Clavis Libri · Caderno de estudos
Thomas Mann
Um caderno para ler o livro em 9 semanas: o que aconteceu, os temas, as citações, as questões e as perguntas para pensar.
Leia os capítulos da semana e depois responda à seção dela. Cada exercício tem um número; no fim do caderno, o gabarito traz a resposta com o mesmo número.
As perguntas "para discutir" não têm resposta certa: servem para pensar e conversar. As questões de múltipla escolha e a identificação das citações têm.
Semana 1 · Capítulo I: A chegada ao Berghof, Propósito a Capítulo III: O primeiro dia inteiro e a chegada de Settembrini, O sr. Albin
Ao ler, observe: Repare em como o narrador fala do tempo e do seu próprio ofício antes de apresentar o rapaz que chega.
…não é propriamente ao tempo que a história deve o seu grau de antiguidade
Incurável, minhas senhoras! Olhem o homem que aqui está à sua frente; é um caso incurável [...] Nada mais preciso fazer; não entro mais no balanço; posso me rir de tudo…
O narrador afirma que "não é propriamente ao tempo que a história deve o seu grau de antiguidade" e, na mesma passagem, promete contá-la "com exatidão e minúcia". De que depende, então, a antiguidade de uma história, e por que ele liga essa ideia à promessa de contar tudo com tanto pormenor?
O sr. Albin mostra um revólver às senhoras e diz que é um caso "incurável" e, por isso, "não entro mais no balanço; posso me rir de tudo". Hans Castorp imagina as "vantagens da vergonha" e se assusta com a sensação de "gozo dissoluto" que isso lhe dá. O que o fascina na ideia de viver sem a pressão da honra, e por que isso o assusta?
Semana 2 · Capítulo III: O primeiro dia inteiro e a chegada de Settembrini, Satana faz propostas desonrosas a Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro, Temor nascente. Dos dois avôs e do passeio de barca ao crepúsculo
Ao ler, observe: Repare em como o narrador explica por que o tempo passa de outro jeito quando nada de novo acontece.
…que tal se ainda esta noite preparasse suas malas e aproveitasse o trem de amanhã para pôr-se a caminho e safar-se daqui? [...] Inclino-me diante da razão [...] Inclino-me também diante da coragem.
…o amor oprimido não estava morto, não; vivia, continuava, nas trevas, no mais profundo segredo, a almejar a sua realização, rompia o círculo mágico da castidade e ressurgia, ainda que sob forma metamorfoseada, dificílima de reconhecer [...] Sob a forma de doença. O sintoma da doença nada é senão a manifestação disfarçada da potência do amor; e toda doença é apenas amor transformado
Settembrini aconselha Hans Castorp a fazer as malas ainda naquela noite e a pegar o trem do dia seguinte, e ele recusa porque teria vergonha de si e se julgaria "covarde". O conselho é prudência, teste ou provocação de pedagogo, e a recusa é uma escolha de Hans ou já é outra coisa?
Settembrini conta que o avô carbonário andava de preto pela pátria oprimida, e Hans Castorp o compara ao próprio avô, também de preto, mas por motivo oposto: "dois mundos, dois pontos cardeais". O que o narrador mostra ao pôr os dois avôs lado a lado, e o que Hans herda de cada um?
Semana 3 · Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro, O termômetro a Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis, Enciclopédia
Ao ler, observe: Repare na diferença entre o que Hans Castorp diz sentir e o que o seu corpo parece mostrar.
…cheguei à opinião bastante firme de que o senhor era, clandestinamente, um dos nossos e acabaria por perceber esse fato, como fizeram tantos outros que vieram aqui para divertir-se, estudaram o ambiente, torcendo o nariz, e um belo dia ficaram sabendo que seria conveniente para eles [...] abandonarem a atitude de curiosidade displicente e passarem aqui uma temporada extensa
…referia-se, numa palavra, ao corpo dela, um corpo lânguido e exaltado, acentuado em demasia pela doença e transformado pela doença, uma vez mais, em corpo.
Behrens diz a Hans Castorp que o ar da montanha é "bom contra a enfermidade" e, ao mesmo tempo, "bom para a enfermidade". Essa ambiguidade é um argumento médico, uma armadilha ou uma descrição honesta, e o que ela muda no que as "três semanas" da visita poderiam ter sido?
Settembrini explica a Hans Castorp o plano de uma enciclopédia que classificará todos os males humanos, porque "o inimigo mais perigoso é o inimigo desconhecido". Classificar um sofrimento é começar a vencê-lo ou é uma forma de manter distância dele?
Semana 4 · Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis, Humaniora a Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis, Dança macabra
Ao ler, observe: Repare nas perguntas que Hans Castorp faz sobre a vida e o corpo, e em quem tenta respondê-las.
…uma febre da matéria que acompanhava o processo de incessante decomposição e reconstituição de moléculas de albumina [...]. Não era nem matéria nem espírito. Era qualquer coisa entre os dois, um fenômeno sustentado pela matéria, tal e qual o arco-íris sobre a queda-d'água, e igual à chama. [...] A enfermidade era a forma licenciosa da vida.
Perguntado "Que é o corpo?", Behrens responde que a vida é uma combustão e que "viver é morrer". Essa resposta é redução materialista, provocação de médico cínico ou outra coisa, e por que Hans Castorp insiste em perguntar?
Hans Castorp passa a visitar os moribundos da casa e diz a Settembrini que se ocupa dos casos graves, daqueles que "estão morrendo", enquanto o italiano o acusa de procurar se justificar "por meio de boas obras". Esse gesto é compaixão, curiosidade pela morte ou fuga da própria doença, e a ironia de Settembrini tem alguma razão?
Semana 5 · Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis, Noite de Walpurgis a Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim, Da Cidade de Deus e da redenção pelo mal
Ao ler, observe: Repare em como, na noite da festa, as regras de convivência parecem valer menos para todos.
A democracia não tem outro sentido senão o de ser um corretivo individualista de toda forma de absolutismo do Estado. [...] As conquistas do Renascimento e do Século das Luzes, meu senhor, chamam-se personalidade, direitos do homem, liberdade!
Já sabemos que o poder é mau. Mas, para que chegue o reino, é preciso suspender momentaneamente o dualismo entre bem e mal, aquém e além, espírito e arbítrio, e uni-lo em um princípio que reúna o ascetismo e o domínio. Eis aí o que chamo necessidade do terror
Hans Castorp declara o amor em francês porque, diz ele, falar francês é "parler sans parler", "sans responsabilité". Uma declaração feita fora da própria língua vale como declaração, e o que ele ganha e o que arrisca ao dizer assim o que sente?
Naphta diz que, para o reino chegar, é preciso "suspender momentaneamente o dualismo entre bem e mal" e chama isso de "necessidade do terror". O que torna esse argumento coerente por dentro, e o que a resposta de Settembrini, que invoca "personalidade, direitos do homem, liberdade", consegue ou não refutar nele?
Semana 6 · Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim, Irascibilidade. E mais uma coisa muito constrangedora a Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim, Operationes spirituales
Ao ler, observe: Repare em como dois homens defendem ideias opostas com a mesma convicção, e em quem os escuta.
…quanto mais enfermo, tanto mais humano, e o gênio da enfermidade é mais humano que o da saúde
Na estação, Joachim diz ao primo: "venha logo, você também!" O que esse apelo mostra sobre o que Joachim vê em Hans Castorp, e por que ele pesa tanto, vindo de quem parte, quando Hans já decidiu ficar?
Naphta afirma que "quanto mais enfermo, tanto mais humano", e o texto já contou que a doença o fez deixar o caminho do sacerdócio. Isso torna a tese dele mais honesta ou mais suspeita, e o que ela responde à recusa de Settembrini de ver nobreza na doença?
Semana 7 · Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim, Neve a Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão, Mynheer Peeperkorn
Ao ler, observe: Repare no que o silêncio e a solidão da neve fazem com os pensamentos de Hans Castorp.
Não quero conceder à morte poder algum sobre meus pensamentos! Pois é nisso que consistem a bondade e a filantropia, e em nada mais. [...] O amor enfrenta a morte; só ele, e não a razão, é mais forte que ela
Pode-se narrar o tempo, ele próprio, o tempo como tal, em si mesmo? Não, de fato não, algo assim seria um arrojo insano!
No sonho da neve, Hans Castorp diz que o amor enfrenta a morte e que "só ele, e não a razão, é mais forte que ela", e chama Naphta e Settembrini de "charlatães". O que essa sentença aceita e o que recusa de cada um deles, e por que ela nasce de um sonho e não de uma conversa?
O narrador diz que, no primeiro discurso de Peeperkorn, ninguém se ressentia de que ele "carecia por completo de conteúdo". Por que um homem cujo discurso não tem conteúdo domina qualquer roda, e o que isso revela sobre o que as pessoas procuram ao ouvir alguém?
Semana 8 · Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão, Vingt et un a Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão, O grande tédio
Ao ler, observe: Repare em como um homem que diz pouco consegue ocupar todo o ambiente em que entra.
Nosso sentimento [...] é a força viril que desperta a vida [...] o sentimento, meu jovem, é divino. O homem é divino, desde que sente [...] Se o homem fracassa quanto ao sentimento, irrompe a ignomínia de Deus, dá-se a derrota da virilidade de Deus, uma catástrofe cósmica, um horror inimaginável
Via coisas inquietantes, perniciosas, e sabia o que via diante de si: era a vida sem tempo, a vida sem cuidados nem esperanças, a vida como abjeção que se move à medida que estagna, a vida morta.
Peeperkorn, embriagado, declara que "A derrota do sentimento em face da vida" é a tacanheza que não merece perdão. Por que essa frase, dita nessas condições, soa como doutrina, e por que Hans Castorp recusa o beijo na testa de Clawdia que o holandês lhe manda dar?
Depois da partida de Clawdia e da morte de Peeperkorn, o narrador dá o nome de "tédio" ao demônio que domina Hans Castorp e fala de "a vida morta". Como esse tédio difere do que Joachim e o próprio narrador haviam descrito sobre o tempo no Berghof, e por que ele chega justamente depois de uma partida e de uma morte?
Semana 9 · Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão, Abundância de harmonia a Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão, O trovão
Ao ler, observe: Repare no que a música e o tédio vão fazendo com o humor de todos os hóspedes.
Qual era o mundo que se abria atrás dela e que, segundo os pressentimentos íntimos de Hans Castorp, devia ser o mundo do amor proibido? Era a morte.
Será que também desta festa mundial da morte, e também da perniciosa febre que inflama o céu da noite chuvosa, ainda surgirá o amor?
Hans Castorp ouve "A tília" de Schubert, e o narrador pergunta que mundo se abre atrás da canção, o do "amor proibido", e responde: "Era a morte." Por que o romance encontra perigo numa canção de que Hans Castorp gosta tanto, e o que significa amar algo que é "um fruto da vida, gerado pela morte"?
O romance termina com uma pergunta, "ainda surgirá o amor?", sem dizer se Hans Castorp sobrevive, depois de Settembrini o despedir com "in giù finalmente". Por que o narrador encerra perguntando, e o que a despedida de Settembrini, que o manda lutar "no meio dos seus", já responde ou deixa de responder?
Depois de ler o livro inteiro
Para cada personagem, diga quem é e como muda do começo ao fim do livro.
| Personagem | Quem é | Como muda |
|---|---|---|
| P1 Hans Castorp | ||
| P2 Joachim Ziemssen | ||
| P3 Lodovico Settembrini | ||
| P4 Leo Naphta | ||
| P5 Clawdia Chauchat | ||
| P6 Pieter Peeperkorn |
Para cada tema, anote dois ou três momentos do livro em que ele aparece e escreva, em poucas linhas, o que o livro diz sobre ele.
Perguntas sobre a obra inteira. Escolha uma e responda num texto de 20 a 30 linhas.
O Propósito avisa que a história será contada "com exatidão e minúcia", e as três semanas de Hans Castorp se tornam sete anos. A lentidão do romance é um defeito de ritmo ou o meio pelo qual o livro faz o leitor viver o que descreve?
Hans Castorp sobe como visitante, sem doença declarada, e é o diagnóstico de Behrens que o retém. Ele fica porque está doente, porque quer ficar ou porque uma época sem resposta à pergunta "Para quê?" o deixa sem razão para partir?
Settembrini e Naphta disputam por anos sem que nenhum vença, e Hans Castorp chama os dois de "charlatães" num sonho. O romance toma partido ou ensina a ler sem tomar? Que tipo de leitor ele pretende formar?
Hans Castorp formula na neve que o amor é mais forte que a morte e logo esquece o que pensou. Por que dar ao personagem a frase central e tirá-la dele, e o que sobra para o leitor?
A doença "absolutamente não é nobre" para Settembrini, é o que há de mais humano para Naphta, é "amor transformado" para Krokowski e "a forma licenciosa da vida" para Hans Castorp. O que o romance parece achar da doença, ou ele recusa ter uma resposta só?
Ao longo do romance, Hans Castorp convive com as mortes do avô, de Joachim, de Peeperkorn e de Naphta, e cada uma é contada de um modo diferente. O que ele aprende com elas, se aprende, e o que o livro deixa para o leitor aprender?
Hans Castorp declara o amor em francês a uma mulher que lhe lembra um colega de escola e a quem pede um lápis emprestado. Em que sentido o romance trata o amor como memória e como disfarce, e isso o torna menos verdadeiro?
Perto do fim, o narrador diz que o trovão "faz explodir a montanha mágica". O que a montanha enfeitiça em Hans Castorp, o tempo, a doença ou a falta de resposta, e o encanto se desfaz por razões que ele chega a compreender?
Palavras do livro que podem travar a leitura, explicadas. Para consultar quando aparecerem.
Sanatório. Hospital especializado no tratamento de certas doenças e na convalescença, comum do fim do século XIX ao início do XX. Os de tuberculose ficavam em lugares altos, de ar puro, com sacadas abertas, e davam ao doente repouso e boa alimentação. Davos, na Suíça, a 1.560 metros de altitude, era um dos grandes centros europeus desse tratamento.
Tuberculose. Doença infecciosa, sobretudo dos pulmões, cuja bactéria foi identificada por Robert Koch em 1882. Causa tosse crônica com sangue no escarro, febre, suores noturnos e perda de peso. Antes dos antibióticos o tratamento era o repouso em sanatórios, e por volta de 1916 cerca de metade dos internados morria em cinco anos. Também era chamada de tísica.
Espreguiçadeira. Cadeira reclinável em que o doente passava várias horas por dia deitado ao ar livre, em sacadas ou galerias abertas. Fazia parte da cura de repouso (em alemão, Liegekur), tratamento padrão da tuberculose desde o século XIX até meados do XX, baseado em ar puro, repouso e boa alimentação, antes de os remédios modernos substituírem esse método.
Pneumotórax. Tratamento da tuberculose pulmonar em que o médico provocava de propósito o colapso do pulmão doente, o que se chamava pôr o pulmão em repouso. A ideia era privar a bactéria, que depende de oxigênio, do que ela precisa para se multiplicar. Foi introduzido pelo médico italiano Carlo Forlanini em 1888 e caiu em desuso com os medicamentos contra a doença.
Viático. Na Igreja Católica, a eucaristia (a comunhão) dada a uma pessoa que está morrendo, como alimento espiritual para a passagem da vida para a morte. Por isso o pão consagrado é guardado para os enfermos. Pode ser levado ao leito por padre, diácono ou ministro extraordinário da comunhão, com ou sem a unção dos enfermos.
Carbonário. Membro dos Carbonários, rede de sociedades secretas revolucionárias ativa na Itália entre cerca de 1800 e 1831. Ganhou força no Reino de Nápoles e defendia uma monarquia constitucional ou uma república, contra o absolutismo e o clero. Ajudou a organizar as revoltas de 1820 e 1821 e de 1831, esta esmagada por tropas austríacas, e seus membros participaram da unificação italiana.
Noite de Walpurgis. Festa germânica da noite de 30 de abril para 1 de maio, em que se celebra a chegada da primavera e se lembra Santa Walburga, abadessa e missionária inglesa do século VIII. Pela crença popular, era a noite em que as bruxas se reuniam no monte Brocken, nas montanhas do Harz. Uma cena do Fausto, de Goethe, leva o nome de Walpurgisnacht.
Dança macabra. Gênero artístico alegórico do fim da Idade Média sobre a universalidade da morte: a Morte, ou os mortos, chama gente de todas as condições, como papa, imperador, rei, criança e trabalhador, para dançar até o túmulo. O registro visual mais antigo é um mural, hoje perdido, de 1424 a 1425, no cemitério dos Santos Inocentes, em Paris. A morte aparece como a grande niveladora.
Jesuíta. Membro da Companhia de Jesus, ordem religiosa católica fundada por Inácio de Loyola e confirmada pelo papa Paulo III em 1540. Os jesuítas professam pobreza, castidade e obediência, com uma obediência especial ao papa, e fundaram escolas por toda a Europa. A ordem foi suprimida pelo papa Clemente XIV em 1773 e restaurada em 1814.
Pietà. Tema da arte cristã em que a Virgem Maria segura no colo o corpo morto de Jesus. A palavra italiana significa piedade ou compaixão. O tema surgiu na Alemanha por volta de 1300, onde se chamava Vesperbild, e chegou à Itália por volta de 1400. Muitas versões alemãs e polonesas do século XV, em madeira, destacam fortemente as chagas de Cristo.
Maçonaria. Associação fraternal que remonta às corporações medievais de pedreiros, com lojas e três graus de iniciação (aprendiz, companheiro e mestre) e rituais próprios. A primeira Grande Loja foi fundada em Londres em 1717. Difundiu ideais do Iluminismo por uma rede internacional de membros, e a Igreja Católica se opôs a ela ou proibiu a filiação de católicos.
Gabarito
Antes de qualquer cena, o narrador diz que quer contar a história de Hans Castorp pela história em si, e que ela deve ser relatada no passado mais remoto, porque se desenrola antes da Grande Guerra. Promete narrá-la com exatidão e minúcia, e brinca com o tempo que isso vai tomar, que decerto não chegará a sete anos.
Hans Castorp, rapaz de Hamburgo, viaja sozinho a Davos-Platz para uma visita de três semanas ao primo Joachim Ziemssen, com baldeação em Landquart e uma subida de trem de bitola estreita pelas montanhas. Em Davos-Dorf, Joachim o espera na plataforma e o leva de carro ao Sanatório Berghof (ver O Berghof). Pelo caminho fala do tempo "aqui em cima", da paisagem e dos cadáveres descidos em trenós, e da "dissecação psíquica" de Dr. Krokowski, assistente de Dr. Behrens; o prazo do primo indigna Hans Castorp, e os cadáveres e a dissecação psíquica o fazem rir sem conseguir se conter.
Um criado de libré leva os primos pelo elevador e pelo corredor branco até o quarto de Hans Castorp, o número trinta e quatro, entre o de Joachim e o de um casal russo. Joachim conta que uma americana morreu ali anteontem e que o quarto foi desinfetado, e Hans Castorp, nervoso, fala de aldeído metílico, de charutos e de frio nos pés com calor no rosto. Ao descerem para o jantar, ouve a tosse de um aristocrata austríaco, que o impressiona vivamente.
Os primos jantam numa sala quase vazia, onde só uma senhora come lendo, e Hans Castorp bebe vinho enquanto Joachim, entre queixas do tédio e do prazo de mais meio ano, ri com ele das gafes da sra. Stöhr. Hans Castorp começa a cochilar à mesa, é levado ao vestíbulo e ali Joachim o apresenta ao dr. Krokowski, que zomba da sua perfeita saúde. De volta ao quarto, Hans Castorp dorme e sonha com Joachim de trenó e com a sra. Iltis.
Hans Castorp perde a mãe e depois o pai entre os cinco e os sete anos, e passa um ano e meio na casa do avô paterno, o senador Hans Lorenz Castorp, numa mansão da rua da Esplanada. O ritual que mais ficou desse período foi pedir ao avô, no gabinete, que lhe mostrasse a pia batismal de família, uma bacia de prata sobre uma bandeja mais antiga que guardava no verso os nomes de sete donos. O senador tem duas figuras, o avô do dia a dia e o do retrato com a golilha espanhola, e a segunda se confirma no velório, a terceira morte que o menino acompanha em pouco tempo.
Órfão também de avô, Hans Castorp passa a morar com o tio-avô materno, o cônsul Tienappel, seu tutor, que liquida a firma dos Castorp e lhe salva uns quatrocentos mil marcos de herança. O narrador descreve o rapaz criado entre estaleiros, cais e boa mesa, e interrompe o relato para diagnosticar o seu estado moral: uma época que não responde ao "para quê?" deixa o indivíduo sem vigor. Hans Castorp escolhe a engenharia naval por sugestão do velho Wilms, conclui os exames teóricos e, aconselhado pelo médico a ir às altas montanhas, é mandado pelo tio a visitar o primo doente em Davos por três semanas.
Hans Castorp se levanta cedo para o seu primeiro dia inteiro, faz a barba e sai à sacada, de onde vê no jardim uma senhora vestida de preto que anda sem parar, ao ritmo de uma marcha que chega de longe. Pela parede do quarto vizinho ouve o casal russo em plena disputa amorosa, e reage com um pudor que o próprio narrador não trata como virtude simples: ensombra a fisionomia, cora e sente voltar o ardor seco da véspera. É assim que Joachim Ziemssen o encontra, de mau humor.
Joachim e Hans Castorp descem para o café da manhã, e no caminho Joachim explica quem é a senhora de preto do jardim, a mexicana apelidada "Tous-les-deux", que espera a morte do filho mais velho. Na sala das sete mesas, Hans Castorp conhece os companheiros de mesa, entre eles a "costureira", que se revelará a professora Engelhart, e a sra. Stöhr, e se sobressalta com o estrondo de uma porta envidraçada cujo autor não vê. Os médicos já fizeram a primeira ronda, e na saída Dr. Behrens e Dr. Krokowski cruzam com os primos: Behrens o chama de paisano, declara-o anêmico e o manda viver como um tuberculoso e tomar a temperatura.
No passeio da manhã, Hans Castorp fuma um charuto (ver Os charutos Maria Mancini) e o acha sem sabor, cruza com os pacientes da "Sociedade Meio-Pulmão" e com o assobio de Hermine Kleefeld, e Joachim explica o pneumotórax. Num banco, os dois falam da morte no sanatório, e Joachim conta o dia em que viu levarem o viático à pequena Hujus, que gritava escondida sob os cobertores, e a ordem de Behrens a outro moribundo: "Não faça tanta fita". Hans Castorp reage dizendo que um moribundo é mais nobre do que quem passeia e ri, e ri de novo sem poder parar, até aparecer Settembrini.
Lodovico Settembrini, um italiano de roupas gastas e fala elegante, é apresentado a Hans Castorp, a quem pergunta pelos meses que lhe pespegaram os "nossos Minos e Radamanto" e a quem diz que ali a menor unidade de tempo é o mês. Ao ouvir Hans Castorp invocar o diabo, recita o hino de Carducci a Satanás, fala mal do dr. Behrens, da enfermeira-chefe e de outros médicos de Davos, e discursa sobre o humanismo e a pedagogia. Despede-se no elevador, e Joachim conta que ele é literato, filho e neto de literatos, doente persistente e sem muito dinheiro.
Na sacada, Joachim toma a temperatura, sete minutos com o termômetro sob a língua, e Hans Castorp, de olhos estriados de vermelho, improvisa uma filosofia do tempo que o próprio narrador registra como algo incomum nele: o tempo não teria natureza própria e seria medido por convenção. Depois deita-se na espreguiçadeira e, no segundo café da manhã, bebe cerveja de Kulmbach, que o atordoa, enquanto Settembrini chega e ele começa a reconhecer os hóspedes. Mais uma vez a porta envidraçada bate, e dessa vez Hans Castorp já não se sobressalta.
Os primos descem a pé a Davos-Platz antes do almoço, e Hans Castorp, atordoado, esquece a teoria do tempo e fala só do corpo, das palpitações que parecem independentes da alma, que Joachim, depois de reprovar a expressão, aceita como parecidas com a febre. Joachim nomeia os companheiros de mesa e empalidece quando se fala de Marúsia. Diante das quadras de tênis, diz que ali só se fica deitado, a "vida horizontal" de que Settembrini zomba, e leva o primo de volta ao quarto, cansado.
Hans Castorp desce ao almoço pela terceira vez no dia, e a sra. Stöhr desfia mexericos sobre o capitão Miklosich e a mulher do cônsul-geral Wurmbrand. A refeição tem seis pratos, a porta envidraçada bate enquanto comem o peixe, e Hans Castorp vê pela primeira vez quem a bate: uma moça de suéter branco, que a professora Engelhart identifica como madame Chauchat. O dr. Blumenkohl sai da mesa, e a sra. Stöhr comenta que ele precisa conversar de novo com o "Joãozinho Azul". No repouso depois do almoço, Hans Castorp nota manchas de sangue no lenço e fuma o Maria Mancini até o fim.
No alpendre de repouso, o sr. Albin, jovem recém-saído de uma pneumonia, exibe às senhoras uma faca e um revólver carregado e diz guardar o revólver para o dia em que a doença o aborrecer. Justifica-se com a imagem do aluno que repetiu de ano e por isso deixa de ser examinado, e Hans Castorp, que repetira o sexto ano do ginásio, sente inveja, não repulsa.
Antes da primeira cena, o narrador do Propósito faz uma advertência curiosa. A história que vai contar, a de Hans Castorp e dos seus anos num sanatório de Davos, é velha, diz ele, mas essa velhice não se deve ao tempo que passou desde que os fatos ocorreram. A frase desmonta a ideia comum de que uma história envelhece pelo calendário e abre o livro com a desconfiança que o atravessa inteiro: o tempo não é uma medida simples.
A explicação vem logo em seguida: a história se desenrola antes de uma peripécia e de um limite que, nas palavras do narrador, abriram um sulco profundo nas vidas e consciências dos homens, no mundo de antes da Grande Guerra. É essa distância, não os anos contados, que a torna passado remoto. O narrador fala ainda do caráter problemático e da peculiar duplicidade desse elemento misterioso, o tempo, e entrega assim, antes da primeira cena, a chave de leitura do romance.
Pode-se ler a frase também como um aviso sobre o que virá. Hans Castorp vai passar sete anos numa montanha onde as semanas deixam de valer como medida, e o livro mostrará que a duração vivida não coincide com a do relógio. Quando Joachim disser que três semanas são quase nada 'aqui em cima', e quando a digressão do capítulo IV tratar do hábito, o leitor já terá ouvido a tese pela boca do narrador: o tempo de uma história, e de uma vida, mede-se pelo que acontece nele, não pelo número de dias. A advertência é breve, mas organiza o resto.
No alpendre de repouso, o sr. Albin, jovem recém-saído de uma pneumonia, mostra às senhoras uma faca e, depois, um revólver carregado e diz guardar o revólver para o dia em que a doença o aborrecer, quando terá 'a honra de uma despedida digna'. Quando as senhoras tentam dissuadi-lo até de fumar, ele se declara um caso incurável, um homem que não entra mais no balanço, e conclui que pode rir-se de tudo.
A justificativa usa a imagem escolar de quem já repetiu de ano e por isso deixa de ser examinado: o doente sem esperança ficaria isento das obrigações dos outros. Hans Castorp, que repetira o sexto ano do ginásio, reconhece a situação, sente inveja e não repulsa, e imagina as 'vantagens da vergonha', o gozo de estar livre da pressão da honra. A sensação de 'gozo dissoluto' o assusta, e volta, mais forte, em sonho, à noite.
Pode-se ler Albin como a face cômica de um perigo sério. A doença vira salvo-conduto: quem é 'incurável' não responde mais por nada. A conversa de Joachim sobre o 'relaxamento' do sanatório e o riso nervoso de Hans ganham aqui sua forma mais crua, e o fascínio pela irresponsabilidade que crescerá no romance, até a Noite de Walpurgis, pode ser visto como tendo nesta fala uma de suas origens. Albin não é um sábio, é um rapaz teatral. Mas a ideia que ele expõe, a de que o doente pode abdicar de tudo, é a que Settembrini combaterá em nome da razão e da coragem.
1.9 a 1.11: perguntas abertas, sem gabarito.
Hans Castorp é despertado às três e meia pela ronda de Krokowski, toma chá pela quarta vez no dia e janta pela quinta, e à noite, no vestíbulo, Settembrini lhe pergunta como foi o primeiro dia e sugere que parta no trem de amanhã. Hans Castorp recusa, por vergonha de parecer covarde, e Settembrini conta o caso da srta. Kneifer e da "irmã muda". Hans Castorp fuma um Maria Mancini ao lado de Joachim, tiritando de frio, e depois, já na cama, a noite traz sonhos com Behrens, com o lápis de madame Chauchat, com Settembrini e com Krokowski.
No terceiro dia, depois de um verão esplêndido, uma nevada fora de estação derruba a temperatura e liga a calefação, e na manhã seguinte Hans Castorp compra dois cobertores de lã de camelo no bairro inglês, recusando o saco de peles porque o faria "um de vocês". Na volta, sob chuva, os primos encontram Lodovico Settembrini, de humor elegíaco, que fala do pai, do gabinete aquecido e dos comensais. Quando Hans Castorp diz que a enfermidade é digna de reverência e que ligada à estupidez forma um dilema, Settembrini responde com um sermão: a doença é humilhação, não nobreza. Ao saber dos cobertores, repete o seu "placet experiri".
Depois do almoço, Joachim ensina Hans Castorp a se enrolar nos dois cobertores sobre a espreguiçadeira, e o narrador interrompe a cena para uma digressão teórica sobre por que o tempo se alonga nos primeiros dias de um lugar novo e depois encolhe, à medida que o hábito toma conta da experiência. Hans Castorp formula a mesma sensação poucos parágrafos depois, ao dizer ao primo que o tempo desde a chegada a Davos-Dorf já lhe parece uma eternidade, ainda que só faça poucos dias.
Hans Castorp, que ainda não se aclimatou, aprende a engrenagem do dia no Berghof (ver O Berghof) e descobre que os balões bojudos nos corredores, a seis francos cada, trazem oxigênio para os agonizantes. Dr. Behrens, a caminho do quarto 27, chama-o de "espectador desinteressado", e Hans Castorp entrevê o primeiro moribundo de sua vida, um jovem de barba rala, enquanto uma enfermeira ansiosa prende os primos com conversa sobre o seu paciente. Depois é apresentado à mexicana apelidada "Tous-les-deux", ouve dela a sua frase e responde em francês, satisfeito por não ter errado.
No domingo do concerto quinzenal, o primeiro desvio do dia normal, o terraço do Berghof se enche de hóspedes, entre eles os jovens alegres da escadaria, o sr. Albin e Hermine Kleefeld, e Hans Castorp fuma e bebe cerveja numa mesinha com Joachim. Lodovico Settembrini chega, senta-se com eles e declara não gostar de música administrada pelas autoridades, a que tem antipatia política. Joachim Ziemssen defende o concerto porque cada peça de uns sete minutos tem princípio e fim, e Settembrini transforma a observação em tese e chama a música de politicamente suspeita.
No domingo à tarde, coches levam hóspedes russos a passeio, entre eles madame Chauchat, e Hans Castorp vê Joachim fitar Marúsia com uma tristeza que não é militar. Na segunda-feira, antes da conferência de Krokowski, resolve dar sozinho um passeio, canta pela encosta até perder o fôlego, fica com um tremor de cabeça igual ao do avô, Hans Lorenz Castorp, e junto a uma cachoeira sofre uma hemorragia nasal. Deitado no banco, volta aos treze anos: o colega Pribislav Hippe, de olhos quirguizes, lhe empresta um lápis vermelho num pátio de escola (ver O lápis), e a lembrança se emenda ao sonho do capítulo anterior. Ao acordar, ele nota que Hippe é parecido com "aquela mulher" de cima, e volta ao sanatório exausto, parte do caminho numa carroça.
Hans Castorp chega à conferência já começada, lívido e com a roupa manchada de sangue, e senta-se logo atrás de madame Clawdia Chauchat, cujos olhos, ele reconhece, são os de Pribislav. O Dr. Krokowski fala do amor como uma potência que, oprimida pela castidade, volta disfarçada de doença, e Hans Castorp se distrai com o braço e a mão de Clawdia e com o vestuário das mulheres. No fim, Krokowski, de braços abertos, convida todos à dissecação das almas, e Joachim e Hans Castorp nunca mais aludem à conferência.
Na primeira conta semanal, cento e oitenta francos, Hans Castorp a paga na administração e, com Joachim, conversa sobre a organização do sanatório: o dr. Behrens não é dono, mas funcionário de uma sociedade anônima, viúvo que ficou em Davos junto ao túmulo da mulher e que talvez esteja ele próprio doente. O narrador tira daí uma pergunta que atravessa o capítulo, se o médico enfermo pode curar. Joachim objeta que Behrens provavelmente já se curou, e Hans Castorp, acompanhando-o ao subsolo, vê o gabinete de Krokowski num crepúsculo velado.
Hans Castorp fica com o tremor de cabeça do avô, que o incomoda às refeições e que ele liga a uma agitação íntima, não só ao ar da montanha. À mesa, a professora Engelhart o provoca com elogios a madame Chauchat, e os dois entram num jogo duplo de dissimulação, em que ele finge zombar da solteirona só para poder falar da russa. É ela quem descobre o nome de madame Chauchat, e Hans Castorp passa a esperar cada refeição como um novo encontro com a doente.
Em dias de chuva, na segunda semana, Hans Castorp troca olhares com madame Chauchat à mesa, quase corre para apanhar o guardanapo dela e planeja encontros no corredor. Ao subir do almoço fingindo ter esquecido o lenço, cruza com ela, e nos olhos de Clawdia vê os de Pribislav Hippe, o que lhe dá um temor nascente. Procura apoio em Joachim, em Behrens e em Settembrini, e passa a ouvir o italiano à mesa e nos passeios, onde Settembrini zomba da sra. Stöhr e fala do avô Giuseppe. Hans Castorp o compara com o próprio avô, e a comparação lhe lembra um passeio de barca ao crepúsculo, com o dia a oeste e a lua a leste. Settembrini fecha a lição com a palavra civilização, e Hans Castorp o escuta por um senso de dever que serve de licença para pensar em Clawdia.
No vestíbulo, depois do jantar do primeiro dia inteiro, Settembrini pergunta a Hans Castorp como foi o dia. Ao ouvir que ele não se sente bem, nem no corpo nem no espírito, propõe algo que ninguém sugerira até ali: que faça as malas ainda naquela noite e tome o trem do dia seguinte, para safar-se do lugar. A ironia é a marca dele, mas o conselho não é piada: é a primeira vez que alguém oferece a Hans, sem rodeios, a saída.
Hans Castorp recusa, e o argumento é o da honra: se abandonasse o posto só por sentir alguns dias de calor e de tonturas, teria vergonha de si e se julgaria covarde. É o mesmo vocabulário de honra e de vergonha da cena do sr. Albin, agora usado ao contrário. Settembrini aprova a resposta nos termos que definem a sua régua: inclina-se diante da razão e também diante da coragem, e não diante da saúde nem da doença. Pode-se ler que ele valoriza menos ficar ou partir do que a decisão tomada com clareza, e que a proposta de fuga funciona como um teste.
A cena pesa por causa do que vem depois. No capítulo V, quando o exame de Behrens já tiver dito que não vale a pena regressar, Settembrini repetirá o conselho, e Hans lhe responderá que a situação mudou. O trem do dia seguinte é, assim, a saída que o livro mostra e deixa passar. Hans acabará ficando sete anos, e pode-se ler que a razão de ficar nunca será só a doença: é também a vergonha de parecer covarde, que aqui o prende pela primeira vez.
Numa conferência de segunda-feira, a que Hans Castorp chega atrasado, com manchas de sangue no casaco, o dr. Krokowski fala do amor como uma força que, reprimida pela castidade, não morre: vive e continua nas trevas, no mais profundo segredo, a almejar a sua realização, e volta transformada, difícil de reconhecer. Volta sob a forma de doença. O sintoma da doença, diz ele, é a manifestação disfarçada da potência do amor, e toda doença é apenas amor transformado.
A tese soa como a ideia de recalque: o desejo barrado não desaparece, retorna deformado. Para quem a ouve num sanatório, ela tem um poder particular, porque promete que cada sintoma tem sentido e que o sofrimento do corpo é uma mensagem. Hans Castorp, sentado atrás de Clawdia e olhando o braço e a mão dela, é o ouvinte ideal, e o narrador, com humor, o mostra distraído com a roupa das mulheres. Ao final, Krokowski convida todos à dissecação das almas, de braços abertos, quase como no chamado bíblico 'vinde a mim todos os que trabalhais'.
Pode-se ler a passagem como a primeira de uma série de explicações rivais da doença. Settembrini a considera humilhação; Naphta, o que há de mais humano; Hans, mais tarde, a forma licenciosa da vida. A de Krokowski é a mais sedutora e também a mais perigosa, porque faz do paciente um enigma a ser decifrado por quem tem autoridade para isso. Joachim e Hans nunca mais aludem à conferência, como por acordo tácito, o que sugere que algo ali os tocou. O romance deixa a tese de pé, sem refutá-la nem endossá-la, e Krokowski reaparecerá, no capítulo VII, trocando a psicanálise pelo ocultismo.
2.10 a 2.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Na terceira e última semana prevista de sua estada, Hans Castorp faz a conta do que custa o sanatório e sente que as férias voam, mas pega um forte resfriado. A enfermeira-chefe, srta. Von Mylendonk, aparece no seu quarto, nega que seja resfriado ("lero-lero") e lhe vende um termômetro de cinco francos (ver O termômetro), que marca 37,6. Os companheiros de mesa riem dele, Behrens combina examiná-lo depois de Joachim, e no sábado, quando o relógio bate duas horas, madame Chauchat o fita por cima do ombro e ele segue o primo ao consultório. Behrens o examina e diz que ele era "clandestinamente um dos nossos", e o manda para a cama.
Hans Castorp fica de cama desde o sábado, por ordem de Dr. Behrens, e a narrativa despacha em poucas páginas as três semanas seguintes. Joachim Ziemssen cobra providências com a família, e Hans escreve aos tios, duas vezes, que a gripe e o parecer do médico prolongam a estada. O Dr. Krokowski passa a incluí-lo na ronda como paciente, e Lodovico Settembrini o visita à noite, compara-o a um noviço recém-tonsurado e lhe dá uma lição sobre a morte. Ao fim de três semanas, Behrens manda-o levantar-se.
Passada uma semana, Hans Castorp é chamado ao laboratório de radiologia. Na espera, a professora Engelhart lhe conta que Clawdia Chauchat recebe à tarde, no quarto, um patrício que mora em Davos-Platz, e que o dr. Behrens a retrata a óleo no próprio apartamento. No dia do exame, Clawdia aparece na sala de espera e puxa conversa com Joachim, enquanto Hans a ouve como num sonho. Na penumbra do gabinete, Hans vê primeiro o coração de Joachim e depois a própria mão.
Setembro chega ao fim, e Hans Castorp, com sete semanas de montanha, já não sabe dizer se o tempo lhe parece curto ou longo. À saída do almoço, Hermine Kleefeld e os rapazes da sua roda lamentam que lhes tenham roubado a vida, e Settembrini adverte Hans a nunca lhes dar crédito, porque a doença e o desespero seriam formas de licenciosidade. Hans contesta, lembra a análise de Krokowski e defende Behrens contra o "sujeito diabólico", e o italiano se despede com uma alfinetada sobre os "partos e citas" com quem divide o repouso, e que são, explica, russos e russas. Irritado, Hans escreve a terceira carta para casa, pede roupas de inverno e oitocentos marcos por mês, e o termômetro sobe a 37,8.
Outubro começa frio e igual a setembro, até que um veranico atrasado dura duas semanas e meia. Hans Castorp, apaixonado por Clawdia Chauchat, deixa de julgá-la pelo critério de Settembrini e passa a imitar-lhe os modos, sentando-se relaxado e batendo as portas. O "merci" que ela lhe dá à entrada da sala de refeições e as cortinas que ele fecha contra o pôr do sol o enchem de júbilo, mas o olhar dela para os seus sapatos amarelos o derruba por dois dias, com a temperatura quase normal. No terceiro dia, o bom-dia que ela retribui no caminho do bosque o redime, e o mercúrio volta a subir.
Na tarde de domingo, com a correspondência distribuída no vestíbulo, Settembrini aborda Hans Castorp, pede para ver a chapa da radiografia que ele leva na carteira, mostra-lhe a carta da Liga para a Organização do Progresso e a enciclopédia de vinte volumes sobre o sofrimento humano, para a qual redige o verbete das belas-letras, e em seguida o aconselha com veemência a ir embora. Hans devolve o conselho, lembrando que o próprio Settembrini não viajou ao congresso da Liga em Barcelona por medo da morte, e pergunta o que ele tem contra o corpo. A conversa chega ao terremoto de Lisboa e é interrompida pela entrada de Joachim.
Hans Castorp tinha vindo por três semanas. Passada pouco mais de uma semana, pega um resfriado que a enfermeira-chefe se recusa a chamar de resfriado e que o termômetro, comprado por cinco francos, mede em 37,6. Levado ao consultório junto com Joachim, ouve de Behrens primeiro o diagnóstico do primo e depois o seu. O médico diz que chegou a uma opinião firme: o rapaz era, 'clandestinamente', um dos 'nossos'. Muitos vieram ao Berghof para se divertir, estudaram o ambiente torcendo o nariz e acabaram largando a curiosidade displicente para passar ali uma temporada extensa.
A frase muda o sentido de toda a visita. Hans Castorp deixa de ser espectador para ser paciente, e a viagem de férias passa a ser entendida, retroativamente, como a manifestação de uma doença latente. Behrens ainda explica que o ar de Davos é bom contra a enfermidade e, ao mesmo tempo, bom para ela, porque acelera o avanço do mal e provoca a irrupção do que estava escondido. O catarro de Hans, na lógica do médico, é a doença que saiu do esconderijo, e o termômetro vira o instrumento que decide o seu destino.
Pode-se ler aqui a lógica da digressão sobre o tempo encarnada no corpo: o ar que deveria abreviar a doença é o que a revela e a alonga, tal como o hábito que deveria descansar o organismo é o que faz o tempo sumir. A frase funciona também como armadilha elegante. Não há como contestá-la, porque quem não está doente apenas ainda não sabe, e a ideia de 'clandestinamente' faz de qualquer visitante um paciente em potencial. Por isso 'não vale a pena regressar', como Behrens dirá a seguir. O romance deixa em aberto se isso é diagnóstico honesto ou convite.
Em outubro, Hans Castorp, apaixonado por Clawdia Chauchat, deixa de julgá-la pelo critério de Settembrini e passa a imitá-la: senta-se relaxado, bate as portas. O narrador diz do que se compõe aquela paixão, entre o corpo e o sonho: ela se referia ao corpo de Clawdia, um corpo lânguido e exaltado, acentuado em demasia pela doença e transformado pela doença, uma vez mais, em corpo. A frase vem na seção em que o termômetro mede o humor dele: o mercúrio cai quando ela olha com desdém os sapatos amarelos e sobe quando ela retribui o bom-dia.
A passagem dá à paixão uma definição estranha, quase circular: o corpo, doente, é desejado por ser doente, e a doença o devolve a ser corpo. O desejo de Hans vai ao que há de mais físico e mais frágil nela, e é a fragilidade que o excita. O capítulo trata esse desejo sem pudor e sem moralismo, misturado com o sonho e com a memória de Hippe. Quando a temperatura sobe e desce conforme o encontro, o livro sugere que a febre, ali, é também linguagem do sentimento.
Pode-se ler a frase como um passo na equação do capítulo: corpo, amor e doença. Settembrini dissera que a doença e o desespero muitas vezes não são mais que formas de licenciosidade, e Krokowski, que a doença é amor transformado; aqui, o narrador mostra a aplicação concreta. A paixão de Hans não é platônica nem puramente carnal: passa pelo corpo e volta a ele, e o termômetro que antes media a doença passa a medir o amor. Isso prepara a Noite de Walpurgis, em que Hans dirá em outra língua o que aqui o narrador diz em terceira pessoa.
3.10 a 3.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Num dia de outubro, depois do almoço, Behrens atravessa o jardim, troca charutos com Hans Castorp e, ao confessar que pinta, convida os primos ao seu apartamento para um café turco. Ali Hans encontra o retrato a óleo de Clawdia e pergunta ao médico sobre a pele, a linfa e o sangue, até chegar à pergunta sobre o que é o corpo. Behrens responde que o corpo é água e proteína, e que viver é uma combustão em que se conserva a forma, de modo que viver, nesse ponto, é morrer.
Chega o inverno alpino, mais brando do que Hans Castorp temia. Nas noites de novembro ele fica na sacada até depois da meia-noite, agasalhado de lã e de peles, lendo livros pesados de anatomia, fisiologia, embriologia e patologia que comprou por conta própria. Deles tira a pergunta sobre o que é a vida, e a resposta que o narrador lhe atribui.
Passa o Natal sem alterar o regime do Berghof, e logo depois morre o aristocrata austríaco, cujo corpo Hans Castorp vai ver com Joachim. A partir daí ele procura os enfermos graves da casa e passa a visitá-los: a jovem Leila Gerngross, o rapaz Lauro, a doente que ri de tudo, Anton Karlovitch Ferge, a sra. von Mallinckrodt e Karen Karstedt, a quem os primos levam ao trenó, ao cinema e ao cemitério do Dorfberg.
Nas noites de novembro, Hans Castorp fica na sacada até depois da meia-noite, agasalhado de lã e de peles, lendo livros de anatomia, fisiologia e biologia que encomendou por conta própria. Depois de percorrer as tentativas da ciência de explicar a origem da vida a partir da matéria inanimada, ele chega a uma definição: a vida é uma febre da matéria, que acompanha o processo incessante de decomposição e reconstituição das moléculas de albumina. Não é matéria nem espírito, é algo entre os dois, como o arco-íris sobre a queda-d'água, e igual à chama.
A imagem do arco-íris e da chama dá à vida o estatuto de fenômeno sustentado, não de coisa. Ela depende da matéria, mas não é material; e, no mesmo movimento, é 'sensual até a volúpia', a 'forma lasciva do ser'. A página une corpo e espírito sem dar a vitória a Settembrini nem a Naphta. Mais adiante, no mesmo estudo noturno, a leitura sobre a patologia o leva a concluir que a enfermidade era a forma licenciosa da vida, e que a vida talvez fosse uma doença infecciosa da matéria, o que o narrador chama de pecado original.
Pode-se ler a passagem como o ponto em que a doença de Hans Castorp deixa de ser incidente e vira pensamento. Ele estuda sozinho, sem professor, e conclui que viver e adoecer são faces do mesmo calor. A frase de Behrens, de que 'viver é morrer', prepara o terreno, e a declaração de amor que virá, em francês, na Noite de Walpurgis, dirá em outra língua a mesma ideia: corpo, amor e morte são uma coisa só. O leitor pode se perguntar se isso é descoberta ou delírio de quem lê a própria doença em cada página; o texto deixa a pergunta aberta.
4.4 a 4.6: perguntas abertas, sem gabarito.
Na terça-feira de Carnaval, a sala de refeições se enche de serpentinas, e Hans Castorp, febril de ponche e de olhares, trata Settembrini por "você" e provoca a repreensão do humanista. No jogo de desenhar porquinhos, grita por um lápis até atravessar a sala e pedi-lo a Clawdia Chauchat, que lhe empresta uma lapiseira. Os dois se sentam numa saleta e conversam a sós, inteiramente em francês, até Hans se ajoelhar e declarar-lhe o amor. Clawdia, que no meio da conversa já anunciara a partida para o dia seguinte, o chama de burguês e sai pedindo a lapiseira de volta.
Passaram-se seis semanas desde a noite de Carnaval e desde a partida de Clawdia Chauchat para o Daguestão, no dia seguinte a ela, e Hans Castorp guarda sobre o coração o retrato espectral dela. Joachim, farto da escala de Gaffky, ameaça voltar à planície por conta própria, e Hans toma injeções por causa da temperatura que não cede. No domingo de Páscoa, Settembrini anuncia que deixa o Berghof (ver O Berghof) para morar na casa do alfaiate Lukacek, no vilarejo, e a primavera começa a vencer o inverno. O Dr. Krokowski passa algumas semanas a conversar com Hans a cada ronda.
No solstício de verão, Hans Castorp colhe flores, estuda botânica e contempla os astros, e Joachim, que prefere a gramática russa, resmunga que o primo se ocupa de assuntos estrambólicos. Na rua principal, a caminho do vilarejo, os primos cruzam com Settembrini, que está com um desconhecido, e caminham os quatro lado a lado. Pelo caminho, os dois homens travam a primeira discussão diante dos primos, sobre natureza e espírito, o trabalho dos monges, a guerra e o Estado, e Hans intervém com o elogio do isolamento. Ao chegar à casa em que os dois moram, Naphta convida os primos a visitá-lo, e Joachim, na subida para o Berghof, diz o que pensa dele.
Hans Castorp, que já deixou de tomar injeções, classifica flores na sacada e decide visitar Naphta com Joachim, num domingo. Naphta e Settembrini, que chega para o chá, travam o grande debate sobre ciência e fé, Estado e Igreja, e Naphta chega a pregar o terror como necessidade. Quando Settembrini leva os primos embora, revela no caminho que o anfitrião é jesuíta e adverte os dois contra ele.
Na sala forrada de seda de Naphta, enfeitada por uma pietà gótica, o debate entre os dois pedagogos ganha forma de doutrina. Naphta defende que a ciência é inseparável da fé, cita Santo Agostinho, 'Creio para compreender', e apresenta a alternativa entre Ptolomeu e o mundo infinito. Settembrini responde defendendo o Estado democrático: para ele, a democracia não tem outro sentido senão o de ser um corretivo individualista de toda forma de absolutismo do Estado, e as conquistas do Renascimento e das Luzes chamam-se personalidade, direitos do homem, liberdade.
A fala resume o humanismo de Settembrini em palavras que o livro leva a sério, e que ele defende com calor e com alguma vaidade. O 'corretivo individualista' é uma definição nada heroica da democracia: ela serve para limitar o poder, não para fundar uma religião. Isso a torna sólida e, ao mesmo tempo, pouco sedutora diante do que Naphta oferece, que é sentido, comunidade e reino de Deus. O romance deixa ver o limite do humanista: liberdade e direitos funcionam como defesa, mas não respondem ao 'para quê' que Hans Castorp carrega desde a infância.
Pode-se ler a passagem como o melhor argumento de Settembrini e como aquilo que lhe falta. Ele tem razão contra o terror, que Naphta logo defenderá, mas não tem resposta para o vazio que o terror promete preencher. O narrador não dá a vitória a ninguém: os dois discutem por anos, e a disputa só termina com a morte de um deles no duelo do capítulo VII. Hans Castorp ouve tudo como plateia e como prêmio, e a escolha dele, se vier, não virá desta sala.
Na mesma conversa, Settembrini o provoca a dizer quem seria o sustentáculo do terror que ele defende. Naphta responde com a história: desde Gregório Magno, fundador do Estado divino, da Cidade de Deus, a Igreja se considerou incumbida de reconduzir os homens ao governo de Deus, e o anseio por Deus não pode ser pacifista. A conclusão da fala é a frase que dá a medida da sua doutrina: o poder é mau, mas, para que chegue o reino, é preciso suspender por um momento o dualismo entre bem e mal, aquém e além, espírito e arbítrio, e uni-los num princípio que reúna o ascetismo e o domínio. É a 'necessidade do terror'.
O que torna o argumento coerente por dentro é que Naphta não nega que o poder seja mau: ele o afirma, e disso tira a conclusão de que só um poder que una ascetismo e domínio pode servir ao reino. A doutrina não é cinismo, mas rigor levado até o fim. Pouco antes, ele dissera que o homem é um ser dualista, dividido entre o sensível e o suprassensível; a frase mostra que, para chegar à unidade futura, a divisão deve ser, por um momento, suspensa pela força.
Settembrini reage apontando a contradição entre o individualismo cristão de Naphta e a ditadura que ele acaba de defender. O romance não decide quem tem razão, mas deixa claro que a de Naphta termina em violência, e é na violência que ele morrerá, no capítulo VII, ao descarregar a pistola na própria cabeça. Pode-se ler a 'necessidade do terror' como a doutrina de alguém que, tirado da ordem religiosa pela doença, busca na autoridade a ordem que a vida lhe negou. A frase mostra o preço do que a seda da sala e a pietà sustentam.
5.10 a 5.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Em agosto o tempo estraga, com neve em pleno verão, e o aniversário da chegada de Hans Castorp passa em silêncio. No exame mensal de setembro, Joachim comunica ao dr. Behrens que viaja em oito dias para apresentar-se ao regimento. Behrens o pressiona e depois cede, dando-lhe a alta com meia aprovação. Quando Hans pergunta se também pode partir, o médico o declara curado e explode de cólera diante da dúvida, saindo da sala com um estrondo. Hans mede 37,8 e decide ficar, e Joachim parte de trem.
Em outubro, sem Joachim, Hans Castorp janta entre desconhecidos, ao lado de Ferge e de Wehsal. O tio James Tienappel chega como emissário da planície, pronto para ficar uma semana e levar o sobrinho de volta para casa. Hans o recebe sem chapéu nem sobretudo e se nega a discutir, enquanto o cônsul se desorienta entre a superiora Mylendonk, uma conferência de Krokowski e um negativo fotográfico que Hans guarda como lembrança. No sexto dia o cônsul tem a entrevista com Behrens e, depois de ouvi-lo à mesa sobre a decomposição do cadáver, desaparece pela manhã no primeiro trem.
Hans Castorp ouve a história de Naphta aos poucos, em visitas à cela forrada de seda e em passeios, e a seção a conta de uma vez: do pai açougueiro ritual, passando pelo colégio Stella Matutina e pelo noviciado, até a hemoptise que o tira da ordem. Em seguida, perto do Natal, uma disputa na neve entre Naphta e Settembrini, diante de Hans, Ferge e Wehsal, passa da saúde e da doença à tortura, à pena de morte e à nobreza, e termina em confusão.
Nas proximidades do Natal, num passeio de ida e volta a Davos-Platz pela neve, Naphta e Settembrini discutem diante de Hans, Ferge e Wehsal. Hans já dissera que a doença é inumana; a resposta imediata de Naphta, relatada pelo narrador, é que ser humano é ser doente: o espírito distingue o homem da natureza, e é na doença que se baseia a sua dignidade. Quanto mais enfermo, tanto mais humano, e o gênio da enfermidade é mais humano que o da saúde. A frase vem depois da biografia de Naphta: o pai, açougueiro ritual, o colégio jesuíta, o noviciado e a hemoptise que o impediu de ir além do subdiaconato.
A tese vira de ponta-cabeça a de Settembrini, para quem a doença absolutamente não é nobre. O texto sugere, porém, que Naphta fala também de si: foi a doença que o tirou do caminho do sacerdócio, e a ideia de que ela é o mais humano pode ser o modo de dar dignidade ao que o interrompeu. A pergunta que o leitor pode fazer, e que o romance deixa aberta, é se a tese é mais honesta ou mais suspeita por nascer da experiência de quem adoeceu.
A frase organiza as outras explicações da doença: a de Krokowski, que a faz amor transformado, a de Behrens, para quem viver é combustão, a de Hans, que a chama de forma licenciosa da vida. Naphta lhe dá um tom moral e metafísico: ser doente é ser humano porque é ser espírito. A discussão termina, segundo o narrador, numa 'encruzilhada e emaranhamento completos', em que os adversários teriam sido menos encarniçados se a confusão não lhes pesasse na alma. É essa confusão, e não a vitória de um dos dois, que o capítulo deixa para Hans Castorp na neve.
6.4 a 6.6: perguntas abertas, sem gabarito.
No segundo inverno de Hans Castorp o sol quase não aparece e a neve cai em quantidade nunca vista, o que restringe os passeios de todos, menos dos esquiadores. Para ficar a sós com seus pensamentos, ele compra esquis, com o aplauso de Settembrini. Numa tarde a tempestade o surpreende longe do vale, e ele só volta ao Berghof depois de adormecer na neve e sonhar.
Joachim manda cartões felizes do regimento, é promovido, mas adoece de novo e volta a Davos no verão, com a mãe, para um "pequeno tratamento suplementar". Hans discute a maçonaria separadamente com Naphta e com Settembrini. Behrens descobre a tuberculose da laringe de Joachim e pede a Hans que o trate com gentileza nas semanas que restam. Em novembro Joachim se acama, a mãe é chamada de volta e chega a tempo de vê-lo morrer, às sete da noite.
A seção não tem cena nem personagem, só a voz do narrador, que abre o capítulo com a segunda grande digressão sobre o tempo, par do Excurso de Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro: ali o problema era o hábito, que na monotonia encolhe os grandes lapsos de tempo, aqui é a pergunta se o próprio tempo pode virar assunto de uma narrativa, e a confusão entre "ainda" e "de novo".
Pieter Peeperkorn, "um holandês colonial, nascido em Java, um plantador de café", chega no mesmo trem que Clawdia Chauchat, hospeda-se com ela e domina qualquer roda pela pura presença, quase sem terminar uma frase. Ele recebe um lugar ao lado dela, à mesa dos russos distintos, e o Dr. Behrens consola Hans Castorp dizendo que os dois são amicíssimos e que o homem, riquíssimo e doente de uma febre tropical, não veio ao Berghof para se divertir. Hans, apanhado de surpresa, decide guardar o ressentimento sob extrema reserva.
Surpreendido pela tempestade, perdido, bebendo vinho do Porto contra todo bom senso, Hans Castorp adormece junto a um galpão e sonha: primeiro, um golfo mediterrâneo com jovens belos e sensatos numa praia; depois, ao entrar num templo, duas bruxas que esquartejam e devoram uma criança. Meio desperto, ele continua a pensar, e desse monólogo sai a frase que o capítulo inteiro armou: ele não quer conceder à morte poder algum sobre seus pensamentos, pois é nisso que consistem a bondade e a filantropia. E conclui que o amor enfrenta a morte, e só ele, não a razão, é mais forte que ela.
A sentença responde por cima dos dois pedagogos. Pouco antes, no mesmo monólogo, Hans dissera querer aderir aos jovens da praia, e não a Naphta nem a Settembrini: 'Ambos são charlatães'. Recusa, portanto, o terror e a razão como bandeira, a morte como redenção e o humanismo como defesa, e opta por um amor que não se discute. A frase distingue ainda a bondade da simples razão, o que a faz mais humilde que as teses de Settembrini. Ela nasce de um sonho, e não de uma conversa, e é isso que lhe dá peso: pode-se ler como visão, e não como argumento.
Pode-se ler a passagem como o centro do livro e ver o que ela custa: Hans Castorp a esquece logo depois. O romance lhe entrega a formulação que Naphta e Settembrini gastam o capítulo sem alcançar, e a retira dele no mesmo gesto. É por isso que o duelo continua e que o final não é lição. A frase fica para o leitor como possibilidade, não como resposta, e a última página do romance a retoma em forma de pergunta, ao indagar se da festa mundial da morte 'ainda surgirá o amor'.
O capítulo VII abre com uma pergunta do narrador: pode-se narrar o tempo, ele próprio, o tempo como tal, em si mesmo? A resposta é 'Não, de fato não, algo assim seria um arrojo insano!'. E, no entanto, o que segue é quase exatamente isso: uma digressão que distingue os dois tempos que toda narrativa carrega, o próprio, real-musical, que lhe determina a existência, e o do seu conteúdo, e que desemboca num passeio pela praia em segunda pessoa; o narrador recua do 'arrojo insano' e diz que narrar sobre o tempo não é iniciativa totalmente absurda.
A frase é uma negativa que se pratica, como o Propósito, que prometia exatidão e minúcia: o narrador anuncia a impossibilidade e se põe a fazer. Esse gesto resume o método do livro, que trata do tempo narrando devagar, e não apenas explicando. A conclusão da digressão, 'Ali é igual a aqui, e antes é igual a agora', diz que onde reina a uniformidade o movimento deixa de ser movimento e, onde não há movimento, não existe tempo. Isso dá o andaime do grande tédio que virá adiante no mesmo capítulo.
Pode-se ler a passagem como um espelho da própria leitura: quem chegou até aqui perdeu, como Hans Castorp, um pouco da noção do tempo, e o narrador o convida a notar isso. O capítulo I mostrara a tese na boca de Joachim, o IV a desenvolvera como teoria sobre o hábito, e agora o VII a devolve ao leitor como confissão de impossibilidade. A frase também justifica a forma desigual do romance, em que as primeiras semanas ocupam centenas de páginas e os últimos anos passam em poucas. Se o tempo não se narra, só se pode narrar o que acontece dentro dele, e o livro faz o leitor sentir a duração.
7.10 a 7.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Três ou quatro semanas depois, numa noite mais animada que as outras, Clawdia aparece atrás da cadeira de Hans Castorp no salão de leitura e pergunta pelo primo dele, e Hans responde que Joachim morreu. Peeperkorn os encontra, é apresentado a Hans com um discurso interrompido e propõe um jogo de vingt et un, com vinho, para o qual Hans é mandado reunir companhia. A noite se arrasta entre apostas, omeletes e as divagações do holandês, e de repente Peeperkorn, embriagado, chama Hans de "irmão a quem digo você". No fim, manda Hans beijar Clawdia na testa, e Hans se recusa.
Peeperkorn passa o resto do inverno e parte da primavera no Berghof, no comando de um grupo de passeios, e Hans Castorp o visita nos dias de febre. O holandês cala Naphta e Settembrini com a pura presença, e Settembrini estranha o fascínio do discípulo, que se defende com a ideia de personalidade. Numa noite no vestíbulo, Clawdia pede a Hans um selo e um cigarro, os dois conversam a sós e se beijam. Numa tarde, na cama de Peeperkorn, Hans ouve a sua teologia do sentimento, é interrogado sobre o passado com Clawdia e acaba por selar com ele uma aliança de vinho.
Em maio, num dia sem febre, Peeperkorn organiza uma excursão de coche à cascata do vale de Flüela, com Clawdia, Hans, Ferge, Wehsal, Naphta e Settembrini. Junto à queda-d'água, cujo estrondo impede qualquer conversa, ele faz um discurso mudo, e os outros o aplaudem com gestos. Na madrugada seguinte, Hans é acordado: Peeperkorn se matou. Ele conversa com Clawdia à beira da cama e a beija na testa, na presença simbólica do morto.
Behrens chama Hans Castorp de blasé e, para explicar a temperatura que não cede, propõe pesquisar estreptococos no sangue dele, o que leva a uma sangria, a culturas e a um tratamento com vacina. Depois da partida de Clawdia e da morte de Peeperkorn, Hans sente o mundo fora dos eixos, e o narrador dá nome ao que o domina.
Peeperkorn, o plantador holandês de presença imensa e frases que nunca terminam, está na cama quando Hans Castorp o visita e ouve a sua teologia. O sentimento, diz ele, é a força viril que desperta a vida; 'o sentimento, meu jovem, é divino', e o homem é divino enquanto sente. Se fracassa quanto ao sentimento, irrompe a ignomínia de Deus, a derrota da virilidade de Deus, uma catástrofe cósmica, um horror inimaginável. Depois da frase, ele volta a beber.
A passagem mostra o que torna Peeperkorn estranho e decisivo. Sua doutrina não é argumento, é exaltação, mas o romance a leva a sério, porque ela organiza uma vida inteira. Para ele, sentir é dever religioso, e falhar nisso é culpa quase cósmica. Hans a ouve com polidez, acha instrutivo seguir esses pensamentos, ainda que um pouco unilaterais e angustiantes, e tenta desviá-lo do assunto. Antes, ao responder a Settembrini, Hans explicara que o holandês vale como 'personalidade', um valor positivo no mais alto grau, tal qual a vida.
Pode-se ler que a resposta do romance ao duelo entre Settembrini e Naphta não é uma terceira doutrina, mas uma presença. Peeperkorn cala os dois sem refutá-los, e o que defende é o sentimento diante da vida. A frase antecipa também o seu fim: quem fez do sentimento um dever divino não suporta falhar nele, e se mata na madrugada seguinte à excursão à cascata. Hans Castorp resumirá a Clawdia que a envergadura do holandês era tamanha que o fracasso do sentimento lhe causava a sensação de catástrofe cósmica. O que aqui é teologia, ali é biografia.
Depois da partida de Clawdia e da morte de Peeperkorn, Hans Castorp sente o mundo fora dos eixos, e o narrador dá nome ao que o domina: um demônio, o tédio. À volta dele, o Berghof entra num estado que o narrador descreve com todas as letras: Hans olha em torno, vê coisas inquietantes e perniciosas, e sabe o que vê, a vida sem tempo, a vida sem cuidados nem esperanças, a vida como abjeção que se move à medida que estagna, a vida morta.
A frase junta ideias que o livro desenvolveu nos capítulos anteriores. A 'vida sem tempo' retoma a digressão do capítulo IV e o 'não há tempo nem vida' de Joachim no primeiro jantar, agora no plano do sentimento: o hábito, que apagava os dias, apagou também o desejo de viver. 'Abjeção que se move à medida que estagna' é uma imagem do tédio coletivo, que se organiza em manias, a fotografia, a filatelia, a paciência de cartas, e que o capítulo mostra em seguida. O narrador chama isso de 'vida morta', e a expressão sugere que a doença do Berghof não é só a do pulmão, mas a de uma vida que continua sem sentido.
Pode-se ler a passagem como o diagnóstico do que a montanha fez a quem ficou, e como o fundo do poço do romance: Peeperkorn fora a presença que dava vida ao lugar, e sem ele sobram os sintomas. Ela prepara também a irritação geral, o duelo e o trovão. O tédio não é só cansaço: é o nome do que a época, e o sanatório como seu retrato, não consegue responder ao 'para quê' do capítulo II.
8.5 a 8.7: perguntas abertas, sem gabarito.
Um gramofone novo, com doze álbuns de discos, tira Hans Castorp da paciência de cartas, e o narrador acompanha as noites em que ele ouve música sozinho.
A seção conta como Elly Brand leva o ocultismo ao Berghof e como Hans Castorp, depois de participar de uma sessão da taça no quarto de Hermine Kleefeld, em que o fantasma Holger poetiza, entra nas sessões formais de Krokowski para tentar chamar Joachim. Com o disco da Oração de Valentin ao fundo, a figura de Joachim aparece, e Hans pede perdão, acende a luz e toma de Krokowski a chave da sala.
A seção vai do mal-estar geral ao duelo: o ódio entre Naphta e Settembrini explode numa excursão a Monstein, em fevereiro, e Hans Castorp só consegue atenuar em parte as condições. Na manhã do duelo, na neve, Settembrini atira para o ar, e Naphta, depois de chamá-lo de covarde, atira na própria cabeça.
A narração acelera até o fim. Morre na planície o velho cônsul Tienappel, tio-avô de Hans, a guerra estoura, e o narrador acompanha Hans ao campo de batalha, onde o perde de vista.
Entre os discos do gramofone novo, Hans Castorp tem predileção por 'A tília', de Schubert, a canção a que o narrador dedica mais espaço que a qualquer outra peça do capítulo. A pergunta é feita sem rodeios: qual era o mundo que se abria atrás dela e que, segundo os pressentimentos íntimos de Hans Castorp, devia ser o mundo do amor proibido? E a resposta tem duas palavras: 'Era a morte.' A canção, que parece doce e doméstica, esconde o mundo que Hans não ousa nomear.
A resposta liga a música ao tema central do romance, o enredamento de amor e morte que a Noite de Walpurgis já dissera em francês, com a declaração de que corpo, amor e morte são uma coisa só. Na canção, Hans encontra uma forma bela da mesma ideia. O narrador diz em seguida que ela era 'um fruto da vida, gerado pela morte e prenhe de morte', e que Hans tem escrúpulos de consciência quanto a amá-la: o amor, diz, é aqui o amor que duvida. Hans sabe o que há atrás da canção e continua a amá-la.
Pode-se ler a passagem como um aviso. O narrador não proíbe a música, mas mostra que 'A tília' tem a morte por trás, e que o amor a ela pode virar política: ele aventa que se poderiam fundar impérios sobre essa magia da alma, terrestres e rudes, entusiastas do progresso, onde o lied degenera em música de vitrola elétrica. Mas a passagem fecha com uma saída: o melhor dos filhos dessa magia seria quem triunfasse sobre si e morresse esboçando 'a nova palavra do amor'. Na última página, Hans Castorp canta um trecho da canção na lama de um campo de batalha, e a pergunta final tem aqui a sua origem.
Hans Castorp desceu da montanha e avança no campo de batalha, cantando baixinho um trecho de 'A tília'. O narrador o acompanha até perdê-lo de vista, avisa que o prognóstico é ruim, sem dizer se sobrevive, e se despede dele com uma pergunta, a última do livro: será que também desta festa mundial da morte, e da perniciosa febre que inflama o céu da noite chuvosa, ainda surgirá o amor? O romance não responde.
A pergunta volta à frase que Hans formulou na neve, o amor mais forte que a morte, e à de 'A tília', fruto gerado pela morte e prenhe de morte. Entre as duas, o livro passou por Clawdia, por Joachim, por Peeperkorn, por Settembrini e Naphta, sem que nenhum resolvesse o enigma. Aqui o assunto é posto em escala mundial: 'festa da morte', 'febre', 'noite chuvosa' são imagens do que a guerra faz com o continente e do que a doença, a paixão e o tédio já faziam na montanha. A palavra 'febre' une o termômetro dos primeiros capítulos ao céu da noite chuvosa e dá ao final um ar de continuidade.
Pode-se ler a frase como a recusa do romance a dar lição. O livro entrega ao personagem a verdade na neve e a retira; entrega ao leitor a pergunta no fim e não a responde. O que sobra é uma esperança sem garantia, formulada no registro da dúvida, e a ideia de que o que se aprendeu na montanha pode servir de algo na planície, se alguém se lembrar. Hans Castorp não se lembra, e o narrador pergunta por ele. Quem fecha o livro tem diante de si a mesma pergunta que o jovem já não pode fazer, e o que fazer com ela é, afinal, o que o romance deixa a cada leitor.
9.10 a 9.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Jovem engenheiro de Hamburgo, órfão de pai e mãe antes dos sete anos e, um ano e meio depois, do avô Hans Lorenz Castorp, criado pelo tio-avô Tienappel, que sobe a Davos para visitar o primo Joachim Ziemssen por três semanas e fica sete anos.
Como muda
No Capítulo I: A chegada ao Berghof chega, ri do que para Joachim já é rotina e, no quarto, antes do primeiro jantar, sente frio no corpo e calor no rosto.
No Capítulo II: A pia batismal e as duas figuras do avô o romance volta à infância: a pia batismal, as duas figuras do avô e as três mortes seguidas que o acostumaram ao lado físico da morte.
No Capítulo III: O primeiro dia inteiro e a chegada de Settembrini o corpo já decide antes dele, e ele recusa a sugestão de Lodovico Settembrini de partir no dia seguinte.
No Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro reconhece nos olhos de Clawdia Chauchat os de Pribislav Hippe, o colega a quem pediu um lápis aos treze anos, compra o próprio termômetro e ouve de Dr. Behrens o diagnóstico que muda o sentido da visita.
No Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis vê a própria mão na radiografia, estuda anatomia sozinho nas noites de inverno, passa a visitar os moribundos e, na Noite de Walpurgis, declara-se a Clawdia em francês.
No Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim fica entre Leo Naphta e Settembrini, perde-se na nevasca, formula a frase que resolveria o duelo dos dois e a esquece na mesma noite.
No Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão se deixa fascinar por Pieter Peeperkorn, mergulha no tédio, interrompe a sessão em que Joachim aparece e, com o trovão da guerra, é mandado por Settembrini de volta à planície.
Primo de Hans Castorp, militar internado no O Berghof, que já fala a língua do sanatório quando o primo chega e que só quer voltar ao regimento.
Como muda
É ele quem diz, no primeiro jantar, a frase mais seca do romance sobre o lugar.
Mede a febre com o termômetro (ver O termômetro) quatro vezes por dia, sete minutos de cada vez, e é dele o coração que Hans Castorp vê primeiro na radioscopia (ver A radiografia).
Farto da escala dos médicos, antecipa a partida contra a opinião deles e, ao embarcar, chama o primo pelo prenome pela primeira vez.
Volta doente, piora sem esconder e morre no Berghof dando uma última ordem doméstica, e Dr. Behrens resume a morte dele na língua militar.
Reaparece no capítulo VII, na sessão de Elly Brand, com a barba de guerreiro dos últimos dias.
O humanista italiano do O Berghof, discípulo de Giosuè Carducci, que Hans Castorp classifica antes de saber o nome.
Como muda
No Capítulo III: O primeiro dia inteiro e a chegada de Settembrini entra pedagogo desde a primeira fala, chamando os médicos de juízes do Hades e os pacientes de gente decaída, e recita o hino de Carducci a Satanás como símbolo da razão rebelde.
Na mesma noite propõe a Hans Castorp que vá embora no trem do dia seguinte.
No Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro acha a música moral e politicamente suspeita, conta o avô carbonário e ergue a política e o humanismo a uma só força.
No Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis mostra o programa da Liga para a Organização do Progresso e chama o corpo de princípio mau, em nome do espírito.
No Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim encontra o adversário em Leo Naphta e defende contra ele a democracia; numa conversa com Hans Castorp sobre a maçonaria, põe o limite da tolerância.
No Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão aceita o duelo desaprovando-o, atira para o ar e, no trovão, se despede de Hans Castorp mandando-o descer.
O segundo pedagogo do romance, vizinho de pensão de Lodovico Settembrini, professor de línguas antigas e ex-aluno de um seminário jesuíta. A primeira imagem que o texto fixa dele é toda em arestas.
Como muda
A biografia, contada na seção Operationes spirituales, explica de onde vem a violência das suas doutrinas: o pai, açougueiro ritual judeu, morre crucificado num motim; o órfão é recolhido por um jesuíta, converte-se no colégio Stella Matutina e é parado pela doença antes do sacerdócio.
Na sala forrada de seda defende, contra Settembrini, que não há conhecimento neutro em relação à fé, e chega à necessidade do terror.
Defende que a doença, e não a saúde, é o que torna o homem humano, e diante do corpo de Joachim Ziemssen mantém o duelo de doutrinas.
No Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão, com a saúde piorando, justifica o próprio método pelo ceticismo radical e, no duelo, atira na própria cabeça.
Paciente do O Berghof que entra no romance pelo barulho da porta de vidro e pelo silêncio dos passos, e que Hans Castorp primeiro reprova e depois não consegue deixar de olhar.
Como muda
No Capítulo III: O primeiro dia inteiro e a chegada de Settembrini a porta que bate provoca em Hans Castorp um ódio fora de proporção, e o rosto dela lhe lembra alguém que ele não consegue nomear.
No Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro o nome aparece: os olhos dela são os de Pribislav Hippe, o colega a quem ele pediu um lápis aos treze anos.
No Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis Dr. Behrens a pinta a óleo, e na Noite de Walpurgis Hans Castorp lhe pede um lápis, fala em francês e liga a paixão presente ao amor de colégio.
Ela fecha a cena com o mesmo objeto que a abriu, e parte no dia seguinte.
No Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão volta ao Berghof com Pieter Peeperkorn, e numa conversa a sós Hans Castorp lhe diz que a doença dá liberdade e gênio.
Holandês colonial, nascido em Java, plantador de café, que chega no mesmo trem que Clawdia Chauchat e domina qualquer roda pela presença, quase sem terminar uma frase.
Como muda
Hans Castorp tenta explicar a Lodovico Settembrini por que se deixa fascinar por um homem cujo discurso não tem conteúdo.
Ao lado dele, a discussão entre Settembrini e Leo Naphta perde a força.
Eleva o vinho, a comida e o sono a dádivas clássicas da vida, faz do sentir um dever religioso e, sabendo do passado de Hans Castorp com Clawdia, propõe-lhe uma fraternidade selada a vinho em lugar da satisfação com a arma, que diz não poder dar-lhe por causa da idade e da doença.
Minado por uma febre tropical, mata-se com veneno, usando um instrumento que imita as presas de uma naja, feito, segundo Behrens supõe, por indicação dele mesmo, e que Dr. Behrens tira das mãos do morto.
Fechamento: perguntas abertas, sem gabarito.