Ficha da obra
- Título original
- Бесы (Biéssy)
- Publicação
- 1871 a 1872, em folhetim no Mensageiro Russo; em livro em 1873
- Gênero
- Romance
- Cenário
- Uma cidade de província russa no fim da década de 1860, narrada por um cronista que é morador dela
- Narrador
- Primeira pessoa, um cronista que participa de parte dos fatos e reconstrói o resto
- Estrutura
- Três partes e o capítulo «Com Tíkhon», que a revista recusou e saiu à parte
- Protagonistas
- Stavróguin, Piotr Stiepánovitch e Stiepan Trofímovitch
Sobre o autor
Cristão ortodoxo, condenado à morte e indultado no cadafalso, voltou da Sibéria crítico do socialismo que tinha abraçado e escreveu os romances em que as ideias são postas à prova na vida de quem as defende. Ler o perfil de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski
Tema central
Numa cidade de província russa, um quinteto mal organizado, que se julga a ponta de uma rede revolucionária mundial, produz em poucos dias um desastre de cidade inteira: um incêndio que consome uma rua, os Lebiádkin degolados, Lizavieta Nikoláievna morta pela multidão, Chátov assassinado no parque, Kiríllov suicida. O livro não pergunta se eles conseguirão a revolução. Pergunta como gente respeitável e bem-intencionada abre o caminho para eles sem perceber, e a primeira resposta é uma filiação: Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski, o liberal idealista dos anos 1840, que passou vinte anos de pose cívica, de mesada e de amizade histérica, educou Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin e gerou Piotr Stiepánovitch, que organiza assassinatos. É por isso que o romance abre devagar, como comédia de costumes de província, e não como romance político.
A segunda resposta é o mecanismo, e é o que dá ao livro validade fora da Rússia de 1870: o grupo não vence pela força, vence porque a cidade não quer parecer atrasada. O governador cede à lógica do próprio liberalismo, o salão absolve Stavróguin por uma frase, a plateia da matinê descobre que pode responder, e o que liga tudo, diz Piotr a Stavróguin, é a vergonha de ter opinião própria. No centro de todos está o próprio Stavróguin, que cada um disputa como bandeira: Kiríllov e Chátov, discípulos dele, levam a sério as ideias que dele receberam (o homem-Deus, o povo que carrega Deus), Piotr o inventou no estrangeiro para fazer dele um chefe que se oculta, e ele recusa cada pedido sem achar onde gastar a própria força. Chigalióv, autor de um sistema que parte da liberdade ilimitada e chega ao despotismo ilimitado, é de outra raiz. Piotr é o único que não acredita em doutrina nenhuma e se serve de todas, e é o único que escapa.
O fio que atravessa a obra
O romance pergunta como se fabrica um desastre de cidade com pouca gente, pouca doutrina e muito aproveitamento do que já estava lá, e responde pelo que cada pessoa entrega sem saber. Tudo começa por um pai. Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski é o retrato do liberal idealista: nunca esteve exilado nem sob vigilância, não escreveu a obra que prometia, e a conversa de salão que o cerca chama-se, pelo cronista, liberalismo superior (capítulo I da Primeira Parte).
«Высший либерализм» и «высший либерал», то есть либерал без всякой цели, возможны только в одной России, o "liberalismo superior" e o "liberal superior", isto é, o liberal sem objetivo nenhum, só são possíveis na Rússia.
Dele saem dois filhos que o pai não vê. Varvara Pietrovna Stavróguina inventou Stiepan e foi a primeira a crer na invenção; Stiepan educou o filho dela, Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin, e gerou Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski, que só aparece por uma carta que cobra dinheiro. Quando Piotr entra no salão de Varvara, fala sem parar, conta a história de Nicolas antes que Nicolas volte e lê em voz alta a carta do pai sobre «pecados alheios» (capítulo V da Primeira Parte). Nicolas o descreve em uma frase, diante dele, com a mesma frieza com que Piotr fala.
Петр Степанович — всеобщий примиритель; это его роль, болезнь, конек [...] в качестве реалиста он не может солгать и что истина ему дороже успеха… разумеется, кроме тех особенных случаев, когда успех дороже истины, Piotr Stiepánovitch é o conciliador universal; esse é o papel dele, a doença dele, o cavalo de batalha [...] como realista, ele não pode mentir, e a verdade lhe é mais cara que o sucesso... exceto, claro, nos casos particulares em que o sucesso é mais caro que a verdade.
As ideias que os outros levam a sério são de Stavróguin, e voltam à porta dele na forma de cobrança. Na noite da Segunda Parte (capítulo I da Segunda Parte), Alexei Kiríllov dá o nome do que virá depois de Deus, e Ivan Chátov dá o do povo que o carrega.
Он придет, и имя ему человекобог, ele virá, e o nome dele é homem-Deus.
Народ — это тело божие, o povo é o corpo de Deus.
Nenhum dos dois consegue viver a doutrina que anuncia: Chátov, perguntado a queima-roupa se crê em Deus, só responde no futuro, e Kiríllov, como se verá, não morre como ensina. Stavróguin atravessa as visitas sem aceitar dívida nenhuma, e, depois do duelo em que atira para o alto, ouve de Kiríllov o que ninguém lhe dizia (capítulo III da Segunda Parte).
Я думал, вы сами ищете бремени, pensei que o senhor mesmo procurasse o fardo.
Piotr, que não tem doutrina, trabalha a crença dos outros e administra o tamanho da conspiração que cada ouvinte precisa admitir. Ao governador ele diz que o movimento cabe em três homens e meio (capítulo VI da Segunda Parte), ao quinteto de Virguinski deixa a fé numa rede que ninguém viu (capítulo VII da Segunda Parte).
Да кто управляет-то? три человека с полчеловеком. Ведь, на них глядя, только скука возьмет, quem é que dirige, afinal? Três homens com meio homem. Só de olhar para eles dá tédio.
Все эти пятеро деятелей составили свою первую кучку с теплою верой, что она лишь единица между сотнями и тысячами таких же пятерок, как и ихняя, разбросанных по России, и что все зависят от какого-то центрального, огромного, но тайного места, которое в свою очередь связано органически с европейскою всемирною революцией, todos esses cinco militantes formaram o seu primeiro grupinho com a fé calorosa de que era só uma unidade entre centenas e milhares de quintetos iguais ao deles, espalhados pela Rússia, e de que todos dependiam de algum lugar central, enorme mas secreto, ligado por sua vez, organicamente, à revolução mundial europeia.
Na mesma sala, Chigalióv lê o sistema que escreveu sozinho: partindo da liberdade ilimitada, conclui com o despotismo ilimitado. Ele chega à conclusão contra a vontade e sofre com ela; Piotr a elogia e a descarta no mesmo quarto de hora, e quando Stavróguin lhe pergunta para que quer poder sobre ele, Piotr perde a calma e diz o que o move.
Выходя из безграничной свободы, я заключаю безграничным деспотизмом, partindo da liberdade ilimitada, concluo com o despotismo ilimitado.
Я вас с заграницы выдумал; выдумал, на вас же глядя. Если бы не глядел я на вас из угла, не пришло бы мне ничего в голову!.., eu o inventei no estrangeiro, olhando para você mesmo. Se eu não tivesse olhado para você de um canto, nada me teria vindo à cabeça!..
O resto do trabalho a cidade faz sozinha. Uma frase da governadora muda em uma tarde a opinião de todos sobre Stavróguin (capítulo IV da Segunda Parte), e no dia da matinê os homens de primeira linha, que até então se mantinham por cima, passam a ouvir e a calar (capítulo I da Terceira Parte).
Разве возможно удивление, что Ставрогин дрался с Гагановым и не отвечал студенту? Не мог же он вызвать на поединок бывшего крепостного своего человека, mas como é possível alguém se admirar de que Stavróguin tenha se batido com Gagánov e não tenha respondido ao estudante? Não podia desafiar para um duelo um antigo servo seu!
первейшие люди, до тех пор так благополучно державшие верх, стали вдруг их слушать, а сами молчать, os homens de primeira linha, que até então tão tranquilamente se mantinham por cima, de repente passaram a ouvi-los, e eles próprios a calar.
Quando o fogo e as mortes chegam, ninguém decide sozinho. Stavróguin sabia que os Lebiádkin seriam mortos e não deteve os assassinos, e a mão que derruba Lizavieta Nikoláievna na multidão é «de alguém» (capítulo III da Terceira Parte). A responsabilidade se reparte de modo a não caber num nome, e é dessa brecha que Piotr vive.
Я не убивал и был против, но я знал, что они будут убиты, и не остановил убийц, eu não matei e era contra, mas sabia que seriam mortos e não detive os assassinos.
Вдруг я увидел, что над ее головой, сзади, поднялась и опустилась чья-то рука; Лиза упала, de repente vi que, por trás, sobre a cabeça dela, ergueu-se e desceu a mão de alguém; Lizá caiu.
Quando o corpo entra em cena, a doutrina cai. No parque, depois do tiro e das pedras, é Virguinski quem grita (capítulo VI da Terceira Parte), e Piotr, que previra tudo, estranha o que vê.
Это не то, не то! Нет, это совсем не то!, não é isso, não é isso! Não, não é nada disso!
O caso mais citado do livro fora da literatura é o de Kiríllov, e é também o mais mal lido. A doutrina dele é fria e completa: se Deus não existe, a vontade própria é dele, e o ponto mais alto dela é matar-se. Albert Camus o toma por caso-limite do suicídio lógico em O Mito de Sísifo, e a leitura vale para o argumento. A cena da morte mostra outra coisa.
Я хочу изругать… [...] Я хочу изругать…, quero xingar... [...] quero xingar... E, na fuga de Piotr, os gritos vêm de dentro da casa:Сейчас, сейчас, сейчас, сейчас…, já, já, já, já...
Kiríllov ri, escreve um deboche no papel, se esconde num canto, morde o dedo de Piotr e só atira depois de gritar «já» umas dez vezes. A doutrina é fria, a morte não é. Stavróguin faz a inversão exata. Morre sem proclamar doutrina nenhuma, e a cena mostra premeditação: o cordão ensaboado, o prego de reserva, o bilhete que diz só que ninguém seja culpado, e médicos que, depois da autópsia, rejeitam a loucura (capítulo VIII da Terceira Parte).
Никого не винить, я сам, não culpem ninguém, fui eu mesmo. E, depois da autópsia,Наши медики по вскрытии трупа совершенно и настойчиво отвергли помешательство, os nossos médicos, depois da autópsia, rejeitaram de modo completo e insistente a hipótese de loucura.
A chave do título vem no fim e de um personagem em febre. Stiepan Trofímovitch, doente numa estalagem, pede a Sófia Matvêievna a passagem dos porcos e a aplica à Rússia (capítulo VII da Terceira Parte).
Эти бесы, выходящие из больного и входящие в свиней, — это все язвы, все миазмы, вся нечистота, все бесы и все бесенята, накопившиеся в великом и милом нашем больном, в нашей России, за века, за века, esses demônios que saem do doente e entram nos porcos são todas as chagas, todos os miasmas, toda a imundície, todos os demônios e demoniozinhos que se acumularam, ao longo dos séculos, dos séculos, no nosso grande e querido doente, na nossa Rússia.
E se inclui na conta, ao lado do filho.
Это мы, мы и те, и Петруша [...] и я, может быть, первый, во главе, и мы бросимся, безумные и взбесившиеся, со скалы в море и все потонем, и туда нам дорога, потому что нас только на это ведь и хватит, somos nós, nós e aqueles, e Pietrucha [...] e eu, talvez o primeiro, à frente, e nos lançaremos, loucos e raivosos, de um penhasco ao mar e todos nos afogaremos, e é para lá o nosso caminho, porque é só para isso que damos conta.
A leitura corrente do título diz que os demônios são as ideologias, que entram nos homens e os precipitam no abismo. Ela não é falsa, e para antes da parte que o romance explica sozinho. O intérprete se nomeia entre os porcos, e a alegoria deixa de ser acusação e passa a ser confissão. Há ainda uma consequência para Stavróguin. O Evangelho reserva o «são juízo» ao homem curado, sentado aos pés de Jesus, e o romance o dá a Stavróguin sem a cura: no documento que leva a Tíkhon ele diz estar em pleno juízo, na carta a Dária diz que nunca pode perdê-lo, e os médicos o confirmam depois da autópsia. Ele tem o juízo e nenhuma cura, o que faz dele o portador que não adoece e não o possesso. Duas leituras cabem para a fala de Stiepan: lucidez de febre, que diz a verdade porque já não precisa de plateia, ou o último discurso de um orador, que ainda precisa de uma.