Ficha da obra
- Autor
- Stendhal
- Título original
- Le Rouge et le Noir
- Publicação
- 1830
- Gênero
- Romance realista, crônica de costumes
- Cenário
- Verrières (cidade inventada, no Franco-Condado), Besançon e Paris
- Época
- A Restauração francesa, por volta de 1830
- Narrador
- Terceira pessoa, com intervenções irônicas do narrador
- Protagonista
- Julien Sorel
Sobre o autor
O soldado de Napoleão que virou o analista mais frio da ambição e do amor na França da Restauração. Ler o perfil de Stendhal
A tese, em uma frase
Um rapaz pobre e inteligente descobre que a época fechou a porta pela qual ele entraria, e passa o livro inteiro entrando pela janela, até descobrir no fim que só foi feliz nas poucas horas em que não estava calculando.
O livro não explica o título; a leitura que o faz mapa da carreira é esta: o vermelho é a farda, que fazia general aos trinta anos no tempo de Napoleão, e o negro é a batina, que é o que sobrou depois da Restauração para quem quer subir sem nascer em berço. Julien enuncia isso como cálculo frio, não como vocação.
A frase que resume o eixo do livro inteiro não usa as palavras "vermelho" e "negro", mas é elas:Hoje em dia vemos padres de quarenta anos recebendo cem mil francos de vencimentos, ou seja, três vezes mais do que os famosos generais de divisão de Napoleão. [...] É preciso ser padre.
E o mundo que ele quer escalar se resume numa expressão que Stendhal põe em maiúsculas logo na abertura, porque é a régua de Verrières inteira.
O narrador entrega a chave da cidade numa única frase maiúscula, que funciona como epígrafe interna do capítulo II:Eis a grande palavra que decide tudo em Verrières: DAR LUCRO. Por si só representa o pensamento habitual de mais de três quartos dos habitantes.
O argumento, parte a parte
Livro I, caps I a XV. Verrières, a casa dos Rênal, a formação de Julien entre a serraria e o Memorial de Santa Helena. O amor com a senhora de Rênal nasce como conquista a ser vencida, não como afeto, e a casa inteira vira campo de guerra: quando arranca o aumento do patrão, é o próprio Julien quem chama a vitória de batalha.
Cap. X. Depois de arrancar o aumento, Julien sobe ao bosque e dá nome ao que fez no vocabulário do chefe que admira, a guerra:Ganhei uma batalha, disse a si mesmo tão logo se viu no bosque e longe do olhar dos homens. Ganhei uma batalha!
Livro I, caps XVI a XXX. A carta anônima, a saída de Verrières e o seminário de Besançon, onde o mérito é suspeito e a inteligência é perigo. O apelido que os colegas lhe dão diz tudo sobre o que uma instituição faz com quem raciocina.
apelidaram-no MARTINHO LUTERO; sobretudo, diziam, por causa dessa lógica infernal de que se orgulhava tanto.
Livro II, caps I a XV. Paris, o palácio de La Mole, a descoberta de que ali a origem pesa mais que qualquer serviço prestado. É a parte mais política do romance.
Livro II, caps XVI a XXX. Mathilde, e o amor como guerra de vaidades, oposto exato do que aconteceu no Livro I. Julien nomeia a diferença sem meias palavras, e é a passagem que sustenta qualquer discussão sobre os dois amores do livro.
A sra. de Rênal encontrava razões para fazer o que seu coração lhe ditava; essa moça da alta sociedade só deixa o coração se comover depois de encontrar boas razões para que se comova.
E o romance para no meio da conspiração para dizer o que está fazendo, num diálogo fingido entre autor e editor, que é a chave que autoriza ler o livro inteiro pelo eixo político.
"A política", continua o autor, "é uma pedra amarrada no pescoço da literatura e que, em menos de seis meses, a faz submergir. A política, entre os interesses da imaginação, é um tiro de pistola no meio de um concerto. Esse ruído é dissonante sem ser enérgico. Não se harmoniza com o som de nenhum instrumento. Essa política vai ofender mortalmente metade dos leitores e aborrecer a outra metade, que a achou bem mais interessante e vibrante no jornal da manhã." "Se seus personagens não falarem de política", continua o editor, "não serão mais franceses de 1830, e seu livro não será mais um espelho conforme o senhor queria…"
O argumento do editor é o que vence, e o livro o cumpre: sem política os personagens deixam de ser franceses de 1830, e o subtítulo deixa de valer. Quem lê a obra só como história de ambição amorosa fica com metade dela, e é a metade menos original, porque a ambição de Julien só tem a forma que tem por causa das portas que a Restauração fechou.
Livro II, caps XXXI a XLV. A carta da senhora de Rênal derruba tudo às vésperas do triunfo, vem o tiro na igreja, o processo e a prisão. No tribunal Julien para de se defender e acusa, e é o trecho mais citado da obra.
Senhores, não tenho a honra de pertencer à sua classe, os senhores veem em mim um camponês que se revoltou contra a baixeza de sua sorte.
E a inversão final, que é o que salva o livro de ser apenas a crônica de um arrivista: preso e sem futuro, ele descobre que a única coisa verdadeira que teve estava atrás, e não adiante.
Não poderíamos passar dois meses juntos de uma maneira deliciosa? Dois meses são muitos dias. Nunca terei sido tão feliz.
Uma leitura
O livro não julga Julien, e essa é a dificuldade de conduzi-lo. Stendhal mostra o cálculo por dentro, com simpatia e sem absolvição, e quem lê rápido sai achando que o romance defende a hipocrisia ou que a condena. Ele faz outra coisa: mostra o preço de cada caminho numa sociedade que fechou os caminhos honestos, e deixa a conta para o leitor.
Os dois amores são o experimento central. A senhora de Rênal ama sem saber que ama, e Mathilde ama a própria coragem de amar abaixo da classe dela. Um é natureza, o outro é literatura vivida como projeto, e o livro só se fecha quando Julien, na prisão, escolhe o primeiro depois de uma vida inteira apostando no segundo.
O subtítulo é instrução de leitura, não enfeite. Crônica de 1830 avisa que a matéria é a França da Restauração, com o clero, a Congregação e a nobreza que voltou fingindo que a Revolução não aconteceu. Sem esse pano de fundo, metade da ironia passa batido, e é por isso que a edição com notas importa na primeira leitura.
O que a crítica já fizeram com ele
Erich Auerbach dedica a este romance a abertura do capítulo do Mimesis sobre o realismo moderno, e o título do capítulo é o endereço de Julien em Paris. A tese dele não é estética, é biográfica: o realismo de Stendhal nasce do atrito entre o escritor e uma época em que ele não achava lugar.
A literatura realista de Stendhal brotou do seu mal-estar no mundo pós-napoleônico, nssim como da consciência de não pertencer ao mesmo e de não ter nêlc um lugar certo., p. 409
E dessa origem Auerbach tira o juízo que separa Julien de toda a geração seguinte de personagens franceses:
Julien Sorel é muito mais "herói" do que as figuras de Balzac ou de Flaubert., p. 414
As duas leituras batem no mesmo ponto por caminhos opostos.
Olavo de Carvalho o lê como o primeiro dos dois romances em que o mito da autorrealização fracassa, ao lado das Ilusões Perdidas de Balzac, em O Jardim das Aflições:
Entre Goethe e Dostoiévski, Olavo situa dois romances que mostram o mesmo mito fracassando, e o primeiro é O Vermelho e o Negro.Em Le Rouge et le Noir, o gênio de Stendhal narra a história de um típico arrivista dos novos tempos, que fracassa tragicamente apesar de todo o talento e dos mais tenazes esforços.O segundo é Illusions Perdues, de Balzac, cujo título ele chama de resumo de milhares de vidas de jovens que acreditaram no apelo prometeico da Revolução.
E acrescenta uma acusação que vale discutir contra o próprio desfecho:
Mas o juízo não para no diagnóstico, e é ele que separa os dois franceses de Goethe e de Dostoiévski.Mas nem Stendhal nem Balzac enxergavam muito além do círculo histórico-cósmico onde se desenrolavam as vidas de seus personagens: em Balzac o drama permanece inconcluso, e Stendhal encontra alívio no esteticismo cético e diletante.
O teste mais duro que este romance já passou
Anne Applebaum registra, em Gulag, que contar enredos de romances de cor era estratégia de sobrevivência nos campos, e nomeia este entre os que foram contados assim.
Os títulos que Applebaum nomeia nessa prática são clássicos, e ela registra que funcionavam melhor que os romances soviéticos recentes:Aleksander Wat contou O vermelho e o negro, de Stendhal, para um grupo de bandidos quando estava na prisão.Na mesma página entram Os miseráveis, contado por Alexander Dolgun, e Os três mosqueteiros, por Janusz Bardach, que diz ter sentido o próprio status crescer a cada dobra do enredo.
Sem o texto, sem o estilo e sem a ironia do narrador, sobra o enredo puro, e ele ainda segurou a atenção de um público sem nenhuma disposição literária. É o argumento mais concreto contra a ideia de que o livro se sustenta pelas discussões e pelo ambiente: o que prendeu foi a história de Julien subindo e caindo.