pergunta o que um homem faz com uma lucidez que não o deixa agir, e responde em dois tempos. Na Primeira Parte, o homem do subsolo apresenta-se pelo que não conseguiu ser, e a consolação que tira disso, a de que só o tolo se torna alguma coisa, é a que ele mesmo chama de rancorosa e inútil (capítulo I da Primeira Parte).
Я не только злым, но даже и ничем не сумел сделаться: ни злым, ни добрым, ни подлецом, ни честным, ни героем, ни насекомым., Não consegui me tornar não só mau, mas nem mesmo coisa alguma: nem mau, nem bom, nem canalha, nem honesto, nem herói, nem inseto.
O argumento passa pelo muro de pedra, diante do qual o homem de ação cede e ele não (capítulo III da Primeira Parte), e chega à objeção ao cálculo: a lista das vantagens deixa de fora a mais vantajosa de todas, o querer que é só dele, ainda que contra o próprio interesse (capítulo VII da Primeira Parte).
Человеку надо — одного только самостоятельного хотенья, чего бы эта самостоятельность ни стоила и к чему бы ни привела., O homem precisa de uma coisa só: de um querer independente, custe o que custar essa independência e aonde quer que ela leve.
O preço dessa defesa aparece em seguida. Se a razão é só razão e o querer é a vida inteira, o homem prova que é homem, e não tecla de piano, pelo ato que a tabela não prevê (capítulo VIII da Primeira Parte), e o sofrimento, que não cabe no palácio de cristal, passa a ser a única causa da consciência (capítulo IX da Primeira Parte).
Страдание — да ведь это единственная причина сознания., O sofrimento, afinal, é a única causa da consciência.
No fim da parte ele desmente quase tudo, e é aí que a tese vira pergunta: admite que não crê numa palavra do que escreveu e que as falas do acusador foram ele mesmo quem compôs (capítulo XI da Primeira Parte).
Разумеется, все эти ваши слова я сам теперь сочинил. Это тоже из подполья., É claro que todas essas suas palavras fui eu mesmo que compus agora. Isso também vem do subsolo.
A Segunda Parte tira o argumento do papel e o põe em três cenas, e todas repetem o mesmo desenho: um roteiro de livro ensaiado de antemão (o encontrão no oficial, a bofetada em Zvierkóv, o resgate de Liza) e um corpo que o executa pior do que o roteiro. O encontrão custa muito preparo, um colarinho de castor e uma desistência na véspera, e o oficial segue sem olhar para trás (capítulo I da Segunda Parte). No jantar ele quer o respeito dos colegas e consegue ser tratado como alguém que não pode sequer ofender (capítulo IV da Segunda Parte).
Обидели? В-вы! Ми-ня! Знайте, милостивый государь, что вы никогда и ни при каких обстоятельствах не можете меня обидеть!, Ofendeu? O se-nhor! A mim! Saiba, prezado senhor, que o senhor nunca, em circunstância alguma, pode me ofender!
Com Liza, o roteiro de livro encontra quem o desmascara: ela diz que ele fala como num livro, e ele só ouve a troça (capítulo VI da Segunda Parte).
Что-то вы… точно как по книге, Você parece... falar como se fosse por um livro.
O gesto que ele não tinha escrito vem dela. Liza entende que ele é infeliz e o abraça (capítulo IX da Segunda Parte), e a resposta dele é pagá-la, de raiva, com a única nota que tem em casa; ela a devolve sobre a mesa, e ele corre atrás, para na esquina e volta (capítulo X da Segunda Parte).
Но я не хочу лгать и потому говорю прямо, что я разжал ей руку и положил в нее… со злости, Mas não quero mentir, e por isso digo sem rodeios que abri a mão dela e pus nela... de raiva.
As duas partes se leem uma contra a outra. A Primeira defende a liberdade de querer o que a razão chamaria de erro, e a Segunda mostra um homem que usa essa liberdade para pouco além de ferir quem esteja ao alcance. Duas leituras: a Segunda desmente a Primeira, ou a mostra por dentro, com o preço que o argumento não cobrava.
Ler sabendo do corte da censura no capítulo X da Primeira Parte muda o peso do que falta. O retrato psicológico do narrador é exato e sobrevive sem a tese religiosa que a carta de Dostoiévski diz ter sido cortada, e ao mesmo tempo o livro foi escrito como argumento e teve o argumento mutilado. As duas leituras convivem, e o leitor honesto sustenta as duas.