Clavis Libri · Caderno de estudos · Folha do aluno
Gustave Flaubert
Um caderno para ler o livro em 6 semanas: o que aconteceu, os temas, as citações, as questões e as perguntas para pensar.
Leia os capítulos da semana e depois responda à seção dela. Cada exercício tem um número; o gabarito fica com o professor.
As perguntas "para discutir" não têm resposta certa: servem para pensar e conversar. As questões de múltipla escolha e a identificação das citações têm.
Semana 1 · Parte I, capítulo 1 a Parte I, capítulo 8
Ao ler, observe: Repare nos objetos que o narrador descreve com tanto cuidado, do boné ao buquê, e no que dizem de cada dono.
... cuja feiura muda tem profundezas de expressão, como o rosto de um imbecil
…tinha aberto um buraco em sua vida, como uma daquelas grandes fendas que uma tempestade às vezes abre numa única noite nas montanhas
O narrador examina o boné de Charles peça por peça e diz que a sua "feiura muda" tem "profundezas de expressão", como o rosto de um imbecil. Por que o romance abre com um objeto que parece dizer mais do que o rapaz que o carrega?
Depois do baile, Emma sente que a viagem abriu "um buraco" em sua vida, como as grandes fendas que uma tempestade abre numa só noite nas montanhas. O que precisava faltar a essa vida para que uma única noite bastasse para rasgá-la?
Semana 2 · Parte I, capítulo 9 a Parte II, capítulo 5
Ao ler, observe: Repare em como a rotina de Yonville é descrita e em quem parece nunca se incomodar com ela.
…como marinheiros em perigo [...] ela lançava olhos desesperados sobre a solidão de sua vida, buscando ao longe alguma vela branca nas brumas do horizonte
A mediocridade doméstica incitava-a a fantasias luxuosas; a ternura matrimonial, a desejos adúlteros.
Emma cheira o forro da cigarreira, imagina de quem seria e inventa uma amante que a teria bordado, em cujos pontos "cada picada de agulha" teria fixado uma esperança ou uma lembrança. O que ela faz ao ler uma vida inteira num objeto, e em que isso se parece com o modo como lê os romances?
O narrador diz que a mediocridade doméstica incitava Emma a fantasias luxuosas e a ternura matrimonial, a desejos adúlteros. Por que a ternura de Charles produz nela o contrário do que se esperaria, e o que isso diz sobre o que ela quer de um marido?
Semana 3 · Parte II, capítulo 6 a Parte II, capítulo 10
Ao ler, observe: Repare nas palavras bonitas que se dizem em público e no que elas escondem.
Sim…, o senhor alivia todas as misérias.
Que abundância de ilusões! Agora já não lhe restava nenhuma! Gastara-as todas com as aventuras da sua alma, em todas as condições sucessivas, na virgindade, no casamento e no amor, perdendo-as assim continuamente ao longo da vida, como um viajante que deixa parte da sua riqueza em cada estalagem do caminho.
Emma vai à igreja em busca de algo que não sabe nomear, e o padre, ocupado com os meninos do catecismo, se diz "médico das almas" e atribui o mal-estar dela à digestão. O que ela pede sem conseguir dizer, e o que impede o padre de ouvi-la: distração, incompetência ou o próprio ofício?
Depois de contar as ilusões que gastou "na virgindade, no casamento e no amor", Emma pergunta quem a faz tão infeliz e olha em volta: um dia claro, o fogo aceso, a filha rindo sobre o feno. O que a cena sugere sobre a causa da infelicidade dela?
Semana 4 · Parte II, capítulo 11 a Parte II, capítulo 15
Ao ler, observe: Repare em quem Emma procura quando está aflita e no que cada um consegue enxergar dela.
Emma, na frente dele, fitava-o, não participava da sua humilhação, mas sentia outra: a de ter imaginado que semelhante homem pudesse ter algum valor, como se não tivesse já verificado dezenas de vezes a sua mediocridade.
Ah!, se, na frescura da sua beleza, antes da conspurcação do casamento e da desilusão do adultério, pudesse ter entregue a sua vida a algum coração grande e sólido, então, com a virtude, a ternura, as volúpias e o dever confundindo-se numa coisa só, nunca teria descido de tão alta felicidade.
Homais convence Hippolyte pela vaidade ("Não és um homem, caramba?") e pela promessa de que não custará dinheiro, e o narrador compara Charles, na hora da incisão, a Ambroise Paré, Dupuytren e Gensoul. O que a comparação grandiosa faz com a operação e com quem a conduz?
Charles traz Léon ao camarote e, no fim, insiste para que Emma fique em Rouen, "desde que tenhas a mínima impressão de que te poderá fazer bem". Que efeito tem pôr nas mãos de Charles, sem que ele perceba, aquilo que Emma passa a desejar?
Semana 5 · Parte III, capítulo 1 a Parte III, capítulo 6
Ao ler, observe: Repare nas explicações que cada um dá a si mesmo antes de fazer o que quer.
…uma carruagem com os estores descidos aparecendo assim constantemente, mais fechada que um túmulo e sacudida como um navio
Não tenho mais que me ralar com isso!
Quando Emma diz que não é decente entrar no fiacre, Léon responde: "É coisa corrente em Paris!", e o narrador diz que essa palavra, "como argumento irresistível", a decidiu. Que tipo de argumento é esse, e por que um lugar basta para decidir uma questão moral?
Nas cartas a Léon, Emma vê "outro homem, um fantasma construído das suas mais ardentes recordações, das suas mais belas leituras, dos seus mais fortes desejos". Se o destinatário já é um fantasma, a quem ela escreve, e que papel resta ao Léon de carne e osso?
Semana 6 · Parte III, capítulo 7 a Parte III, capítulo 11
Ao ler, observe: Repare em quem oferece ajuda quando o dinheiro aperta, e no que pede em troca.
…e a sua vida, até aos recantos mais íntimos, foi, como um cadáver a que se faz a autópsia, exposta de par em par aos olhares daqueles três homens.
Acaba de receber a Legião de Honra.
Durante a penhora, a vida de Emma é exposta "até aos recantos mais íntimos", "como um cadáver a que se faz a autópsia", aos olhares de três homens. O que o narrador sugere ao descrever a perda dos bens como uma violação do corpo, e por que isso se passa diante do oficial de diligências e de duas testemunhas?
O romance termina com uma frase sobre Homais: "Acaba de receber a Legião de Honra." Ela vem depois da morte de Emma e de Charles e da fábrica de fiação onde Berthe é posta a trabalhar. Que juízo sobre o mundo o livro entrega ao dar a última frase a esse homem?
Depois de ler o livro inteiro
Para cada personagem, diga quem é e como muda do começo ao fim do livro.
| Personagem | Quem é | Como muda |
|---|---|---|
| P1 Emma Bovary | ||
| P2 Charles Bovary | ||
| P3 Rodolphe Boulanger | ||
| P4 Léon | ||
| P5 Homais | ||
| P6 Lheureux |
Para cada tema, anote dois ou três momentos do livro em que ele aparece e escreva, em poucas linhas, o que o livro diz sobre ele.
Perguntas sobre a obra inteira. Escolha uma e responda num texto de 20 a 30 linhas.
Palavras do livro que podem travar a leitura, explicadas. Para consultar quando aparecerem.
Tabelião. Profissional autorizado a redigir e autenticar documentos jurídicos, como contratos, testamentos e procurações, e a testemunhar assinaturas. Nos países de direito civil, o notário é um jurista que também cuida da liquidação de heranças e bens, mas não representa uma das partes nem atua em causas contestadas. Em português, tabelião e notário são nomes do mesmo ofício.
Diligência. Carruagem pública de quatro rodas, em geral puxada por quatro cavalos, que levava passageiros pagantes e pequenos pacotes em viagens longas, trocando os animais em postos ao longo do caminho. Com a ferrovia, a partir de 1830, esse transporte foi sendo abandonado: na Inglaterra, no início dos anos 1840, a maioria das diligências saídas de Londres já fora retirada de serviço.
Comício agrícola. Assembleia de proprietários e arrendatários rurais de uma região, para trocar experiências e melhorar os métodos agrícolas. Reunia concursos, como os de arado, entrega de prêmios aos que se destacavam e festejos. Na França, o regulamento que criou os comícios agrícolas foi promulgado em 31 de maio de 1833.
Guarda nacional. Força francesa separada do exército, formada de início por cidadãos ativos maiores de 18 anos, que servia ao policiamento e como reserva militar. Surgiu em 1789, na Revolução; Carlos X a dissolveu em 1827, e uma nova guarda foi criada em 1831, depois da Revolução de Julho. Foi dissolvida em 14 de março de 1872.
Tílburi. Carruagem leve e rápida, de duas rodas, com um único banco para o condutor e um passageiro. Foi projetada por Fitzroy Stanhope por volta de 1820 e fabricada pela casa londrina Tilbury. Tinha capota de couro dobrável e suspensão de sete molas, o que lhe rendeu o apelido de gig de sete molas.
Febre cerebral. Diagnóstico médico do século XIX para uma suposta inflamação do cérebro, com confusão mental, que podia levar à morte. A medicina posterior concluiu que muitos desses casos eram encefalite ou meningite, ou reações a um choque emocional. O termo desapareceu da literatura médica no início do século XX, mas aparece com frequência nos romances oitocentistas.
Letra de câmbio. Título de crédito pelo qual o sacador manda o sacado pagar certa quantia ao tomador, o credor, e que circula por endosso. Mesmo atribuindo ao sacado a obrigação de pagar, o sacador continua subsidiariamente responsável pelo pagamento. O instrumento nasceu na Itália medieval, para que mercadores trocassem moedas de regiões diferentes ao viajar.
Procuração. Documento pelo qual uma pessoa, o mandante, dá a outra, o mandatário, poderes para praticar atos jurídicos em seu nome. Pode ser particular, assinado pelo mandante, com ou sem firma reconhecida, ou público, lavrado em tabelionato, e pode ser especial ou geral quanto aos poderes. Quem a recebe age no lugar de quem a assinou.
Penhora. Ato judicial pelo qual se apreendem bens do devedor, o executado, para usá-los na satisfação de uma dívida cobrada em processo de execução. Se a dívida não é paga, os bens apreendidos são vendidos e o valor vai para o credor; o bem penhorado também pode ser transferido ao próprio credor, no que se chama adjudicação.
Mi-carême. Festa tradicional francesa, celebrada no meio da Quaresma, os quarenta dias de penitência antes da Páscoa, na quinta-feira da terceira semana inteira. Nasceu como pausa nas restrições alimentares do período e traz cortejos de máscaras e fantasias. Em Paris, foi adotada por lavadeiras, vendedores de carvão e aguadeiros; as lavadeiras elegiam uma rainha e davam bailes de máscaras.
Extrema-unção. Sacramento católico em que o padre impõe as mãos e unge a testa e as mãos do doente com óleo abençoado. Durante séculos foi dado muitas vezes só a moribundos, daí o nome tradicional de extrema-unção; hoje se diz unção dos enfermos, e o Concílio Vaticano II reforçou que não é só para os últimos momentos. Tem base na Epístola de Tiago (5,14-15).