Clavis Libri
ContextoA época, a origem da história e o texto. EnredoO livro inteiro, do começo ao fim. Resumo e análise2 partes, uma a uma. Personagens7 personagens. Temas6 temas e onde aparecem. Pilar dos temasOs temas parte a parte. Símbolos6 símbolos e o que significam. CitaçõesAs passagens que decidem a história. Termos12 termos de época, explicados. Recursos literários12 recursos, com as passagens em que aparecem. MapaA obra num só desenho. DiscussõesPara discutir em aula, em grupo ou sozinho. PerguntasAs dúvidas mais comuns sobre o livro, respondidas. QuizTeste a leitura, capítulo a capítulo. InfográficoA obra numa página. Cronograma de leituraSemanas de leitura sugeridas. Caderno de estudosExercícios por semana, com gabarito. Guia em PDFO guia completo para baixar e imprimir. AutorFiódor Mikhailovitch Dostoiévski.

Ficha da obra

Título original
Записки из подполья (Zapíski iz podpólia)
Publicação
1864, na revista Época (Epókha), dos irmãos Dostoiévski
Gênero
Novela
Cenário
São Petersburgo: o subsolo de onde o narrador escreve, por volta de 1864, e a cidade da década de 1840 que ele recorda
Narrador
Primeira pessoa, um ex-funcionário de quarenta anos que escreve as próprias notas
Estrutura
Duas partes: «O subsolo» (11 capítulos) e «A propósito da neve molhada» (10 capítulos)
Protagonistas
O homem do subsolo e Liza

Sobre o autor

Cristão ortodoxo, condenado à morte e indultado no cadafalso, voltou da Sibéria crítico do socialismo que tinha abraçado e escreveu os romances em que as ideias são postas à prova na vida de quem as defende. Ler o perfil de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski

Tema central

Um funcionário aposentado de quarenta anos, sem nome, escreve de um canto de São Petersburgo para leitores que ele mesmo inventa, e o que faz ao longo da Primeira Parte é recusar tudo: o cálculo do interesse, a ideia de que bastaria mostrar ao homem a sua vantagem para torná-lo bom, o palácio de cristal que promete uma vida sem dúvida. Ele tem lucidez, argumento e ocasião de sobra, e não age, porque cada causa que encontra arrasta atrás de si outra, anterior. O que oferece no lugar da vantagem é o querer independente, o capricho, e o livro pergunta o que resta de um homem que só consegue se afirmar pelo avesso.

Na Segunda Parte a pergunta ganha corpo. Aos vinte e quatro anos, o mesmo homem tenta três vezes entrar na vida dos outros, e nas três a vergonha sai disfarçada de poder: esbarra num oficial que o tirou do caminho sem vê-lo, impõe-se a um jantar de colegas que não o querem e despeja em Liza, uma moça de bordel, o sermão e a crueldade que os colegas lhe deram. É Liza quem faz o gesto que ele não tinha escrito em plano algum, e o livro termina sem reparação, com ele dizendo ter levado ao extremo o que os leitores não levam nem até a metade.

O fio que atravessa a obra

O livro não pergunta se o homem do subsolo tem razão, pergunta o que um homem faz com uma lucidez que não o deixa agir, e responde em dois tempos. Na Primeira Parte, o homem do subsolo apresenta-se pelo que não conseguiu ser, e a consolação que tira disso, a de que só o tolo se torna alguma coisa, é a que ele mesmo chama de rancorosa e inútil (capítulo I da Primeira Parte).

Я не только злым, но даже и ничем не сумел сделаться: ни злым, ни добрым, ни подлецом, ни честным, ни героем, ни насекомым., Não consegui me tornar não só mau, mas nem mesmo coisa alguma: nem mau, nem bom, nem canalha, nem honesto, nem herói, nem inseto.
Primeira Parte: O subsolo

O argumento passa pelo muro de pedra, diante do qual o homem de ação cede e ele não (capítulo III da Primeira Parte), e chega à objeção ao cálculo: a lista das vantagens deixa de fora a mais vantajosa de todas, o querer que é só dele, ainda que contra o próprio interesse (capítulo VII da Primeira Parte).

Человеку надо — одного только самостоятельного хотенья, чего бы эта самостоятельность ни стоила и к чему бы ни привела., O homem precisa de uma coisa só: de um querer independente, custe o que custar essa independência e aonde quer que ela leve.
Primeira Parte: O subsolo

O preço dessa defesa aparece em seguida. Se a razão é só razão e o querer é a vida inteira, o homem prova que é homem, e não tecla de piano, pelo ato que a tabela não prevê (capítulo VIII da Primeira Parte), e o sofrimento, que não cabe no palácio de cristal, passa a ser a única causa da consciência (capítulo IX da Primeira Parte).

Страдание — да ведь это единственная причина сознания., O sofrimento, afinal, é a única causa da consciência.
Primeira Parte: O subsolo

No fim da parte ele desmente quase tudo, e é aí que a tese vira pergunta: admite que não crê numa palavra do que escreveu e que as falas do acusador foram ele mesmo quem compôs (capítulo XI da Primeira Parte).

Разумеется, все эти ваши слова я сам теперь сочинил. Это тоже из подполья., É claro que todas essas suas palavras fui eu mesmo que compus agora. Isso também vem do subsolo.
Primeira Parte: O subsolo

A Segunda Parte tira o argumento do papel e o põe em três cenas, e todas repetem o mesmo desenho: um roteiro de livro ensaiado de antemão (o encontrão no oficial, a bofetada em Zvierkóv, o resgate de Liza) e um corpo que o executa pior do que o roteiro. O encontrão custa muito preparo, um colarinho de castor e uma desistência na véspera, e o oficial segue sem olhar para trás (capítulo I da Segunda Parte). No jantar ele quer o respeito dos colegas e consegue ser tratado como alguém que não pode sequer ofender (capítulo IV da Segunda Parte).

Обидели? В-вы! Ми-ня! Знайте, милостивый государь, что вы никогда и ни при каких обстоятельствах не можете меня обидеть!, Ofendeu? O se-nhor! A mim! Saiba, prezado senhor, que o senhor nunca, em circunstância alguma, pode me ofender!
Segunda Parte: A propósito da neve molhada

Com Liza, o roteiro de livro encontra quem o desmascara: ela diz que ele fala como num livro, e ele só ouve a troça (capítulo VI da Segunda Parte).

Что-то вы… точно как по книге, Você parece... falar como se fosse por um livro.
Segunda Parte: A propósito da neve molhada

O gesto que ele não tinha escrito vem dela. Liza entende que ele é infeliz e o abraça (capítulo IX da Segunda Parte), e a resposta dele é pagá-la, de raiva, com a única nota que tem em casa; ela a devolve sobre a mesa, e ele corre atrás, para na esquina e volta (capítulo X da Segunda Parte).

Но я не хочу лгать и потому говорю прямо, что я разжал ей руку и положил в нее… со злости, Mas não quero mentir, e por isso digo sem rodeios que abri a mão dela e pus nela... de raiva.
Segunda Parte: A propósito da neve molhada

As duas partes se leem uma contra a outra. A Primeira defende a liberdade de querer o que a razão chamaria de erro, e a Segunda mostra um homem que usa essa liberdade para pouco além de ferir quem esteja ao alcance. Duas leituras: a Segunda desmente a Primeira, ou a mostra por dentro, com o preço que o argumento não cobrava.

Ler sabendo do corte da censura no capítulo X da Primeira Parte muda o peso do que falta. O retrato psicológico do narrador é exato e sobrevive sem a tese religiosa que a carta de Dostoiévski diz ter sido cortada, e ao mesmo tempo o livro foi escrito como argumento e teve o argumento mutilado. As duas leituras convivem, e o leitor honesto sustenta as duas.