Ficha da obra
- Autor
- William Shakespeare
- Título original
- The Tragedy of Julius Caesar
- Publicação
- Encenada em 1599; impressa em 1623, no Primeiro Fólio
- Gênero
- Tragédia romana em cinco atos
- Cenário
- Roma; nos Atos IV e V, os acampamentos de Sárdis e Filipos
- Época
- Roma, de 44 a 42 a.C.
- Narrador
- Não há: peça de teatro, em verso e prosa
- Protagonista
- Bruto, mais que César
Sobre o autor
O ator de província que, em Londres, escreveu as tragédias pelas quais o Ocidente ainda mede a ambição, o ciúme, a vingança e o amor. Ler o perfil de William Shakespeare
Tema central
Um grupo de romanos honrados mata o homem que pode vir a ser rei antes que ele o seja, e a peça mostra o que o crime faz: o mito de César cresce na boca de Antônio e os conspiradores morrem na guerra civil que quiseram evitar. Bruto age por um futuro que ele mesmo imagina, o ovo da serpente, e a pergunta que fica é se é legítimo matar para impedir um mal que ainda não aconteceu.
O mal que Bruto quer impedir nunca chega a existir na peça; o que existe é o preço de ter impedido.
O fio que atravessa a obra
Os fios que atravessam os cinco atos e a leitura da tradução.
O tiranicídio e o crime preventivo
O coração da peça. Bruto mata não pelo que César fez, mas pelo que poderia fazer, o ovo da serpente, e a pergunta que a peça deixa é se é legítimo matar para impedir um mal que ainda não se consumou. O ato preventivo cria o futuro que temia.
Bruto crê que César coroado se tornará peçonhento. Antecipar o golpe seria esmagar a serpente antes que ela mate.
Bruto (sobre César): "E devo então pensar que é o ovo da serpente: / Ao ser chocado, há de tornar-se peçonhento, / E é preciso matá-lo ainda na casca." (Loc. 1502) A justificativa do crime preventivo.
O tiranicídio preventivo não impede a tirania: produz a guerra civil, as proscrições e a ascensão de Otávio, ou seja, exatamente o império que se queria evitar. E há a ironia da introdução: ao morrer, César se torna mito e "devora toda Roma" pela boca de Antônio. O remédio gera a doença em escala maior.
Estoico x epicurista: Bruto e Cássio
A chave de leitura da introdução. Cássio, o epicurista, age por ressentimento de uma grandeza fora do seu alcance. Bruto, o estoico, age por temor abstrato do poder ilimitado, sem ódio pessoal. Dois móveis diferentes para o mesmo punhal, e o estoico é quem dá legitimidade moral ao crime. O veredito de Antônio no Ato V, que reconhece em Bruto o mais nobre dos romanos e o único conspirador que agiu pelo bem comum, e não por inveja, separa o estoico do epicurista ressentido.
Destino, Fortuna e livre-arbítrio
A peça é cercada de presságios, mas suas falas mais fortes afirmam a liberdade: "a culpa não está em nossos astros, mas em nós mesmos" (Loc. 1021) e "Conheceremos teus desígnios, Fado" (Loc. 2384). Contra isso, a Fortuna que "distribui seus sorrisos democraticamente" e a tudo ludibria (Loc. 574; 3023). A tensão nunca se resolve.
Cássio: "Andamos entre as pernas do gigante, / Em busca de um sepulcro desonroso. Os homens regem seu destino às vezes; / A culpa não está em nossos astros, / Por sermos serviçais, mas em nós mesmos." (Loc. 1021)
A retórica e o mito de César
César vivo é um homem; César morto vira mito pela "perigosa eloquência de Antônio". A palavra é a arma decisiva: a oração fúnebre de Antônio, fingindo-se neutro e repetindo com ironia que Bruto é um homem honrado, inverte a multidão que a lógica de Bruto havia convencido. A razão de Bruto convence; o pathos de Antônio arrasta.
A liberdade pela morte (o suicídio estoico)
"Todo escravo tem nas próprias mãos o poder de extirpar seu cativeiro" (Loc. 1359). O fio que liga Cássio e Bruto: a morte voluntária como a última liberdade que a tirania não alcança. No Ato V, Cássio, julgando por engano que tudo está perdido, ordena que o servo Píndaro, que fica livre com esse gesto, o mate com a mesma espada que ferira César: o conspirador morre pelo instrumento do próprio crime, e o suicídio estoico anunciado no Ato I se cumpre. Fecha em "Bruto só tombou perante Bruto" (Loc. 4309).
O idealista e a consequência
Ecoa Macbeth pelo avesso: lá a ambição corrompe; aqui o ideal cega. Em ambos, forçar o curso da história desaba sobre o autor do ato. Bruto poupa Antônio e o deixa falar: dois erros de homem honrado. A pureza moral desarmada de prudência política é catastrófica: a república que Bruto quis salvar morre com ele, e nasce o Império.
Bruto entre Dante e Shakespeare: traidor ou herói?
A mesma figura recebe dois veredictos opostos, separados por quase três séculos.
- Em Inferno (Canto XXXIV, o nono círculo, a Giudecca, dos traidores dos benfeitores), Lúcifer tem três faces e cada boca tritura um traidor. Na boca central, Judas Iscariotes, de cabeça para dentro; nas duas bocas laterais, Bruto e Cássio, pendurados pelas pernas. Para Dante, são os três arquitraidores da história: Judas traiu Cristo (a autoridade divina); Bruto e Cássio traíram César (a autoridade imperial, que Dante via como querida por Deus). O tiranicídio, aqui, é o pior dos pecados.
- Cronologia que dá o contraste: a Divina Comédia (concluída por volta de 1320) é anterior à peça de Shakespeare (c. 1599). A condenação medieval de Bruto ao fundo do inferno vem antes, e Shakespeare, quase 300 anos depois, faz o caminho inverso: eleva o mesmo Bruto a "o mais nobre romano de todos eles". Onde Dante vê o traidor máximo, ao lado de Judas, Shakespeare vê o idealista trágico.
A história por trás da peça
A peça é uma fatia estreita de um drama histórico muito maior. Vários personagens que aparecem (ou não) tiveram destinos decisivos fora dela.
Cícero: o maior orador que não conspirou
- Aparece na peça: brevemente na cena 3 do Ato I, citado por Bruto na cena 2 do Ato I (Loc. 1075), e sua morte nas proscrições chega na cena 3 do Ato IV (Loc. 3524).
- Cícero foi o maior orador de Roma e um dos maiores da história, autor das Catilinárias (63 a.C.), os discursos contra a conspiração de Catilina ("Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?").
- Não participou da morte de César. Os conspiradores o consideraram cauteloso e falador demais para confiar nele; ele aprovou o ato só depois.
- Morreu na sequência: executado em 43 a.C. nas proscrições do Segundo Triunvirato, a pedido sobretudo de Marco Antônio, em vingança pelas Filípicas (os discursos de Cícero contra ele). É a morte registrada na Loc. 3524 da peça.
Marco Antônio e Otávio (o futuro Augusto)
- Marco Antônio: personagem central da peça; amigo, aliado e lugar-tenente de César, o orador que vira a multidão na oração fúnebre.
- Otávio aparece como Otávio (Octávio) nos Atos IV e V, sobrinho-neto e herdeiro testamentário de César. Só se tornaria Augusto em 27 a.C.: na peça ainda é o jovem herdeiro, não o imperador.
Cleópatra: a ausente que decidiu a história
Cleópatra não aparece em Júlio César (é protagonista de Antônio e Cleópatra), mas pesou enormemente na história real, e não na do livro:
- Foi amante de Júlio César, com quem teve um filho, Cesarião.
- Depois foi amante de Marco Antônio, com quem teve três filhos (os gêmeos Alexandre Hélio e Cleópatra Selene II, e Ptolomeu Filadelfo).
- Otávio usou esse caso para tomar o poder no lugar de Antônio: transformou a ligação de Antônio com Cleópatra em propaganda, pintando-o como um romano "egipcianizado", traidor dos valores de Roma.
- O testamento de Antônio foi a arma final: Otávio o apreendeu (das mãos das virgens vestais) e o leu em público. O documento dizia que Antônio queria ser enterrado no Egito, ao lado de Cleópatra, um absurdo para um romano, e doava territórios romanos aos filhos dela (as "Doações de Alexandria"). O escândalo selou o apoio de Roma a Otávio, levando à batalha de Áccio (31 a.C.) e ao fim de Antônio e Cleópatra.