Ficha da obra
- Título original
- Преступление и наказание (Prestuplénie i nakazánie)
- Publicação
- 1866, em folhetim no Mensageiro Russo; em livro em 1867
- Gênero
- Romance psicológico e filosófico
- Cenário
- São Petersburgo, em volta da praça Siénnaia, num julho da década de 1860; no epílogo, um presídio na Sibéria
- Narrador
- Terceira pessoa, colado a Raskólnikov e, por trechos, a outras personagens
- Estrutura
- Seis partes e um epílogo, 41 capítulos
- Protagonistas
- Raskólnikov e Sônia
Sobre o autor
Cristão ortodoxo, condenado à morte e indultado no cadafalso, voltou da Sibéria crítico do socialismo que tinha abraçado e escreveu os romances em que as ideias são postas à prova na vida de quem as defende. Ler o perfil de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski
Tema central
Um ex-estudante pobre de São Petersburgo, Rodion Românovitch Raskólnikov, mata a machadadas uma velha penhorista e a irmã dela, que chega na hora errada, para provar a si mesmo uma teoria: a de que os homens extraordinários têm o direito de transpor a lei moral quando a ideia deles o exige. O livro não pergunta se ele vai ser pego, pergunta o que o crime faz com quem o cometeu. A polícia não tem prova, e o cerco é feito pela consciência dele, pelo juiz de instrução que o entende antes de qualquer evidência e por uma moça que se prostitui para sustentar a família e lê para ele a ressurreição de Lázaro. A teoria cai antes do castigo, e o castigo verdadeiro não é a Sibéria.
A história se passa num mês de julho de calor sufocante, em meados da década de 1860, nas ruas em volta da praça Siénnaia, o bairro mais pobre da capital, e termina num presídio às margens de um rio siberiano. Em volta de Raskólnikov estão a família que se sacrifica por ele (a mãe e a irmã Dúnia, prometida a um advogado que a quer pobre para tê-la grata), o amigo Razumíkhin, a família de um funcionário bêbado, Marmieládov, cuja filha é Sônia, e um proprietário de má fama, Svidrigáilov, que persegue Dúnia e se descobre parecido demais com ele.
O fio que atravessa a obra
O romance não pergunta se Rodion Românovitch Raskólnikov vai ser pego, pergunta o que decide um homem a agir, e responde que não é a razão sozinha. Ele chega à primeira página com a teoria pronta e o crime ruminado na cabeça há um mês, e mesmo assim precisa de uma cadeia de coincidências para que o corpo execute o que a razão já havia decidido.
Точно он попал клочком одежды в колесо машины, и его начало в нее втягивать., Era como se tivesse prendido um pedaço da roupa na roda de uma máquina, e ela começasse a puxá-lo para dentro.
Da segunda parte em diante a ordem se inverte: o corpo entrega o que a mente ainda defende. Ele esconde os objetos, delira o crime em voz alta, volta ao lugar onde matou, e escapa por acaso, não por método.
A terceira parte é onde a teoria enfim se enuncia em público, no artigo e no interrogatório, e o teste já contém o veredito: ele sustenta a tese em abstrato, com Napoleão e Licurgo, e recua diante da consequência concreta. Antes disso, Razumíkhin já tinha dito contra os socialistas o que o livro inteiro vai mostrar:
Живая душа жизни потребует, живая душа не послушается механики, живая душа подозрительна, живая душа ретроградна!, A alma viva vai pedir vida, a alma viva não vai se submeter à mecânica, a alma viva é desconfiada, a alma viva é retrógrada!
A quinta parte desfaz a leitura fácil de que a confissão nasce de arrependimento. Ele confessa porque não aguenta mais estar sozinho com a teoria, e o que pede a Sófia Semeónovna Marmieládova não é perdão.
мне надо было узнать тогда, и поскорей узнать, вошь ли я, как все, или человек? Смогу ли я переступить или не смогу! Осмелюсь ли нагнуться и взять или нет? Тварь ли я дрожащая или право имею…, eu precisava saber então, e saber depressa: sou um piolho, como todos, ou um homem? Vou conseguir transpor ou não vou! Ouso me abaixar e pegar ou não? Sou uma criatura trêmula ou tenho o direito…
A sexta parte põe as duas respostas possíveis lado a lado, e é o desenho mais limpo do livro: Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov, que nunca teve teoria nenhuma e só apetite, e Sônia, que nunca teve teoria e só o outro. O primeiro se mata; o segundo caminho leva à praça.
O cerco que atravessa a metade do livro é conduzido por Porfiri Pietróvitch sem uma única prova material, e é essa escassez deliberada que impede o romance de resolver a própria pergunta por via policial.
Contra a leitura de que a miséria explica o crime, o livro mantém em cena, desde a Primeira Parte, Dmitri Prokófitch Razumíkhin, que tem a mesma pobreza e a mesma faculdade interrompida e não chega à mesma conclusão.
E o epílogo não resolve a teoria, suspende. Até a penúltima página Raskólnikov não se arrepende do assassinato: ele se envergonha de ter falhado.
он не раскаивался в своем преступлении, ele não se arrependia de seu crime.
Os três degraus da mesma escada, que as fichas de personagem separam: Piotr Pietróvitch Lújin tem a teoria sem grandeza nenhuma, Raskólnikov tem a teoria e a grandeza, e Svidrigáilov não tem teoria alguma, só apetite.