Clavis Libri
ContextoA época, a origem da história e o texto. EnredoO livro inteiro, do começo ao fim. Linha do tempoOs acontecimentos na ordem do livro. Resumo e análise13 blocos de capítulos, um a um. Personagens6 personagens. Temas6 temas e onde aparecem. Pilar dos temasOs temas bloco a bloco. Símbolos4 símbolos e o que significam. CitaçõesAs passagens que decidem a história. Termos12 termos de época, explicados. Recursos literários16 recursos, com as passagens em que aparecem. MapaA obra num só desenho. DiscussõesPara discutir em aula, em grupo ou sozinho. PerguntasAs dúvidas mais comuns sobre o livro, respondidas. QuizTeste a leitura, capítulo a capítulo. InfográficoA obra numa página. Cronograma de leituraSemanas de leitura sugeridas. Caderno de estudosExercícios por semana, com gabarito. Guia em PDFO guia completo para baixar e imprimir. AutorMachado de Assis.

Ficha da obra

Publicação
Em livro em 1899, pela Garnier
Gênero
Romance
Cenário
O Rio de Janeiro do Segundo Reinado: a Rua de Matacavalos, o seminário de São José, a Glória e o Engenho Novo
Época
De 1857, quando Bentinho tem quinze anos, até a volta de Ezequiel adulto, muitos anos depois de 1872, contada por ele perto do fim do século
Narrador
Primeira pessoa: Bento Santiago já velho, que conta a própria vida e é a parte interessada
Protagonista
Bento Santiago, o Bentinho, e Capitu, a vizinha de infância com quem se casa

Sobre o autor

O menino pobre do Morro do Livramento que, quase sem sair do Rio, escreveu os romances em que o Brasil do Império se vê por dentro, com ironia e sem consolo. Ler o perfil de Machado de Assis

Tema central

Bento Santiago, velho e sozinho numa casa do Engenho Novo, escreve a própria vida para responder a uma pergunta que nunca formula direito: se a mulher, Capitu, o traiu com o melhor amigo, Escobar. O livro não é sobre o adultério de Capitu, é sobre a construção de uma acusação. O leitor recebe todo o material pelas mãos do acusador, e o romance é montado para que essa condição fique visível sem nunca ser dita.

O que faz a peça funcionar é que Bentinho não é mentiroso. Logo no começo ele confessa que o projeto da casa fracassou e avisa que está selecionando o que conta, e é justamente essa honestidade parcial que dá autoridade ao resto. É o mesmo mecanismo de O Alienista: lá a boa-fé de quem define a loucura é o que torna o resultado assustador, e não a hipocrisia.

Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas, mas quero ser poupado.
Capítulos XIII a XXII: Capitu, o muro e o plano

O fio que atravessa a obra

A distância entre o fato reportado e a leitura que o narrador faz dele sustenta a tese do romance, ou já é contaminação retroativa de quem escreve décadas depois, convencido? Não há como separar as duas coisas, e é isso que o livro está demonstrando. A prova não está em nenhum capítulo isolado: está no percurso das duas imagens que decidem a fama de Capitu.

As duas imagens dos olhos

A primeira nasce no capítulo XXV, na boca de José Dias, no mesmo encontro em que ele muda de posição sobre o seminário por interesse próprio.

Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.
Capítulos XXIII a XXXIV: Os olhos de cigana e os olhos de ressaca

A segunda nasce no capítulo XXXII, na pena do Bentinho velho, que procura a comparação para o que sentiu apaixonado, aos quinze anos, entre fascínio e ameaça, logo depois de ele examinar os olhos dela atrás da dissimulação que José Dias apontara e não achar nada de extraordinário.

Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.
Capítulos XXIII a XXXIV: Os olhos de cigana e os olhos de ressaca

Noventa e um capítulos depois, no velório, a segunda imagem volta, agora aplicada ao olhar da mulher sobre o cadáver do amigo.

os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos; como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã
Capítulos CXIII a CXXIV: A mão de Sancha e o afogamento

E as duas, que nasceram em bocas diferentes e por motivos diferentes, e que no capítulo L o próprio narrador negara juntas ("não eram oblíquos, nem de ressaca"), voltam lado a lado no fim do livro, no capítulo CXLVIII, como se fossem um traço permanente de uma pessoa.

Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada.
Capítulos CXXXVI a CXLVIII: A xícara, a separação e o resto

As duas provas visuais que condenam Capitu na memória de todo leitor têm, dentro do próprio texto, origem datada, boca identificada e motivo. O romance dá esses dados de graça. Quem os junta como traço de caráter é o narrador, na última página, e já com a conclusão pronta.

A semelhança que o livro já tinha explicado

No capítulo LXXXIII, Gurgel, pai de Sancha, mostra a Bentinho o retrato da falecida mulher e diz que Capitu se parece com ela, nas feições e no gênio, sem que o livro dê parentesco algum entre as duas.

Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas.
Capítulos LXXVIII a XCII: Segredo por segredo e a morte de Manduca

No capítulo CXL, já com a separação decidida, o próprio Bentinho se lembra dessas palavras, e mesmo assim lê as feições de Ezequiel como prova.

Reduzem-se a dizer que há tais semelhanças inexplicáveis...
Capítulos CXXXVI a CXLVIII: A xícara, a separação e o resto

O livro põe, uns cinquenta e cinco capítulos antes da acusação (do LXXXIII ao CXXXVIII), o caso de uma semelhança sem culpa nenhuma, e o narrador o recorda na hora de decidir. Ele não esqueceu o argumento contra si: lembra-o no capítulo CXL e, no mesmo intervalo, deixa que as lembranças de Escobar e Capitu o atropelem.

A favor da leitura da traição

Quatro elementos a sustentam, e nenhum é desprezível: a semelhança de Ezequiel com Escobar, comentada à mesa primeiro por Capitu; o silêncio dela diante da fotografia; a separação proposta por ela mesma; e a imagem da fruta dentro da casca, que nega mudança de caráter.

Alguns dos gestos já lhe iam ficando mais repetidos, como o das mãos e pés de Escobar; ultimamente, até apanhara o modo de voltar a cabeça deste, quando falava, e o de deixá-la cair, quando ria
Capítulos CXIII a CXXIV: A mão de Sancha e o afogamento

Contra ela

Cada um dos quatro admite leitura oposta com a mesma força. E há uma assimetria de padrão, que só aparece cruzando os anos de seminário com os de casado: o mesmo narrador que se absolve em poucas linhas do desejo que ele próprio confessa sentir pela mulher do amigo não concede à própria esposa a dúvida equivalente diante de um olhar.

Foi um instante de vertigem e de pecado.
Capítulos CXIII a CXXIV: A mão de Sancha e o afogamento

E a linha mais fria do livro é a que desmonta o próprio inquérito, porque revela que provar nunca foi o objetivo.

pagaria o triplo para não tornar a vê-lo
Capítulos CXXXVI a CXLVIII: A xícara, a separação e o resto

Otelo, nomeado e recusado

A pergunta comum sobre o livro é se Capitu traiu, e parece que o leitor bem formado é o que sabe responder com fundamento. A pergunta é uma armadilha montada pelo próprio romance, e responder já é cair nela: o tribunal não está reunido para julgar Capitu, está reunido para ver o que o leitor faz com um dossiê montado por uma das partes.

O romance nomeia o próprio modelo e diverge dele no ponto decisivo. Em Otelo o espectador sabe que Desdêmona é inocente, e a tragédia está em assistir ao erro; aqui essa certeza nunca é concedida, e a tragédia passa para fora do livro. Bentinho vê a peça inteira e sai dela com a decisão tomada, não com a suspeita.

O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer
Capítulos CXXV a CXXXV: A semelhança e Otelo

Machado põe um lenço a menos que Shakespeare: a prova de Otelo é frágil, a de Bentinho é a semelhança entre um rosto de criança e o de um morto, e ainda assim a sentença sai igual.

Quem define decide o que os outros veem

É a ponte com O Alienista. Lá é Simão Bacamarte quem enuncia o critério de loucura e ninguém se sente autorizado a examiná-lo; aqui é José Dias quem enuncia, de passagem e por interesse, o primeiro critério sobre os olhos de Capitu, e o narrador, décadas depois, examina-o no capítulo XXXII sem achar nada, nega-o no capítulo L e no fim o herda. Nos dois casos a definição chega antes do exame, e quem a pronuncia nunca é neutro.

O problema resolvido sempre por outro

A promessa de Dona Glória não é rompida, é quitada por procuração, e quem formula a saída é Escobar, em duas linhas de diálogo que o texto não marca como virada. Antes dele, José Dias já tinha oferecido a viagem a Roma; nenhuma das saídas é de Bentinho.

Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote, não é? Pois bem, dê-lhe um sacerdote, que não seja você. Ela pode muito bem tomar a si algum mocinho órfão, fazê-lo ordenar à sua custa, está dado um padre ao altar, sem que você...
Capítulos XCIII a C: O substituto e o bacharel

Vale contra a leitura corrente de Bentinho como vítima passiva das circunstâncias: ele é passivo, mas o livro mostra isso por construção, não por queixa.

A memória que não fecha o círculo

No capítulo II, o projeto declarado da casa fracassa na frase seguinte, e o narrador diz isso ele mesmo antes de narrar qualquer coisa.

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência.
Capítulos I a XII: A denúncia, a ópera e a promessa

No fim, a mesma regra que ele aplica a Capitu, a fruta dentro da casca, é a que aplicara a si no capítulo CXL, quando se perguntou se não seria "um homem apenas encoberto".