Clavis Libri · Caderno de estudos
William Shakespeare
Um caderno para ler o livro em 2 semanas: o que aconteceu, os temas, as citações, as questões e as perguntas para pensar.
Leia os capítulos da semana e depois responda à seção dela. Cada exercício tem um número; no fim do caderno, o gabarito traz a resposta com o mesmo número.
As perguntas "para discutir" não têm resposta certa: servem para pensar e conversar. As questões de múltipla escolha e a identificação das citações têm.
Semana 1 · Ato I: O triunfo e a sedução de Bruto a Ato III: O assassinato e o Fórum
Ao ler, observe: Repare em como Cássio convence Bruto, e no que Bruto diz a si mesmo para agir.
…estas penas que crescem, arrancadas da asa de César, o farão voar numa altura comum
…não importa, o nome dele é Cina
Bruto diz amar César e, ao mesmo tempo, teme que o povo o faça rei. O que a conversa com Cássio faz com esse temor?
Bruto e Antônio falam à mesma multidão em poucos minutos e obtêm reações opostas. O que cada um pede ao povo que faça com o que ouve?
Semana 2 · Ato IV: A discórdia no acampamento a Ato V: Filipos e a morte de Bruto
Ao ler, observe: Repare em como os aliados de ontem passam a desconfiar uns dos outros.
…ele apenas carregará essas honras como o burro carrega ouro, para gemer e suar sob o serviço
…este foi o mais nobre dos romanos. Todos os conspiradores, menos ele, fizeram o que fizeram por inveja do grande César
O que a conversa sobre Lépido mostra do modo como esses três pretendem dividir o poder entre si?
Antônio diz que Bruto foi o único conspirador movido pelo bem comum. Com o que a peça mostrou, você concorda?
Depois de ler o livro inteiro
Para cada personagem, diga quem é e como muda do começo ao fim do livro.
| Personagem | Quem é | Como muda |
|---|---|---|
| P1 Bruto | ||
| P2 Cássio | ||
| P3 Marco Antônio | ||
| P4 Júlio César | ||
| P5 Pórcia | ||
| P6 Calpúrnia |
Para cada tema, anote dois ou três momentos do livro em que ele aparece e escreva, em poucas linhas, o que o livro diz sobre ele.
Perguntas sobre a obra inteira. Escolha uma e responda num texto de 20 a 30 linhas.
No Ato II, Bruto admite não ter motivo pessoal contra César e decide pelo que ele poderá vir a ser. É legítimo matar para impedir um mal que ainda não se consumou?
O idealismo de Bruto é virtude ou cegueira?
Quem move a história na peça? Em que momentos pesa mais a ação, e em que momentos a palavra?
Cássio diz que a culpa não está nas estrelas, mas em nós, e depois lê a tempestade como sinal. O que a peça faz com o Fado?
No Ato V, Bruto chama de covarde o suicídio de Catão e, no fim, se mata. O que a peça dá como razão?
Palavras do livro que podem travar a leitura, explicadas. Para consultar quando aparecerem.
Tribuno. Magistrado romano que representava a plebe, criado em 493 a.C. depois que os plebeus abandonaram a cidade em protesto contra as dívidas e a opressão dos patrícios. Podia vetar as ações dos outros magistrados e do Senado, e sua pessoa era intocável: quem o atacasse perdia os bens. Era um contrapeso ao poder da aristocracia.
Triunfo. Cerimônia pela qual Roma homenageava publicamente o general vitorioso numa campanha de grande êxito; só o Senado podia concedê-la. O desfile saía do Campo de Marte, passava pela Via Sacra e pelo Fórum e subia o Capitólio até o templo de Júpiter. Era a maior honra a que um romano podia aspirar.
Lupercais. Festa romana celebrada todo ano em 15 de fevereiro para purificar a cidade e promover a saúde e a fertilidade. Sacerdotes chamados lupercos sacrificavam bodes e um cão, vestiam-se com o couro dos animais e percorriam a colina chicoteando o povo, em especial as mulheres, o que se acreditava favorecer a concepção e o parto.
Senado. Assembleia formada em sua maioria por ex-magistrados, que na República Romana controlava as finanças públicas, os assuntos religiosos, a justiça e a política externa e militar. Tinha 300 membros no início da República, e Júlio César o ampliou para 900. Reunia-se em local consagrado, como a Cúria ou um templo.
Capitólio. Colina de Roma onde ficava o templo de Júpiter Ótimo Máximo, construído em 509 a.C. e quase tão grande quanto o Partenon. Era o centro religioso da cidade e símbolo de Roma, e nele terminavam os desfiles triunfais. Os romanos o viam como indestrutível, imagem da eternidade da cidade.
Augúrio. Sinal pelo qual os romanos julgavam ler a vontade dos deuses antes de decidir algo. Os áugures observavam o voo das aves, trovões e relâmpagos; os arúspices examinavam as entranhas de animais sacrificados, e a falta de um órgão importante era mau sinal. Ações políticas e militares dependiam desses sinais, que podiam suspender reuniões e eleições.
Fórum. Praça central de Roma, no vale entre as colinas Capitolina, Palatina e Quirinal, centro da vida pública da cidade. Ali se faziam cerimônias triunfais, eleições, assembleias, discursos públicos e funerais de nobres; a Rostra, tribuna dos oradores, permitia falar ao povo. Era também um espaço comercial e sagrado, com templos como o de Saturno e o de Vesta.
Dracma. Antiga moeda de prata de origem grega, emitida por várias cidades, sendo a de Atenas a mais prestigiada, e difundida nos reinos helenísticos depois das conquistas de Alexandre. Pesava pouco mais de quatro gramas e, no auge da Grécia clássica, equivalia à diária de um trabalhador qualificado, o que dá a medida das quantias em dracmas.
Proscrições. Condenação oficial de pessoas tidas como inimigas do Estado, que eram publicamente nomeadas em listas e sentenciadas à morte ou ao banimento, com confisco dos bens. Foi usada por Sula, em 83 e 82 a.C., e pelo Segundo Triunvirato, em 43 a.C., quando Otávio, Antônio e Lépido eliminaram adversários políticos, entre eles Cícero.
Águia. Insígnia de cada legião romana, uma águia de prata ou bronze com asas erguidas, associada a Júpiter e carregada na batalha por um oficial, o aquilífero. Tinha importância quase religiosa para o soldado, e perdê-la era considerado grave, vergonhoso e desonroso, o que levava os romanos a grandes esforços para recuperá-la.
Gabarito
A peça abre nas ruas de Roma, no dia do triunfo de César. Os tribunos Flávio e Marulo expulsam os artesãos que festejam e os acusam de esquecer Pompeu, a quem aclamavam antes. Dispersada a multidão, os dois vão tirar das estátuas os enfeites de César, mesmo avisados de que é a festa das Lupercais. É então que Flávio explica o motivo: cortar as penas de César, para que ele não voe alto demais e não mantenha todos em servidão.
A imagem é a de uma ave cujas penas voltam a crescer e precisam ser aparadas. O poder de César aparece como plumagem, algo que cresce por conta própria e que só se contém com um corte. O objetivo declarado não é derrubá-lo, mas devolvê-lo a uma altura comum, a de qualquer cidadão. Note que César ainda nem entrou em cena: antes de ouvi-lo falar, o leitor já o encontra discutido como ameaça. Pode-se ler que o temor de Flávio é menos pelo que César já fez do que pelo que ele poderá vir a ser.
O raciocínio lembra o que Bruto usará no pomar, no Ato II, quando falar do ovo da serpente: agir pelo que o outro poderá vir a ser. Por isso a frase de Flávio funciona como um primeiro aviso dos temas do poder e da política. A disputa da peça gira em torno de quem manda e de quem se curva, e pode-se ler nesta cena de abertura a ideia de que, para os inimigos de César, a servidão já começou, mesmo sem coroa.
Cina, o poeta, sai de casa por causa de um sonho ruim e é cercado por cidadãos exaltados, vindos do Fórum. Ele responde com brincadeiras e diz o nome, e a turba o toma pelo conspirador Cina. Mesmo quando ele grita que é o poeta, e não o conspirador, o grupo o ataca pelo nome e pelos maus versos. É então que um cidadão diz a frase: não importa, o nome dele é Cina. A turba parte, em seguida, para as casas dos conspiradores.
A frase mostra o que sobra de uma multidão incendiada pela palavra. A turba não quer saber de quem é o homem à sua frente, só do nome que ele tem. Cina, o poeta, não tem ligação com a conspiração e diz isso com clareza, mas a distinção deixa de valer. O nome basta, e o homem é morto por uma palavra. Há uma ironia sombria na cena: pouco antes, a mesma multidão aplaudiu Bruto, que falava em liberdade, e agora não distingue um poeta de um conspirador.
A cena fecha o ato com o outro lado da liberdade proclamada. Os conspiradores falavam de paz e de liberdade e imaginavam a morte de César encenada por séculos, com sentido fixado de antemão. A morte de Cina mostra o que o sentido do crime virou nas ruas: violência que não escolhe. Pode-se ler a frase como a cena em miniatura do tema da linguagem, em que as palavras, entregues a uma multidão, passam a valer mais que as pessoas. O mesmo poder da fala que virou o povo no Fórum agora tira a vida de um inocente, sem que ninguém precise justificar.
1.10 a 1.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Em Roma, Marco Antônio e Otávio sentam-se com Lépido para marcar quem deve morrer. Lépido e Antônio aceitam incluir cada um um parente: o irmão de Lépido, o sobrinho de Antônio. Lépido sai para buscar o testamento de César, e Antônio o chama de homem insignificante, bom só para recados, e o compara a um burro que carrega ouro até onde o dono quer. Em seguida avisa Otávio de que Bruto e Cássio reúnem tropas e que é hora de fortalecer a aliança.
A frase é uma escolha de imagem reveladora. Antônio fala de Lépido como de um animal de carga: as honras que ele recebe são o ouro, e a tarefa dele é gemer e suar sob o serviço até que o trabalho acabe. Quando acabar, tiram-se as honras e a carga fica com o dono. Em poucas linhas a cena mostra como os três que governam pretendem dividir o poder: um deles, Lépido, está ali para ser usado, e Antônio não esconde isso, mesmo diante da defesa de Otávio.
A frase se liga ao tema do poder e ao da lealdade e traição. Os conspiradores mataram César em nome de Roma, e os herdeiros dele, antes de entrar em guerra com eles, já escolhem quem matar sem demora e tratam o aliado como descartável. Pode-se ler a cena como o contraponto da briga no acampamento: de um lado, o frio cálculo de uma aliança de conveniência, em que o outro é instrumento; de outro, uma amizade que se desfaz por dinheiro e honra. A frase sugere que o poder que usa os outros como instrumento, o mesmo que Flávio e Bruto temiam em César, reaparece nas mãos de quem se apresenta como vingador.
Cercado e exausto, Bruto pede a Clito, a Dardânio e a Volúmnio que o matem, e os três se recusam. Diz a Volúmnio que o espectro de César lhe apareceu duas vezes e que sua hora chegou. Estratão segura a espada, e Bruto se lança sobre ela, dizendo a César que já pode descansar. Otávio e Antônio chegam. Diante do corpo, Antônio faz o elogio: este foi o mais nobre dos romanos, o único dos conspiradores que não agiu por inveja de César. Otávio manda dar-lhe honras fúnebres.
O elogio a Bruto vem do inimigo. É Antônio, que jurou vingança e que levou o povo a queimar as casas dos conspiradores, quem reconhece no morto o único movido pelo bem comum. Pode-se ler o elogio como o que faz de Bruto o centro moral da tragédia. Ele acredita em Roma e age por ela, e a peça deixa ver que isso não basta: a causa nobre produz o caos que queria evitar. Antônio, na mesma frase, rebaixa os outros conspiradores, e assim separa Bruto do grupo que ele mesmo havia reunido.
Há um contraste com o fim. Quem fecha a peça é Otávio, que manda recolher o campo e dá ao poder o último gesto: vitória para o seu lado e honras militares para o derrotado. Pode-se ler que a nobreza de Bruto é o que a peça lhe concede em troca da derrota, e que a frase é menos uma sentença do que uma despedida. O texto deixa ver, para a morte dele, duas razões: não ser levado preso a Roma e a convicção de que o espectro já marcou o seu fim. Antônio não discute isso. Reconhece apenas o homem.
2.10 a 2.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Bruto é o homem em quem Roma confia, e por isso o homem de que a conspiração precisa. Ama Júlio César, não tem queixa pessoal contra ele, e mesmo assim lidera a morte dele, convencido de que o faz por Roma. Descende do Bruto que expulsou o rei Tarquínio, é casado com Pórcia, a filha de Catão, e é amigo e depois adversário de Cássio, que o seduz com um espelho. Quer que o ato pareça limpo e que os que o praticam sejam vistos como purgadores. Termina derrotado em Filipos, com a espada de Estratão, reconhecido por Marco Antônio como o único conspirador movido pelo bem comum.
Como muda
Na cena 2 do Ato I, quando Cássio o convida para ver a corrida, Bruto diz que não é brincalhão e que passa por um conflito consigo mesmo. Cássio pergunta se ele vê o próprio rosto, e Bruto responde que o olho só se vê por reflexo, abrindo a porta para Cássio ser o espelho. Ao ouvir os gritos da multidão, teme que o povo escolha César como rei e acrescenta que, ainda assim, o ama bem. Cássio fala do nome de Bruto, que pesa tanto quanto o de César, e do Bruto antigo que não toleraria um rei em Roma. Bruto não promete nada: pede tempo para pensar e diz que prefere ser um aldeão a ser filho de Roma sob tais condições.
Na cena 1 do Ato II, antes que os conspiradores cheguem, decide sozinho no pomar. Diz não ter motivo pessoal contra César, só o receio do que ele possa se tornar com a coroa, e a razão que dá é de futuro:
Lúcio lhe entrega uma carta anônima que o acorda ("Bruto, tu dormes"), e ele a completa sozinho: Roma não pode ficar sob o domínio de um homem. Quando os conspiradores chegam de rosto coberto, recusa o juramento, porque a honra de homens honrados dispensa promessa, e recusa também Cícero, que não segue o que os outros começam. Impede que Antônio seja morto: quer que sejam sacrificadores e não açougueiros, e acha que Antônio, sem César, tem só a força do braço de quem perdeu a cabeça. Pede que a conspiração se esconda em sorrisos, como os atores romanos. Depois que os outros saem, Pórcia o interroga e se ajoelha, e Bruto promete contar o que pesa nele. Em seguida recruta Ligário, que joga fora a doença ao saber que Bruto tem uma empresa de honra em mãos.
Na cena 2 do Ato II, vai com os outros à casa de César buscá-lo e recebe o convite para beber vinho com ele. Em aparte, diz que nem todo semelhante é o mesmo, e que o coração dele se aperta ao pensar nisso. Na cena 1 do Ato III, desfere o último golpe e, depois do assassinato, pede que os romanos não fujam: a dívida da ambição está paga. Propõe que lavem as mãos no sangue de César até os cotovelos e saiam gritando "paz, liberdade". Recebe Antônio, que se oferece à morte, e o acolhe com amizade. Concede a ele a palavra no funeral, contra o aviso de Cássio, mas com condições: ele fala primeiro, explica o ato, e Antônio só depois, sem culpar os conspiradores.
Na cena 2 do Ato III, no Fórum, divide a multidão com Cássio e fala em prosa. Diz que amou César, mas amou mais Roma, e pergunta quem seria tão vil a ponto de querer ser escravo, concluindo que não ofendeu ninguém. Diz que tem o mesmo punhal para si, caso Roma precise da morte dele, e é aclamado: um cidadão diz que ele devia ser César. Ao sair, pede que fiquem para ouvir Antônio.
Na cena 2 do Ato IV, em Sardes, ouve de Lucílio que Cássio o recebeu com cortesia, mas sem a intimidade de antes, e reconhece nisso um amigo que esfria. Na cena 3 do Ato IV, na tenda, Cássio reclama que Bruto puniu Lúcio Pella por suborno, e Bruto responde que o próprio Cássio tem a palma coçando e vende cargos por ouro. Lembra que os conjurados mataram César por justiça e conta que lhe pediu dinheiro para pagar as legiões e Cássio o negou. A briga chega a ameaças, os dois se reconciliam, e Bruto revela que Pórcia morreu. Pergunta a Messala, mais tarde, se as cartas trazem notícias dela e, ao ouvir a confirmação, aceita a perda como um romano. Contra Cássio, que prefere esperar o inimigo, decide marchar logo a Filipos, com o argumento da maré:
Com os criados dormindo, vê o espectro de César, que diz ser o mau espírito dele e que o verá em Filipos.
Na cena 1 do Ato V, em Filipos, troca palavras duras com Antônio e Otávio e, na despedida, diz a Cássio que acha vil e covarde se matar por medo do que possa vir, mas que não irá preso a Roma, e que o dia há de terminar a obra que os Idos de Março começaram. Na cena 2 do Ato V, manda Messala dar a ordem de atacar, e na cena 3 do Ato V Titínio diz que Bruto deu o sinal cedo demais. Ao ver os corpos de Cássio e de Titínio, diz que o espírito de César ainda anda por aí e chama Cássio de último dos romanos. Na cena 4 do Ato V, anima os seus, e Lucílio se faz passar por ele e diz a Antônio que Bruto será encontrado igual a si mesmo. Na cena 5 do Ato V, cercado, pede a Clito, a Dardânio e a Volúmnio que o matem, e os três recusam. Diz a Volúmnio que o espectro lhe apareceu duas vezes e que a hora chegou, e Estratão segura a espada. Antes de se lançar sobre ela, diz a César que o matou com muito menos vontade do que agora se mata. Antônio o elogia diante de Otávio, e Otávio manda dar-lhe honras fúnebres.
Cássio é o arquiteto da conspiração. Magro e faminto, na descrição de Júlio César, lê muito, observa tudo e não se alegra com música nem com jogos. Diz ter salvado César do Tibre quando ele se afogava e vê agora esse homem tratado como deus. Seduz Bruto com um espelho, recruta Casca, forja cartas para empurrar Bruto e perde, uma a uma, as discussões em que se opõe a ele. Epicurista, passa a dar crédito aos presságios no dia do aniversário, em Filipos, e morre com a espada que atravessou César.
Como muda
Na cena 2 do Ato I, trabalha Bruto a sós. Diz que ele não vê o próprio rosto e se oferece como o espelho que mostra o que há de oculto nele. Conta que, num dia de vento, César o desafiou a nadar no Tibre revolto e gritou, no meio, que o salvasse, e que a febre na Espanha fez César tremer e pedir água como uma menina doente. Diz que Roma se curva a um homem fraco, e tira a conclusão para Bruto:
Cássio pergunta o que há no nome "César" que não haja no de Bruto, e lembra o Bruto antigo, que não toleraria um rei. Sai de cena dizendo, sozinho, que Bruto é nobre mas seduzível, e que vai lançar pelas janelas dele cartas que pareçam de cidadãos, falando da opinião que Roma tem do nome dele.
Na cena 3 do Ato I, na noite de tempestade, caminha com o peito aberto aos raios e diz a Casca que o céu avisa contra um homem que cresceu demais, chama os romanos de decadentes e diz que neles governa o espírito das mães. Ao saber que o Senado quer coroar César, jura matar-se antes de aceitar a servidão, e diz que a vida cansada nunca falta ao poder de se dispensar. A frase que resume é de uma linha:
Entrega cartas a Cina, para plantar onde Bruto as ache, e diz a Casca que três partes de Bruto já são deles.
Na cena 1 do Ato II, chega com os conspiradores encapuzados, sussurra com Bruto e propõe que Cícero seja sondado. Bruto o recusa, e Cássio aceita. Propõe que Antônio caia junto com César e, vencido por Bruto, ainda diz que o teme. Observa que César se tornou supersticioso nos últimos tempos, ao contrário da opinião que tinha dos sonhos e das cerimônias, e que os prodígios dessa noite podem prendê-lo em casa. Decide que todos irão buscá-lo.
Na cena 1 do Ato III, quando Popílio sussurra que deseja sucesso à empresa, Cássio teme que tudo esteja descoberto e diz a Casca que seja rápido, pois, se for descoberto, ele mesmo se mata. Ajoelha-se junto a Bruto para apoiar o pedido de Metelo Címber e, depois do golpe, manda que alguns proclamem a liberdade nos púlpitos. Imagina a cena sendo encenada pelos séculos, em línguas ainda desconhecidas. Quando Bruto concede a Antônio a palavra no funeral, avisa que ele não sabe o que faz e que não gosta daquilo. Na cena 2 do Ato III, vai para outra rua dividir a multidão com Bruto.
Na cena 2 do Ato IV, em Sardes, chega com seu exército e diz, diante dos soldados, que Bruto o ofendeu, até Bruto pedir que falem na tenda. Na cena 3 do Ato IV, protesta contra a punição de Lúcio Pella, aceita mal ser chamado de vendedor de cargos e diz que, em vida, César não ousaria tratá-lo assim. Oferece o peito ao punhal de Bruto: que o fira como feriu César, pois sabe que, mesmo quando mais o odiava, Bruto amava César mais do que a ele. A reconciliação é rápida, e ele pede que Bruto o suporte quando o humor que a mãe lhe deu o faz esquecer. Quando Bruto lhe diz que Pórcia morreu, pergunta como escapou com vida depois de contrariá-lo daquele jeito. Propõe esperar o inimigo, cansá-lo e poupar as forças, e cede ao argumento da maré sem insistir.
Na cena 1 do Ato V, o parlamento com Antônio e Otávio vira insulto: chama Otávio de colegial birrento e Antônio de mascarado e festeiro e, chamado de adulador por Antônio, diz a Bruto que agradeça a si mesmo, porque a língua de Antônio não teria ofendido se Cássio tivesse mandado. Diz a Messala que é o dia do aniversário, que passou a dar crédito aos presságios e que as águias que acompanhavam o exército foram trocadas por corvos. Pergunta a Bruto o que fará se perderem e despede-se dele com a frase de que, se não se encontrarem, a despedida foi bem feita.
Na cena 3 do Ato V, mata o porta-estandarte que recuava, vê a fuga dos soldados e manda Titínio verificar se as tropas distantes são amigas. Do alto de um monte, Píndaro diz que Titínio foi capturado, e Cássio, achando o amigo perdido, lembra a Píndaro que o capturou na Pártia e que lhe fez jurar obediência, e pede que o mate com a espada que atravessou César, de rosto coberto. Morre dizendo que César está vingado.
Marco Antônio é o amigo e braço direito de Júlio César, corredor da festa das Lupercais e quem lhe oferece a coroa três vezes. Cássio o teme como articulador astuto; Bruto o tem por homem de esporte, de farra e de companhia, e o poupa por achar que, sem a cabeça de César, ele só tem a força do braço. Fala com ternura ao corpo, aperta as mãos dos assassinos, pede para falar no funeral e vira a multidão contra eles. Em seguida, junto com Otávio e Lépido, marca quem deve morrer e, em Filipos, vence a ala de Cássio e protege Lucílio. No fim, pronuncia o elogio de Bruto.
Como muda
Na cena 2 do Ato I, na procissão das Lupercais, corre a corrida que César lhe ordenou, com a missão de tocar Calpúrnia, e diz que, quando César manda, está feito. Defende Cássio diante de César, dizendo que ele não é perigoso e é um nobre romano. É ele quem oferece a coroa, três vezes, segundo Casca.
Na cena 1 do Ato II, não está presente, mas é assunto. Cássio quer que ele caia com César, porque, bem-amado do chefe, pode ser um articulador astuto, e Bruto o poupa: é só um membro de César, dado a esportes, à vida desregrada e à companhia, e, se amar César, tudo o que fará é matar-se de dor. Trebônio diz que ele viverá e rirá disso depois.
Na cena 1 do Ato III, é retido fora do Senado por Trebônio e foge para casa, assustado, quando o golpe cai. Manda um criado se ajoelhar diante de Bruto e dizer que ele honra Bruto e que, vivo, Bruto lhe é mais caro que César morto. Chega, vê o corpo e se oferece aos assassinos, dizendo que não encontrará hora tão boa para morrer quanto a da morte de César. Bruto o acolhe, e Antônio aperta a mão de cada um, nomeando todos. Pede perdão a César por ter apertado a mão dos que o mataram e o compara a um cervo atingido por muitos príncipes. Obtém licença para falar no funeral, e Cássio avisa Bruto, sem resultado. Sozinho, jura sobre o corpo, em profecia, que uma praga cairá sobre os homens, que a fúria civil tomará a Itália e que o espírito de César, vindo do inferno com Ate ao lado, soltará os cães da guerra. Manda o criado de Otávio voltar e avisá-lo de que Roma ainda não é segura para ele. Na cena 2 do Ato III, depois de Bruto, sobe à tribuna:
Repete que Bruto é um homem honrado até a frase virar acusação, lembra que César trouxe prisioneiros cujos resgates encheram os cofres, que chorou pelos pobres e que três vezes recusou a coroa que ele mesmo lhe ofereceu. Diz que prefere não ler o testamento e guarda a leitura para quando a multidão o exigir. Desce, mostra o manto de César, aponta onde passou o punhal de Cássio e onde a faca de Casca abriu o rasgo, e conta que Bruto era o anjo de César. Diz que não é orador, e sim um homem simples que mostra as feridas, as bocas mudas, e pede que falem por ele. Quando a multidão se levanta, ele a detém para ler o testamento: setenta e cinco dracmas a cada cidadão e os jardins de César ao povo. Quando os cidadãos saem para queimar as casas dos conspiradores, diz que agora a desgraça está solta, e que tome o caminho que quiser.
Na cena 1 do Ato IV, com Otávio e Lépido, risca os nomes dos que devem morrer e aceita incluir o sobrinho, Públio, em troca do irmão de Lépido. Quando Lépido sai para buscar o testamento, chama-o de homem insignificante, bom para recados, e diz que ele carregará as honras como o burro carrega o ouro, para gemer e suar, e depois será dispensado para pastar. Quando Otávio lembra que Lépido é soldado provado, responde que o cavalo dele também é, e que tem mais dias de vida que o jovem. Avisa que Bruto e Cássio reúnem tropas e que é preciso reforçar a aliança.
Na cena 1 do Ato V, em Filipos, discute com Otávio a posição de cada um, ouve que ele impõe a sua, e responde a Bruto no parlamento com o buraco que ele fez no coração de César. Acusa os conspiradores de terem se curvado e adulado como cães antes do golpe e chama Casca de cão que feriu por trás. Na cena 3 do Ato V, invade as tendas de Cássio e cerca o resto das tropas dele. Na cena 4 do Ato V, ao descobrir que o prisioneiro é Lucílio, e não Bruto, diz que prefere ter homens assim como amigos e manda tratá-lo bem. Na cena 5 do Ato V, chega ao corpo de Bruto e diz:
Júlio César é o homem de quem toda a peça fala e que aparece em poucas cenas: festejado em Roma no dia das Lupercais, a quem parte do Senado quer dar a coroa e a quem outra parte decide matar. Tem um ouvido surdo, cai em público num ataque que Casca conta com desprezo, e fala de si como de um nome maior que o homem. Cai no Capitólio, nos Idos de Março, sob as facadas de Casca, de Cássio e de Bruto, e continua na peça como corpo exposto, como espectro e como força: Marco Antônio faz da morte dele uma arma, e Bruto diz, em Filipos, que o espírito de César ainda anda por aí.
Como muda
Antes de entrar em cena, já é o problema. Na cena 1 do Ato I, os tribunos Flávio e Marulo tiram os enfeites das estátuas dele e dispersam o povo que o festeja, e Flávio explica que é preciso arrancar as penas da asa de César para que ele não voe alto demais.
Na cena 2 do Ato I, na procissão das Lupercais, manda Calpúrnia ficar no caminho de Antônio na corrida, porque os velhos dizem que a estéril tocada na caça sagrada perde a maldição, e exige que nenhum rito seja omitido. Um adivinho grita que se cuide dos Idos de Março, ele o manda chegar perto, olha o rosto dele e o despacha: é um sonhador. Na volta da corrida, com o cortejo calado, aponta Cássio a Antônio: magro, faminto, pensa demais, não ouve música e sorri como quem zomba de si mesmo. Chama tais homens de perigosos, em seguida recua, diz que não o teme e que fala do que se deve temer, pois sempre é César, e pede que Antônio fique à direita, porque o ouvido esquerdo é surdo. A recusa da coroa, três vezes, e o desmaio com espuma na boca chegam por Casca, que conta também que, ao voltar a si, César pediu que atribuíssem aquilo à enfermidade dele.
Na cena 2 do Ato II, em casa, na manhã dos Idos, resiste a Calpúrnia, que gritou três vezes em sonho que matavam César, e aos augúrios, que não acharam coração no animal sacrificado. Diz que o que o ameaçou nunca viu mais que as costas dele e que o perigo sabe que César é mais perigoso que ele, dois leões nascidos no mesmo dia, ele o mais velho e o mais terrível. Responde ao medo com a frase mais citada da peça sobre ele:
Cede ao pedido de Calpúrnia, que se oferece como culpada do medo, e manda Décio avisar o Senado. Décio refaz o sonho, dizendo que o sangue da estátua é o sangue novo que Roma vai beber, promete a coroa naquele dia e lembra que os senadores diriam que a sessão foi adiada até a mulher de César ter sonhos melhores, e que César tem medo. César responde que os temores de Calpúrnia parecem tolos e que tem vergonha de ter cedido, pede o manto e recebe em casa os conspiradores, a quem convida para o vinho. Pede a Cina, a Metelo e a Trebônio que fiquem perto dele, e Trebônio responde em aparte que estará tão perto que os amigos de César desejarão que estivesse longe.
Na cena 1 do Ato III, diante do Capitólio, o Adivinho lhe diz que os Idos chegaram mas ainda não passaram, e Artemidoro pede que leia primeiro a carta dele, porque trata do que lhe toca mais de perto. César responde que o que toca a ele mesmo será servido por último, e entra no Senado. Metelo Címber se ajoelha pelo irmão banido, e ele recusa: a adulação derrete tolos, não César, que é constante como a estrela do norte, a única sem igual no firmamento. Bruto e Cássio se juntam ao pedido, Cina e Décio insistem, e ele pergunta a Cina se quer levantar o Olimpo. Casca grita que as mãos falem por ele e dá o primeiro golpe no pescoço, os outros o cercam, e o último é de Bruto. César, ao ver o amigo, diz a frase em latim e cai: "então cai, César".
Morto, não sai da peça. Na cena 2 do Ato III, o corpo e o manto furado são o argumento de Antônio diante do povo. Na cena 3 do Ato IV, aparece como espectro a Bruto, na tenda, diz ser o mau espírito dele e promete que o verá em Filipos. Na cena 3 do Ato V, Cássio morre com a espada que atravessou César e diz que ele está vingado, e Bruto exclama, ao ver os corpos de Cássio e de Titínio:
Na cena 5 do Ato V, Bruto conta a Volúmnio que o espectro lhe apareceu duas vezes, em Sardes e em Filipos, e, ao se lançar sobre a espada, pede a César que descanse.
Pórcia é a esposa de Bruto e a filha de Catão, e é assim que se apresenta quando exige saber o segredo do marido: mulher, mas mulher de linhagem e de provas dadas. Fala em duas cenas, na madrugada dos Idos e na manhã em que espera notícias do Capitólio, e depois é a morte que Bruto conta a Cássio na tenda.
Como muda
Na cena 1 do Ato II, sai da cama atrás de Bruto, no pomar, depois que os conspiradores se foram, e lembra que ele se levantou do jantar na véspera, deu olhares ásperos, não respondeu e a mandou embora com um gesto. Pergunta qual é a doença que ele esconde e ajoelha-se: pelo voto que os fez um, ela quer saber quem são os homens que o visitaram de rosto escondido. Pergunta se, no casamento, está excluída dos segredos, e diz que, se for só isso, é a meretriz de Bruto, não a esposa. Quando ele responde que ela é a esposa honrada, retruca que, se fosse, saberia o segredo. Afirma que é mulher, mas mulher de Bruto, e filha de Catão, e prova a constância com uma ferida que deu a si mesma na coxa. Bruto pede aos deuses que o façam digno dessa mulher, promete contar tudo e manda que ela entre.
Na cena 4 do Ato II, na manhã dos Idos, manda Lúcio ao Senado ver como está Bruto, mas quase deixa escapar o motivo da aflição. Diz, em aparte, que tem a mente de um homem, mas a força de uma mulher, e que é difícil a mulheres guardar segredo:
Interroga o Adivinho, que quer avisar César e teme ser esmagado pela multidão, e reza pelo êxito do marido. Sozinha, sente-se desfalecer e manda Lúcio de volta, com a ordem de trazer notícias.
Na cena 3 do Ato IV, Bruto diz a Cássio que ela morreu: impaciente com a ausência dele e aflita com a notícia de que Otávio e Antônio tinham ficado fortes, enlouqueceu e, sem ninguém por perto, engoliu fogo. Cássio se espanta e Bruto pede que não se fale mais dela. Pouco depois, ao ouvir de Messala a confirmação, aceita a perda como um romano.
Calpúrnia é a esposa de Júlio César, e é dela a tentativa de impedi-lo de ir ao Capitólio nos Idos de Março. Gritou em sonho, três vezes, que matavam César, e conta a ele os prodígios da noite. Na procissão das Lupercais, é a ela que César dirige a primeira ordem: ficar no caminho de Antônio, para ser tocada e deixar a esterilidade.
Como muda
Na cena 2 do Ato I, na procissão das Lupercais, César a manda ficar no caminho de Marco Antônio na corrida, para que ele a toque e ela perca a maldição da esterilidade, porque assim dizem os velhos. Quando o cortejo volta, Bruto nota que a face dela está pálida.
Na cena 2 do Ato II, na manhã dos Idos, diz a César que ele não sairá de casa naquele dia. Ela, que nunca se prendeu a cerimônias, agora tem medo: conta que uma leoa pariu nas ruas, que túmulos se abriram e devolveram os mortos, que guerreiros em chamas lutaram nas nuvens e que a chuva sobre o Capitólio era de sangue. Diz que, quando morrem mendigos, não se veem cometas, e que os próprios céus anunciam a morte de príncipes. César responde que os covardes morrem muitas vezes, e que a morte vem quando vem. Ela volta ao argumento: a sabedoria dele está consumida pela confiança. Ajoelha-se e pede que ele chame o medo de dela, e não dele, e que mandem Antônio ao Senado para dizer que César está doente. César cede, mas, quando Décio chega, mantém a recusa só pela vontade e só depois diz a razão: ela sonhou com a estátua dele, jorrando sangue por cem bicas, e muitos romanos sorrindo se lavavam nele. Calpúrnia insiste em que ele diga que está doente, e César responde que não mandará uma mentira. Décio refaz o sonho, e ela não fala mais. César, envergonhado de ter cedido, pede o manto.
Fechamento: perguntas abertas, sem gabarito.