Virgílio é o poeta da época de Augusto e o mais lido dos poetas latinos. Viveu as guerras civis que acabaram com a República, perdeu terras nos confiscos que pagaram os veteranos e encontrou no círculo de Mecenas a proteção do novo regime. Escreveu três obras, em ordem crescente de ambição: as Bucólicas, poemas pastoris; as Geórgicas, sobre o trabalho do campo; e a Eneida, a epopeia nacional de Roma, que deixou inacabada e pediu que fosse destruída. Augusto a salvou e a publicou, e ela passou a ser lida na escola durante toda a Antiguidade. Os cristãos o leram como profeta involuntário, e Dante Alighieri fez dele o guia da Divina Comédia pelo Inferno e pelo Purgatório.
Mântua e a formação
Públio Virgílio Maro nasceu em 15 de outubro de 70 a.C., em Andes, aldeia perto de Mântua, na Gália Cisalpina, a planície do Pó que só no ano de 49 a.C. ganharia a cidadania romana plena. A família tinha terras, e o pai pôde dar ao filho a formação completa de um jovem de posses: estudos em Cremona e em Milão, depois retórica em Roma, com a carreira de advogado no horizonte. A biografia antiga (a Vita que chegou por Donato e remonta a Suetônio, §15-16) conta que ele defendeu uma única causa, uma vez só, e que falava devagar, quase como alguém sem instrução; diz também que estudou medicina e sobretudo matemática. Ela não nomeia mestre de filosofia: a ligação com o epicurista Sirão, em Nápoles, vem de outra tradição, ainda não fichada aqui. A vida retirada, o gosto pelo campo e a desconfiança da ambição política, que o epicurismo ensinava, atravessam toda a obra dele, mesmo quando ela passa a cantar o império.
As Bucólicas e a guerra civil
Virgílio cresceu durante as guerras civis que destruíram a República: César contra Pompeu, depois os assassinos de César contra Antônio e Otaviano. Depois da batalha de Filipos, em 42 a.C., os vencedores confiscaram terras na Itália para pagar os veteranos, e a região de Mântua foi atingida. É desse mundo que nascem as Bucólicas, dez poemas pastoris escritos entre cerca de 42 e 39 a.C., à maneira do grego Teócrito: pastores que cantam, perdem a terra e falam de um tempo que muda. A quarta écloga anuncia o nascimento de um menino com quem voltaria a idade de ouro, e os leitores cristãos a leram, séculos depois, como profecia de Cristo, o que fez de Virgílio um pagão quase santo na Idade Média.
Mecenas, Augusto e as Geórgicas
As Bucólicas levaram Virgílio ao círculo de Mecenas, o amigo e conselheiro de Otaviano que reunia poetas em torno do novo poder, e ali ele apresentou o jovem Horácio. Entre 37 e 29 a.C. escreveu as Geórgicas, quatro livros sobre o trabalho do campo (o cultivo, as árvores, os rebanhos, as abelhas), que fazem do lavrador paciente o modelo de uma Itália que precisava sair da guerra. Em 29 a.C., segundo a tradição, Virgílio leu o poema a Otaviano, que voltava vitorioso do Oriente depois de derrotar Antônio e Cleópatra em Áccio. Dois anos depois Otaviano receberia o nome de Augusto.
A Eneida e a morte
De 29 a.C. até morrer, Virgílio trabalhou na Eneida, o poema que Augusto esperava dele: a viagem de Enéias, de Troia à Itália, como origem da gente romana e da família Júlia, à qual Augusto pertencia por adoção. Ele compunha devagar, alguns versos por dia, e lia trechos prontos ao imperador; a biografia antiga conta que Otávia, irmã de Augusto, desmaiou ao ouvir o elogio fúnebre do filho Marcelo, no Livro VI. Em 19 a.C., querendo ver a Grécia e a Ásia antes de dar o poema por terminado, Virgílio viajou, encontrou Augusto em Atenas, adoeceu em Mégara e morreu em Brindisi, na volta, em 21 de setembro, aos cinquenta anos. Pediu que queimassem a Eneida, que julgava imperfeita; Augusto não deixou: por ordem dele os amigos do poeta, Vário e Tuca, revisaram o texto, e Vário o publicou corrigido só por alto, deixando os versos incompletos como estavam (Vita §37-41), e por isso há versos incompletos no poema. Virgílio foi sepultado em Nápoles, e o epitáfio atribuído a ele resume a vida: Mântua me gerou, a Calábria me levou, agora me guarda Nápoles; cantei os pastos, os campos e os chefes.