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Ficha da obra

Título original
Der Zauberberg
Publicação
1924
Gênero
Romance de formação, romance de ideias
Cenário
O sanatório Berghof, em Davos, nos Alpes suíços
Época
Os sete anos que antecedem a Primeira Guerra Mundial
Narrador
Terceira pessoa, um narrador que comenta e se dirige ao leitor
Protagonista
Hans Castorp

Sobre o autor

O romancista alemão que fez de um sanatório nos Alpes o retrato de uma Europa às vésperas da guerra. Ler o perfil de Thomas Mann

O narrador avisa o que vai fazer, e cumpre

O livro abre com um prólogo de três páginas em que o narrador declara o método, e o método é o assunto.

O narrador também anuncia, já no Propósito, o método com que vai contar a história. Narrá-la-emos pormenorizadamente, com exatidão e minúcia
Capítulo I: A chegada ao Berghof

E fecha o mesmo prólogo com uma piada que o leitor só entende no fim:

Fechando o Propósito, o narrador brinca com a duração da própria narrativa e antecipa, ainda que negando, a medida real da estada de Hans Castorp. Decerto não chegará — Deus me livre — a sete anos!
Capítulo I: A chegada ao Berghof

Quem lê a exaustividade do livro como defeito está reclamando exatamente do que foi anunciado antes da primeira cena. O tempo do romance não é longo por descuido: a duração é o instrumento, e um livro sobre o que a duração faz com uma pessoa não pode ser curto sem se desmentir.

O tempo, que é o assunto e também a forma

A pergunta atravessa os sete capítulos e muda de registro em cada um. No capítulo III ela é uma conversa entre dois primos entediados; no IV vira digressão do narrador; no VII volta como confissão de impossibilidade.

O hábito representa a modorra, ou ao menos o enfraquecimento, do senso de tempo, e o fato dos anos de infância serem vividos mais vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa — esse fato também se baseia no hábito, Excurso sobre o sentido do tempo
Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro
O capítulo abre negando a possibilidade e ao mesmo tempo praticando-a: Pode-se narrar o tempo, ele próprio, o tempo como tal, em si mesmo? Não, de fato não, algo assim seria um arrojo insano!
Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão

A tese do hábito é a mais aproveitável do livro fora dele, e não precisa de sanatório nenhum: o tempo encolhe onde nada muda, e a rotina que protege é a mesma que apaga. É por isso que a montanha adoece quem fica, mesmo quem sobe são.

Por que ele fica, e a resposta é do capítulo II

O romance responde antes de perguntar. O diagnóstico do narrador sobre o jovem, feito no flashback da infância, explica os sete anos melhor do que a mancha no pulmão.

Quando essa resposta falta, o efeito não fica confinado ao ânimo: Para alguém se dispor a empreender uma obra que ultrapasse a medida da necessidade pura e simples, sem que seu tempo saiba uma resposta satisfatória à pergunta "Para quê?", é indispensável um isolamento e prontidão moral, algo raro e de natureza heroica, ou então uma vitalidade muito robusta, e Hans Castorp, diz o narrador, não possuía nem uma coisa nem outra.
Capítulo II: A pia batismal e as duas figuras do avô

Hans Castorp não é seduzido por Settembrini nem por Naphta porque seja tolo; é permeável porque a época dele não lhe deu resposta nenhuma, e homem sem resposta aceita qualquer sistema que ofereça uma. O livro é sobre a Europa de antes de 1914 exatamente nesse sentido, e não por citar a guerra no fim.

O duelo de doutrinas, e o que o romance faz com ele

Settembrini é o humanista, a razão, o progresso, a forma. Naphta é a autoridade, o terror, a comunidade, a dissolução da forma. Discutem por anos, com o rapaz no meio, e o romance recusa dar razão a qualquer um dos dois: um se mata, o outro fica sem argumento diante de um homem que não tem nenhuma ideia.

Quando Clawdia os apresenta, o narrador nomeia o efeito que o holandês causa: quem o via sabia de repente o que era uma personalidade, e mais ainda: convencia-se de que uma personalidade não podia ser diferente dele.
Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão

Peeperkorn é a peça mais estranha e mais decisiva do livro: a resposta ao duelo não é uma terceira doutrina, é uma presença. Quem tenta resumir o romance pelas teses de Settembrini e de Naphta perde justamente isso, e fica com um debate em vez de um romance.

A saída que o próprio protagonista formula não vem de nenhum dos dois, e vem quando ele está prestes a morrer congelado:

Não quero conceder à morte poder algum sobre meus pensamentos! Pois é nisso que consistem a bondade e a filantropia, e em nada mais. [...] O amor enfrenta a morte; só ele, e não a razão, é mais forte que ela.
Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim

E ele esquece. O romance dá ao personagem a frase que resolveria tudo e não o deixa ficar com ela, o que é a decisão mais dura do livro e a razão de ele não terminar em lição.

O fim

A despedida final do narrador não promete nada, apenas pergunta: Será que também desta festa mundial da morte, e também da perniciosa febre que inflama o céu da noite chuvosa, ainda surgirá o amor?
Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão

O que a crítica fez com ele

Otto Maria Carpeaux, em A História Concisa da Literatura Alemã, dá duas teses sobre este romance que valem mais que qualquer resumo de enredo. A primeira desloca o assunto do livro de um sanatório suíço para o continente:

Sobre A Montanha Mágica em particular, Carpeaux dá duas teses que valem mais que qualquer resumo de enredo. A primeira é sobre o que o livro é: Der Zanberberg (A Montanha Mágica) resume todas as obras anteriores, mas com orientação nova. É o romance de uma decadência, como Os Buddenbrooks, mas não de uma família alemã, e sim da Europa inteira.
A História Concisa da Literatura Alemã - Parte 4 - Do Simbolismo à sombra do muro

A segunda diz que a digressão não é excesso, é o gênero, e batiza esse gênero:

A segunda é sobre o que o livro inaugura como forma, e é dela que sai o nome de gênero que a crítica passou a usar. A Montanha Mágica é um dos primeiros exemplos de essai-roman (romance-ensaio), que será um dos gêneros dominantes da literatura moderna.
A História Concisa da Literatura Alemã - Parte 4 - Do Simbolismo à sombra do muro

As duas juntas respondem a objeção mais frequente ao livro. Quem reclama de que ele para o enredo para discutir tempo, doença, política e forma está descrevendo o que Carpeaux chama de romance-ensaio, e pedindo que o romance seja outra coisa. Vale ler com isso na mão, porque muda a expectativa antes da primeira página.

Mortimer Adler usa este romance, em Como Ler Livros, como o exemplo de uma regra que ele dá para toda ficção, e é a regra que o livro mais cobra do leitor:

A regra vale mesmo quando o personagem faz discurso de tese, e Adler dá o exemplo com nome e sobrenome: ainda que um personagem venha a manifestar-se desse modo - por exemplo, como Settembrini fala do progresso em A montanha mágica, de Thomas Mann -, não é possível ter certeza de que a opinião do autor está sendo aí representada
Como Ler Livros - Parte 3 - Como ler cada gênero

E Olavo de Carvalho, em O Jardim das Aflições, usa o enredo como prova de que assunto pequeno carrega época inteira:

Esqueceu-se de dizer que o núcleo do enredo d’A Montanha Mágica de Thomas Mann, livro que condensa todo o drama das idéias do século XX, não passa da altercação entre dois velhinhos — Naphta e Settembrini — no asilo de tuberculosos em Davos.
O Jardim das Aflições - Livros I e II - Pessanha e Epicuro