Clavis Libri
ContextoA época, a origem da história e o texto. EnredoA cântica inteira, do começo ao fim. Resumo e análiseTrinta e três cantos, em oito blocos. Personagens11 personagens. Temas7 temas e onde aparecem. Pilar dos temasOs temas bloco a bloco. Símbolos7 símbolos e o que significam. CitaçõesAs passagens que decidem a história. Termos11 termos de época, explicados. Recursos literários21 recursos, com as passagens em que aparecem. MapaA obra num só desenho. DiscussõesPara discutir em aula, em grupo ou sozinho. PerguntasAs dúvidas mais comuns sobre o livro, respondidas. QuizTeste a leitura, capítulo a capítulo. InfográficoA obra numa página. Cronograma de leituraSemanas de leitura sugeridas. Caderno de estudosExercícios por semana, com gabarito. Guia em PDFO guia completo para baixar e imprimir. AutorDante Alighieri.

Ficha da obra

Título original
Purgatorio, a segunda cântica da Commedia
Gênero
Poema narrativo em tercetos encadeados (terza rima)
Cenário
A montanha do Purgatório, no hemisfério oposto, da praia ao paraíso terrestre no topo
Narrador
Primeira pessoa, o próprio Dante, que conta a viagem depois de feita
Estrutura
33 cantos: o Antepurgatório, as sete cornijas e o paraíso terrestre
Protagonistas
Dante, Virgílio e, no fim, Beatriz

Sobre o autor

Poeta florentino, guelfo branco e prior de Florença em 1300, banido da cidade em 1301 e morto no exílio, em Ravena, depois de escrever a Comédia, a viagem de um vivo pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso. Ler o perfil de Dante Alighieri

Tema central

Dante e Virgílio saem do ar morto do Inferno e, ao amanhecer, chegam a uma praia deserta no hemisfério oposto ao de Jerusalém, ao pé de uma montanha. É o segundo reino, e o primeiro canto o define por duas ações do espírito: purgar-se e tornar-se digno de subir ao céu. Na base, no Antepurgatório, esperam os que se converteram tarde; acima de uma porta guardada por um anjo, que grava sete P na testa de Dante, sobem as sete cornijas; no cume está o Paraíso Terrestre, onde Virgílio se retira e Beatriz chega para acusar. A montanha pesa no começo e alivia a cada passo, e a regra do lugar é que de noite não se sobe.

O que ordena a subida é uma tese que Virgílio expõe no canto XVII, o do meio da cântica do meio: nem criador nem criatura jamais foi sem amor, e o amor natural não erra, mas o de ânimo erra por mau objeto, por pouco vigor ou por vigor demais. Daí as sete cornijas: soberba, inveja e ira amam o mal do próximo; a acídia ama o bem com frouxidão; avareza, gula e luxúria amam demais bens menores. O vício, nessa conta, não é outra coisa que o amor desviado, e por isso se corrige. No Inferno as almas são o que fizeram; aqui estão deixando de ser, e é por isso que aqui se canta.

O fio da cântica, porém, não é o catálogo de vícios. Em cada cornija a pena e os exemplos ensinam o contrário do vício: o peso que curva o soberbo, o fio de ferro nos olhos do invejoso, a fumaça do irado. E o que se purga, no fim, é o querer: a alma que depois de quinhentos anos sente a vontade livre faz o monte tremer, e Virgílio entrega a Dante um arbítrio «livre, reto e são». A cântica termina na palavra que fecha também as outras duas: estrelas.

O fio que atravessa a obra

O Purgatório não pergunta o que cada vício merece; pergunta o que um homem aprende a querer. O reino é definido logo no primeiro canto por duas ações do espírito, e a cântica é a história de uma vontade sendo endireitada ao longo do caminho.

e canterò di quel secondo regno / dove l’umano spirito si purga / e di salire al ciel diventa degno, e cantarei aquele segundo reino onde o espírito humano se purga e se torna digno de subir ao céu.
Cantos I a IV: A praia e o Antepurgatório

A primeira lição é sobre o Tempo. Catão só cede ao nome da dama do céu, e não ao afeto de Márcia (canto I); o canto de Casella, que consola Dante, faz todos esquecerem o caminho até uma censura à demora (canto II); Manfredi mede a espera em trinta vezes o tempo da presunção (canto III); e Belacqua sabe a regra da espera com exatidão e continua sentado (canto IV). Virgílio já tinha dado a medida do esforço: a montanha pesa no começo e alivia.

Ed elli a me: «Questa montagna è tale, / che sempre al cominciar di sotto è grave; / e quant’ om più va sù, e men fa male. / Però, quand’ ella ti parrà soave / tanto, che sù andar ti fia leggero / com’ a seconda giù andar per nave, esta montanha é tal que sempre, ao começar por baixo, é penosa; e quanto mais se sobe, menos mal faz. Por isso, quando ela te parecer tão suave que subir te seja leve como, a favor da corrente, descer de barco.
Cantos I a IV: A praia e o Antepurgatório

Quem espera depende dos vivos. Um morto pede preces em Fano, Bonconte nota que nem Giovanna nem outros cuidam dele, e a Pia pede só que a lembrem (canto V); Nino quer que a filha reze por ele (canto VIII). Dante pergunta a Virgílio se a oração dobra o decreto do céu, e a resposta é que o fogo do amor cumpre num instante o que a satisfação pedia (canto VI).

Ed elli a me: «La mia scrittura è piana; / e la speranza di costor non falla, / se ben si guarda con la mente sana; / ché cima di giudicio non s’avvalla / perché foco d’amor compia in un punto / ciò che de’ sodisfar chi qui s’astalla, a minha escrita é clara; e a esperança dessas almas não falha, se bem se olha com a mente sã; pois o alto do juízo não se rebaixa porque o fogo do amor cumpra num instante o que deve satisfazer quem aqui se instala.
Cantos V a VIII: Os que se arrependeram tarde

A noite impõe outro limite à vontade: sem luz, o que falta é poder, não querer (canto VII). Na primeira cornija o remédio passa pelos olhos. A porta se abre com o aviso de não olhar para trás, o mármore devolve a Dante o próprio rosto, as imagens de humildade se leem na pedra como fala e o chão dos soberbos obriga a olhar para baixo (canto IX, canto X, canto XII). Oderisi confessa que em vida não teria dado ao rival a honra que dá agora (canto XI), e Dante descobre com os dedos que um dos sete P se apagou.

e con le dita de la destra scempie / trovai pur sei le lettere che ’ncise / quel da le chiavi a me sovra le tempie: / a che guardando, il mio duca sorrise., e com os dedos da destra abertos achei apenas seis das letras que gravou aquele das chaves sobre as minhas têmporas; ao ver isso, o meu guia sorriu.
Cantos IX a XII: A porta e a soberba

Invejosos e irados repetem o método com outros sentidos, os olhos costurados e a fumaça, e a pergunta passa de quem peca para onde está a causa do mal. Virgílio mostra o olho que só olha a terra (canto XIV), e diz depois que o bem divino cresce ao ser repartido (canto XV), e Marco Lombardo recusa que o céu seja a causa:

Lo cielo i vostri movimenti inizia; / non dico tutti, ma, posto ch’i’ ’l dica, / lume v’è dato a bene e a malizia, / e libero voler; che, se fatica / ne le prime battaglie col ciel dura, / poi vince tutto, se ben si notrica., o céu inicia os vossos movimentos; não digo todos, mas, supondo que o dissesse, é-vos dada luz para o bem e para o mal, e livre querer; o qual, se sofre fadiga nas primeiras batalhas com o céu, depois vence tudo, se bem se nutre.
Cantos XIII a XVI: Inveja e ira

No centro do poema está a doutrina do amor e a objeção de Dante a ela: se o amor vem de fora e a alma anda nesse pé, não há mérito nem culpa (canto XVII, canto XVIII). Virgílio responde até onde a razão vê e entrega o resto a Beatriz.

Quanto ragion qui vede, / dir ti poss’ io; da indi in là t’aspetta / pur a Beatrice, ch’è opra di fede, quanto a razão aqui vê, posso dizer-te; dali em diante espera só por Beatriz, pois é obra de fé.
Cantos XVII a XXI: O amor, a acídia e a avareza

A vontade aparece depois em estados diferentes: a sereia que o olhar de Dante enfeita e o chamariz de Deus desfaz, o papa (a tradição lê Adriano V) que só quis outra vida quando o cume do poder o esgotou (canto XIX), a loba que Dante amaldiçoa e a avareza dos reis da casa de Hugo Capeto (canto XX). Estácio faz do querer a prova da limpeza.

E io, che son giaciuto a questa doglia / cinquecent’ anni e più, pur mo sentii / libera volontà di miglior soglia: / però sentisti il tremoto e li pii / spiriti per lo monte render lode / a quel Segnor, che tosto sù li ’nvii, e eu, que jazi nesta dor quinhentos anos e mais, só agora senti livre vontade de melhor soleira: por isso sentiste o terremoto e os espíritos pios pelo monte render louvor àquele Senhor, que logo os envie para cima.
Cantos XVII a XXI: O amor, a acídia e a avareza

Em seguida o querer se mostra no corpo. Forese chama de consolo a pena que é a vontade que levou Cristo a dizer Eli (canto XXIII), e Estácio explica que a sombra se figura conforme os desejos e afetos que a afligem (canto XXV).

E non pur una volta, questo spazzo / girando, si rinfresca nostra pena: / io dico pena, e dovria dir sollazzo, / ché quella voglia a li alberi ci mena / che menò Cristo lieto a dire ‘Elì’, / quando ne liberò con la sua vena, e não só uma vez, girando este espaço, se refresca nossa pena: digo pena e devia dizer consolo, porque aquela vontade às árvores nos leva que levou Cristo alegre a dizer Eli, quando nos libertou com o seu sangue.
Cantos XXII a XXV: Gula e a geração da alma

No alto da escada a razão se retira. Virgílio, que só fez Dante entrar no fogo pelo nome de Beatriz, declara que o prazer dele deve ser o guia (canto XXVII).

Tratto t’ho qui con ingegno e con arte; / lo tuo piacere omai prendi per duce; / fuor se’ de l’erte vie, fuor se’ de l’arte, trouxe-te até aqui com engenho e com arte; toma agora o teu prazer por guia; estás fora dos caminhos íngremes, estás fora dos estreitos.
Cantos XXVI a XXIX: O fogo e o Éden

O querer entregue volta a ser cobrado por quem Dante mais amou. Beatriz não consola, acusa, e Dante responde que as coisas presentes lhe desviaram os passos assim que o rosto dela se escondeu (canto XXXI).

Le presenti cose / col falso lor piacer volser miei passi, / tosto che ’l vostro viso si nascose, as coisas presentes, com o seu falso prazer, voltaram meus passos, assim que o vosso rosto se escondeu.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

E o Lete que apaga a lembrança do pecado serve a ela de prova da culpa (canto XXXIII).

E se tu ricordar non te ne puoi», / sorridendo rispuose, «or ti rammenta / come bevesti di Letè ancoi; / e se dal fummo foco s’argomenta, / cotesta oblivïon chiaro conchiude / colpa ne la tua voglia altrove attenta, e se não podes te lembrar, respondeu sorrindo, lembra agora como hoje bebeste do Lete; e se da fumaça se infere o fogo, esse esquecimento conclui claramente culpa na tua vontade atenta a outra parte.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

O poema não diz se um querer endireitado basta ou se ainda precisa da vergonha e do esquecimento. Em XXVII, Virgílio dá a Dante o arbítrio como terminado; em XXX, Beatriz o acusa como se ainda houvesse o que acusar. O texto sustenta as duas leituras. Na primeira, a liberdade que Virgílio entrega é real, e a acusação de Beatriz é o preço de usá-la: quem governa a si mesmo responde por si. Na segunda, o querer que a razão endireita só se completa quando alguém de fora o acusa e o lava, e é por isso que a razão tem de sair de cena. O que as duas têm em comum é que a cântica não termina numa tese, termina numa subida que ela não mostra.