Ficha da obra
- Autor
- Homero
- Título original
- Ὀδύσσεια (Odýsseia)
- Publicação
- Poema de tradição oral, fixado por escrito por volta do século VIII a.C.
- Gênero
- Poema épico, em vinte e quatro cantos de hexâmetros gregos
- Cenário
- Ítaca, Pilos e Esparta, a ilha de Calipso, a terra dos feácios e os mares da viagem de volta
- Época
- Algumas semanas, vinte anos depois da partida de Odisseu para Troia
- Narrador
- Terceira pessoa; nos Cantos IX a XII, o próprio Odisseu conta as suas aventuras aos feácios
- Protagonista
- Odisseu
Sobre o autor
A história e o seu mundo
A Odisseia conta a volta para casa de Odisseu, rei da pequena ilha de Ítaca, dez anos depois do fim da guerra de Troia. Quando o poema começa, todos os outros heróis sobreviventes já voltaram, e ele está retido na ilha da ninfa Calipso, que o quer como marido. Quem o mantém longe é o deus Poseidon, irado porque Odisseu cegou o filho dele, o ciclope Polifemo. Em Ítaca, os nobres da ilha e das ilhas vizinhas cortejam a mulher de Odisseu, Penélope, ocupam o palácio e consomem os rebanhos da casa, enquanto o filho, Telêmaco, cresce sem saber se o pai está vivo.
O mundo do poema se organiza em torno de uma regra: todo estrangeiro e todo mendigo vêm de Zeus, e quem recebe um hóspede deve dar-lhe mesa, cama, presentes e uma escolta até a pátria. Por essa regra o poema mede cada povo que Odisseu encontra, dos feácios que o acolhem ao ciclope que devora os hóspedes, e por ela mede também os pretendentes, que comem todos os dias à mesa de um homem ausente. Os deuses acompanham tudo de perto. Atena protege Odisseu e o filho e aparece a eles sob outras figuras, como a do velho Mentor, amigo da casa.
O argumento que atravessa o poema
O poema não começa pelo herói. Os quatro primeiros cantos seguem Telêmaco, que convoca a assembleia de Ítaca e viaja a Pilos e a Esparta em busca de notícias do pai, e só no Canto V Odisseu entra em cena, chorando na praia de Calipso. Ali ele recusa a imortalidade que a ninfa lhe oferece, porque quer voltar a uma ilha áspera e a uma mulher que vai envelhecer. A partir daí, o poema despe o herói de tudo, navio, companheiros, roupas e até o nome, e o faz reconquistar cada coisa: chega nu à terra dos feácios, diz o nome e conta, ele mesmo, as aventuras do retorno, e desembarca em Ítaca, onde Atena o disfarça de mendigo velho.
Na segunda metade, o problema se inverte. Odisseu já está em casa, mas precisa não ser reconhecido, e cada reconhecimento acontece de um modo próprio a quem reconhece: o filho ouve a revelação na cabana do porqueiro Eumeu, o cão Argos reconhece o dono à porta e morre, a ama Euricleia encontra a cicatriz ao lavar-lhe os pés, e Penélope o põe à prova com o segredo do leito construído em torno de uma oliveira. A prova do arco devolve a Odisseu o lugar de dono da casa, e a matança dos pretendentes devolve à casa a ordem que eles quebraram.
A pergunta por trás de tudo é o que faz de um homem quem ele é. Para o poema, não basta sobreviver: Odisseu volta quando volta a ser reconhecido como marido, pai, filho e rei, e o último canto termina com Atena firmando a paz entre ele e as famílias dos mortos.
Tema central
- A Odisseia é a história de um herói desmontado e remontado: a remontagem de uma identidade.
Odisseu é despojado de tudo (frota, companheiros, sete anos, até as roupas e o próprio nome) e se reconstrói peça por peça, não pela força, mas pela métis (engenho), pela palavra e pelas alianças. E há o movimento-par: Telêmaco precisa ser montado (amadurecer) enquanto o pai é remontado (recuperar-se).
Por que a tese se sustenta
- O arco dos Cantos V a VIII é literalmente uma remontagem: o náufrago nu na praia (o tição sob as cinzas) recupera fala, roupas, força, aliados e a identidade.
O que pesa contra ela
- Odisseu já é polytropos desde o proêmio: talvez ele não se "remonte", apenas revele quem sempre foi quando as circunstâncias o despojam.
Perguntas que ficam
- O que sobra de um homem quando se tira tudo? (A resposta de Homero parece ser: a métis e a vontade de retorno.)
- A Telemaquia (montar o filho) e a recuperação de Odisseu (remontar o pai) são o mesmo processo em fases diferentes?
O que se segue
- Se o herói se faz pela ação e pela palavra (não pelo nascimento nem pela força bruta), a heroicidade é algo que se conquista pela experiência.
Telêmaco: a Telemaquia e o amadurecimento
A obra começa pelo filho, não pelo pai. Os Cantos I-IV levam Telêmaco do jovem passivo (que imagina o pai chegando de algum lugar para expulsar os pretendentes) ao que age: Atena, na figura de Mentes, o convoca ("já não tens idade para atitudes infantis"), e o amadurecimento começa pela consciência do agora e pela viagem. É o "montar" do herói, par do "remontar" de Odisseu.
Os Nostoi (os retornos)
A Odisseia é um dos Nostoi, e os outros ressoam dentro dela: o retorno trágico de Agamenon (o paradigma de Orestes), o desvio de Menelau ao Egito, narrados na corte de Esparta, e o de Helena, raptada e depois devolvida.
O nome do herói, e por que ele é uma chave da obra
O nome de Odisseu significa ódio, e a maneira como o poema usa a palavra é o que transforma a curiosidade etimológica em chave de leitura. A leitura se apoia em três observações sobre Odisseu:
O nome de Odisseu vem de ódio. É o próprio poema que explica, no Canto XIX: Euricleia pede ao avô que ache o nome do neto, e Autólico escolhe Odisseu porque chegou ali "com o ódio de muitos" (19.403-409). O verbo é odýssomai, e o nome, em português, seria algo como o do ódio.
Mapeada a família de odýssomai no poema inteiro, a distribuição é reveladora: Atena cobra de Zeus "Por que contra ele esse ódio, Zeus?" (1.62); Leucoteia diz que Poseidon o odeia (5.340); ele próprio reconhece o ódio do treme-terra (5.423); e Zeus e o Sol têm ódio dele (19.275). Em quase todas, Odisseu é o alvo, não o sujeito. Só na fala do avô (19.407) o ódio não tem Odisseu por alvo.
Ou seja: o nome o marca sobretudo como o odiado. E é exatamente isso que o grito ao Ciclope realiza. Ao dizer em voz alta, sem necessidade nenhuma, o nome que significa ódio, ele produz contra si o ódio de um deus, e passa a ser o que o nome sempre disse. O nome se cumpre no ato de ser pronunciado. É uma leitura mais forte que a de que ele teria gritado por ódio, e é a que o texto sustenta: no momento do grito o poema fala em kótos, rancor guardado, e não em ódio (9.501).
Onde isso se lê no texto: o batismo no Canto XIX (19.406-409) e o grito ao Ciclope no Canto IX (9.500-505).
A identidade (nome, linhagem, terra, passado)
O que constitui um homem, e o que Odisseu reconquista.
A métis e o herói-artífice
A excelência não é só guerreira: é técnica e prática (a balsa do Canto V). O herói é "bom nas coisas".
A palavra como arma
Odisseu vence pela persuasão e pelas alianças ("conheça seu público", com Nausícaa).
Xenia: a hospitalidade sagrada
A hospitalidade ao estrangeiro como direito sagrado (e lubrificante do comércio do Mediterrâneo).
Dupla determinação x fatalismo
Os deuses agem, mas o herói também: culpar os deuses é fraqueza (a abertura de Zeus); o herói se vê como engrenagem ativa do destino (o paradigma de Orestes).
A palavra que a abertura de Zeus põe em jogo é atasthalíē, a cegueira arrogante que arruína por culpa exclusiva de quem a comete. Daí a consequência estrutural: ao contrário da Ilíada, a Odisseia tem teodiceia, uma ordem moral clara. Os companheiros morrem porque comeram o gado do Sol, e os pretendentes morrem porque violaram a xenia: em nenhum dos dois casos o destino é a única causa. É o que permite ler o massacre do Canto XXII como tísis, reparação de um direito, e não como vingança privada.
Prazer x dever
Calipso e o "eterno presente" sedutor contra o chamado do retorno e da identidade mortal. Odisseu recusa a imortalidade que ela oferece para poder voltar e envelhecer com Penélope.
Duas pontes com a cultura de hoje: em O Senhor dos Anéis, Arwen abre mão da imortalidade élfica para envelhecer e morrer ao lado de Aragorn, a mesma troca de Odisseu, só que invertida (ele troca o eterno pelo mortal para voltar, ela troca o eterno pelo mortal para ficar). E no filme Cidade dos Anjos, o anjo Seth abre mão da própria eternidade para viver, sentir e amar como humano, mesmo sabendo que isso inclui a dor e a morte. Nos três casos, a mesma pergunta de fundo: vale a pena trocar a eternidade vazia pela vida mortal, mas plena e verdadeira?
Arwen tornou-se uma mulher mortal, mas apesar disso não era seu destino morrer até perder tudo o que ganhara.
O enredo em poucas linhas
A Poética resume o poema inteiro numa frase, para mostrar que o argumento de uma epopeia é curto e o resto são episódios: um homem longe de casa por muitos anos, vigiado por Poseidon, que volta e se dá a conhecer.
τῆς γὰρ Ὀδυσσείας οὐ μακρὸς ὁ λόγος ἐστίν· ἀποδημοῦντός τινος ἔτη πολλὰ καὶ παραφυλαττομένου ὑπὸ τοῦ Ποσειδῶνος καὶ μόνου ὄντος, ἔτι δὲ τῶν οἴκοι οὕτως ἐχόντων ὥστε τὰ χρήματα ὑπὸ μνηστήρων ἀναλίσκεσθαι καὶ τὸν υἱὸν ἐπιβουλεύεσθαι, αὐτὸς δὲ ἀφικνεῖται χειμασθείς, καὶ ἀναγνωρίσας τινὰς ἐπιθέμενος αὐτὸς μὲν ἐσώθη τοὺς δ’ ἐχθροὺς διέφθειρε(1455b), pois o argumento da Odisseia não é longo: um homem está fora de casa por muitos anos, vigiado por Posêidon e sozinho, e em casa as coisas estão de tal modo que os pretendentes lhe gastam os bens e tramam contra o filho; ele chega, depois de passar pela tempestade, se faz reconhecer por alguns, ataca, e ele mesmo se salva e destrói os inimigos.