Ficha da obra
- Autor
- Machado de Assis
- Publicação
- Em livro em 1899, pela Garnier
- Gênero
- Romance
- Cenário
- O Rio de Janeiro do Segundo Reinado: a Rua de Matacavalos, o seminário de São José, a Glória e o Engenho Novo
- Época
- De 1857, quando Bentinho tem quinze anos, até a volta de Ezequiel adulto, muitos anos depois de 1872, contada por ele perto do fim do século
- Narrador
- Primeira pessoa: Bento Santiago já velho, que conta a própria vida e é a parte interessada
- Protagonista
- Bento Santiago, o Bentinho, e Capitu, a vizinha de infância com quem se casa
Sobre o autor
O menino pobre do Morro do Livramento que, quase sem sair do Rio, escreveu os romances em que o Brasil do Império se vê por dentro, com ironia e sem consolo. Ler o perfil de Machado de Assis
Tema central
Bento Santiago, velho e sozinho numa casa do Engenho Novo, escreve a própria vida para responder a uma pergunta que nunca formula direito: se a mulher, Capitu, o traiu com o melhor amigo, Escobar. O livro não é sobre o adultério de Capitu, é sobre a construção de uma acusação. O leitor recebe todo o material pelas mãos do acusador, e o romance é montado para que essa condição fique visível sem nunca ser dita.
O que faz a peça funcionar é que Bentinho não é mentiroso. Logo no começo ele confessa que o projeto da casa fracassou e avisa que está selecionando o que conta, e é justamente essa honestidade parcial que dá autoridade ao resto. É o mesmo mecanismo de O Alienista: lá a boa-fé de quem define a loucura é o que torna o resultado assustador, e não a hipocrisia.
Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas, mas quero ser poupado.
O fio que atravessa a obra
A distância entre o fato reportado e a leitura que o narrador faz dele sustenta a tese do romance, ou já é contaminação retroativa de quem escreve décadas depois, convencido? Não há como separar as duas coisas, e é isso que o livro está demonstrando. A prova não está em nenhum capítulo isolado: está no percurso das duas imagens que decidem a fama de Capitu.
As duas imagens dos olhos
A primeira nasce no capítulo XXV, na boca de José Dias, no mesmo encontro em que ele muda de posição sobre o seminário por interesse próprio.
Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.
A segunda nasce no capítulo XXXII, na pena do Bentinho velho, que procura a comparação para o que sentiu apaixonado, aos quinze anos, entre fascínio e ameaça, logo depois de ele examinar os olhos dela atrás da dissimulação que José Dias apontara e não achar nada de extraordinário.
Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.
Noventa e um capítulos depois, no velório, a segunda imagem volta, agora aplicada ao olhar da mulher sobre o cadáver do amigo.
os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos; como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã
E as duas, que nasceram em bocas diferentes e por motivos diferentes, e que no capítulo L o próprio narrador negara juntas ("não eram oblíquos, nem de ressaca"), voltam lado a lado no fim do livro, no capítulo CXLVIII, como se fossem um traço permanente de uma pessoa.
Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada.
As duas provas visuais que condenam Capitu na memória de todo leitor têm, dentro do próprio texto, origem datada, boca identificada e motivo. O romance dá esses dados de graça. Quem os junta como traço de caráter é o narrador, na última página, e já com a conclusão pronta.
A semelhança que o livro já tinha explicado
No capítulo LXXXIII, Gurgel, pai de Sancha, mostra a Bentinho o retrato da falecida mulher e diz que Capitu se parece com ela, nas feições e no gênio, sem que o livro dê parentesco algum entre as duas.
Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas.
No capítulo CXL, já com a separação decidida, o próprio Bentinho se lembra dessas palavras, e mesmo assim lê as feições de Ezequiel como prova.
Reduzem-se a dizer que há tais semelhanças inexplicáveis...
O livro põe, uns cinquenta e cinco capítulos antes da acusação (do LXXXIII ao CXXXVIII), o caso de uma semelhança sem culpa nenhuma, e o narrador o recorda na hora de decidir. Ele não esqueceu o argumento contra si: lembra-o no capítulo CXL e, no mesmo intervalo, deixa que as lembranças de Escobar e Capitu o atropelem.
A favor da leitura da traição
Quatro elementos a sustentam, e nenhum é desprezível: a semelhança de Ezequiel com Escobar, comentada à mesa primeiro por Capitu; o silêncio dela diante da fotografia; a separação proposta por ela mesma; e a imagem da fruta dentro da casca, que nega mudança de caráter.
Alguns dos gestos já lhe iam ficando mais repetidos, como o das mãos e pés de Escobar; ultimamente, até apanhara o modo de voltar a cabeça deste, quando falava, e o de deixá-la cair, quando ria
Contra ela
Cada um dos quatro admite leitura oposta com a mesma força. E há uma assimetria de padrão, que só aparece cruzando os anos de seminário com os de casado: o mesmo narrador que se absolve em poucas linhas do desejo que ele próprio confessa sentir pela mulher do amigo não concede à própria esposa a dúvida equivalente diante de um olhar.
Foi um instante de vertigem e de pecado.
E a linha mais fria do livro é a que desmonta o próprio inquérito, porque revela que provar nunca foi o objetivo.
pagaria o triplo para não tornar a vê-lo
Otelo, nomeado e recusado
A pergunta comum sobre o livro é se Capitu traiu, e parece que o leitor bem formado é o que sabe responder com fundamento. A pergunta é uma armadilha montada pelo próprio romance, e responder já é cair nela: o tribunal não está reunido para julgar Capitu, está reunido para ver o que o leitor faz com um dossiê montado por uma das partes.
O romance nomeia o próprio modelo e diverge dele no ponto decisivo. Em Otelo o espectador sabe que Desdêmona é inocente, e a tragédia está em assistir ao erro; aqui essa certeza nunca é concedida, e a tragédia passa para fora do livro. Bentinho vê a peça inteira e sai dela com a decisão tomada, não com a suspeita.
O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer
Machado põe um lenço a menos que Shakespeare: a prova de Otelo é frágil, a de Bentinho é a semelhança entre um rosto de criança e o de um morto, e ainda assim a sentença sai igual.
Quem define decide o que os outros veem
É a ponte com O Alienista. Lá é Simão Bacamarte quem enuncia o critério de loucura e ninguém se sente autorizado a examiná-lo; aqui é José Dias quem enuncia, de passagem e por interesse, o primeiro critério sobre os olhos de Capitu, e o narrador, décadas depois, examina-o no capítulo XXXII sem achar nada, nega-o no capítulo L e no fim o herda. Nos dois casos a definição chega antes do exame, e quem a pronuncia nunca é neutro.
O problema resolvido sempre por outro
A promessa de Dona Glória não é rompida, é quitada por procuração, e quem formula a saída é Escobar, em duas linhas de diálogo que o texto não marca como virada. Antes dele, José Dias já tinha oferecido a viagem a Roma; nenhuma das saídas é de Bentinho.
Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote, não é? Pois bem, dê-lhe um sacerdote, que não seja você. Ela pode muito bem tomar a si algum mocinho órfão, fazê-lo ordenar à sua custa, está dado um padre ao altar, sem que você...
Vale contra a leitura corrente de Bentinho como vítima passiva das circunstâncias: ele é passivo, mas o livro mostra isso por construção, não por queixa.
A memória que não fecha o círculo
No capítulo II, o projeto declarado da casa fracassa na frase seguinte, e o narrador diz isso ele mesmo antes de narrar qualquer coisa.
O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência.
No fim, a mesma regra que ele aplica a Capitu, a fruta dentro da casca, é a que aplicara a si no capítulo CXL, quando se perguntou se não seria "um homem apenas encoberto".