Ficha da obra
- Autor
- Dante Alighieri
- Título original
- Purgatorio, a segunda cântica da Commedia
- Gênero
- Poema narrativo em tercetos encadeados (terza rima)
- Cenário
- A montanha do Purgatório, no hemisfério oposto, da praia ao paraíso terrestre no topo
- Narrador
- Primeira pessoa, o próprio Dante, que conta a viagem depois de feita
- Estrutura
- 33 cantos: o Antepurgatório, as sete cornijas e o paraíso terrestre
- Protagonistas
- Dante, Virgílio e, no fim, Beatriz
Sobre o autor
Poeta florentino, guelfo branco e prior de Florença em 1300, banido da cidade em 1301 e morto no exílio, em Ravena, depois de escrever a Comédia, a viagem de um vivo pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso. Ler o perfil de Dante Alighieri
Tema central
Dante e Virgílio saem do ar morto do Inferno e, ao amanhecer, chegam a uma praia deserta no hemisfério oposto ao de Jerusalém, ao pé de uma montanha. É o segundo reino, e o primeiro canto o define por duas ações do espírito: purgar-se e tornar-se digno de subir ao céu. Na base, no Antepurgatório, esperam os que se converteram tarde; acima de uma porta guardada por um anjo, que grava sete P na testa de Dante, sobem as sete cornijas; no cume está o Paraíso Terrestre, onde Virgílio se retira e Beatriz chega para acusar. A montanha pesa no começo e alivia a cada passo, e a regra do lugar é que de noite não se sobe.
O que ordena a subida é uma tese que Virgílio expõe no canto XVII, o do meio da cântica do meio: nem criador nem criatura jamais foi sem amor, e o amor natural não erra, mas o de ânimo erra por mau objeto, por pouco vigor ou por vigor demais. Daí as sete cornijas: soberba, inveja e ira amam o mal do próximo; a acídia ama o bem com frouxidão; avareza, gula e luxúria amam demais bens menores. O vício, nessa conta, não é outra coisa que o amor desviado, e por isso se corrige. No Inferno as almas são o que fizeram; aqui estão deixando de ser, e é por isso que aqui se canta.
O fio da cântica, porém, não é o catálogo de vícios. Em cada cornija a pena e os exemplos ensinam o contrário do vício: o peso que curva o soberbo, o fio de ferro nos olhos do invejoso, a fumaça do irado. E o que se purga, no fim, é o querer: a alma que depois de quinhentos anos sente a vontade livre faz o monte tremer, e Virgílio entrega a Dante um arbítrio «livre, reto e são». A cântica termina na palavra que fecha também as outras duas: estrelas.
O fio que atravessa a obra
O Purgatório não pergunta o que cada vício merece; pergunta o que um homem aprende a querer. O reino é definido logo no primeiro canto por duas ações do espírito, e a cântica é a história de uma vontade sendo endireitada ao longo do caminho.
e canterò di quel secondo regno / dove l’umano spirito si purga / e di salire al ciel diventa degno, e cantarei aquele segundo reino onde o espírito humano se purga e se torna digno de subir ao céu.
A primeira lição é sobre o Tempo. Catão só cede ao nome da dama do céu, e não ao afeto de Márcia (canto I); o canto de Casella, que consola Dante, faz todos esquecerem o caminho até uma censura à demora (canto II); Manfredi mede a espera em trinta vezes o tempo da presunção (canto III); e Belacqua sabe a regra da espera com exatidão e continua sentado (canto IV). Virgílio já tinha dado a medida do esforço: a montanha pesa no começo e alivia.
Ed elli a me: «Questa montagna è tale, / che sempre al cominciar di sotto è grave; / e quant’ om più va sù, e men fa male. / Però, quand’ ella ti parrà soave / tanto, che sù andar ti fia leggero / com’ a seconda giù andar per nave, esta montanha é tal que sempre, ao começar por baixo, é penosa; e quanto mais se sobe, menos mal faz. Por isso, quando ela te parecer tão suave que subir te seja leve como, a favor da corrente, descer de barco.
Quem espera depende dos vivos. Um morto pede preces em Fano, Bonconte nota que nem Giovanna nem outros cuidam dele, e a Pia pede só que a lembrem (canto V); Nino quer que a filha reze por ele (canto VIII). Dante pergunta a Virgílio se a oração dobra o decreto do céu, e a resposta é que o fogo do amor cumpre num instante o que a satisfação pedia (canto VI).
Ed elli a me: «La mia scrittura è piana; / e la speranza di costor non falla, / se ben si guarda con la mente sana; / ché cima di giudicio non s’avvalla / perché foco d’amor compia in un punto / ciò che de’ sodisfar chi qui s’astalla, a minha escrita é clara; e a esperança dessas almas não falha, se bem se olha com a mente sã; pois o alto do juízo não se rebaixa porque o fogo do amor cumpra num instante o que deve satisfazer quem aqui se instala.
A noite impõe outro limite à vontade: sem luz, o que falta é poder, não querer (canto VII). Na primeira cornija o remédio passa pelos olhos. A porta se abre com o aviso de não olhar para trás, o mármore devolve a Dante o próprio rosto, as imagens de humildade se leem na pedra como fala e o chão dos soberbos obriga a olhar para baixo (canto IX, canto X, canto XII). Oderisi confessa que em vida não teria dado ao rival a honra que dá agora (canto XI), e Dante descobre com os dedos que um dos sete P se apagou.
e con le dita de la destra scempie / trovai pur sei le lettere che ’ncise / quel da le chiavi a me sovra le tempie: / a che guardando, il mio duca sorrise., e com os dedos da destra abertos achei apenas seis das letras que gravou aquele das chaves sobre as minhas têmporas; ao ver isso, o meu guia sorriu.
Invejosos e irados repetem o método com outros sentidos, os olhos costurados e a fumaça, e a pergunta passa de quem peca para onde está a causa do mal. Virgílio mostra o olho que só olha a terra (canto XIV), e diz depois que o bem divino cresce ao ser repartido (canto XV), e Marco Lombardo recusa que o céu seja a causa:
Lo cielo i vostri movimenti inizia; / non dico tutti, ma, posto ch’i’ ’l dica, / lume v’è dato a bene e a malizia, / e libero voler; che, se fatica / ne le prime battaglie col ciel dura, / poi vince tutto, se ben si notrica., o céu inicia os vossos movimentos; não digo todos, mas, supondo que o dissesse, é-vos dada luz para o bem e para o mal, e livre querer; o qual, se sofre fadiga nas primeiras batalhas com o céu, depois vence tudo, se bem se nutre.
No centro do poema está a doutrina do amor e a objeção de Dante a ela: se o amor vem de fora e a alma anda nesse pé, não há mérito nem culpa (canto XVII, canto XVIII). Virgílio responde até onde a razão vê e entrega o resto a Beatriz.
Quanto ragion qui vede, / dir ti poss’ io; da indi in là t’aspetta / pur a Beatrice, ch’è opra di fede, quanto a razão aqui vê, posso dizer-te; dali em diante espera só por Beatriz, pois é obra de fé.
A vontade aparece depois em estados diferentes: a sereia que o olhar de Dante enfeita e o chamariz de Deus desfaz, o papa (a tradição lê Adriano V) que só quis outra vida quando o cume do poder o esgotou (canto XIX), a loba que Dante amaldiçoa e a avareza dos reis da casa de Hugo Capeto (canto XX). Estácio faz do querer a prova da limpeza.
E io, che son giaciuto a questa doglia / cinquecent’ anni e più, pur mo sentii / libera volontà di miglior soglia: / però sentisti il tremoto e li pii / spiriti per lo monte render lode / a quel Segnor, che tosto sù li ’nvii, e eu, que jazi nesta dor quinhentos anos e mais, só agora senti livre vontade de melhor soleira: por isso sentiste o terremoto e os espíritos pios pelo monte render louvor àquele Senhor, que logo os envie para cima.
Em seguida o querer se mostra no corpo. Forese chama de consolo a pena que é a vontade que levou Cristo a dizer Eli (canto XXIII), e Estácio explica que a sombra se figura conforme os desejos e afetos que a afligem (canto XXV).
E non pur una volta, questo spazzo / girando, si rinfresca nostra pena: / io dico pena, e dovria dir sollazzo, / ché quella voglia a li alberi ci mena / che menò Cristo lieto a dire ‘Elì’, / quando ne liberò con la sua vena, e não só uma vez, girando este espaço, se refresca nossa pena: digo pena e devia dizer consolo, porque aquela vontade às árvores nos leva que levou Cristo alegre a dizer Eli, quando nos libertou com o seu sangue.
No alto da escada a razão se retira. Virgílio, que só fez Dante entrar no fogo pelo nome de Beatriz, declara que o prazer dele deve ser o guia (canto XXVII).
Tratto t’ho qui con ingegno e con arte; / lo tuo piacere omai prendi per duce; / fuor se’ de l’erte vie, fuor se’ de l’arte, trouxe-te até aqui com engenho e com arte; toma agora o teu prazer por guia; estás fora dos caminhos íngremes, estás fora dos estreitos.
O querer entregue volta a ser cobrado por quem Dante mais amou. Beatriz não consola, acusa, e Dante responde que as coisas presentes lhe desviaram os passos assim que o rosto dela se escondeu (canto XXXI).
Le presenti cose / col falso lor piacer volser miei passi, / tosto che ’l vostro viso si nascose, as coisas presentes, com o seu falso prazer, voltaram meus passos, assim que o vosso rosto se escondeu.
E o Lete que apaga a lembrança do pecado serve a ela de prova da culpa (canto XXXIII).
E se tu ricordar non te ne puoi», / sorridendo rispuose, «or ti rammenta / come bevesti di Letè ancoi; / e se dal fummo foco s’argomenta, / cotesta oblivïon chiaro conchiude / colpa ne la tua voglia altrove attenta, e se não podes te lembrar, respondeu sorrindo, lembra agora como hoje bebeste do Lete; e se da fumaça se infere o fogo, esse esquecimento conclui claramente culpa na tua vontade atenta a outra parte.
O poema não diz se um querer endireitado basta ou se ainda precisa da vergonha e do esquecimento. Em XXVII, Virgílio dá a Dante o arbítrio como terminado; em XXX, Beatriz o acusa como se ainda houvesse o que acusar. O texto sustenta as duas leituras. Na primeira, a liberdade que Virgílio entrega é real, e a acusação de Beatriz é o preço de usá-la: quem governa a si mesmo responde por si. Na segunda, o querer que a razão endireita só se completa quando alguém de fora o acusa e o lava, e é por isso que a razão tem de sair de cena. O que as duas têm em comum é que a cântica não termina numa tese, termina numa subida que ela não mostra.