Gabarito
Gabarito
As respostas vêm do guia da obra no Clavis Libri. Nas questões abertas, o gabarito mostra o que se espera encontrar, não a única resposta possível. As perguntas "para discutir" e "E você?" não têm gabarito.
Semana 1
1.1O que aconteceu.
Parte I, capítulo 1Charles Bovary entra no romance como "novo aluno", visto por um colega de classe: ridicularizado desde a primeira cena por um boné que o narrador descreve com a mesma atenção clínica que depois vai dedicar a
Emma Bovary, e rebatizado "Charbovari" pela turma quando grita o nome na chamada. Esse boné é o primeiro objeto do romance a carregar mais sentido do que deveria, um hábito de estilo que Flaubert repete até o fim.
Parte I, capítulo 2Uma noite, um camponês chega a Tostes com um bilhete que chama o doutor ao Bertaux, a fazenda do pai Rouault, para consertar uma perna quebrada.
Charles Bovary faz o caminho de madrugada, acha a fratura simples e conhece a filha do fazendeiro,
Emma Bovary, que o recebe à porta: ele repara nas unhas dela, e o narrador diz que a beleza verdadeira estava nos olhos. A cura dura quarenta e seis dias, e Charles passa a voltar ao Bertaux duas vezes por semana, e mais.
Parte I, capítulo 3O pai Rouault traz a
Charles Bovary os setenta e cinco francos pela perna, mais um peru, e o consola da viuvez contando o próprio luto. A morte da primeira esposa libera Charles para desejar sem culpa, e ele volta ao Bertaux, mais livre e mais bem visto na região. Numa tarde de calor, com a casa vazia,
Emma Bovary lhe oferece um licor de curaçao na cozinha, ri por não ter sobrado quase nada no próprio copo e lambe o fundo dele. Rouault, que não se incomodaria de se livrar da filha, percebe o rubor de Charles e decide aceitar o pedido. Charles passa três dias adiando o pedido, e é o próprio fazendeiro, na estrada, que combina o sinal: se a resposta for sim, escancarará o postigo da janela, e, passada meia hora e mais dezenove minutos no relógio, ele se abre. O casamento só pode ser feito depois do luto, na primavera seguinte.
Parte I, capítulo 4Os convidados chegam cedo, de toda a região, em carroças e charretes, e o cortejo segue a pé até a prefeitura e à igreja, com o violinista à frente e
Emma Bovary erguendo de vez em quando o vestido comprido. O banquete é servido sob o galpão das carroças, com assados e fricassés e uma sobremesa montada pelo confeiteiro de Yvetot, um templo de papelão com um Cupido num balanço de chocolate no alto. Comem até a noite, cantam, exibem força e beijam as mulheres, e, ao partirem, as carroças disparam pelas estradas;
Charles Bovary, sem veia para gracejos, responde mal às piadas que lhe disparam desde a sopa. Dois dias depois o casal parte, com Rouault acompanhando-os até Vassonville, onde se despede da filha e lembra o próprio casamento e a mulher morta. Chegam a Tostes às seis da tarde.
Parte I, capítulo 5O narrador percorre a casa de Tostes cômodo a cômodo, e o casamento com
Emma Bovary seria a virada feliz do enredo, se não fosse pelo detalhe que o capítulo planta com cuidado: no quarto do casal ainda está o buquê de flores de laranjeira da noiva morta.
Charles Bovary o leva para o sótão sem perceber o que fez. Emma olha e pensa em seu próprio buquê, imaginando o que seria feito dele se ela morresse. É a primeira vez que o romance liga casamento a morte pela imagem, e não vai ser a última.
Parte I, capítulo 6O capítulo volta ao passado de
Emma Bovary, a começar pelo convento, para explicar de onde vem o vocabulário do capítulo anterior. Ela entra aos treze anos, e não perde a fé por descrença, perde por saciedade sensorial: gostava da igreja pelas flores, da música pelas letras das canções, da religião pelo langor místico, nunca pela doutrina, e inventava pecados para ficar mais tempo no confessionário. Ao mesmo tempo, uma velha costureira que vem remendar a roupa branca contrabandeia romances baratos para o dormitório, cheios de amor, amantes e damas perseguidas desmaiando em pavilhões solitários, e Walter Scott e os livros de lembranças com gravuras completam o repertório. Emma consome os dois registros, devocional e romanesco, sem jamais distingui-los.
Parte I, capítulo 7Antes do baile, Flaubert mede a distância entre marido e mulher com uma imagem que virou referência crítica do romance.
Emma Bovary imagina a lua de mel que não teve, em terras de nomes sonoros, e não encontra palavras nem coragem para contá-la a
Charles Bovary, cuja conversa a decepciona.
Parte I, capítulo 8Este é o capítulo que muda o eixo do romance. Não é o rapaz bonito que seduz
Emma Bovary (o Visconde só aparece quando a convida duas vezes para a valsa), é o excesso material e social do castelo: os retratos com nomes de séculos de linhagem, o duque de Laverdière decrépito à mesa, que Emma observa como algo extraordinário por ter vivido na corte, o champanhe gelado, as romãs e os abacaxis que ela nunca tinha visto ou provado, a valsa que ela não sabia dançar e que dança ali mesmo, tonta, com a cabeça apoiada no peito de um estranho.
Charles Bovary, que ensaia dizer que as tiras da calça atrapalhariam a dança, ouve de Emma que o lugar de um médico não é lá, e passa cinco horas em pé diante das mesas de uíste sem entender o jogo.
1.2Temas da semana: Desejo, Sonho e fantasia, Dinheiro e riqueza, Casamento, Linguagem e narração, Religião, Amor.
1.3o narrador, Parte I, capítulo 1.
O romance abre com um aluno novo entrando na classe, visto por um colega, e o narrador gasta a atenção no que ele traz nos joelhos: um boné. A peça é descrita parte por parte, mistura de gorro de pele, chapéu redondo e barrete de algodão, e só então vem esta frase. Ela não fala do rapaz, fala do boné: no original, uma daquelas "pobres coisas" cuja feiura muda tem profundezas de expressão, como o rosto de um imbecil. Logo em seguida a turma rebatiza o aluno de "Charbovari", quando ele grita o nome na chamada.
A frase importa porque o primeiro retrato do livro é o de um objeto. O boné carrega mais sentido do que deveria: a sua feiura calada parece dizer mais do que o dono, que ainda não disse nada, e a comparação com o rosto de um imbecil cai, por associação, sobre o rapaz. É um hábito de estilo que Flaubert repete até o fim, o de apresentar as pessoas por aquilo que vestem e possuem. Charles será, nas páginas seguintes, um homem que obedece: à mãe, depois à primeira esposa, depois ao próprio desejo, sem notar a diferença entre uma coisa e outra.
Pode-se ler aqui um tom que o livro mantém com Charles: o narrador não o poupa, mas também não o faz vilão. Ele é ridículo e inofensivo ao mesmo tempo. Quando Emma, mais tarde, passar a desprezá-lo, o leitor já terá visto, desde a primeira página, como o mundo o olha: com riso, e sem curiosidade pelo que ele pensa.
1.4o narrador, Parte I, capítulo 8.
Depois do baile no castelo, Emma volta a Tostes e, no dia seguinte, passeia pelo jardim para medir o que aconteceu com ela. A frase diz que a viagem a Vaubyessard abriu um buraco na vida dela, como as fendas que uma tempestade às vezes abre, numa só noite, nas montanhas. A noite foi cheia de coisas novas: o champanhe gelado, as romãs e os abacaxis que ela nunca provara, a valsa com um estranho. Mas o estrago, segundo o narrador, é de outra ordem.
A imagem da fenda é precisa. Uma fenda não se fecha sozinha, e a tempestade que a abre dura pouco. Emma não é seduzida por um homem, o Visconde só aparece quando a convida para valsar. O que a atinge é o excesso material e social do castelo: retratos de séculos de linhagem, o velho duque que viveu na corte, objetos e gestos de um mundo para o qual ela se julga talhada. Tendo visto esse mundo uma vez, ela passa a ver o próprio de outro modo.
A pergunta que a passagem deixa é o que precisava faltar naquela vida para que uma única noite bastasse a rasgá-la. A resposta parece estar no capítulo anterior, no sótão e na aranha. Há, ainda, o gesto que Charles faz sem perceber: encontra na estrada de volta uma cigarreira com um brasão, e a guarda, dando a Emma o primeiro objeto de uma vida que não é a dela. A fenda abre, e dela saem as fantasias do resto da Parte I.
1.5A. O texto diz que o boné é uma dessas pobres coisas cuja feiura muda tem profundezas de expressão como o rosto de um imbecil. Fica a pergunta para pensar: por que o romance abre fazendo um objeto falar pelo homem que o carrega, antes que esse homem diga uma palavra?
1.6B. Rouault conta que chorava ao pé de uma árvore, chamava Deus, xingava, desejava ser como as toupeiras, e que a dor foi indo miga a miga. Mas sempre fica algo no fundo, um peso ali no peito. E conclui que, sendo o destino de todos, não se deve deixar definhar. Fica a pergunta para pensar: se a dor passa e deixa um peso, quanto desse peso Charles vai de fato carregar nas páginas seguintes?
1.7B. Numa garrafa sobre o secretário, perto da janela, há um buquê de flores de laranjeira atado com fitas de cetim branco: o buquê de noiva da outra. Charles percebe que Emma o olha, pega-o e o leva ao sótão. Emma descobre, no primeiro dia, que a casa guarda a marca de outra mulher no lugar que agora é dela.
1.8D. Uma velha solteirona, de família de fidalgos arruinados na Revolução, vem todo mês trabalhar oito dias na rouparia. Conta histórias, canta canções galantes de cor e empresta às maiores, escondido, um romance que traz sempre no bolso do avental. Durante seis meses, aos quinze anos, Emma suja as mãos com essa poeira dos velhos gabinetes de leitura: amores, amantes, damas perseguidas, florestas sombrias, barcas ao luar. É o primeiro material com que ela vai medir a vida.
1.9C. A frase seguinte ao olhar de Emma é a razão dele: o velho tinha vivido na Corte e dormido na cama de rainhas. Fica a pergunta para pensar: o que Emma admira, o homem diante dela ou a vida que ele teve?
1.10 a 1.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Semana 2
2.1O que aconteceu.
Parte I, capítulo 9Aqui o baile deixa de ser memória e vira doença.
Emma Bovary abre a cigarreira (ver
A cigarreira verde) sozinha, cheira o forro, pergunta-se de quem seria, se do Visconde, e inventa uma história de amor para o dono: talvez um presente da amante dele, bordado durante horas.
Parte II, capítulo 1O livro passa a Yonville-l'Abbaye (ver
Yonville), burgo a oito léguas de Rouen, nos confins da Normandia, que o narrador percorre da ponte à igreja, da prefeitura em forma de templo grego à farmácia de
Homais, declarando que nada ali mudou desde os fatos que vai contar. Na véspera do dia de mercado, a viúva Lefrançois, dona da estalagem do Leão de Ouro, prepara o jantar enquanto Homais discute com ela o bilhar e a religião, e o tesoureiro Binet ocupa às seis em ponto o seu lugar na saleta. O padre
Abade Bournisien aparece só para buscar o guarda-chuva, e Homais o acusa de hipocrisia assim que ele sai. Por fim chega a diligência Andorinha, atrasada porque a galga de Emma fugiu pelos campos, trazendo os Bovary,
Emma Bovary e
Charles Bovary, e o mercador
Lheureux.
Parte II, capítulo 2Os Bovary chegam à estalagem do Leão de Ouro, onde
Homais, que se convidara a si mesmo, e
Léon Dupuis, escriturário do tabelião
Guillaumin e entediado em Yonville (ver
Yonville), jantam com eles. Durante duas horas e meia à mesa,
Emma Bovary e Léon descobrem os mesmos gostos, enquanto Homais descreve a Charles os habitantes do lugar e a casa vaga do fugitivo Yanoda, que os Bovary vão ocupar. Léon diz que irá a Paris no ano seguinte terminar o curso de Direito. Na casa nova, ainda em desordem, Emma dorme pela primeira vez em Yonville.
Parte II, capítulo 3Na manhã seguinte
Léon cumprimenta
Emma Bovary, de roupão, na janela, e passa o dia esperando a hora do jantar, enquanto
Homais se desdobra em favores aos Bovary para ter o médico como aliado.
Charles Bovary, sem clientes e com o dote esgotado, se consola com a gravidez de Emma, que dá à luz uma menina num domingo, ao nascer do sol, e desmaia ao saber. Depois do batizado, Emma vai ver a filha na casa da ama, Léon a acompanha e voltam juntos pela margem do rio, e ele termina o dia no Pasto, queixando-se do tédio.
Parte II, capítulo 4Com os primeiros frios,
Emma Bovary passa a viver na sala e a acompanhar da janela as idas e vindas de
Léon, enquanto
Homais aparece todas as noites, durante o jantar, repetindo sempre a mesma saudação. Léon e Emma se aproximam nos serões da casa do farmacêutico, com troca de livros e de pequenos favores, e a vizinhança conclui que se amam. Léon se atormenta sem conseguir declarar-se, escreve cartas que rasga e, quando
Charles Bovary o convida a visitar doentes, desiste da declaração e parte com ele; Emma, por sua vez, não se pergunta se o ama.
Parte II, capítulo 5Num domingo de fevereiro, com neve, os Bovary,
Homais e
Léon vão a meia légua de Yonville (ver
Yonville) ver uma fiação de linho em construção, e ali
Emma Bovary, olhando as costas de
Charles Bovary e depois o rosto de Léon, compara os dois. À noite, sozinha, percebe que ama Léon, e no dia seguinte o mercador
Lheureux a visita com a caixa de fazendas e lhe oferece crédito, sem que ela compre nada. Nos dias seguintes Emma se torna esposa e mãe exemplar, tira
Berthe Bovary da ama e volta à igreja, e Yonville lhe admira a economia, a delicadeza e a caridade, o que leva Léon a desistir de conquistá-la. Por trás da virtude, porém, Emma vive de desejo e de raiva de Charles, e à criada Félicité, que a surpreende chorando, diz que são nervos.
2.2Temas da semana: Desejo, Sonho e fantasia, Dinheiro e riqueza, Casamento, Linguagem e narração, Religião, Amor.
2.3o narrador, Parte I, capítulo 9.
Depois do baile, o tédio de Emma deixa de ser ausência de acontecimento e vira certeza de que o único acontecimento real da vida dela já passou. Ela abandona o desenho, o bordado, o piano, habilidades de convento que só faziam sentido diante de um público que Tostes não tem, e passa os dias imaginando a vida de Paris no mapa que comprou. A frase vem no fim do capítulo: como marinheiros em perigo, ela olha a solidão da própria vida procurando ao longe uma vela branca nas brumas do horizonte.
A imagem é de espera. A frase anterior diz que Emma, no fundo da alma, esperava um acontecimento, e a compara a marinheiros em perigo, que olham o mar à procura de uma vela. Quem está nessa situação não age, olha e aguarda o barco que o salve. Emma é assim: não procura uma saída, aguarda que alguém, ou alguma coisa, venha tirá-la dali. A vela branca não tem nome nem rosto, é uma promessa em forma de ponto no horizonte, e qualquer barco que passar servirá. Por isso ela vai se agarrar, nos capítulos seguintes, a Rodolphe, a Deus, ao tenor da ópera e a Léon, cada um a seu tempo.
O contraste com a Parte III é revelador. Lá, o desejo de Emma já não será espera em suspensão, mas rotina fixa de quinta-feira, com hora de diligência e hotel marcado. A espera dos marinheiros em perigo e a repetição administrada de Rouen são dois estágios do mesmo desejo, um à deriva, outro em serviço. Pode-se ler esta passagem como o retrato de Emma antes que qualquer amante entre em cena, a mulher que já espera por alguém sem saber por quem.
2.4o narrador, Parte II, capítulo 5.
Depois de ver a fiação de linho num domingo de neve, Emma percebe que ama Léon. No dia seguinte o mercador Lheureux a visita com a caixa de fazendas e lhe oferece crédito, e Emma se torna, por um tempo, esposa e mãe exemplar: tira Berthe da ama, volta à igreja, ganha a admiração de Yonville pela economia e pela caridade. O narrador explica o que há por trás dessa virtude, e a frase é a mais seca do capítulo: a mediocridade doméstica incitava Emma a fantasias luxuosas, e a ternura matrimonial, a desejos adúlteros.
A construção da frase é um espelho: de um lado a mediocridade, do outro o luxo; de um lado a ternura, do outro o adultério. O efeito é o inverso do esperado. Uma ternura de marido devia acalmar uma esposa, mas em Emma produz o oposto. No mesmo trecho, o narrador diz que a convicção de Charles de fazê-la feliz lhe parecia um insulto, e que ela preferiria que ele lhe batesse, para poder detestá-lo com mais justiça.
A passagem mostra o que Emma sente diante do marido: nele ela não encontra nem um defeito para odiar, só uma bondade que a deixa sem pretexto. A virtude que exibe nesses dias é feita para o espelho, uma pose de resignação que a agrada, e o texto dá a entender que, por trás dela, o desejo cresce e a raiva de Charles também. Pode-se ler a frase como o diagnóstico do que virá: o adultério vai nascer menos de um defeito de Charles do que da própria docilidade dele, vista por quem não a suporta.
2.5A. Emma imagina um canevá de palisandro escondido de todos os olhos, as mechas moles da trabalhadora pensativa, um sopro de amor passando pelas malhas, cada ponto fixando ali uma esperança ou uma lembrança. Depois o Visconde teria levado a cigarreira consigo, uma manhã. Fica a pergunta para pensar: o que faz Emma com um objeto de dono desconhecido, o recebe ou o escreve?
2.6C. O narrador percorre a casa do tabelião, a igreja, o mercado coberto e a prefeitura, e só então aponta a farmácia de Homais, iluminada à noite pelos bocais vermelhos e verdes, com o nome dele em letras douradas no letreiro e outra vez na porta do laboratório. Fica a pergunta para pensar: o que diz de um burgo o fato de o ponto que mais brilha nele ser a loja de um farmacêutico, e não a igreja?
2.7B. Emma diz que os versos acabam cansando e que agora adora as histórias que se seguem de um só fôlego e dão medo; detesta, afirma, os heróis comuns e os sentimentos temperados, como os que há na natureza. Léon responde com a defesa dos nobres caracteres e dos quadros de felicidade. Fica a pergunta para pensar: o que acontece a quem só admite no sentimento o que é extremo?
2.8B. O narrador diz que Emma, em vez de se interrogar se amava Léon, acreditava que o amor devia chegar tudo de uma vez, com grandes estrondos, como um furacão do céu que bagunça a vida e leva o coração inteiro ao abismo. Ela não sabia que, nos terraços, a chuva faz lagos quando as calhas estão entupidas, e foi assim que um dia descobriu de repente uma rachadura na parede. Fica a pergunta para pensar: o que deixa de ser percebido por quem só reconhece o amor quando ele chega como tempestade?
2.9D. O texto diz que o que a exaspera é que Charles não parece suspeitar do suplício dela: a convicção de a fazer feliz lhe soa como um insulto imbecil e a segurança dele, como ingratidão. Ela se pergunta para quem então era tão sensata e conclui que ele é o obstáculo a toda felicidade. Fica a pergunta para pensar: o que acontece com um sofrimento que ninguém ao redor é capaz de ver?
2.10 a 2.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Semana 3
3.1O que aconteceu.
Parte II, capítulo 6No começo de abril, ao ouvir as ave-marias,
Emma Bovary vai à igreja disposta a qualquer devoção e encontra o
Abade Bournisien ocupado com os meninos do catecismo, sem perceber o que ela procura. Em casa, irritada, ela empurra a filha, que cai e fere a face, e depois acha a menina feia.
Léon, cansado de amar sem esperança e de Yonville (ver
Yonville), obtém o consentimento da mãe para ir terminar o curso de Direito em Paris e parte numa despedida contida, na ausência de
Charles Bovary. Naquela noite
Homais anuncia que os comícios agrícolas podem vir a ser realizados em Yonville.
Parte II, capítulo 7Depois da partida de
Léon,
Emma Bovary passa semanas de luto e de caprichos, até desmaiar e escarrar sangue, e
Charles Bovary chama a mãe, que a considera ociosa e manda cortar a assinatura da biblioteca de Rouen. Num dia de mercado, o proprietário
Rodolphe Boulanger, dono de La Huchette, traz um camponês para ser sangrado por Charles e conhece Emma enquanto o aprendiz Justin desmaia. Voltando a pé para casa, Rodolphe decide seduzi-la, e planeja visitas, presentes de caça e os comícios que se aproximam.
Parte II, capítulo 8No dia dos comícios agrícolas, Yonville (ver
Yonville) se enfeita, a guarda nacional de Buchy e os bombeiros de Binet desfilam, e
Homais, membro da comissão consultiva, vai ao palanque. No caminho, a dona do Leão de Ouro conta a Homais que
Lheureux vai levar à penhora o rival Tellier, dono do Café Francês, com letras de câmbio.
Rodolphe Boulanger se junta a
Emma Bovary e a conduz à sala de sessões da prefeitura; enquanto o conselheiro Lieuvain, que veio no lugar do prefeito, discursa e o presidente do júri proclama os prêmios de gado, adubo e linho, ele lhe faz a corte, até tomar-lhe a mão. A criada Catherine Leroux recebe a medalha por cinquenta e quatro anos de serviço, e dois dias depois Homais publica no Fanal de Rouen um artigo entusiasmado sobre a festa.
Parte II, capítulo 9Depois de seis semanas de ausência,
Rodolphe Boulanger volta e declara-se a
Emma Bovary, que está só;
Charles Bovary, que chega no meio da cena, apoia a ideia de que ela monte a cavalo para a saúde e manda fazer o traje de amazona. No começo de outubro os dois cavalgam até a floresta, onde Emma, depois de resistir, cede. Nas semanas seguintes encontram-se numa cabana de tamanqueiros, trocam cartas escondidas numa fresta do terraço e Emma vai de madrugada à casa dele, em La Huchette, até que Rodolphe a adverte de que as visitas a comprometem.
Parte II, capítulo 10Com o amor,
Emma Bovary passa a temer ser descoberta: numa manhã, ao voltar da casa de
Rodolphe Boulanger, quase desmaia de susto ao ver o cano da carabina de Binet, que caçava patos bravos escondido num barril, e à noite o encontra na farmácia comprando produtos para limpar o equipamento de caça, o que lhe custa horas de angústia. Durante o inverno, três ou quatro vezes por semana, Rodolphe a encontra de noite no jardim e, quando chove, no consultório de
Charles Bovary, onde Emma lhe pergunta se tem a pistola para se defender do marido e ele responde com desdém por Charles. Aos poucos a exaltação de Emma o aborrece, e ele deixa de disfarçar a indiferença. Na primavera chega a cesta do pai Rouault, com um peru e uma carta, e a lembrança da casa paterna e o gosto de abraçar
Berthe Bovary levam Emma a um surto de ternura e de arrependimento, a que Rodolphe responde faltando a três encontros.
3.2Temas da semana: Desejo, Sonho e fantasia, Linguagem e narração, Religião, Amor.
3.3Emma, Parte II, capítulo 6.
No começo de abril, ao ouvir as ave-marias, Emma vai à igreja disposta a qualquer devoção e encontra o abade Bournisien ocupado com os meninos do catecismo. O padre, sem perceber o que ela procura, brinca que o doutor é médico dos corpos e ele, médico das almas. Emma fixa nele um olhar suplicante e responde com essa frase, quase uma súplica disfarçada de cortesia: o senhor alivia todas as misérias. Quer dizer: alivie a minha.
O que se segue é o contrário de uma escuta. O abade responde com a vaca inchada de Bas-Diauville, de que cuidou naquela manhã, e corre para a igreja ao ouvir os meninos brigando. Ela tenta dizer que há quem tenha pão e não tenha outra coisa, ele completa a frase com o fogo para o inverno, e quando ela replica "Que importa isso?", ele não entende. A cena termina em silêncio, frente a frente, e o padre volta ao catecismo alegando o dever acima de tudo.
Nada na cena é maldade. O abade falha por incompetência, não por má-fé: trata a angústia dela como indigestão e age como quem cumpre um ofício de rotina. É nesse ponto que o romance fecha a porta da religião institucional como resposta possível ao vazio de Emma, antes mesmo de Rodolphe aparecer com força. Pode-se ler a frase dela como um pedido formulado em voz alta, e o silêncio que vem depois como a resposta do livro: ninguém em Yonville tem ouvidos para o que ela não consegue dizer.
3.4o narrador, Parte II, capítulo 10.
Na primavera chega a cesta do pai Rouault, com um peru e uma carta, e a lembrança da casa paterna leva Emma a um surto de ternura e de arrependimento. Ela vê as ilusões que gastou e faz o balanço: que abundância tinha, e agora nenhuma restava. Gastara-as todas, diz o narrador, nas aventuras da alma, na virgindade, no casamento e no amor, deixando uma parte em cada estalagem do caminho, como um viajante que vai perdendo a riqueza de etapa em etapa.
A imagem do viajante é precisa. Cada fase da vida de Emma foi uma estalagem onde ela deixou algo: a virgindade e as esperanças de convento, o casamento e a ilusão de ter achado o amor, o amor adúltero, que já começa a minguar. O que sobra é o balanço, e o balanço é negativo. Mas o capítulo faz outra coisa: depois de contar as ilusões gastas, Emma pergunta quem a faz tão infeliz e olha em volta, e o que vê é um dia claro, o fogo aceso, a filha que ela ouve rir.
O contraste sugere uma resposta que Emma não dá. Nada ao redor explica a infelicidade dela, o que significa que a causa não está fora. Pode-se ler a passagem como um raro momento de lucidez, em que Emma conta com honestidade o que lhe aconteceu, e como o ponto em que o romance mostra o seu limite: ela sabe que gastou tudo e, mesmo assim, voltará a procurar. O gasto continuará, porque o modo de gastar é o mesmo.
3.5C. Emma sente uma ternura mole, como uma penugem de pássaro na tempestade, e vai à igreja sem consciência disso, disposta a qualquer devoção, desde que a absorvesse e fizesse desaparecer a existência inteira. Ela não procura uma doutrina, procura um sumiço. Fica a pergunta para pensar: o que esperar de uma igreja de quem se pede apenas que faça desaparecer a vida?
3.6D. O texto diz que os maus dias de Tostes recomeçaram e que Emma se estimava muito mais infeliz: tinha agora a experiência da tristeza e a certeza de que ela não terminaria. Em seguida o narrador conta as fantasias a que ela se entrega, o genuflexório gótico, os limões, a vontade de aprender italiano, e as mostra todas como tentativas de distrair-se da dor. Fica a pergunta para pensar: o que muda em quem passa a saber que a tristeza é para sempre?
3.7B. Rodolphe responde que há duas morais: a pequena, a convencional, a dos homens, que varia sem cessar e grita embaixo, rente ao chão, como aquele ajuntamento de imbecis que se vê da janela; e a outra, a eterna, que está em torno e acima, como a paisagem que nos cerca e o céu azul que nos ilumina. Fica a pergunta para pensar: o que faz quem invoca uma moral acima das convenções no exato momento em que pretende seduzir uma mulher casada?
3.8C. No dia seguinte aos comícios, Rodolphe pensa que voltar logo seria uma falta; depois, que passou da hora; e conclui que, se Emma o amou desde o primeiro dia, a impaciência de revê-lo a fará amá-lo mais. Entra na sala e vê Emma empalidecer: o cálculo estava certo. Ao chegar, diz a ela que teve negócios, que esteve doente, e logo confessa que não quis voltar. Fica a pergunta para pensar: o que é um amor que se mede pela espera que ele mesmo organizou?
3.9B. É o capitão Binet, o coletor de impostos, à espreita de patos selvagens. Ele mesmo estava em infração, porque um decreto proibia caçar pato a não ser de barco, e por isso se assusta tanto quanto Emma. O encontro deixa nela um medo novo: o de ser vista.
3.10 a 3.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Semana 4
4.1O que aconteceu.
Parte II, capítulo 11Homais, leitor de um novo método para curar pés tortos, convence
Emma Bovary e
Charles Bovary de que operar o moço de cavalariça
Hippolyte dará fama ao médico, e vence a resistência do rapaz com a vaidade e a promessa de que o aparelho sairá de graça. Charles corta o tendão de Aquiles e Homais escreve, na mesma noite, um artigo triunfal para o Fanal de Rouen. Cinco dias depois a perna de Hippolyte está inchada e, com o aparelho apertado, acaba gangrenada; o doutor Canivet, chamado de Neufchâtel, a amputa enquanto Charles espera em casa, humilhado, e Emma o olha com desprezo. Charles pede um beijo, ela o rejeita aos gritos e o barômetro cai da parede; à noite,
Rodolphe Boulanger a reencontra no jardim.
Parte II, capítulo 12Emma Bovary e
Rodolphe Boulanger voltam a se amar, e ela passa a mandar chamá-lo em plena luz do dia, a queixar-se do marido e a pedir que fujam juntos; ele ri e muda de assunto. Enquanto cobre o amante de presentes comprados a crédito do mercador Lheureux, que também encomenda a perna de pau de
Hippolyte, Emma se vê apertada por uma fatura e a paga, por ora, com o dinheiro que o senhor Derozerays manda ao marido. Depois de uma briga com a sogra por causa da criada Félicité, ela implora a Rodolphe que a leve embora, e ele, comovido, aceita; a fuga é marcada, depois de muitos adiamentos, para segunda-feira, 4 de setembro, e Emma encomenda a Lheureux capote, baú e saco de dormir. No sábado da antevéspera, Rodolphe ouve Emma jurar que será feliz com ele e, voltando a pé pela pradaria, decide que não vai partir.
Parte II, capítulo 13Em casa,
Rodolphe Boulanger relê cartas antigas de mulheres, hesita e escreve a carta de ruptura, que manda no dia seguinte escondida sob folhas de parreira numa cesta de damascos.
Emma Bovary encontra a carta na sala, corre ao sótão e, depois de uma crise à janela, desce para o jantar, onde
Charles Bovary lhe fala dos damascos e diz que Rodolphe viajou. Ao ver passar na praça o tílburi azul de Rodolphe, ela cai desacordada; segue-se uma febre cerebral, e durante quarenta e três dias Charles não a deixa um instante, abandona os doentes e chama o doutor Larivière, e, na convalescência, ele começa a se preocupar com a falta de dinheiro.
Parte II, capítulo 14Charles Bovary, que vê as contas se acumularem durante a doença de
Emma Bovary, acaba aceitando de
Lheureux o capote, o saco de dormir e os dois baús que ela encomendara, e assina uma letra e uma promissória que, somadas, chegam a mil duzentos e cinquenta francos. Convalescente, Emma pede a comunhão ao julgar-se agonizante, vê o céu aberto e decide ser santa: pratica a caridade, compra rosários e lê os livros devotos que o abade Bournisien encomenda ao livreiro do bispo, mas não encontra satisfação. Na primavera, recobra a vontade, manda revolver o jardim, dispensa as visitas e vai menos à igreja. Numa tarde no caramanchão,
Homais discute o teatro com o padre e aconselha Charles a levar Emma a Rouen para ouvir o tenor Lagardy, e Charles, à força de insistir, a convence a partir.
Parte II, capítulo 15Em Rouen, na ópera Lucie de Lammermoor,
Emma Bovary se reconhece na heroína e, diante do tenor Lagardy, imagina para si uma vida de amor com o cantor, enquanto
Charles Bovary, que não acompanha a trama, pede explicações que ela rejeita. No intervalo, ele volta do bufete com a notícia de que encontrou
Léon, agora escriturário em Rouen, e o traz ao camarote. Emma não ouve mais nada da ópera e, com Léon e Charles, sai antes do fim para tomar sorvete no porto, onde Léon desdenha de Lagardy, Charles lamenta ter perdido o último ato e propõe que ela fique mais um dia em Rouen. Combinam rever-se às seis horas do dia seguinte.
4.2Temas da semana: Sonho e fantasia, Dinheiro e riqueza, Casamento, Linguagem e narração, Religião, Amor.
4.3o narrador, Parte II, capítulo 11.
Homais convence Charles e Emma de que operar o pé torto de Hippolyte dará fama ao médico, e o rapaz cede pela vaidade e pela promessa de que o aparelho sairá de graça. Charles corta o tendão de Aquiles, Homais escreve o artigo triunfal para o jornal de Rouen e, cinco dias depois, a perna está gangrenada e precisa ser amputada. Charles espera em casa, em pânico, e Emma o olha. A frase do narrador diz o que ela sente: não a humilhação dele, mas uma outra, a de ter imaginado que tal homem pudesse ter algum valor.
O que a frase tem de duro é que a vergonha de Emma é sobre si. Ela não se humilha pelo marido, humilha-se por ter esperado alguma coisa dele. E acrescenta o narrador: como se já não tivesse verificado dezenas de vezes a mediocridade dele. A responsabilidade pela esperança que existiu é dela, que apostou na operação, e pode-se ler que ela esperava que o marido, por uma vez, se mostrasse à altura.
A cena marca um ponto de virada. A mediocridade de Charles, que era constatação privada de Emma, ameaça tornar-se assunto da região: o próprio Charles imagina o caso espalhando-se até Forges, Neufchâtel e Rouen. O artigo triunfal de Homais, escrito antes da gangrena, ganha agora um tom de ironia. Pode-se ler o momento como aquele em que o desprezo de Emma por Charles deixa de ser sentimento e vira certeza; à noite ela reencontra Rodolphe no jardim.
4.4o narrador, Parte II, capítulo 15.
Em Rouen, na ópera Lucie de Lammermoor, Emma se reconhece na heroína e deixa o pensamento correr. A frase registra o que ela imagina: se, na frescura da sua beleza, antes da conspurcação do casamento e da desilusão do adultério, ela tivesse entregue a vida a algum coração grande e sólido, com a virtude, a ternura, as volúpias e o dever confundindo-se numa coisa só, nunca teria descido de tão alta felicidade. O narrador deixa o pensamento correr sem interromper.
A ironia é dupla. Ela lamenta não ter resistido ao casamento, mas o casamento e o adultério parecem nascer do mesmo apetite por um "coração grande e sólido" que talvez não exista. Pouco depois, o texto mostra a outra Emma, a que desconfia: aquela felicidade, pensa, era uma mentira inventada para causar o desespero de todo desejo. Os dois pensamentos ficam lado a lado, e o narrador não escolhe entre eles.
A ópera funciona como espelho. Em vez de catarse, oferece material novo para a fantasia: Emma se reconhece nos personagens, projeta neles a história que gostaria de ter vivido e, diante do tenor Lagardy, imagina uma vida de amor com um homem que nem sabe que ela existe. No intervalo, Charles volta do bufete com a notícia de que encontrou o senhor Léon, e o traz ao camarote. Pode-se ler a cena como um sinal de que a arte, para Emma, alimenta a ilusão em vez de desfazê-la, e o reencontro com Léon como algo que chega quando esse apetite está de novo aceso.
4.5A. É o farmacêutico Homais, 'partidário do progresso', que leu o elogio do novo método. Conta nos dedos: sucesso quase certo, alívio e embelezamento do doente, celebridade logo adquirida pelo operador, e ainda uma notinha para o jornal, que faria bola de neve. O paciente que ele sugere é Hippolyte, o criado de cavalariça do Leão de Ouro.
4.6B. O narrador corrige Rodolphe: a plenitude da alma pode transbordar pelas metáforas mais vazias, porque ninguém consegue dar a medida exata de suas necessidades, concepções ou dores, e a palavra humana é como um caldeirão rachado em que batemos melodias para fazer dançar os ursos, quando queríamos comover as estrelas. Fica a pergunta para pensar: quem repete palavras gastas sente menos ou apenas tem menos palavras?
4.7C. O narrador diz que os prazeres, como colegiais no pátio de um colégio, pisotearam tanto o coração de Rodolphe que nada de verde nasce nele; e que o que passava por ali, mais estouvado que as crianças, nem deixava o nome gravado no muro. Antes, as mulheres da caixa 'se apequenavam, como sob um mesmo nível de amor que as igualava'. Fica a pergunta para pensar: onde Emma entra nessa caixa, como mais uma ou como a única?
4.8B. Lheureux empresta a seis por cento, com um quarto de comissão, e as mercadorias lhe rendem pelo menos um terço; mas o que ele quer mesmo é que não consigam pagar e renovem os bilhetes, para que seu pobre dinheiro, alimentado em casa do médico como num sanatório, volte um dia muito mais gordo. Importa porque aqui nasce a dívida de Charles, mil duzentos e cinquenta francos entre as duas letras, que é o primeiro fio de um aperto que o livro vai fechando.
4.9B. Emma se revê no caminho entre os trigais, a caminho da igreja, e se pergunta por que não resistira e suplicara; ao contrário, estava alegre, sem perceber o abismo em que se precipitava. Imagina que, se tivesse posto a vida num coração grande e sólido, a virtude, a ternura, as volúpias e o dever se confundiriam. Fica a pergunta para pensar: de que felicidade alta ela fala, e quem poderia tê-la dado?
4.10 a 4.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Semana 5
5.1O que aconteceu.
Parte III, capítulo 1Em Rouen,
Léon, de volta de Paris e já sem a timidez de antes, vai à estalagem da Cruz Vermelha, onde
Emma Bovary ficou hospedada, e as confidências de melancolia dos dois acabam na declaração dele, que ela afasta sem encerrar: aceita encontrá-lo no dia seguinte, às onze horas, na catedral, depois de escrever uma carta para desfazer o encontro e não a entregar. Na catedral, Emma se ajoelha na capela da Virgem e o suíço, o guia do templo, arrasta os dois por túmulos e relíquias até Léon fugir e mandar buscar um fiacre. Com Emma dentro, o carro de estores descidos percorre Rouen sem destino até as seis da tarde, e dele desce uma mulher de véu.
Parte III, capítulo 2Ao voltar a
Yonville,
Emma Bovary é chamada à farmácia, onde
Homais, aos gritos, repreende Justin por ter pegado a chave do cafarnaum, o gabinete onde guarda o frasco azul de arsênico, e confisca do rapaz um livro, O Amor Conjugal, antes de lhe dar a notícia: o pai de
Charles Bovary morreu de apoplexia. Em casa, Charles chora enquanto Emma, indiferente, vê no marido um homem fraco e nulo e se lembra de Léon. Com a chegada da viúva Bovary,
Lheureux reaparece oferecendo os serviços e insinuando que Charles passe a Emma uma procuração, e Emma leva ao marido o modelo de uma autorização geral para gerir os bens do casal. Para tratar do assunto, convence Charles a deixá-la ir a Rouen consultar
Léon, onde passa três dias.
Parte III, capítulo 3Em Rouen,
Emma Bovary e
Léon passam três dias no Hotel de Boulogne, de persianas fechadas, e à tarde vão de barco jantar numa ilha. Na volta, ao luar, Léon acha no fundo do barco uma fita de seda, e o barqueiro conta que a viu num grupo de folgazões, entre eles um homem alto de bigode a quem chamavam Adolphe ou Dodolphe; Emma estremece. Na despedida, ela manda Léon escrever para a casa da ama, a tia Rolet, num duplo sobrescrito e pergunta se a procuração está mesmo em ordem, e Léon, sozinho nas ruas, estranha tanto empenho.
Parte III, capítulo 4Léon foge do cartório num sábado e vai a
Yonville, onde encontra
Emma Bovary à noite, no beco atrás do jardim, debaixo de uma trovoada; ela promete arranjar um modo de se verem toda semana. Contando com dinheiro, Emma compra a crédito de
Lheureux cortinas amarelas para o quarto e sonha com um tapete, e a ama, tia Rolet, passa a almoçar todos os dias na casa dela. Para conseguir a licença semanal, Emma finge uma súbita paixão pelo piano, deixa de tocar quando
Charles Bovary acha aulas mais baratas e, quando
Homais e as visitas lamentam o talento abandonado, é Charles quem volta a propor as aulas, e ela obtém a permissão de ir a Rouen uma vez por semana.
Parte III, capítulo 5Toda quinta-feira
Emma Bovary toma a diligência para Rouen e passa a tarde com
Léon no hotel, voltando à noite a
Charles Bovary, que nada percebe; quando ele diz que a professora de piano não a conhece, Emma sustenta a mentira com um recibo que aparece dentro da bota dele.
Lheureux, que a viu à saída do hotel com Léon, cobra então cerca de dois mil francos em cortinas, tapete e vestidos, indica a venda do pardieiro de Barneville e a faz assinar quatro letras de mil francos, que o banqueiro Vinçart desconta, entregando-lhe só mil e oitocentos francos em dinheiro. Quando uma das letras chega a casa, Charles escreve à mãe, a viúva Bovary vem, arranca-lhe a promessa de anular a procuração e a queima; Emma tem um ataque de nervos, Charles toma o partido dela e, com muitos rogos, a leva ao tabelião para fazer outra. No hotel, Léon, que já copia sonetos para agradá-la, passa a ser a parte dependente do casal.
Parte III, capítulo 6Homais aparece em Rouen a convite de
Léon, que lhe devia retribuir os jantares, e o prende por horas em cafés e passeios enquanto
Emma Bovary o espera, furiosa, no hotel; a relação esfria, e Léon, pressionado por uma carta anônima enviada à mãe e pela advertência do patrão, passa a ver Emma como um risco para a carreira. Em casa, Emma vive de fornecimentos a crédito e de letras novas (
Lheureux passa a de setecentos francos a Vinçart, que a protesta, e a troca por quatro de duzentos e cinquenta), enquanto o tédio com Léon e o fantasma de um amante ideal ocupam as cartas dela. Depois de uma noite de máscaras, no dia da mi-carême, ela volta a
Yonville e encontra uma intimação para pagar oito mil francos em vinte e quatro horas. Procurado por ela, Lheureux nega qualquer prazo e fecha a porta.
5.2Temas da semana: Desejo, Sonho e fantasia, Dinheiro e riqueza, Casamento, Linguagem e narração, Religião, Amor.
5.3o narrador, Parte III, capítulo 1.
Na catedral de Rouen, depois de o suíço arrastar os dois por túmulos e relíquias, Léon foge, manda buscar um fiacre e empurra Emma para dentro, sem dar destino ao cocheiro. O carro percorre a cidade até as seis da tarde, e o narrador não mostra o que se passa dentro dele. Mostra só a carruagem vista de fora, com os estores descidos, mais fechada que um túmulo e sacudida como um navio. De dentro sai um único sinal: uma mão sem luva lança pela cortina papéis rasgados que se dispersam ao vento.
A cena é uma das mais comentadas do romance justamente por aquilo que não mostra. Flaubert deixa a cena principal fora de campo e põe o foco no efeito sobre quem olha de fora: a cidade inteira vê o carro passar e pode imaginar o resto. As duas comparações do narrador pesam. Pode-se ler no túmulo o que o livro vem ligando ao casamento e ao desejo desde o buquê de Tostes, e no navio a ideia de um corpo sem rumo, jogado de rua em rua. Os dois termos juntos fazem do amor uma coisa fechada, em movimento e sem endereço fixo.
O fiacre resume o capítulo e o mecanismo de Emma. Seu amor sempre precisa de um espaço fechado, em trânsito, onde nenhum hábito se instale. Mais adiante na Parte III, o espaço fixo (hotel, horário, diligência) será a rotina que mata o desejo. Pode-se ler a imagem como o ponto mais alto da curva da fantasia: um carro que corre sem destino e que, por isso mesmo, parece livre, antes que a logística e as dívidas o alcancem.
5.4Lheureux, Parte III, capítulo 6.
Depois de uma noite de máscaras, Emma volta a Yonville e encontra uma intimação para pagar oito mil francos em vinte e quatro horas. Corre à casa de Lheureux, que, ao contrário do mercador paciente e solícito de antes, nega qualquer prazo, responde às súplicas dela com essa frase e fecha a porta. O capítulo termina com a porta batida na cara de Emma.
A frase é seca, quase indiferente, e esse tom é o que a torna cruel. Lheureux sempre se apresentou como credor paciente, e a escalada vinha crescendo em silêncio, em quatro degraus: a procuração do capítulo 2, as cortinas e o tapete a crédito do capítulo 4, o terreno de Barneville e as letras de câmbio do capítulo 5, e agora a intimação. Antes de fechar a porta, ele ainda diz a Emma que, com as amizades que ela tem, não lhe faltará quem pague, e a fixa de um modo que o narrador chama de perspicaz e terrível.
A porta que se fecha contrasta com a generosidade com que Lheureux abriu o negócio na Parte II, quando disse a Emma, ao lhe oferecer crédito pela primeira vez, que não havia pressa. O que começou como oferta paciente termina como cobrança fria, sem metáfora nenhuma: dinheiro contra patrimônio. Pode-se ler a passagem como o instante em que a economia do romantismo cobra a sua conta, pois Emma tinha comprado crédito para pagar sensações, e o credor, ao contrário do amante, não finge sentimento.
5.5A. Quando Léon conta que escreveu o testamento pedindo para ser enterrado na colcha de Emma, o texto diz que é assim que os dois teriam querido ter sido, cada um fazendo para si um ideal ao qual ajustam agora a vida passada; e acrescenta que a palavra é um laminador que alonga sempre os sentimentos. Fica a pergunta para pensar: o que se lembra, o que aconteceu ou o que se gostaria que tivesse acontecido?
5.6B. Nada a obrigava a partir, mas Emma dera a palavra de voltar naquela noite, e Charles a esperava: sente no coração essa covarde docilidade, que o narrador chama de castigo e resgate do adultério. Fica a pergunta para pensar: por que o adultério traz consigo essa obediência?
5.7B. O texto diz que não era a primeira vez que viam árvores, céu azul, relva, que ouviam a água correr e a brisa nas folhas, mas que nunca tinham admirado tudo aquilo assim, como se a natureza não existisse antes ou só tivesse começado a ser bela depois que seus desejos foram saciados. Fica a pergunta para pensar: a beleza está no mundo ou no desejo de quem olha?
5.8B. O texto diz que a vertigem vinha dessas existências amontoadas, como se as cento e vinte mil almas lhe enviassem de uma só vez o vapor das paixões que ela lhes supunha. O amor dela se agranda diante do espaço e ela o derrama sobre as praças e as ruas: a velha cidade normanda lhe aparece como uma capital desmedida, uma Babilônia em que ela entra. Fica a pergunta para pensar: o que Emma ama em Rouen, a cidade, ou as paixões que supõe nela?
5.9C. Homais prende Léon por horas, no café, no almoço, em visitas, e quando o rapaz enfim corre ao hotel, Emma, que o esperava, já partiu exasperada. A falta ao encontro lhe parece um ultraje, e ela passa a enumerar os defeitos dele: fraco, banal, mole, pusilânime. É a primeira rachadura do amor com Léon, e vem de um motivo ridículo.
5.10 a 5.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Semana 6
6.1O que aconteceu.
Parte III, capítulo 7No dia seguinte à intimação, o oficial de diligências Hareng, com duas testemunhas, faz o inventário dos bens de
Emma Bovary, e no domingo ela percorre Rouen atrás de dinheiro: os banqueiros recusam, e
Léon, no hotel, promete três mil francos que não consegue, depois de ela lhe sugerir que os tire do cartório. Na volta, Emma julga ver passar o visconde numa carruagem e, na diligência, assiste a
Homais dando conselhos e prometendo uma pomada ao cego da estrada, a quem ela atira cinco francos. Na manhã seguinte o cartaz da venda dos móveis está na praça, e Emma vai a
Guillaumin, que se aproveita da aflição dela para uma investida e a vê sair; depois implora a Binet, o tesoureiro, que recua horrorizado sob o olhar de duas vizinhas escondidas no sótão, e se refugia na casa da ama, a tia Rolet, até decidir pedir ajuda a
Rodolphe Boulanger.
Parte III, capítulo 8Emma Bovary vai a La Huchette pedir três mil francos a
Rodolphe Boulanger, que recusa com calma, dizendo não os ter; ela o acusa e sai. De volta a
Yonville, pede a Justin a chave do cafarnaum e, no gabinete de
Homais, come o arsênico do frasco azul; à noite deixa a
Charles Bovary uma carta que ele lê quando os vômitos começam. Charles chama o doutor Canivet e o professor Larivière;
Berthe Bovary é levada ao leito da mãe e recua assustada; Canivet receita um vomitório e Larivière, ao ver Emma, diz que não há o que fazer e vai almoçar na casa de Homais. Depois da extrema-unção dada pelo
Abade Bournisien, o cego passa na rua cantando, Emma ri com um riso atroz e morre.
Parte III, capítulo 9Morta
Emma Bovary,
Charles Bovary precisa ser arrastado para fora do quarto, e
Homais volta às suas ocupações, inclusive a de espalhar que Emma tomou arsênico por açúcar; é o padre quem convence Charles a decidir o enterro, e ele escreve que a quer enterrada de vestido de noiva, sapatos brancos e grinalda, em três caixões, de carvalho, mogno e chumbo. Em duas noites de velório, Homais e o
Abade Bournisien discutem religião e celibato sem se escutar e adormecem diante do corpo, que a viúva Bovary, Félicité e a estalajadeira vestem para o enterro, e Homais corta à tesourada a mecha de cabelo que Charles pede. Os operários encaixam o caixão de carvalho nos outros dois, e o tio Rouault chega e desmaia na praça quando vê o pano preto.
Parte III, capítulo 10O tio Rouault, que recebeu a carta do boticário trinta e seis horas depois da morte, chega a cavalo a
Yonville em desespero. Na igreja, entre os cantos,
Hippolyte aparece com a perna nova, e
Charles Bovary, que se esforça por mostrar coragem, atira uma moeda de cinco francos ao chantre que faz a coleta; o cortejo sai da igreja ao som do De profundis e atravessa o campo até a cova.
Abade Bournisien lança a primeira pazada de terra sobre o caixão,
Homais passa o hissope e Charles, que tenta se jogar na cova, é retirado. Em casa, o tio Rouault se despede sem querer ver a neta, e à noite o jovem Justin chora sobre a sepultura, até Lestiboudois flagrá-lo saltando o muro.
Parte III, capítulo 11Charles Bovary, endividado, vê
Lheureux e Vinçart retomarem a cobrança e a casa se esvaziar: Félicité foge com Théodore levando o guarda-roupa de
Emma Bovary, ele vende a prata e os móveis, menos o quarto dela, e acaba rompendo com a mãe. Responde com felicitações à participação do casamento de
Léon, acha a carta de ruptura de Rodolphe no sótão e depois, na escrivaninha, as cartas de Léon e o retrato de Rodolphe. Ao encontrar
Rodolphe Boulanger numa feira, diz que não lhe quer mal e que foi culpa da fatalidade, e no dia seguinte morre no caramanchão, segurando uma mecha de cabelo de Emma.
Berthe Bovary é mandada à avó e depois a uma tia pobre, que a põe numa fábrica de fiação.
Homais, por seu lado, vence o cego com uma campanha no jornal, fixa o epitáfio do túmulo de Emma, afugenta três médicos de
Yonville e acaba por receber a Legião de Honra.
6.2Temas da semana: Desejo, Dinheiro e riqueza, Casamento, Linguagem e narração, Religião, Amor.
6.3o narrador, Parte III, capítulo 7.
No dia seguinte à intimação, o oficial de diligências Hareng chega com duas testemunhas para fazer o inventário dos bens de Emma. O narrador descreve a cena com uma comparação anatômica: a vida dela, até aos recantos mais íntimos, é exposta de par em par aos olhares dos três homens, como um cadáver a que se faz a autópsia. O oficial e as duas testemunhas percorrem a casa e anotam o que há nela.
A frase transforma uma operação burocrática em violação do corpo. A penhora, que seria só uma questão de dinheiro, revela-se como exposição pública de uma intimidade, e a palavra "autópsia" sugere que Emma já está tratada como coisa morta. Pode-se ler que é o mesmo gesto que o romance faz até a última linha: expor por fora o que era por dentro. Na Parte II, a humilhação pública foi de Charles; aqui é a vida de Emma que vira inventário.
O que o texto sugere é também uma continuidade. Os objetos que Emma comprou a crédito para sustentar a fantasia, as cortinas, o tapete, os vestidos, passam agora por bens a inventariar. Pode-se ler a passagem como o outro lado da compra: o que lhe deu sensação sai da casa como mercadoria. A imagem do cadáver ganha, assim, um sentido a mais, porque o que a autópsia mostra é a soma do que ela quis ter, não o que ela foi. Poucas páginas depois, o cartaz da venda dos móveis está na praça.
6.4o narrador, Parte III, capítulo 11.
O romance termina com esta frase sobre Homais, depois da morte de Emma e de Charles, da ruína da casa e da fábrica de fiação onde Berthe, órfã, é posta a trabalhar por uma tia pobre. Desde a morte de Bovary, três médicos passaram por Yonville e não se mantiveram, de tal modo foram atacados por Homais. O farmacêutico tem clientela infernal, as autoridades o tratam com deferência, a opinião pública o protege. E, no fim, recebe a Legião de Honra.
A última frase dá a Homais o lugar que a primeira cena da Parte II já prometia, o do nome em letras douradas. Pode-se ler que ele é o único personagem dos capítulos finais que nunca arriscou nada por ninguém, e é o único recompensado publicamente. Pode-se ler também que o livro não termina com a condenação da paixão de Emma, mas com uma condenação mais ampla e mais fria: a de um mundo em que a mediocridade prudente prospera, e o amor, o ilegítimo e o legítimo, é descartado ou destruído.
O efeito é de golpe seco. Não há comentário moral, só um registro administrativo, quase um aviso de jornal. Pode-se ler que, ao dar a última linha a esse homem, Flaubert deixa a pergunta para o leitor: o que significa que a prudência, a frieza e o talento de se promover sejam aquilo que o mundo condecora? Nem Charles, fidelidade sem discernimento, nem Homais, cálculo sem afeto, servem de resposta. A frase não resolve nada, apenas registra, com secura, quem ficou de pé.
6.5A. O texto diz que a existência de Emma, até nos recantos mais íntimos, ficou estendida diante dos três homens como um cadáver que se autopsia. No sótão, Hareng abre o pupitre das cartas de Rodolphe, finge procurar napoleões entre elas, e Emma sente indignação ao ver aquela mão grossa, de dedos moles como lesmas, pousar nas páginas em que o seu coração batera. Fica a pergunta para pensar: o que resta de uma vida íntima quando cada peça dela, das panelas às cartas de amor, vira item de inventário?
6.6B. Ao entender que ela viera por isso, Rodolphe fica muito pálido de repente e responde com ar calmo que não tem o dinheiro. O narrador diz que ele não mentia. Importa porque era a última chance de salvação de Emma: com a recusa dele, ela fica sem saída, e o capítulo segue direto para a farmácia de Homais.
6.7D. Homais tem duas cartas a escrever, uma poção calmante a preparar para Charles e uma mentira a achar que esconda o envenenamento, para redigi-la em artigo para o Fanal. Quando todos os yonvilenses ouviram a sua história do arsênico tomado por açúcar, ao fazer um creme de baunilha, ele volta à casa de Charles. Importa porque é a versão que a vila passa a repetir, e ela protege a farmácia dele, de onde saiu o veneno.
6.8A. Por consideração à sensibilidade do velho, Homais escreveu a carta de modo que era impossível saber ao certo o que acontecera. O tio Rouault cai primeiro como fulminado, depois entende que Emma não morreu, mas podia estar morta, e parte a toda pressa, devorado de angústia. Pelo caminho imagina que o aviso se enganou de nome, que é uma farsa, e não ousa abrir a carta.
6.9B. Charles se recusa a deixar vender qualquer móvel que tenha sido de Emma. A mãe se exaspera, ele se indigna mais do que ela e ela abandona a casa: ele mudara por completo. Passa a adotar as preferências e as ideias de Emma, compra botas de verniz, gravatas brancas, cosmético para os bigodes, e subscreve letras como ela, de modo que, segundo o narrador, ela o corrompia para além do túmulo. Importa porque o fim de Charles repete a ruína de Emma, agora por fidelidade a ela: vende a prataria, depois os móveis do salão, e só o quarto dela fica como estava.
6.10 a 6.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Personagens
P1Emma Bovary. Filha de Rouault, de cuja fazenda Charles Bovary a tira para casar depois de enviuvar, e mãe de Berthe Bovary. É uma mulher educada por romances, que espera da vida o que só existe em romance. O capítulo 6 da Parte I volta ao convento para mostrar de onde vem esse vocabulário: a devoção consumida pelas flores, pelas letras das canções e pelo langor místico, e os romances baratos contrabandeados por uma costureira, lidos sem distinguir um registro do outro.
Como muda
No capítulo 4 da Parte I casa com Charles; no capítulo 5 da Parte I, no quarto do casal, vê o buquê de flores de laranjeira da noiva morta e imagina o que seria feito do seu se ela morresse. No capítulo 7 da Parte I tenta amar o marido por teoria, recitando versos ao luar. No capítulo 8 da Parte I, o baile em La Vaubyessard lhe mostra por uma noite o que falta, e ela guarda A cigarreira verde que Charles acha na estrada de volta.
No capítulo 9 da Parte I, em Tostes, abandona o desenho, o bordado e o piano, espera alguma coisa que mude o rumo dos dias e joga no fogo o próprio buquê de noiva, achado numa gaveta durante os preparativos da mudança. Parte grávida para Yonville.
No capítulo 2 da Parte II constrói com Léon, no jantar de chegada, um repertório comum de pores do sol, lagos da Suíça e livros lidos junto à lareira. No capítulo 3 da Parte II desmaia quando sabe que teve uma menina, porque queria um filho homem.
No capítulo 4 da Parte II, nos serões em casa de Homais, forma com Léon uma cumplicidade em que nada acontece, e é nesse ambiente que o texto registra a ideia de amor que ela traz.
No capítulo 6 da Parte II vai à igreja procurar o Abade Bournisien, que trata a angústia dela como fome ou frio. Léon parte para Paris sem se declarar; no capítulo 7 da Parte II, na ausência dele, ela se amaldiçoa por não o ter amado; apagada a saudade, consola-se comprando um genuflexório gótico, um vestido de caxemira azul e a mais bonita das estolas de Lheureux. No comício do capítulo 8 da Parte II, Rodolphe Boulanger lhe segura a mão enquanto o presidente anuncia os prêmios de gado.
No capítulo 9 da Parte II cede a Rodolphe na cavalgada no bosque e, sozinha diante do espelho, repete a frase que a põe dentro do tipo de mulher apaixonada que invejava nos romances.
No capítulo 11 da Parte II, depois da operação de Hippolyte, olha o marido em pânico, e o texto nomeia o que ela pensa dele.
No capítulo 12 da Parte II passa a comprar a crédito de Lheureux e combina com Rodolphe uma fuga para 4 de setembro. No capítulo 13 da Parte II, a carta de ruptura a leva ao sótão, à beira da água-furtada, e só a voz de Charles chamando por ela a detém; seguem uma febre cerebral e quarenta e três dias com Charles à cabeceira. No capítulo 14 da Parte II vêm a devoção da convalescença e, por sugestão de Homais, a ida à ópera; no capítulo 15 da Parte II, em Rouen, projeta no tenor Lagardy uma nova fantasia, e Léon reaparece.
No capítulo 1 da Parte III reencontra Léon em Rouen e sai com ele da catedral para O fiacre; no capítulo 2 da Parte III obtém de Charles a procuração; no capítulo 3 da Parte III passa três dias com ele no Hotel de Boulogne; nos capítulos 4 e 5 da Parte III inventa aulas de piano com Mademoiselle Lempereur para ir a Rouen toda quinta-feira, e no capítulo 5 da Parte III assina as letras de câmbio de Lheureux.
No capítulo 6 da Parte III chega a intimação de oito mil francos em vinte e quatro horas, e Lheureux lhe fecha a porta.
No capítulo 7 da Parte III a casa é penhorada, e ela pede dinheiro a Léon e depois ao tabelião Guillaumin, e recusa o assédio dele. No capítulo 8 da Parte III, pede-o por fim a Rodolphe, ouve a recusa dele, entra no laboratório de Homais e come o arsênico do frasco azul.
Bournisien a unge na extrema-unção, órgão por órgão, e o capítulo 8 da Parte III fecha com uma frase de três palavras.
P2Charles Bovary. Médico de província, marido de Emma Bovary e pai de Berthe Bovary. Entra no romance como "novo aluno", ridicularizado por um boné que o narrador descreve com a mesma atenção que depois dedica a Emma.
Como muda
No capítulo 1 da Parte I cresce entre um pai que quer um filho espartano e uma mãe que sonha um filho ilustre, e o pai, por indiferença, vence até os doze anos do menino, quando a mãe impõe os estudos.
No capítulo 1 da Parte I reprova o primeiro exame de medicina, passa no segundo por repetição e casa com a viúva mais velha e rica que a mãe escolhe; quando ela morre, no capítulo 2 da Parte I, volta à fazenda dos Rouault e casa com Emma, no capítulo 4 da Parte I. Vê no quarto, no capítulo 5 da Parte I, o buquê da noiva morta e o leva ao sótão. Em Tostes, no capítulo 7 da Parte I, o narrador mede a distância entre ele e a mulher pela conversa.
No capítulo 8 da Parte I, na volta do baile em La Vaubyessard, acha na estrada A cigarreira verde. No fim do capítulo 9 da Parte I decide a mudança para Yonville como remédio contra um mal que não entende.
No capítulo 2 da Parte II só oferece frases práticas no jantar em que Emma e Léon constroem o seu repertório; no capítulo 3 da Parte II, Homais, que já fora chamado à presença do procurador régio por exercício ilegal da medicina, o cultiva como aliado para garantir o silêncio dele. No capítulo 7 da Parte II a mãe de Charles chega, diagnostica na nora falta de trabalho manual e corta a assinatura da biblioteca de Rouen.
No capítulo 11 da Parte II Homais o convence a operar o pé torto de Hippolyte, e o narrador eleva a incisão a uma escala de cirurgiões históricos.
Cinco dias depois começa a crise, a perna gangrena e Canivet amputa. Charles pede um beijo a Emma, ela explode, e o barómetro cai da parede. No capítulo 13 da Parte II, quando ela acorda perguntando pela carta de Rodolphe, ele só ouve delírio. Na ópera em Rouen, no capítulo 15 da Parte II, encontra Léon e insiste para que a mulher fique mais um dia.
No capítulo 2 da Parte III o pai dele morre, e Charles, incapaz de lidar com papelada, cede quando Emma, aconselhada por Lheureux, lhe traz o modelo de uma procuração geral para ela gerir e administrar os interesses do casal. No capítulo 5 da Parte III, quando a mãe descobre a procuração e a queima, ele toma pela primeira vez o partido da esposa contra a mãe e assina uma segunda procuração.
No capítulo 9 da Parte III cai num luto sem forma; no capítulo 11 da Parte III afunda nas dívidas que Emma deixou e responde com felicitações à participação do casamento de Léon.
Depois acha no sótão a carta de ruptura de Rodolphe Boulanger, que lê como prova de um amor platônico; só mais tarde, na escrivaninha de Emma, encontra as cartas de Léon e o retrato de Rodolphe.
Encontra Rodolphe por acaso e não o acusa.
No dia seguinte morre sozinho no jardim, segurando uma mecha do cabelo de Emma, e a filha o encontra.
P3Rodolphe Boulanger. O primeiro amante de Emma Bovary, a quem ela visita de madrugada em La Huchette. Entra em cena trazendo a Charles um camponês que quer ser sangrado porque "sentia formigueiros pelo corpo todo", e no caminho de volta decide a sedução antes de trocar uma frase a sós com ela.
Como muda
No capítulo 8 da Parte II faz a corte a Emma durante o comício agrícola, entre o discurso do conselheiro Lieuvain e o anúncio dos prêmios, e dispensa Lheureux, que tenta entrar na conversa.
No capítulo 9 da Parte II fica seis semanas sem voltar, esperando que a ausência trabalhe a seu favor.
Na visita em que volta, ainda em casa dela, diz a frase depois da qual o texto registra que era a primeira vez que Emma ouvia alguém dizer-lhe estas coisas; a rendição vem depois, na cavalgada no bosque.
No capítulo 12 da Parte II, com o tempo, deixa de distinguir Emma das outras mulheres que teve. Adia a fuga combinada semana a semana até ela ficar marcada para 4 de setembro, e decide sozinho não ir. No capítulo 13 da Parte II escreve a carta de ruptura testando frases pelo efeito e pinga água sobre a tinta para simular uma lágrima.
Depois da carta, Emma desmaia ao ver o tílburi azul dele passando na praça.
No capítulo 8 da Parte III Emma vai a La Huchette disposta a pedir a ele o que recusou a Guillaumin. Ele a recebe com afeto encenado e recusa com calma, e o narrador comenta o pedido.
No capítulo 11 da Parte III, depois da morte de Emma, Charles acha a carta de ruptura caída no chão do sótão e, tempos depois, encontra Rodolphe por acaso e o absolve.
P4Léon. Escrevente em Yonville quando Emma Bovary chega, depois estudante em Paris, e o amante dela em Rouen na Parte III. O sobrenome é Dupuis, e em Yonville é escriturário do tabelião Guillaumin. Liga-se a Rodolphe Boulanger pelo vocabulário: o que Léon diz com sinceridade reaparece quase idêntico na boca do outro.
Como muda
No capítulo 2 da Parte II constrói com Emma, no jantar de chegada, um repertório comum: o mar, cuja contemplação, diz ela, "nos eleva a alma e comunica ideias de infinito", os lagos e cascatas da Suíça de que ele ouviu falar, e os livros em que, diz ele, "o pensamento, enlaçando-se na ficção", se demora nos pormenores. No fim do capítulo 3 da Parte II, sozinho no Pasto, no alto da encosta de Argueil, resume o próprio tédio; a frase fecha o parágrafo da nota desse capítulo que trata do nome e do batismo de Berthe.
No capítulo 4 da Parte II, nos serões em casa de Homais, forma com Emma uma cumplicidade sem acontecimento: as plantas nas janelas, o tapete de presente que o povoado lê como prova de romance. Acha-a "tão virtuosa e inacessível" que abandona toda esperança, hesita, escreve cartas que rasga e parte para Paris sem se declarar. Na despedida, no capítulo 6 da Parte II, pede para beijar Berthe Bovary.
No capítulo 15 da Parte II reaparece no intervalo da ópera em Rouen, anunciado por Charles Bovary.
No capítulo 1 da Parte III volta de Paris sem a timidez de escriturário e calcula a cena da sedução, depois de seguir de longe o casal até a estalagem na véspera e passar a noite a meditar num plano.
Leva à catedral as primeiras flores que compra na vida para uma mulher, mas Emma se refugia numa capela para rezar e um guia incansável insiste em mostrar túmulos e relíquias. Ele foge da igreja com ela, e a fuga termina em O fiacre.
Passa com ela três dias no Hotel de Boulogne, no capítulo 3 da Parte III, e as quintas-feiras em Rouen. Quando Emma lhe pede versos, copia um soneto de um álbum, mais pelo desejo de lhe agradar do que por vaidade, e o capítulo 5 inverte os papéis.
No capítulo 6 da Parte III Homais o arrasta por horas em Rouen enquanto Emma espera, e o tédio chega aos dois.
No capítulo 7 da Parte III Emma lhe pede dinheiro depois da penhora, e ele promete e falha. Depois da morte dela se casa, e, no capítulo 11 da Parte III, Charles lhe escreve a felicitação sem saber quem ele foi.
P5Homais. O farmacêutico de Yonville, vizinho dos Bovary, já chamado uma vez à presença do procurador régio, em Rouen, por exercício ilegal da medicina, que escreve artigos para o Fanal de Rouen. A farmácia dele, e não a igreja do outro lado da rua, é o que mais atrai a vista na vila, com o nome dele em letras douradas no letreiro e repetido sobre a porta do laboratório.
Como muda
No capítulo 1 da Parte II é ele quem primeiro fala de religião, acusando de hipocrisia o Abade Bournisien assim que este sai da estalagem. No capítulo 3 da Parte II cultiva Charles Bovary como aliado, para garantir silêncio caso volte a ultrapassar os limites da lei; no capítulo 4 da Parte II, recebe nos serões de casa Emma Bovary e Léon e repete todo dia o mesmo "boa noite a todos". No comício do capítulo 8 da Parte II chama de "fanatismo" o gesto de Catherine Leroux de dar a medalha ao pároco.
No capítulo 11 da Parte II convence Charles a operar o pé torto de Hippolyte pelo artigo no jornal, e convence o próprio Hippolyte pela vaidade.
Na noite da operação lê em voz alta o artigo que vai mandar ao jornal.
A perna gangrena e é amputada, e ele sai do episódio sem dano. Na convalescença de Emma, no capítulo 14 da Parte II, é ele quem sugere a ida ao teatro em Rouen, onde ela reencontra Léon.
No capítulo 2 da Parte III, ao dar a notícia da morte do pai de Charles, grita antes sobre arsênico e sobre um livro proibido que Justin escondia. No capítulo 6 da Parte III aceita o convite que Léon, por delicadeza, lhe faz em troca dos jantares em casa dele, vai a Rouen e o arrasta por horas enquanto Emma espera.
No capítulo 8 da Parte III Emma come o arsênico do frasco azul no laboratório dele. No capítulo 9 da Parte III, logo depois da morte dela, volta para casa para escrever cartas e um artigo para o Fanal; mais tarde, diante do cadáver, diz não ter medo, porque "fazíamos ponche no anfiteatro das dissecações". No velório discute com Bournisien.
No enterro, no capítulo 10 da Parte III, lamenta não ter preparado "algumas palavras". No capítulo 11 da Parte III tenta compor o epitáfio a partir de "Sta viator", não completa a frase clássica e fica com "Amabilem conjugem calcas". Faz da cegueira do mendigo campanha pessoal de vingança. A última linha do livro é sobre ele.
P6Lheureux. O comerciante de tecidos que vende a crédito a Emma Bovary e cobra a dívida que a leva à penhora. É o personagem que decide o desfecho, e nunca discute moral. Ele é apresentado como prestativo e paciente.
Como muda
No capítulo 5 da Parte II aparece pela primeira vez como personagem próprio, não só como companheiro de viagem: entra com a caixa verde, exibe echarpes e colares e, quando Emma recusa comprar, não insiste.
No comício do capítulo 8 da Parte II acompanha Rodolphe Boulanger e Emma no passeio, tenta entrar na conversa e é despachado por Rodolphe.
No capítulo 12 da Parte II encarrega-se da encomenda da perna de pau que Emma oferece a Hippolyte, paga por Charles, e traz de Rouen o pingalim que ela quer dar a Rodolphe; no dia seguinte apresenta a fatura, e Emma acaba pagando com o dinheiro que Derozerays mandara a Charles.
No capítulo 2 da Parte III aparece em casa durante o luto pelo pai de Charles Bovary e sugere a Emma que o marido lhe passe uma procuração. Nos capítulos 4 e 5 da Parte III vende a ela cortinas e tapete, intermedeia a venda de um terreno em Barneville e a faz assinar letras de câmbio, trocando parte da dívida por dinheiro vivo que paga as quintas-feiras em Rouen. No capítulo 6 da Parte III chega a intimação de oito mil francos em vinte e quatro horas, e ele fecha a porta às súplicas de Emma.
No capítulo 7 da Parte III o oficial de diligências Hareng chega para inventariar a casa, e o cálculo de Lheureux pode ser lido como o primeiro dos cálculos alheios que arruínam Charles depois da morte de Emma.
Temas
T1Desejo: o desejo copiado, no fio que atravessa a obra, e o baile como veneno em
Parte I - O Baile Como Veneno.
Aparece em: Parte I, capítulo 2; Parte I, capítulo 3; Parte I, capítulo 8; Parte I, capítulo 9; Parte II, capítulo 3; Parte II, capítulo 5; Parte II, capítulo 7; Parte II, capítulo 8; Parte II, capítulo 9; Parte III, capítulo 1; Parte III, capítulo 8.
T2Sonho e fantasia: a vida alheia habitada por procuração em
Parte I - O Baile Como Veneno, a ópera em
Parte II, caps. 9-15 - A mediocridade exposta e o amante imaginado em
Parte III, caps. 1-6 - O Romantismo Vira Contabilidade.
Aparece em: Parte I, capítulo 3; Parte I, capítulo 6; Parte I, capítulo 7; Parte I, capítulo 8; Parte I, capítulo 9; Parte II, capítulo 2; Parte II, capítulo 4; Parte II, capítulo 7; Parte II, capítulo 9; Parte II, capítulo 10; Parte II, capítulo 12; Parte II, capítulo 15; Parte III, capítulo 3; Parte III, capítulo 5; Parte III, capítulo 6.
T3Dinheiro e riqueza: a conta que chega em dinheiro, no fio que atravessa a obra, e a dívida como narrador silencioso em
Parte III, caps. 1-6 - O Romantismo Vira Contabilidade e
Parte III, caps. 7-11 - O Triunfo de Homais.
Aparece em: Parte I, capítulo 2; Parte I, capítulo 8; Parte II, capítulo 5; Parte II, capítulo 12; Parte II, capítulo 14; Parte III, capítulo 2; Parte III, capítulo 4; Parte III, capítulo 5; Parte III, capítulo 6; Parte III, capítulo 7; Parte III, capítulo 8; Parte III, capítulo 11.
T4Casamento: o casamento com Charles em
Parte I - O Baile Como Veneno e o adultério como casamento clandestino em
Parte III, caps. 1-6 - O Romantismo Vira Contabilidade.
Aparece em: Parte I, capítulo 1; Parte I, capítulo 2; Parte I, capítulo 3; Parte I, capítulo 4; Parte I, capítulo 5; Parte I, capítulo 7; Parte I, capítulo 9; Parte II, capítulo 5; Parte II, capítulo 11; Parte II, capítulo 15; Parte III, capítulo 2; Parte III, capítulo 4; Parte III, capítulo 5; Parte III, capítulo 6; Parte III, capítulo 9; Parte III, capítulo 11.
T5Linguagem e narração: o vocabulário emprestado do amor e o comício em
Parte II, caps. 1-8 - O comício e a sedução, e o estilo indireto livre em
Parte I - O Baile Como Veneno.
Aparece em: Parte I, capítulo 1; Parte I, capítulo 5; Parte I, capítulo 7; Parte II, capítulo 1; Parte II, capítulo 2; Parte II, capítulo 8; Parte II, capítulo 11; Parte II, capítulo 12; Parte II, capítulo 13; Parte III, capítulo 1; Parte III, capítulo 11.
T6Religião: a fé como sensação em
Parte I - O Baile Como Veneno, a igreja que não escuta em
Parte II, caps. 1-8 - O comício e a sedução e o duelo de citações no velório no
capítulo 9 da Parte III.
Aparece em: Parte I, capítulo 6; Parte II, capítulo 1; Parte II, capítulo 3; Parte II, capítulo 6; Parte II, capítulo 14; Parte III, capítulo 1; Parte III, capítulo 8; Parte III, capítulo 9; Parte III, capítulo 10.
T7Amor: o amor fora de ordem, e o amor aprendido nos livros em
Parte I - O Baile Como Veneno.
Aparece em: Parte I, capítulo 5; Parte I, capítulo 6; Parte I, capítulo 7; Parte II, capítulo 2; Parte II, capítulo 4; Parte II, capítulo 5; Parte II, capítulo 6; Parte II, capítulo 8; Parte II, capítulo 9; Parte II, capítulo 10; Parte II, capítulo 12; Parte II, capítulo 13; Parte II, capítulo 14; Parte II, capítulo 15; Parte III, capítulo 1; Parte III, capítulo 3; Parte III, capítulo 5; Parte III, capítulo 6; Parte III, capítulo 8; Parte III, capítulo 10; Parte III, capítulo 11.
Fechamento: perguntas abertas, sem gabarito.