Ficha da obra
- Autor
- Aluísio Azevedo
- Publicação
- Em livro em 1890, no Rio de Janeiro
- Gênero
- Romance naturalista
- Cenário
- Botafogo, no Rio de Janeiro
- Época
- O Segundo Reinado, nos anos que antecedem a abolição da escravatura
- Narrador
- Terceira pessoa, onisciente e distante, que observa o cortiço como um organismo
- Protagonista
- João Romão, vendeiro português, e o próprio cortiço
Sobre o autor
Romancista maranhense, nome central do naturalismo brasileiro, autor de O Mulato, Casa de Pensão e O Cortiço. Ler o perfil de Aluísio Azevedo
Tema central
Um vendeiro português de Botafogo junta dinheiro privando-se de tudo, toma para si as economias de uma quitandeira escrava, levanta com pedra furtada e trabalho alheio uma estalagem de casinhas e tinas para lavadeiras, e o livro acompanha, ao mesmo tempo, a subida dele e a vida da multidão que mora no cortiço: lavadeiras, cavouqueiros, capoeiras, uma moça que espera a puberdade para casar, um colono português que a terra transforma. O que faz o livro durar é o modo como o narrador olha essa gente, como um organismo que acorda, fermenta, se arma, arde e se refaz, e como o dinheiro do dono corre por baixo de tudo, da água das tinas ao aluguel dos cômodos. No fim, o cortiço virou avenida, o vendeiro vai casar com a filha do vizinho rico e a mulher que o ajudou a subir é devolvida ao antigo senhor no mesmo instante em que chega a ele um diploma de abolicionista.
A ação se passa no Rio de Janeiro, no bairro de Botafogo, a partir dos anos 1870, quando a escravidão ainda era legal e o movimento abolicionista, diz o narrador, começava a se formar em torno da Lei do Ventre Livre, de 1871 (capítulo II). Ao lado da venda de João Romão fica o sobrado de Miranda, negociante português que despreza o vizinho e o inveja (capítulo II), e entre os dois cresce a estalagem que dá nome ao livro.
O fio que atravessa a obra
Três fios atravessam o romance de ponta a ponta, e cada um se acompanha pelos capítulos em que aparece.
O primeiro é a subida de João Romão. Ele vive de privações, apropria-se das economias de Bertoleza e lhe lê uma carta de liberdade que ele mesmo forjou (capítulo I); levanta as casinhas com pedra furtada e aluga casinhas e tinas às lavadeiras (capítulo I); recusa-se a pagar o dote que prometera a Florinda (capítulo X). O título do vizinho lhe mostra o que lhe falta (capítulo X), e ele muda de roupa, de hábitos e de ambição, ajustando com Botelho o caminho até Zulmira (capítulo XIII). O incêndio lhe dá as garrafas de dinheiro de Libório e um cortiço segurado (capítulo XVIII), e o sobrado mais alto que o de Miranda (capítulo XIX, capítulo XX). Com o casamento decidido, Bertoleza é o que sobra do passado (capítulo XXI), e ele a devolve ao antigo senhor (capítulo XXIII).
Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular; de reduzir tudo a moeda
O segundo é o cortiço como um organismo vivo. Nasce da lama como larvas no esterco (capítulo I), acorda às cinco da manhã com as portas e janelas abrindo-se como olhos (capítulo III), une-se num círculo de ferro contra a polícia (capítulo X, capítulo XI), divide-se em carapicus e cabeças-de-gato (capítulo XIII), arma-se numa batalha que o fogo interrompe (capítulo XVII) e se refaz, limpo e caiado, como Avenida São Romão (capítulo XX), até se aristocratizar e empurrar a pobreza para o cortiço rival (capítulo XXII).
E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco
O terceiro é a transformação de Jerônimo. O cavouqueiro chega de Portugal sério, econômico, com a alma de desterrado voltada para a aldeia (capítulo V), e é o chorado de Rita Baiana que lhe revela a terra que o acolhe (capítulo VII). Doente, é tratado por ela (capítulo VIII) e, aos poucos, troca os hábitos de aldeão pelos da terra (capítulo IX), até matar Firmo para ficar com a mulata (capítulo XV) e deixar Piedade, que desce de lavadeira cuidadosa a bêbada da roda (capítulo XX, capítulo XXII).
pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se