Clavis Libri · Caderno de estudos

Hamlet

William Shakespeare

Um caderno para ler o livro em 2 semanas: o que aconteceu, os temas, as citações, as questões e as perguntas para pensar.

NomeTurmaData

Como usar

Leia os capítulos da semana e depois responda à seção dela. Cada exercício tem um número; no fim do caderno, o gabarito traz a resposta com o mesmo número.

As perguntas "para discutir" não têm resposta certa: servem para pensar e conversar. As questões de múltipla escolha e a identificação das citações têm.

Semana 1 · Ato I: O Espectro e a ordem de vingança a Ato III: A Ratoeira e a morte de Polônio

Semana 1

Ao ler, observe: Repare em como Hamlet hesita, e em como finge para descobrir a verdade.

1.1O que aconteceu nesta semana? Conte com as suas palavras, na ordem dos acontecimentos.
1.2Quais destes temas aparecem nos capítulos da semana? Marque.
VingançaAção e inaçãoLoucuraMorteCorrupção e decadênciaAparência e realidade
1.3Quem diz (ou pensa) esta passagem, em que situação, e o que ela revela?
Quem está aí?
1.4Quem diz (ou pensa) esta passagem, em que situação, e o que ela revela?
Ora essa! Um rato?
1.5Na muralha, Marcelo explica por que convidou Horácio para a vigília daquela noite. Qual é o motivo? (Ato I: O Espectro e a ordem de vingança)
1.6Hamlet faz os dois amigos jurarem sobre a espada e exige deles um último juramento. O que ele avisa sobre seu comportamento daqui em diante? (Ato I: O Espectro e a ordem de vingança)
1.7Polônio manda Reinaldo a Paris para saber como Laertes vive. Como ele quer que Reinaldo arranque a informação de outros dinamarqueses que encontrar por lá? (Ato II: A loucura fingida e a armadilha do teatro)
1.8No fim do ato, Hamlet decide testar o rei com a peça. Por que não age apenas com base no que o Espectro lhe disse? (Ato II: A loucura fingida e a armadilha do teatro)
1.9Polônio dá um livro de orações a Ofélia, para que a vejam lendo, e diz que a aparência de devoção pode adoçar até o demônio. O que o rei diz, à parte, ao ouvir isso? (Ato III: A Ratoeira e a morte de Polônio)
1.10Para discutir. (Ato I: O Espectro e a ordem de vingança)

Por que Cláudio faz questão de que Hamlet não volte a Wittenberg, enquanto deixa Laertes partir para a França?

1.11Para discutir. (Ato III: A Ratoeira e a morte de Polônio)

Por que a rainha não vê o Espectro, que Hamlet vê tão claramente neste quarto?

1.12E você? Pensar demais ajuda ou atrapalha na hora de agir?

Semana 2 · Ato IV: Exílio, loucura e armadilha a Ato V: Cemitério e duelo

Semana 2

Ao ler, observe: Repare no que as escolhas de cada um acabam custando aos outros.

2.1O que aconteceu nesta semana? Conte com as suas palavras, na ordem dos acontecimentos.
2.2Quais destes temas aparecem nos capítulos da semana? Marque.
VingançaAção e inaçãoLoucuraMorteCorrupção e decadênciaAparência e realidade
2.3Quem diz (ou pensa) esta passagem, em que situação, e o que ela revela?
O corpo está com o rei, mas o rei não está com o corpo.
2.4Quem diz (ou pensa) esta passagem, em que situação, e o que ela revela?
Que quatro capitães Carreguem Hamlet, como soldado, à tribuna; Pois ele prometia, se posto no trono, Provar-se digno de reinar.
2.5Gertrudes conta a Cláudio que Hamlet matou Polônio. Como o rei reage em relação ao príncipe? (Ato IV: Exílio, loucura e armadilha)
2.6Ao ver o exército de Fortimbrás marchar por um pedaço de terra sem valor, Hamlet se censura. O que diz de si mesmo? (Ato IV: Exílio, loucura e armadilha)
2.7A rainha conta a Laertes que Ofélia morreu. Segundo ela, como Ofélia se afogou? (Ato IV: Exílio, loucura e armadilha)
2.8Dois coveiros cavam a sepultura de alguém que talvez tenha tirado a própria vida e discutem se a morta merece enterro cristão. O que o segundo coveiro diz ser a verdade? (Ato V: Cemitério e duelo)
2.9Antes de morrer, Hamlet diz quem deve herdar o trono da Dinamarca. Quem ele indica? (Ato V: Cemitério e duelo)
2.10Para discutir. (Ato IV: Exílio, loucura e armadilha)

Hamlet diz que o rei é uma coisa feita de nada: de que rei ele está falando?

2.11Para discutir. (Ato V: Cemitério e duelo)

O que muda entre o que Hamlet diz de si na planície, no Ato IV, e o que diz a Horácio antes do duelo?

2.12E você? O que nos impede de fazer o que sabemos que devemos fazer?

Depois de ler o livro inteiro

Personagens

Para cada personagem, diga quem é e como muda do começo ao fim do livro.

PersonagemQuem éComo muda
P1 Hamlet
P2 Cláudio
P3 Gertrudes
P4 Polônio
P5 Ofélia
P6 Laertes

Temas

Para cada tema, anote dois ou três momentos do livro em que ele aparece e escreva, em poucas linhas, o que o livro diz sobre ele.

T1Vingança
T2Ação e inação
T3Loucura
T4Morte
T5Corrupção e decadência
T6Aparência e realidade

Fechamento

Perguntas sobre a obra inteira. Escolha uma e responda num texto de 20 a 30 linhas.

O que o texto estabelece sobre a natureza do Espectro, e o que a peça deixa em aberto de propósito?

Se a fala final é de Fortimbrás, o que muda no julgamento sobre o heroísmo de Hamlet?

Ofélia mudaria o veredito sobre Hamlet? Rompida com ele por ordem do pai, é rejeitada por ele na cena 1 do Ato III e perde o pai, morto pelo príncipe, e a peça não encena a morte dela, só a narra pela boca de Gertrudes.

Horácio sobrevive e recebe o encargo de contar a história de Hamlet: o que o texto mostra dele que explique essa escolha?

Termos

Palavras do livro que podem travar a leitura, explicadas. Para consultar quando aparecerem.

Elsinore. Nome inglês de Helsingør, cidade da Dinamarca no extremo nordeste da ilha da Zelândia, junto ao estreito de Øresund. A fortaleza da cidade é o castelo de Kronborg, reconstruído entre 1574 e 1585 sob Frederico II. Shakespeare dá ao castelo da peça o nome da cidade, que o público inglês já associava à Dinamarca.

Wittenberg. Cidade alemã cuja universidade foi fundada em 1502 por Frederico, o Sábio, eleitor da Saxônia, para difundir o humanismo renascentista. Lutero foi professor ali, e a instituição se tornou um centro da Reforma Protestante. Na peça, é a universidade que Hamlet frequenta, longe da corte dinamarquesa.

Melancolia. Na medicina antiga, que ainda dominava o pensamento médico no tempo de Shakespeare, o corpo tinha quatro humores: sangue, bile amarela, bile negra e fleuma, segundo Hipócrates e Galeno. A palavra vem do grego "bile negra". O temperamento melancólico era descrito como sério, introvertido e cauteloso, e propenso à depressão e a oscilações de humor.

Arrás. Tapeçaria imensa e pesada, pendurada do teto ao chão, com desenhos coloridos, usada nas paredes de pedra dos castelos para isolar o frio. Entre a parede e o tecido sobrava espaço para caber uma pessoa. O nome vem de Arras, cidade francesa famosa no século XIV por suas tapeçarias, e passou a designar tapeçarias em geral.

Primeiro Quarto. Quarto é o formato de livro em que a folha de impressão é dobrada duas vezes, dando quatro folhas e oito páginas, comum na época elisabetana para publicar peças avulsas. Hamlet saiu em 1603 no Primeiro Quarto, bem mais curto, e em 1604 no Segundo Quarto, de quase o dobro do tamanho e base das edições modernas.

Fólio. Formato de livro em que a folha de impressão é dobrada uma só vez, formando duas folhas e quatro páginas, caro e usado em edições de prestígio. O Primeiro Fólio, de 1623, reuniu 36 peças de Shakespeare, organizadas por dois ex-sócios, John Heminges e Henry Condell, sete anos após a morte dele. Traz uma versão de Hamlet que difere da dos quartos.

Enterro cristão. Sepultamento com os ritos da Igreja. A doutrina cristã via no suicídio um pecado, porque a vida pertence a Deus, e quem se matava podia ser privado do enterro cristão e da missa. Na Inglaterra de Shakespeare, o suicida podia perder também os bens, o que gerou disputas judiciais, como a de 1561.

Providência. Na teologia cristã, o cuidado e o governo de Deus sobre o mundo, de modo que nada acontece sem a vontade divina. A imagem do pardal vem do Evangelho de Mateus (10:29): nenhum pardal cai na terra sem a vontade do Pai. A passagem é citada na teologia reformada para afirmar que nada no mundo ocorre à margem de Deus.

Gabarito

Gabarito

Semana 1

1.1O que aconteceu.
Ato I: O Espectro e a ordem de vingançaNa muralha, à meia-noite, Bernardo rende Francisco e espera Horácio e Marcelo. Marcelo e Bernardo já viram duas vezes uma aparição, e Horácio não acredita. Surge O Espectro, com o rosto e a armadura do rei morto, e some sem responder a Horácio. Ele explica os preparativos de guerra: o jovem Fortimbrás quer reaver as terras que o pai perdeu. O Espectro volta, o galo canta e ele se vai. Decidem contar tudo ao príncipe.
Ato II: A loucura fingida e a armadilha do teatroPolônio dá dinheiro a Reinaldo e o manda a Paris investigar Laertes por meio de pequenas calúnias, e se perde no meio das próprias instruções. Ofélia entra assustada: o príncipe apareceu desgrenhado, apertou-lhe o pulso, suspirou e saiu sem tirar os olhos dela. Polônio conclui que é loucura de amor, lamenta ter desconfiado do príncipe e corre a contar ao rei. Ofélia diz que, por ordem dele, devolveu as cartas e recusou as visitas.
Ato III: A Ratoeira e a morte de PolônioRosencrantz e Guildenstern contam a Cláudio, a Gertrudes e a Polônio que não descobriram a causa do estado de Hamlet, mas que ele pediu uma peça aos atores. O rei e Polônio se escondem para espiar Hamlet com Ofélia. Hamlet entra falando sozinho sobre viver e morrer, depois trata Ofélia com dureza e a manda para um convento. Cláudio vê que não é amor, decide enviá-lo à Inglaterra, e Polônio sugere que a rainha o confronte depois da peça.
1.2Temas da semana: Vingança, Ação e inação, Loucura, Morte, Corrupção e decadência, Aparência e realidade.
1.3Bernardo, a sentinela que chega para render Francisco, Ato I: O Espectro e a ordem de vingança.

A peça abre com uma pergunta, feita no escuro das muralhas de Elsinore, à meia-noite, por uma sentinela que chega para assumir o turno. Em volta há frio e medo. Bernardo e Marcelo já viram duas vezes uma aparição, e Horácio, trazido para conferir, não acredita nela. Pouco depois surge o Espectro, com o rosto e a armadura do rei morto, e some sem responder a Horácio. Em sentido literal, a frase é só o chamado de um vigia que não enxerga quem se aproxima.

Mesmo assim ela funciona como um programa. Antes de qualquer enredo, a peça coloca em cena o problema que vai sustentá-la: ninguém ali sabe ao certo quem é quem, nem o que cada figura quer. O Espectro tem o rosto do rei, mas não se sabe o que ele traz. Mais adiante, no Ato II, o próprio Hamlet dirá que o espírito pode ser o demônio com um rosto querido, e a dúvida sobre a verdade da acusação segura a ação por muito tempo.

Pode-se ler a pergunta como um mote que volta sob outras formas. Cláudio se apresenta como um rei sereno e esconde um crime, Hamlet vai fingir uma loucura, os amigos de infância farão papel de espiões, e a corte inteira vive de aparências. Quem está aí, de fato, por trás de cada rosto? A frase é dita à noite e não tem resposta imediata, e essa falta de resposta é o clima em que o primeiro ato inteiro acontece.

1.4Hamlet, Ato III: A Ratoeira e a morte de Polônio.

No quarto da rainha, Polônio se esconde atrás da tapeçaria para ouvir a conversa de mãe e filho. Hamlet confronta Gertrudes até ela gritar por socorro. Ao ouvir Polônio se agitar atrás da cortina, o príncipe saca a espada e diz esta frase curta. Atravessa o pano com um golpe, convencido de que acabou de matar o rei. O que cai é o corpo de Polônio, o velho conselheiro, que não conseguiu sair do esconderijo.

Quando Hamlet enfim age sem pensar, o resultado é a morte de alguém que não era o culpado. A frase mostra a diferença entre o príncipe que hesitava e o que, de repente, ataca sem checar nada. Depois de poupar Cláudio rezando, ele mata a pessoa errada. A peça junta a hesitação e a precipitação no mesmo personagem, e a ironia é amarga: o gesto que deveria cumprir a vingança produz um novo crime e uma nova vítima.

A palavra rato liga a cena à armadilha da peça encenada. A Ratoeira prendeu o rei, mas o primeiro bicho apanhado é o espião que se escondia. Pode-se ler que a imagem do rato resume a vigilância em cadeia que domina o ato: todos escondidos, todos observando, e quem morre é o espião. A morte de Polônio também tem consequências adiante: Cláudio, que já planejava a viagem, passa a ter pressa em embarcar Hamlet para a Inglaterra, Laertes volta da França e Ofélia perde o pai pela mão do homem que ela amava.

1.5B. Marcelo conta que Horácio diz ser apenas fantasia a visão que ele e Bernardo tiveram duas vezes. Por isso o chamou: se o fantasma voltar, Horácio confirmará o que eles veem e poderá falar com ele. Pouco depois o Espectro aparece, com o rosto do rei morto, e Horácio, que duvidava, admite que sem o testemunho dos próprios olhos não teria acreditado.
1.6D. Hamlet pede que, aconteça o que acontecer, nunca revelem que sabem alguma coisa dele, mesmo que o vejam agindo de modo estranho, porque pretende afetar um ar extravagante. É o anúncio da loucura fingida, e Horácio será daqui em diante o confidente do príncipe.
1.7C. Polônio dá dinheiro a Reinaldo e o manda investigar Laertes à distância: ele deve fingir que mal o conhece e lançar calúnias leves, das que acompanham a juventude, para que os interlocutores confirmem ou desmintam. É a isca da mentira para pescar a verdade, como o próprio Polônio diz. A cena mostra a vigilância correndo de pai para filho e prepara a que vai cair sobre Hamlet.
1.8D. Hamlet ouvira dizer que culpados, ao ver um crime encenado, confessam o que fizeram. Por isso quer que os atores reproduzam a morte do pai diante do tio: se ele se abalar, saberá o que fazer. Admite também que o espectro pode ser o demônio, que imita rostos queridos, e quer provas mais certas do que a palavra dele.
1.9C. Num aparte, Cláudio diz que as palavras de Polônio são uma chicotada em sua consciência: como a face da prostituta é mais feia do que a pintura que a embeleza, o seu ato é mais feio do que suas palavras belas. É a primeira pista, vinda do próprio rei, de que ele carrega uma culpa.

1.10 a 1.12: perguntas abertas, sem gabarito.

Semana 2

2.1O que aconteceu.
Ato IV: Exílio, loucura e armadilhaGertrudes, transtornada, conta a Cláudio que Hamlet matou Polônio ao golpear o arrás. O rei vê na liberdade do enteado uma ameaça a todos e se culpa por não o ter contido. Ela diz que o filho chora pelo que fez, o que Lacerda lê como uma proteção a ele. Cláudio decide embarcá-lo ao pôr do sol, manda Rosencrantz e Guildenstern buscar o corpo e convoca o Conselho para afastar a calúnia.
Ato V: Cemitério e dueloDois coveiros cavam a cova de Ofélia e discutem se um suicídio merece enterro cristão. Hamlet e Horácio chegam e, diante das caveiras que o coveiro joga, Hamlet pensa na morte que iguala poderosos e mendigos e, ao ouvir do coveiro que uma das caveiras é a de Yorick, o bobo de seu pai, fica abalado. Chega o cortejo de Ofélia, sem os ritos plenos. Laertes salta na cova, Hamlet se revela e pula atrás dele, e os dois lutam até serem separados.
2.2Temas da semana: Vingança, Ação e inação, Loucura, Morte, Corrupção e decadência.
2.3Hamlet, a Rosencrantz e Guildenstern, Ato IV: Exílio, loucura e armadilha.

Hamlet escondeu o corpo de Polônio e não diz onde. Rosencrantz e Guildenstern, os amigos de infância que viraram espiões do rei, o interpelam e querem levá-lo à presença de Cláudio. Ele responde por enigmas, diz que misturou o corpo ao pó de onde veio e chama Rosencrantz de esponja que o rei espreme quando precisa. A frase sobre o corpo e o rei é uma das mais enigmáticas da peça, e o diálogo segue com Hamlet chamando o rei de uma coisa feita de nada.

A sentença é intencionalmente ambígua. O corpo de que se fala é, em primeiro nível, o de Polônio, e os dois amigos não percebem o resto. Mas Hamlet usa a frase como plataforma para outra ideia, e nada no texto resolve qual. Pode-se ler que ele chama de rei o próprio Deus, com quem o morto estaria, ou que fala de Cláudio: o corpo do usurpador ocupa o trono, mas a realeza de verdade não está nele, e por isso o rei seria uma coisa feita de nada. O texto aceita leituras diferentes, e esse é o modo de Hamlet falar quando finge loucura.

O que a cena mostra com clareza é a postura dele diante dos espiões. Ele os trata com desprezo, recusa-se a ser instrumento e transforma a conversa em jogo de palavras. A loucura calculada dá a ele a licença de dizer o que não poderia dizer de outro modo, e Rosencrantz e Guildenstern não têm como responder. Na segunda leitura, a frase liga a cena à corrupção do trono: o rei que deveria zelar pelo reino aparece como uma figura vazia. Quanto à resposta exata, a peça deixa que o espectador escolha.

2.4Fortimbrás, Ato V: Cemitério e duelo.

Hamlet morreu, e o salão do castelo está cheio de corpos: a rainha, Laertes, o rei, o príncipe. Chega Fortimbrás, conquistador de volta da Polônia, e reclama direitos sobre o reino. Horácio se oferece para contar o que aconteceu, e Fortimbrás concorda em ouvir. Em seguida manda que quatro capitães levem Hamlet, como soldado, à tribuna, e justifica: se tivesse subido ao trono, ele teria se mostrado digno de reinar. Ordena também música militar e ritos de guerra para honrá-lo.

A fala final da peça é de Fortimbrás, e isso pesa no julgamento sobre Hamlet. Quem o elogia é o outro filho com um pai a vingar, aquele que agiu sem hesitar e que agora reivindica a Dinamarca. O elogio tem um ar de respeito, mas vem de quem chega como vencedor, e a peça mostra o preço: a família real morreu inteira e o trono parece ir para um estrangeiro. Pode-se ler que a justiça foi alcançada a um custo enorme, e a homenagem ao príncipe soa também como um balanço do que se perdeu.

Pode-se ler que a frase diz uma coisa sobre Hamlet que ele mesmo não teve tempo de provar. A peça mostra um príncipe que hesita, erra, mata Polônio por engano, e ainda assim, para quem chega de fora, prometia ser um bom rei. Isso mantém aberta a pergunta sobre o heroísmo dele. Se Fortimbrás tem razão, a tragédia é também a de um governante que a Dinamarca não chegou a conhecer. Se o elogio é só cortesia de quem reivindica o trono, a pergunta fica ainda mais difícil de responder.

2.5B. Gertrudes diz que Hamlet, louco como o mar e o vento quando lutam, matou o velho escondido atrás do arrás, e que agora chora pelo que fez. Cláudio vê aí um perigo: o mesmo faria a ele, e a liberdade do enteado ameaça a todos. Decide embarcá-lo ao pôr do sol e se culpa por não o ter contido antes.
2.6D. O capitão diz que vão tomar um pedaço pequeno de chão que não vale nada além do próprio nome, e Hamlet vê milhares de homens irem à morte por capricho e honra. Comparando-se a eles, pergunta como fica ele, que tem o pai assassinado e a mãe desonrada e deixa estar. A cena fecha, por ora, o tema da vingança adiada.
2.7A. A rainha descreve a cena como se a tivesse visto: junto a um chorão que cresce sobre o riacho, Ofélia pendurava guirlandas de flores quando o galho quebrou e ela caiu. As roupas a mantiveram um tempo na superfície, enquanto cantava, até que a puxaram para a morte na lama. Laertes ouve a notícia na hora em que já combinava a vingança com o rei.
2.8C. Os dois coveiros discutem se a morta, que talvez tenha se afogado por vontade própria, deve ter sepultura cristã. O primeiro faz um raciocínio embaralhado sobre a água e o homem; o segundo diz a verdade sem rodeios: sem a nobreza, o enterro seria fora do ritual. Os poderosos, comenta o primeiro, têm até o privilégio de se afogar mais do que os outros cristãos.
2.9B. O veneno dilacera Hamlet. Ele diz que não viverá para ouvir as notícias da Inglaterra e profetiza as luzes da sucessão em Fortimbrás: é ele quem apoia ao morrer. Pede a Horácio que lhe diga isso e conte o acontecido. Fortimbrás chega, ouve Horácio e reclama o reino por direitos ancestrais.

2.10 a 2.12: perguntas abertas, sem gabarito.

Personagens

P1Hamlet.

Hamlet é o príncipe da Dinamarca, filho do rei morto e de Gertrudes, sobrinho e enteado de Cláudio. É estudante em Wittenberg, que o rei quer manter em Elsinore, e está de luto pelo pai quando a corte já festeja o casamento da mãe. Ao receber de O Espectro a ordem de vingar o assassinato, passa a peça entre o fingimento de loucura, a dúvida sobre o que o espectro realmente é, a busca de uma prova e o adiamento do golpe, até que a vingança se cumpre quando a sua própria vida já está perdida. Morre no duelo, depois de matar Cláudio, e deixa a Fortimbrás o trono e a Horácio o encargo de contar a sua história.

Como muda

Na cena 2 do Ato I, Cláudio lhe pede que abandone o luto e fique em Elsinore, sem voltar a Wittenberg, e a rainha insiste. Hamlet cede só à mãe, e sozinho lamenta a pressa do casamento. A distância entre o que sente e o que mostra já está no que ele responde à corte:

Na cena 4 do Ato I, na muralha, ele segue o Espectro, e puxa a espada para que os amigos o deixem livre. Na cena 5 do Ato I, ouve o pai revelar o veneno despejado no ouvido no pomar e jura lembrar. Faz Horácio e Marcelo jurarem silêncio sobre a espada, com a voz do Espectro ecoando do subterrâneo, e pede que não denunciem o seu fingimento futuro.

Na cena 1 do Ato II, aparece a Ofélia desgrenhado, aperta-lhe o pulso, suspira e sai sem tirar os olhos dela. Na cena 2 do Ato II, zomba de Polônio, arranca de Rosencrantz e Guildenstern a confissão de que foram chamados, pede aos atores a fala sobre Pirro e Príamo e a peça O assassinato de Gonzago. Sozinho, censura a própria inação e decide testar o rei pelo teatro.

Na cena 1 do Ato III, fala sozinho sobre viver e morrer e depois trata Ofélia com dureza, mandando-a para um convento. Na cena 2 do Ato III, pede a Horácio que vigie o rosto do rei durante a cena do envenenamento, e a reação de Cláudio o convence da culpa. Na cena 3 do Ato III, encontra o rei de joelhos, ergue a espada e desiste: matá-lo rezando seria mandá-lo ao céu. Na cena 4 do Ato III, atravessa a cortina com a espada, convencido de que mata o rei, e mata Polônio. Depois censura a mãe diante dos retratos dos dois maridos, vê o Espectro, que só ele vê, e sai arrastando o corpo.

No Ato IV ele está sempre a caminho de outro lugar. Na cena 2 do Ato IV e na cena 3 do Ato IV, responde por enigmas sobre o corpo de Polônio e é embarcado para a Inglaterra. Na cena 4 do Ato IV, encontra o exército de Fortimbrás e se censura a sós:

Na cena 6 do Ato IV, a carta a Horácio conta que um navio pirata atacou o seu, que ele foi o único tomado prisioneiro e que os piratas o trataram com generosidade.

Na cena 1 do Ato V, no cemitério, pensa na morte que iguala poderosos e mendigos e, ao saber pelo coveiro que uma das caveiras é a de Yorick, o bobo do pai, fica abalado. Quando Laertes salta na cova de Ofélia, revela-se e pula atrás dele, e os dois lutam. Na cena 2 do Ato V, conta a Horácio que trocou no navio a carta que ordenava a sua morte por outra, que condena Rosencrantz e Guildenstern. Ao responder a Horácio antes do duelo, a posição é outra:

Ferido pela espada envenenada, Hamlet crava a lâmina em Cláudio e o faz beber o vinho, pede a Horácio que conte a sua história, ouve os canhões de Fortimbrás, indica-o como sucessor, diz que o resto é silêncio e morre.

P2Cláudio.

Cláudio é o rei da Dinamarca, irmão do rei morto, casado com a viúva Gertrudes e tio e padrasto de Hamlet. Segundo O Espectro, matou o irmão com veneno despejado no ouvido no pomar e seduziu a rainha. Reina com discurso medido e o Conselho a seu lado, mantém o sobrinho perto e vigiado, e confessa o crime em cena só quando está sozinho e tenta rezar.

Como muda

Na cena 2 do Ato I, anuncia o casamento com Gertrudes, envia emissários à Noruega e deixa Laertes voltar à França. Pede a Hamlet que abandone o luto e fique em Elsinore, e a rainha insiste. Lacerda lê essa cena, a corte reunida do Ato I, cena 2, com Cláudio em vantagem: o sobrinho mantido no castelo, perto e vigiado.

Na cena 2 do Ato II, chama Rosencrantz e Guildenstern, com Gertrudes, para sondar Hamlet, e ouve de Voltimand e Cornélio as notícias da Noruega e de Polônio a tese de que o príncipe enlouqueceu de amor. Na cena 1 do Ato III, esconde-se com Polônio para espiar o encontro de Hamlet com Ofélia, vê que não é amor e decide enviá-lo à Inglaterra.

Na cena 2 do Ato III, na Ratoeira, vê reproduzido o seu crime: o ator derrama o veneno no ouvido do rei adormecido. Levanta-se, manda acender as luzes e sai. Na cena 3 do Ato III, sozinho, confessa o assassinato do irmão e tenta rezar, mas não consegue enquanto conserva a coroa e a rainha.

Na cena 1 do Ato IV, ouve de Gertrudes a morte de Polônio, vê na liberdade do enteado uma ameaça a todos e decide embarcá-lo. Na cena 3 do Ato IV, explica aos conselheiros que não pode puni-lo pela lei, porque o povo o ama, e revela, sozinho, que as cartas ao rei inglês exigem a morte do príncipe. Na cena 5 do Ato IV, acalma Laertes, que invade o castelo à frente de uma turba que o aclama rei.

Na cena 7 do Ato IV, chega uma carta de Hamlet anunciando a volta, e o rei conduz Laertes ao plano do duelo: uma espada sem proteção, à qual o próprio Laertes acrescenta o veneno da ponta, e um cálice envenenado de reserva, que é ideia de Cláudio. Para isso o rei usa esta lógica:

Na cena 2 do Ato V, o desafio chega por Osric. Gertrudes bebe o vinho envenenado, Laertes é ferido pela própria lâmina e acusa o rei, e Hamlet crava a lâmina nele e depois o faz beber o vinho envenenado.

P3Gertrudes.

Gertrudes é a rainha da Dinamarca, mãe de Hamlet, viúva do rei morto e esposa de Cláudio, irmão dele. É a figura sobre a qual a peça diz menos e, por isso, mais se discute: o quanto ela sabe do crime fica em aberto. O Espectro pede a Hamlet que a poupe, e ela atravessa a peça entre o marido e o filho, e Lacerda a vê protegendo o filho, até beber, no fim, o cálice que o rei preparou para ele.

Como muda

Na cena 2 do Ato I, aparece ao lado de Cláudio na corte e insiste com Hamlet para que fique em Elsinore. Na cena 5 do Ato I, o Espectro, ao pedir vingança, pede também que ela seja poupada: Cláudio, diz o Espectro, a seduziu, mas o filho não deve tocá-la.

Na cena 2 do Ato II, chama Rosencrantz e Guildenstern com Cláudio para sondar o príncipe. Na cena 1 do Ato III, ouve dos dois que não descobriram a causa do estado dele. Polônio sugere que a rainha o confronte depois da peça, e na cena 2 do Ato III os mesmos amigos trazem o chamado dela, que Hamlet recebe zombando.

Na cena 4 do Ato III, no quarto, Hamlet a confronta até ela gritar por socorro, e ao ouvir Polônio se agitar atrás da tapeçaria atravessa a cortina. Depois a censura diante dos retratos dos dois maridos, e o Espectro reaparece, visível só para o filho.

Na cena 1 do Ato IV, transtornada, conta a Cláudio que Hamlet matou Polônio ao golpear o arrás, e diz que o filho chora pelo que fez, o que Lacerda lê como proteção a ele. Na cena 5 do Ato IV, recebe Ofélia enlouquecida, a pedido de Horácio. Na cena 7 do Ato IV, é ela quem entra e conta que Ofélia se afogou num riacho, ao cair de um galho. Na cena 2 do Ato V, bebe o vinho envenenado no duelo.

P4Polônio.

Polônio é o conselheiro do rei, pai de Laertes e de Ofélia. Perde-se no meio das próprias instruções, e a peça o mostra sempre num esconderijo: manda espionar o filho em Paris, se esconde para ouvir a filha com o príncipe e acaba atrás da tapeçaria do quarto da rainha, onde morre, golpeado por Hamlet, que o toma por Cláudio.

Como muda

Na cena 3 do Ato I, despede-se de Laertes com uma lista de preceitos de conduta, e depois interroga a filha sobre o príncipe: chama as juras dele de moeda falsa e proíbe qualquer nova conversa. Ofélia obedece.

Na cena 1 do Ato II, dá dinheiro a Reinaldo e o manda a Paris investigar Laertes por meio de pequenas calúnias, e se perde no meio das próprias instruções. Ofélia entra assustada, contando o aspecto do príncipe, e Polônio conclui que é loucura de amor, lamenta ter desconfiado dele e corre a contar ao rei.

Na cena 2 do Ato II, anuncia os mensageiros da Noruega, traz a Cláudio e a Gertrudes uma carta de amor do príncipe e propõe espiá-lo com Ofélia. Hamlet zomba dele. Na cena 1 do Ato III, esconde-se com o rei para ouvir Hamlet e Ofélia e sugere que a rainha o confronte depois da peça. Na cena 2 do Ato III, confirma o chamado dela. Na cena 3 do Ato III, avisa que vai se esconder no quarto da rainha.

Na cena 4 do Ato III, é o esconderijo que o mata: ao ouvi-lo se agitar atrás do arrás, Hamlet atravessa a cortina com a espada, convencido de que mata o rei. Na cena 3 do Ato IV, Hamlet diz que ele está numa ceia, comido por vermes. Na cena 5 do Ato IV, Cláudio admite que ele foi enterrado em segredo e que Laertes voltou da França.

P5Ofélia.

Ofélia é a filha de Polônio e irmã de Laertes, e a moça que Hamlet cortejou. Obedece ao pai e ao irmão sem discutir, devolve as cartas e recusa as visitas por ordem de Polônio, é usada como isca no encontro armado e perde o pai, morto pelo príncipe. Enlouquece, canta e distribui flores no Ato IV, e morre afogada num riacho, ao cair de um galho.

Como muda

Na cena 3 do Ato I, Laertes lhe diz que o amor do príncipe é passageiro e que um herdeiro não escolhe por si, e Polônio, o pai, chama as juras de moeda falsa e proíbe qualquer nova conversa. Ofélia obedece.

Na cena 1 do Ato II, entra assustada para contar ao pai que o príncipe apareceu desgrenhado, apertou-lhe o pulso, suspirou e saiu sem tirar os olhos dela. Diz que, por ordem dele, devolveu as cartas e recusou as visitas. Na cena 1 do Ato III, é posta diante de Hamlet com o rei e Polônio escondidos, ouve dele a dureza e a ordem de ir para um convento, e Cláudio conclui que não é amor.

Na cena 5 do Ato IV, semanas depois, é recebida por Gertrudes, enlouquecida, cantando sobre o pai morto e o amor perdido. Reaparece com flores e canções, e Laertes, abalado, aceita ouvir o rei.

Na cena 7 do Ato IV, Gertrudes conta que ela se afogou num riacho, ao cair de um galho. Na cena 1 do Ato V, dois coveiros discutem se um suicídio merece enterro cristão, e o cortejo chega sem os ritos plenos. Laertes salta na cova, e Hamlet se revela.

P6Laertes.

Laertes é o filho de Polônio e irmão de Ofélia. Parte para a França com a licença do rei e, quando a morte do pai o traz de volta, reúne uma turba que o aclama rei e invade o castelo, e é em seguida enredado por Cláudio num duelo com a espada envenenada. É o filho que também quer vingar o pai, e a peça o faz espelho de Hamlet.

Como muda

Na cena 2 do Ato I, Cláudio o deixa voltar à França. Na cena 3 do Ato I, antes de embarcar, avisa Ofélia de que o amor do príncipe é passageiro e de que um herdeiro não escolhe por si, e recebe do pai a lista de preceitos de conduta. Na cena 1 do Ato II, é objeto da vigilância de Polônio, que manda Reinaldo investigá-lo em Paris.

Na cena 5 do Ato IV, invade o castelo à frente de uma turba que o aclama rei e exige o pai. O rei o acalma, mas Ofélia reaparece com flores e canções e Laertes, abalado, aceita ouvi-lo. Na cena 7 do Ato IV, deixa-se conduzir por Cláudio ao plano do duelo: uma espada sem proteção, à qual ele mesmo acrescenta o veneno da ponta.

Na cena 1 do Ato V, no cemitério, salta na cova de Ofélia, e Hamlet se revela e pula atrás dele; os dois lutam até serem separados. Na cena 2 do Ato V, fere Hamlet com a espada envenenada e, trocadas as armas, é ferido pela própria lâmina. Acusa o rei antes de morrer.

Temas

T1Vingança: o mandato do Espectro na cena 5 do Ato I, a Ratoeira na cena 2 do Ato III e a vingança que só se cumpre no duelo da cena 2 do Ato V. Aparece em: Ato I: O Espectro e a ordem de vingança; Ato III: A Ratoeira e a morte de Polônio; Ato IV: Exílio, loucura e armadilha; Ato V: Cemitério e duelo.
T2Ação e inação: o monólogo de Hécuba na cena 2 do Ato II, a oração poupada na cena 3 do Ato III, a planície de Fortimbrás na cena 4 do Ato IV e o "estar pronto" da cena 2 do Ato V. Aparece em: Ato II: A loucura fingida e a armadilha do teatro; Ato III: A Ratoeira e a morte de Polônio; Ato IV: Exílio, loucura e armadilha; Ato V: Cemitério e duelo.
T3Loucura: a loucura fingida de Hamlet na cena 1 do Ato II, o encontro armado com Ofélia na cena 1 do Ato III e a loucura de Ofélia na cena 5 do Ato IV. Aparece em: Ato II: A loucura fingida e a armadilha do teatro; Ato III: A Ratoeira e a morte de Polônio; Ato IV: Exílio, loucura e armadilha.
T4Morte: o país desconhecido do monólogo da cena 1 do Ato III, a morte de Polônio na cena 4 do Ato III e o cemitério da cena 1 do Ato V. Aparece em: Ato I: O Espectro e a ordem de vingança; Ato III: A Ratoeira e a morte de Polônio; Ato V: Cemitério e duelo.
T5Corrupção e decadência: o jardim abandonado da cena 2 do Ato I, o "algo de podre" da cena 4 do Ato I e o desfecho da cena 2 do Ato V, em que o veneno alcança a família real. Aparece em: Ato I: O Espectro e a ordem de vingança; Ato IV: Exílio, loucura e armadilha; Ato V: Cemitério e duelo.
T6Aparência e realidade: os trapos da decência na cena 2 do Ato I, o Espectro na cena 5 do Ato I, os espiões da cena 2 do Ato II e a peça dentro da peça na cena 2 do Ato III. Aparece em: Ato I: O Espectro e a ordem de vingança; Ato II: A loucura fingida e a armadilha do teatro; Ato III: A Ratoeira e a morte de Polônio.

Fechamento: perguntas abertas, sem gabarito.