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Autor

Liev Tolstói

Liev Nikoláievitch Tolstói

Conde e latifundiário, escreveu os dois grandes romances da Rússia imperial, rompeu com a Igreja Ortodoxa e com a própria ficção, e passou as últimas décadas da vida tentando viver o cristianismo sem Igreja que pregava.

Nascimento
Iásnaia Poliana, 1828
Morte
Astápovo, 1910
Nacionalidade
Russa
Retrato de Liev Tolstói
Retrato: Ivan Kramskói, 1873. Domínio público.

Quem foi

Romancista russo, conde e dono de terras em Iásnaia Poliana, autor de Guerra e Paz e de Ana Karênina. Na maturidade rompeu com a Igreja Ortodoxa e repudiou a própria ficção, e passou o resto da vida pregando um cristianismo sem Igreja e tentando vivê-lo. Foi excomungado em 1901 e morreu em 1910, na estação de Astápovo, durante a fuga final de casa.

Vida e obra

Herdou ainda jovem a propriedade, serviu no Cáucaso e na Crimeia e abriu escolas camponesas em 1859. Guerra e Paz saiu em folhetim a partir de 1865 e em volume em 1869, e Ana Karênina entre 1873 e 1877. A crise religiosa de fins da década de 1870 deu Minha Confissão (1882) e a novela A Morte de Ivan Ilitch (1886), a primeira grande ficção que publicou depois de decidir abandonar a ficção. A segunda metade da vida foi a do tolstoísmo, o cristianismo prático e sem dogma que lhe valeu séquito, excomunhão e a fama de segundo tsar da Rússia.

Por que ler

Tolstói escreve com a vida inteira nas mãos e com um juízo moral que nunca larga. Guerra e Paz entrelaça histórias particulares e públicas, de paz e de guerra, a ponto de a crítica pô-la ao lado da epopeia homérica. Ana Karênina põe dois casamentos lado a lado e convida o leitor a discutir com o autor. A Morte de Ivan Ilitch mostra, num homem comum, o que a morte faz ver da vida que a precedeu. O próprio Tolstói é parte da lição: a grande arte dele é inseparável das fraquezas da sua ideologia, e ele não encontrou a verdade da sua vida, mas a eternizou na arte.

A herança e a juventude (1828-1859)

Nasceu em 1828 em Iásnaia Poliana, na região de Tula, filho do conde Nikolai Tolstói e da condessa Maria Volkónskaia. Perdeu a mãe aos dois anos e o pai aos nove, e ainda jovem herdou a propriedade, com os servos que nela viviam. A terra lhe veio pelo lado materno, e a família da mãe entraria na obra: o avô materno, Nikolai Volkónski, é a base do velho príncipe Bolkónski de Guerra e Paz, e o dezembrista Serguei Volkónski, parente dele, a do príncipe André.

Criado sem religião formal, como a maioria dos escritores da elite russa, passou por uma crise religiosa já na meninice e depois pela juventude de um aristocrata de jogo e dívidas, num deboche de sua classe. Serviu como oficial no Cáucaso, onde viu de perto o modo de vida dos cossacos que mais tarde poria em livro, e combateu na guerra da Crimeia. Já estava ali a contradição, que a crítica põe no centro da vida e da obra dele, entre a afirmação biológica da vida e a negação ética dela.

As escolas, a terra e Guerra e Paz (1859-1869)

Em 1859 abriu escolas camponesas em Iásnaia Poliana. Tentou trabalhar a própria terra como um mujique e fracassou nas tarefas mais básicas, e chegou a propor às crianças da escola dividir a propriedade em comum. Nesse mesmo ano conheceu Serguei Volkónski, já velho, e o descreveu a Herzen como um entusiasta, místico e cristão, com elevados ideais para a nova Rússia.

Guerra e Paz começou como um romance sobre os dezembristas de 1825. Tolstói recuou até 1805 e 1812 para entender de onde vinha aquela geração, e o livro saiu em folhetim no Mensageiro Russo a partir de 1865 e em volume em 1869. Em 1868, assinando como conde, defendeu a forma da obra num ensaio curto de seis pontos, respondendo às críticas que a primeira parte recebera. O livro tem duas máquinas correndo ao mesmo tempo, o romance de três famílias entre 1805 e 1820 e uma tese sobre as causas dos acontecimentos históricos, e a crítica o pôs ao lado da epopeia homérica.

Arzamas, Ana Karênina e a crise (1869-1879)

Em 1869, numa viagem de negócios, viveu a chamada Noite de Arzamas, um episódio de terror místico, tomado como o começo da virada espiritual. Em 1862, antes de Guerra e Paz, casara-se com Sofia Bers. Ana Karênina, começada em 1873, saiu em folhetim no Mensageiro Russo entre 1875 e 1877, e o editor Katkov pagou por ela 500 rublos por fólio, o dobro do que Nekrássov ofereceu a Dostoiévski na mesma época. O romance alterna dois enredos, o de Ana, que desce, e o de Lióvin, que sobe, e é comum ler Lióvin como alter ego do autor: que o pensamento de Tolstói sobre terra, trabalho e fé apareça pela boca dele é sustentável, mas dizer que Lióvin é Tolstói apaga o ridículo a que o romance o submete.

No fim da década de 1870 visitou o mosteiro de Óptina, onde conheceu o ancião Ambrósio, o mesmo que Dostoiévski procurara em 1878. A data da crise religiosa que se seguiu varia conforme quem conta: 1878 para uns, 1879 para outros, e há quem a veja não como conversão súbita, mas como uma busca de fé constante desde cedo, em torno de uma ideia simples, a de que Deus é amor e onde há amor há Deus.

Minha Confissão e o tolstoísmo (1879-1901)

A crise foi uma ruptura com a Igreja Ortodoxa e um repúdio da própria obra de ficção anterior, Guerra e Paz e Ana Karênina incluídas. Conta-se que levou ao ancião Ambrósio uma tradução dos quatro evangelhos que retirava a divindade de Cristo, os milagres e a ressurreição, e que foi expulso do mosteiro a bengaladas. Rejeitava a Trindade e a Ressurreição e pregava um cristianismo prático, de imitação de Cristo, que seus críticos resumiram numa fórmula, o cristianismo sem Cristo. Minha Confissão, escrita no começo da década de 1880, enfrentou a censura. A fase moralista que se abre ali culmina no ensaio O Que é a Arte?.

Pregou e tentou viver uma vida despojada, vestido de camponês, sem carne e sem fumo, sem hierarquia, e chegou a doar bens da família. Em torno disso reuniu um séquito, o tolstoísmo. Encorajou os dukhobors, seita de não-violência que recusava o serviço militar e foi deportada, e milhares deles emigraram para o Canadá com ajuda dos quakers. A tensão não escapou ao pintor Repin, que o retratou várias vezes na velhice e chamou de hipocrisia esse vaivém entre lavrar a terra de manhã e jantar servido por copeiros de luvas brancas à noite: descer por um dia às trevas da vida dos camponeses e proclamar que está com eles. Em janeiro de 1881, dias antes de morrer, Dostoiévski ouviu a leitura de uma carta em que Tolstói negava a divindade de Cristo e a recusou ponto a ponto.

Em 1886 publicou A Morte de Ivan Ilitch, a primeira grande ficção que publicou depois de decidir que não escreveria mais ficção, e não a última: depois vieram A Sonata a Kreutzer (1889), Senhor e Servo (1895) e Ressurreição (1899). Turguêniev, já no leito de morte, lhe pedira em carta que voltasse à literatura e deixasse de ser o profeta que imaginava ser, e três anos depois saiu a novela. Passou a ser lido na Europa Central a partir da década de 1880, e a influência ideológica dele foi maior na Europa do que dentro da própria Rússia.

A excomunhão e a fuga final (1901-1910)

Em 1901 a Igreja Ortodoxa russa o excomungou, num documento escrito por Konstantin Pobedonóstsev, e a excomunhão não diminuiu o séquito, só o aumentou. Naquele ano o editor Suvórin escreveu que havia dois tsares na Rússia, Nicolau II e Lev Tolstói, e que Nicolau nada podia fazer contra o outro. Lendo num jornal liberal os números das execuções do terror de Stolýpin, disse que não se podia imaginar nada mais horrível.

Às quatro da madrugada de 28 de outubro de 1910, com 82 anos e dez dias de vida pela frente, saiu de casa em Iásnaia Poliana, em direção ao mosteiro de Óptina, o mesmo que atraíra Gógol e Dostoiévski. Morreu na estação de Astápovo, a última de muitas fugas ao longo da vida. A Igreja tentou reconciliá-lo antes do fim e falhou: nenhum familiar deixou o monge enviado pelo Santo Sínodo se aproximar do leito, e ele morreu sem funeral cristão. Uma das últimas coisas que disse foi uma pergunta sobre os camponeses: como eles morrem. Sua filha Aleksandra Lvóvna seria ré em 1920 no processo do Centro Tático e receberia três anos de campo de concentração.