Clavis Libri · Caderno de estudos
Gustave Flaubert
Um caderno para ler o livro em 6 semanas: o que aconteceu, os temas, as citações, as questões e as perguntas para pensar.
Leia os capítulos da semana e depois responda à seção dela. Cada exercício tem um número; no fim do caderno, o gabarito traz a resposta com o mesmo número.
As perguntas "para discutir" não têm resposta certa: servem para pensar e conversar. As questões de múltipla escolha e a identificação das citações têm.
Semana 1 · Parte I, capítulo 1 a Parte I, capítulo 8
Ao ler, observe: Repare nos objetos que o narrador descreve com tanto cuidado, do boné ao buquê, e no que dizem de cada dono.
... cuja feiura muda tem profundezas de expressão, como o rosto de um imbecil
…tinha aberto um buraco em sua vida, como uma daquelas grandes fendas que uma tempestade às vezes abre numa única noite nas montanhas
O narrador examina o boné de Charles peça por peça e diz que a sua "feiura muda" tem "profundezas de expressão", como o rosto de um imbecil. Por que o romance abre com um objeto que parece dizer mais do que o rapaz que o carrega?
Depois do baile, Emma sente que a viagem abriu "um buraco" em sua vida, como as grandes fendas que uma tempestade abre numa só noite nas montanhas. O que precisava faltar a essa vida para que uma única noite bastasse para rasgá-la?
Semana 2 · Parte I, capítulo 9 a Parte II, capítulo 5
Ao ler, observe: Repare em como a rotina de Yonville é descrita e em quem parece nunca se incomodar com ela.
…como marinheiros em perigo [...] ela lançava olhos desesperados sobre a solidão de sua vida, buscando ao longe alguma vela branca nas brumas do horizonte
A mediocridade doméstica incitava-a a fantasias luxuosas; a ternura matrimonial, a desejos adúlteros.
Emma cheira o forro da cigarreira, imagina de quem seria e inventa uma amante que a teria bordado, em cujos pontos "cada picada de agulha" teria fixado uma esperança ou uma lembrança. O que ela faz ao ler uma vida inteira num objeto, e em que isso se parece com o modo como lê os romances?
O narrador diz que a mediocridade doméstica incitava Emma a fantasias luxuosas e a ternura matrimonial, a desejos adúlteros. Por que a ternura de Charles produz nela o contrário do que se esperaria, e o que isso diz sobre o que ela quer de um marido?
Semana 3 · Parte II, capítulo 6 a Parte II, capítulo 10
Ao ler, observe: Repare nas palavras bonitas que se dizem em público e no que elas escondem.
Sim…, o senhor alivia todas as misérias.
Que abundância de ilusões! Agora já não lhe restava nenhuma! Gastara-as todas com as aventuras da sua alma, em todas as condições sucessivas, na virgindade, no casamento e no amor, perdendo-as assim continuamente ao longo da vida, como um viajante que deixa parte da sua riqueza em cada estalagem do caminho.
Emma vai à igreja em busca de algo que não sabe nomear, e o padre, ocupado com os meninos do catecismo, se diz "médico das almas" e atribui o mal-estar dela à digestão. O que ela pede sem conseguir dizer, e o que impede o padre de ouvi-la: distração, incompetência ou o próprio ofício?
Depois de contar as ilusões que gastou "na virgindade, no casamento e no amor", Emma pergunta quem a faz tão infeliz e olha em volta: um dia claro, o fogo aceso, a filha rindo sobre o feno. O que a cena sugere sobre a causa da infelicidade dela?
Semana 4 · Parte II, capítulo 11 a Parte II, capítulo 15
Ao ler, observe: Repare em quem Emma procura quando está aflita e no que cada um consegue enxergar dela.
Emma, na frente dele, fitava-o, não participava da sua humilhação, mas sentia outra: a de ter imaginado que semelhante homem pudesse ter algum valor, como se não tivesse já verificado dezenas de vezes a sua mediocridade.
Ah!, se, na frescura da sua beleza, antes da conspurcação do casamento e da desilusão do adultério, pudesse ter entregue a sua vida a algum coração grande e sólido, então, com a virtude, a ternura, as volúpias e o dever confundindo-se numa coisa só, nunca teria descido de tão alta felicidade.
Homais convence Hippolyte pela vaidade ("Não és um homem, caramba?") e pela promessa de que não custará dinheiro, e o narrador compara Charles, na hora da incisão, a Ambroise Paré, Dupuytren e Gensoul. O que a comparação grandiosa faz com a operação e com quem a conduz?
Charles traz Léon ao camarote e, no fim, insiste para que Emma fique em Rouen, "desde que tenhas a mínima impressão de que te poderá fazer bem". Que efeito tem pôr nas mãos de Charles, sem que ele perceba, aquilo que Emma passa a desejar?
Semana 5 · Parte III, capítulo 1 a Parte III, capítulo 6
Ao ler, observe: Repare nas explicações que cada um dá a si mesmo antes de fazer o que quer.
…uma carruagem com os estores descidos aparecendo assim constantemente, mais fechada que um túmulo e sacudida como um navio
Não tenho mais que me ralar com isso!
Quando Emma diz que não é decente entrar no fiacre, Léon responde: "É coisa corrente em Paris!", e o narrador diz que essa palavra, "como argumento irresistível", a decidiu. Que tipo de argumento é esse, e por que um lugar basta para decidir uma questão moral?
Nas cartas a Léon, Emma vê "outro homem, um fantasma construído das suas mais ardentes recordações, das suas mais belas leituras, dos seus mais fortes desejos". Se o destinatário já é um fantasma, a quem ela escreve, e que papel resta ao Léon de carne e osso?
Semana 6 · Parte III, capítulo 7 a Parte III, capítulo 11
Ao ler, observe: Repare em quem oferece ajuda quando o dinheiro aperta, e no que pede em troca.
…e a sua vida, até aos recantos mais íntimos, foi, como um cadáver a que se faz a autópsia, exposta de par em par aos olhares daqueles três homens.
Acaba de receber a Legião de Honra.
Durante a penhora, a vida de Emma é exposta "até aos recantos mais íntimos", "como um cadáver a que se faz a autópsia", aos olhares de três homens. O que o narrador sugere ao descrever a perda dos bens como uma violação do corpo, e por que isso se passa diante do oficial de diligências e de duas testemunhas?
O romance termina com uma frase sobre Homais: "Acaba de receber a Legião de Honra." Ela vem depois da morte de Emma e de Charles e da fábrica de fiação onde Berthe é posta a trabalhar. Que juízo sobre o mundo o livro entrega ao dar a última frase a esse homem?
Depois de ler o livro inteiro
Para cada personagem, diga quem é e como muda do começo ao fim do livro.
| Personagem | Quem é | Como muda |
|---|---|---|
| P1 Emma Bovary | ||
| P2 Charles Bovary | ||
| P3 Rodolphe Boulanger | ||
| P4 Léon | ||
| P5 Homais | ||
| P6 Lheureux |
Para cada tema, anote dois ou três momentos do livro em que ele aparece e escreva, em poucas linhas, o que o livro diz sobre ele.
Perguntas sobre a obra inteira. Escolha uma e responda num texto de 20 a 30 linhas.
Palavras do livro que podem travar a leitura, explicadas. Para consultar quando aparecerem.
Tabelião. Profissional autorizado a redigir e autenticar documentos jurídicos, como contratos, testamentos e procurações, e a testemunhar assinaturas. Nos países de direito civil, o notário é um jurista que também cuida da liquidação de heranças e bens, mas não representa uma das partes nem atua em causas contestadas. Em português, tabelião e notário são nomes do mesmo ofício.
Diligência. Carruagem pública de quatro rodas, em geral puxada por quatro cavalos, que levava passageiros pagantes e pequenos pacotes em viagens longas, trocando os animais em postos ao longo do caminho. Com a ferrovia, a partir de 1830, esse transporte foi sendo abandonado: na Inglaterra, no início dos anos 1840, a maioria das diligências saídas de Londres já fora retirada de serviço.
Comício agrícola. Assembleia de proprietários e arrendatários rurais de uma região, para trocar experiências e melhorar os métodos agrícolas. Reunia concursos, como os de arado, entrega de prêmios aos que se destacavam e festejos. Na França, o regulamento que criou os comícios agrícolas foi promulgado em 31 de maio de 1833.
Guarda nacional. Força francesa separada do exército, formada de início por cidadãos ativos maiores de 18 anos, que servia ao policiamento e como reserva militar. Surgiu em 1789, na Revolução; Carlos X a dissolveu em 1827, e uma nova guarda foi criada em 1831, depois da Revolução de Julho. Foi dissolvida em 14 de março de 1872.
Tílburi. Carruagem leve e rápida, de duas rodas, com um único banco para o condutor e um passageiro. Foi projetada por Fitzroy Stanhope por volta de 1820 e fabricada pela casa londrina Tilbury. Tinha capota de couro dobrável e suspensão de sete molas, o que lhe rendeu o apelido de gig de sete molas.
Febre cerebral. Diagnóstico médico do século XIX para uma suposta inflamação do cérebro, com confusão mental, que podia levar à morte. A medicina posterior concluiu que muitos desses casos eram encefalite ou meningite, ou reações a um choque emocional. O termo desapareceu da literatura médica no início do século XX, mas aparece com frequência nos romances oitocentistas.
Letra de câmbio. Título de crédito pelo qual o sacador manda o sacado pagar certa quantia ao tomador, o credor, e que circula por endosso. Mesmo atribuindo ao sacado a obrigação de pagar, o sacador continua subsidiariamente responsável pelo pagamento. O instrumento nasceu na Itália medieval, para que mercadores trocassem moedas de regiões diferentes ao viajar.
Procuração. Documento pelo qual uma pessoa, o mandante, dá a outra, o mandatário, poderes para praticar atos jurídicos em seu nome. Pode ser particular, assinado pelo mandante, com ou sem firma reconhecida, ou público, lavrado em tabelionato, e pode ser especial ou geral quanto aos poderes. Quem a recebe age no lugar de quem a assinou.
Penhora. Ato judicial pelo qual se apreendem bens do devedor, o executado, para usá-los na satisfação de uma dívida cobrada em processo de execução. Se a dívida não é paga, os bens apreendidos são vendidos e o valor vai para o credor; o bem penhorado também pode ser transferido ao próprio credor, no que se chama adjudicação.
Mi-carême. Festa tradicional francesa, celebrada no meio da Quaresma, os quarenta dias de penitência antes da Páscoa, na quinta-feira da terceira semana inteira. Nasceu como pausa nas restrições alimentares do período e traz cortejos de máscaras e fantasias. Em Paris, foi adotada por lavadeiras, vendedores de carvão e aguadeiros; as lavadeiras elegiam uma rainha e davam bailes de máscaras.
Extrema-unção. Sacramento católico em que o padre impõe as mãos e unge a testa e as mãos do doente com óleo abençoado. Durante séculos foi dado muitas vezes só a moribundos, daí o nome tradicional de extrema-unção; hoje se diz unção dos enfermos, e o Concílio Vaticano II reforçou que não é só para os últimos momentos. Tem base na Epístola de Tiago (5,14-15).
Gabarito
O romance abre com um aluno novo entrando na classe, visto por um colega, e o narrador gasta a atenção no que ele traz nos joelhos: um boné. A peça é descrita parte por parte, mistura de gorro de pele, chapéu redondo e barrete de algodão, e só então vem esta frase. Ela não fala do rapaz, fala do boné: no original, uma daquelas "pobres coisas" cuja feiura muda tem profundezas de expressão, como o rosto de um imbecil. Logo em seguida a turma rebatiza o aluno de "Charbovari", quando ele grita o nome na chamada.
A frase importa porque o primeiro retrato do livro é o de um objeto. O boné carrega mais sentido do que deveria: a sua feiura calada parece dizer mais do que o dono, que ainda não disse nada, e a comparação com o rosto de um imbecil cai, por associação, sobre o rapaz. É um hábito de estilo que Flaubert repete até o fim, o de apresentar as pessoas por aquilo que vestem e possuem. Charles será, nas páginas seguintes, um homem que obedece: à mãe, depois à primeira esposa, depois ao próprio desejo, sem notar a diferença entre uma coisa e outra.
Pode-se ler aqui um tom que o livro mantém com Charles: o narrador não o poupa, mas também não o faz vilão. Ele é ridículo e inofensivo ao mesmo tempo. Quando Emma, mais tarde, passar a desprezá-lo, o leitor já terá visto, desde a primeira página, como o mundo o olha: com riso, e sem curiosidade pelo que ele pensa.
Depois do baile no castelo, Emma volta a Tostes e, no dia seguinte, passeia pelo jardim para medir o que aconteceu com ela. A frase diz que a viagem a Vaubyessard abriu um buraco na vida dela, como as fendas que uma tempestade às vezes abre, numa só noite, nas montanhas. A noite foi cheia de coisas novas: o champanhe gelado, as romãs e os abacaxis que ela nunca provara, a valsa com um estranho. Mas o estrago, segundo o narrador, é de outra ordem.
A imagem da fenda é precisa. Uma fenda não se fecha sozinha, e a tempestade que a abre dura pouco. Emma não é seduzida por um homem, o Visconde só aparece quando a convida para valsar. O que a atinge é o excesso material e social do castelo: retratos de séculos de linhagem, o velho duque que viveu na corte, objetos e gestos de um mundo para o qual ela se julga talhada. Tendo visto esse mundo uma vez, ela passa a ver o próprio de outro modo.
A pergunta que a passagem deixa é o que precisava faltar naquela vida para que uma única noite bastasse a rasgá-la. A resposta parece estar no capítulo anterior, no sótão e na aranha. Há, ainda, o gesto que Charles faz sem perceber: encontra na estrada de volta uma cigarreira com um brasão, e a guarda, dando a Emma o primeiro objeto de uma vida que não é a dela. A fenda abre, e dela saem as fantasias do resto da Parte I.
1.10 a 1.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Depois do baile, o tédio de Emma deixa de ser ausência de acontecimento e vira certeza de que o único acontecimento real da vida dela já passou. Ela abandona o desenho, o bordado, o piano, habilidades de convento que só faziam sentido diante de um público que Tostes não tem, e passa os dias imaginando a vida de Paris no mapa que comprou. A frase vem no fim do capítulo: como marinheiros em perigo, ela olha a solidão da própria vida procurando ao longe uma vela branca nas brumas do horizonte.
A imagem é de espera. A frase anterior diz que Emma, no fundo da alma, esperava um acontecimento, e a compara a marinheiros em perigo, que olham o mar à procura de uma vela. Quem está nessa situação não age, olha e aguarda o barco que o salve. Emma é assim: não procura uma saída, aguarda que alguém, ou alguma coisa, venha tirá-la dali. A vela branca não tem nome nem rosto, é uma promessa em forma de ponto no horizonte, e qualquer barco que passar servirá. Por isso ela vai se agarrar, nos capítulos seguintes, a Rodolphe, a Deus, ao tenor da ópera e a Léon, cada um a seu tempo.
O contraste com a Parte III é revelador. Lá, o desejo de Emma já não será espera em suspensão, mas rotina fixa de quinta-feira, com hora de diligência e hotel marcado. A espera dos marinheiros em perigo e a repetição administrada de Rouen são dois estágios do mesmo desejo, um à deriva, outro em serviço. Pode-se ler esta passagem como o retrato de Emma antes que qualquer amante entre em cena, a mulher que já espera por alguém sem saber por quem.
Depois de ver a fiação de linho num domingo de neve, Emma percebe que ama Léon. No dia seguinte o mercador Lheureux a visita com a caixa de fazendas e lhe oferece crédito, e Emma se torna, por um tempo, esposa e mãe exemplar: tira Berthe da ama, volta à igreja, ganha a admiração de Yonville pela economia e pela caridade. O narrador explica o que há por trás dessa virtude, e a frase é a mais seca do capítulo: a mediocridade doméstica incitava Emma a fantasias luxuosas, e a ternura matrimonial, a desejos adúlteros.
A construção da frase é um espelho: de um lado a mediocridade, do outro o luxo; de um lado a ternura, do outro o adultério. O efeito é o inverso do esperado. Uma ternura de marido devia acalmar uma esposa, mas em Emma produz o oposto. No mesmo trecho, o narrador diz que a convicção de Charles de fazê-la feliz lhe parecia um insulto, e que ela preferiria que ele lhe batesse, para poder detestá-lo com mais justiça.
A passagem mostra o que Emma sente diante do marido: nele ela não encontra nem um defeito para odiar, só uma bondade que a deixa sem pretexto. A virtude que exibe nesses dias é feita para o espelho, uma pose de resignação que a agrada, e o texto dá a entender que, por trás dela, o desejo cresce e a raiva de Charles também. Pode-se ler a frase como o diagnóstico do que virá: o adultério vai nascer menos de um defeito de Charles do que da própria docilidade dele, vista por quem não a suporta.
2.10 a 2.12: perguntas abertas, sem gabarito.
No começo de abril, ao ouvir as ave-marias, Emma vai à igreja disposta a qualquer devoção e encontra o abade Bournisien ocupado com os meninos do catecismo. O padre, sem perceber o que ela procura, brinca que o doutor é médico dos corpos e ele, médico das almas. Emma fixa nele um olhar suplicante e responde com essa frase, quase uma súplica disfarçada de cortesia: o senhor alivia todas as misérias. Quer dizer: alivie a minha.
O que se segue é o contrário de uma escuta. O abade responde com a vaca inchada de Bas-Diauville, de que cuidou naquela manhã, e corre para a igreja ao ouvir os meninos brigando. Ela tenta dizer que há quem tenha pão e não tenha outra coisa, ele completa a frase com o fogo para o inverno, e quando ela replica "Que importa isso?", ele não entende. A cena termina em silêncio, frente a frente, e o padre volta ao catecismo alegando o dever acima de tudo.
Nada na cena é maldade. O abade falha por incompetência, não por má-fé: trata a angústia dela como indigestão e age como quem cumpre um ofício de rotina. É nesse ponto que o romance fecha a porta da religião institucional como resposta possível ao vazio de Emma, antes mesmo de Rodolphe aparecer com força. Pode-se ler a frase dela como um pedido formulado em voz alta, e o silêncio que vem depois como a resposta do livro: ninguém em Yonville tem ouvidos para o que ela não consegue dizer.
Na primavera chega a cesta do pai Rouault, com um peru e uma carta, e a lembrança da casa paterna leva Emma a um surto de ternura e de arrependimento. Ela vê as ilusões que gastou e faz o balanço: que abundância tinha, e agora nenhuma restava. Gastara-as todas, diz o narrador, nas aventuras da alma, na virgindade, no casamento e no amor, deixando uma parte em cada estalagem do caminho, como um viajante que vai perdendo a riqueza de etapa em etapa.
A imagem do viajante é precisa. Cada fase da vida de Emma foi uma estalagem onde ela deixou algo: a virgindade e as esperanças de convento, o casamento e a ilusão de ter achado o amor, o amor adúltero, que já começa a minguar. O que sobra é o balanço, e o balanço é negativo. Mas o capítulo faz outra coisa: depois de contar as ilusões gastas, Emma pergunta quem a faz tão infeliz e olha em volta, e o que vê é um dia claro, o fogo aceso, a filha que ela ouve rir.
O contraste sugere uma resposta que Emma não dá. Nada ao redor explica a infelicidade dela, o que significa que a causa não está fora. Pode-se ler a passagem como um raro momento de lucidez, em que Emma conta com honestidade o que lhe aconteceu, e como o ponto em que o romance mostra o seu limite: ela sabe que gastou tudo e, mesmo assim, voltará a procurar. O gasto continuará, porque o modo de gastar é o mesmo.
3.10 a 3.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Homais convence Charles e Emma de que operar o pé torto de Hippolyte dará fama ao médico, e o rapaz cede pela vaidade e pela promessa de que o aparelho sairá de graça. Charles corta o tendão de Aquiles, Homais escreve o artigo triunfal para o jornal de Rouen e, cinco dias depois, a perna está gangrenada e precisa ser amputada. Charles espera em casa, em pânico, e Emma o olha. A frase do narrador diz o que ela sente: não a humilhação dele, mas uma outra, a de ter imaginado que tal homem pudesse ter algum valor.
O que a frase tem de duro é que a vergonha de Emma é sobre si. Ela não se humilha pelo marido, humilha-se por ter esperado alguma coisa dele. E acrescenta o narrador: como se já não tivesse verificado dezenas de vezes a mediocridade dele. A responsabilidade pela esperança que existiu é dela, que apostou na operação, e pode-se ler que ela esperava que o marido, por uma vez, se mostrasse à altura.
A cena marca um ponto de virada. A mediocridade de Charles, que era constatação privada de Emma, ameaça tornar-se assunto da região: o próprio Charles imagina o caso espalhando-se até Forges, Neufchâtel e Rouen. O artigo triunfal de Homais, escrito antes da gangrena, ganha agora um tom de ironia. Pode-se ler o momento como aquele em que o desprezo de Emma por Charles deixa de ser sentimento e vira certeza; à noite ela reencontra Rodolphe no jardim.
Em Rouen, na ópera Lucie de Lammermoor, Emma se reconhece na heroína e deixa o pensamento correr. A frase registra o que ela imagina: se, na frescura da sua beleza, antes da conspurcação do casamento e da desilusão do adultério, ela tivesse entregue a vida a algum coração grande e sólido, com a virtude, a ternura, as volúpias e o dever confundindo-se numa coisa só, nunca teria descido de tão alta felicidade. O narrador deixa o pensamento correr sem interromper.
A ironia é dupla. Ela lamenta não ter resistido ao casamento, mas o casamento e o adultério parecem nascer do mesmo apetite por um "coração grande e sólido" que talvez não exista. Pouco depois, o texto mostra a outra Emma, a que desconfia: aquela felicidade, pensa, era uma mentira inventada para causar o desespero de todo desejo. Os dois pensamentos ficam lado a lado, e o narrador não escolhe entre eles.
A ópera funciona como espelho. Em vez de catarse, oferece material novo para a fantasia: Emma se reconhece nos personagens, projeta neles a história que gostaria de ter vivido e, diante do tenor Lagardy, imagina uma vida de amor com um homem que nem sabe que ela existe. No intervalo, Charles volta do bufete com a notícia de que encontrou o senhor Léon, e o traz ao camarote. Pode-se ler a cena como um sinal de que a arte, para Emma, alimenta a ilusão em vez de desfazê-la, e o reencontro com Léon como algo que chega quando esse apetite está de novo aceso.
4.10 a 4.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Na catedral de Rouen, depois de o suíço arrastar os dois por túmulos e relíquias, Léon foge, manda buscar um fiacre e empurra Emma para dentro, sem dar destino ao cocheiro. O carro percorre a cidade até as seis da tarde, e o narrador não mostra o que se passa dentro dele. Mostra só a carruagem vista de fora, com os estores descidos, mais fechada que um túmulo e sacudida como um navio. De dentro sai um único sinal: uma mão sem luva lança pela cortina papéis rasgados que se dispersam ao vento.
A cena é uma das mais comentadas do romance justamente por aquilo que não mostra. Flaubert deixa a cena principal fora de campo e põe o foco no efeito sobre quem olha de fora: a cidade inteira vê o carro passar e pode imaginar o resto. As duas comparações do narrador pesam. Pode-se ler no túmulo o que o livro vem ligando ao casamento e ao desejo desde o buquê de Tostes, e no navio a ideia de um corpo sem rumo, jogado de rua em rua. Os dois termos juntos fazem do amor uma coisa fechada, em movimento e sem endereço fixo.
O fiacre resume o capítulo e o mecanismo de Emma. Seu amor sempre precisa de um espaço fechado, em trânsito, onde nenhum hábito se instale. Mais adiante na Parte III, o espaço fixo (hotel, horário, diligência) será a rotina que mata o desejo. Pode-se ler a imagem como o ponto mais alto da curva da fantasia: um carro que corre sem destino e que, por isso mesmo, parece livre, antes que a logística e as dívidas o alcancem.
Depois de uma noite de máscaras, Emma volta a Yonville e encontra uma intimação para pagar oito mil francos em vinte e quatro horas. Corre à casa de Lheureux, que, ao contrário do mercador paciente e solícito de antes, nega qualquer prazo, responde às súplicas dela com essa frase e fecha a porta. O capítulo termina com a porta batida na cara de Emma.
A frase é seca, quase indiferente, e esse tom é o que a torna cruel. Lheureux sempre se apresentou como credor paciente, e a escalada vinha crescendo em silêncio, em quatro degraus: a procuração do capítulo 2, as cortinas e o tapete a crédito do capítulo 4, o terreno de Barneville e as letras de câmbio do capítulo 5, e agora a intimação. Antes de fechar a porta, ele ainda diz a Emma que, com as amizades que ela tem, não lhe faltará quem pague, e a fixa de um modo que o narrador chama de perspicaz e terrível.
A porta que se fecha contrasta com a generosidade com que Lheureux abriu o negócio na Parte II, quando disse a Emma, ao lhe oferecer crédito pela primeira vez, que não havia pressa. O que começou como oferta paciente termina como cobrança fria, sem metáfora nenhuma: dinheiro contra patrimônio. Pode-se ler a passagem como o instante em que a economia do romantismo cobra a sua conta, pois Emma tinha comprado crédito para pagar sensações, e o credor, ao contrário do amante, não finge sentimento.
5.10 a 5.12: perguntas abertas, sem gabarito.
No dia seguinte à intimação, o oficial de diligências Hareng chega com duas testemunhas para fazer o inventário dos bens de Emma. O narrador descreve a cena com uma comparação anatômica: a vida dela, até aos recantos mais íntimos, é exposta de par em par aos olhares dos três homens, como um cadáver a que se faz a autópsia. O oficial e as duas testemunhas percorrem a casa e anotam o que há nela.
A frase transforma uma operação burocrática em violação do corpo. A penhora, que seria só uma questão de dinheiro, revela-se como exposição pública de uma intimidade, e a palavra "autópsia" sugere que Emma já está tratada como coisa morta. Pode-se ler que é o mesmo gesto que o romance faz até a última linha: expor por fora o que era por dentro. Na Parte II, a humilhação pública foi de Charles; aqui é a vida de Emma que vira inventário.
O que o texto sugere é também uma continuidade. Os objetos que Emma comprou a crédito para sustentar a fantasia, as cortinas, o tapete, os vestidos, passam agora por bens a inventariar. Pode-se ler a passagem como o outro lado da compra: o que lhe deu sensação sai da casa como mercadoria. A imagem do cadáver ganha, assim, um sentido a mais, porque o que a autópsia mostra é a soma do que ela quis ter, não o que ela foi. Poucas páginas depois, o cartaz da venda dos móveis está na praça.
O romance termina com esta frase sobre Homais, depois da morte de Emma e de Charles, da ruína da casa e da fábrica de fiação onde Berthe, órfã, é posta a trabalhar por uma tia pobre. Desde a morte de Bovary, três médicos passaram por Yonville e não se mantiveram, de tal modo foram atacados por Homais. O farmacêutico tem clientela infernal, as autoridades o tratam com deferência, a opinião pública o protege. E, no fim, recebe a Legião de Honra.
A última frase dá a Homais o lugar que a primeira cena da Parte II já prometia, o do nome em letras douradas. Pode-se ler que ele é o único personagem dos capítulos finais que nunca arriscou nada por ninguém, e é o único recompensado publicamente. Pode-se ler também que o livro não termina com a condenação da paixão de Emma, mas com uma condenação mais ampla e mais fria: a de um mundo em que a mediocridade prudente prospera, e o amor, o ilegítimo e o legítimo, é descartado ou destruído.
O efeito é de golpe seco. Não há comentário moral, só um registro administrativo, quase um aviso de jornal. Pode-se ler que, ao dar a última linha a esse homem, Flaubert deixa a pergunta para o leitor: o que significa que a prudência, a frieza e o talento de se promover sejam aquilo que o mundo condecora? Nem Charles, fidelidade sem discernimento, nem Homais, cálculo sem afeto, servem de resposta. A frase não resolve nada, apenas registra, com secura, quem ficou de pé.
6.10 a 6.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Filha de Rouault, de cuja fazenda Charles Bovary a tira para casar depois de enviuvar, e mãe de Berthe Bovary. É uma mulher educada por romances, que espera da vida o que só existe em romance. O capítulo 6 da Parte I volta ao convento para mostrar de onde vem esse vocabulário: a devoção consumida pelas flores, pelas letras das canções e pelo langor místico, e os romances baratos contrabandeados por uma costureira, lidos sem distinguir um registro do outro.
Como muda
No capítulo 4 da Parte I casa com Charles; no capítulo 5 da Parte I, no quarto do casal, vê o buquê de flores de laranjeira da noiva morta e imagina o que seria feito do seu se ela morresse. No capítulo 7 da Parte I tenta amar o marido por teoria, recitando versos ao luar. No capítulo 8 da Parte I, o baile em La Vaubyessard lhe mostra por uma noite o que falta, e ela guarda A cigarreira verde que Charles acha na estrada de volta.
No capítulo 9 da Parte I, em Tostes, abandona o desenho, o bordado e o piano, espera alguma coisa que mude o rumo dos dias e joga no fogo o próprio buquê de noiva, achado numa gaveta durante os preparativos da mudança. Parte grávida para Yonville.
No capítulo 2 da Parte II constrói com Léon, no jantar de chegada, um repertório comum de pores do sol, lagos da Suíça e livros lidos junto à lareira. No capítulo 3 da Parte II desmaia quando sabe que teve uma menina, porque queria um filho homem.
No capítulo 4 da Parte II, nos serões em casa de Homais, forma com Léon uma cumplicidade em que nada acontece, e é nesse ambiente que o texto registra a ideia de amor que ela traz.
No capítulo 6 da Parte II vai à igreja procurar o Abade Bournisien, que trata a angústia dela como fome ou frio. Léon parte para Paris sem se declarar; no capítulo 7 da Parte II, na ausência dele, ela se amaldiçoa por não o ter amado; apagada a saudade, consola-se comprando um genuflexório gótico, um vestido de caxemira azul e a mais bonita das estolas de Lheureux. No comício do capítulo 8 da Parte II, Rodolphe Boulanger lhe segura a mão enquanto o presidente anuncia os prêmios de gado.
No capítulo 9 da Parte II cede a Rodolphe na cavalgada no bosque e, sozinha diante do espelho, repete a frase que a põe dentro do tipo de mulher apaixonada que invejava nos romances.
No capítulo 11 da Parte II, depois da operação de Hippolyte, olha o marido em pânico, e o texto nomeia o que ela pensa dele.
No capítulo 12 da Parte II passa a comprar a crédito de Lheureux e combina com Rodolphe uma fuga para 4 de setembro. No capítulo 13 da Parte II, a carta de ruptura a leva ao sótão, à beira da água-furtada, e só a voz de Charles chamando por ela a detém; seguem uma febre cerebral e quarenta e três dias com Charles à cabeceira. No capítulo 14 da Parte II vêm a devoção da convalescença e, por sugestão de Homais, a ida à ópera; no capítulo 15 da Parte II, em Rouen, projeta no tenor Lagardy uma nova fantasia, e Léon reaparece.
No capítulo 1 da Parte III reencontra Léon em Rouen e sai com ele da catedral para O fiacre; no capítulo 2 da Parte III obtém de Charles a procuração; no capítulo 3 da Parte III passa três dias com ele no Hotel de Boulogne; nos capítulos 4 e 5 da Parte III inventa aulas de piano com Mademoiselle Lempereur para ir a Rouen toda quinta-feira, e no capítulo 5 da Parte III assina as letras de câmbio de Lheureux.
No capítulo 6 da Parte III chega a intimação de oito mil francos em vinte e quatro horas, e Lheureux lhe fecha a porta.
No capítulo 7 da Parte III a casa é penhorada, e ela pede dinheiro a Léon e depois ao tabelião Guillaumin, e recusa o assédio dele. No capítulo 8 da Parte III, pede-o por fim a Rodolphe, ouve a recusa dele, entra no laboratório de Homais e come o arsênico do frasco azul.
Bournisien a unge na extrema-unção, órgão por órgão, e o capítulo 8 da Parte III fecha com uma frase de três palavras.
Médico de província, marido de Emma Bovary e pai de Berthe Bovary. Entra no romance como "novo aluno", ridicularizado por um boné que o narrador descreve com a mesma atenção que depois dedica a Emma.
Como muda
No capítulo 1 da Parte I cresce entre um pai que quer um filho espartano e uma mãe que sonha um filho ilustre, e o pai, por indiferença, vence até os doze anos do menino, quando a mãe impõe os estudos.
No capítulo 1 da Parte I reprova o primeiro exame de medicina, passa no segundo por repetição e casa com a viúva mais velha e rica que a mãe escolhe; quando ela morre, no capítulo 2 da Parte I, volta à fazenda dos Rouault e casa com Emma, no capítulo 4 da Parte I. Vê no quarto, no capítulo 5 da Parte I, o buquê da noiva morta e o leva ao sótão. Em Tostes, no capítulo 7 da Parte I, o narrador mede a distância entre ele e a mulher pela conversa.
No capítulo 8 da Parte I, na volta do baile em La Vaubyessard, acha na estrada A cigarreira verde. No fim do capítulo 9 da Parte I decide a mudança para Yonville como remédio contra um mal que não entende.
No capítulo 2 da Parte II só oferece frases práticas no jantar em que Emma e Léon constroem o seu repertório; no capítulo 3 da Parte II, Homais, que já fora chamado à presença do procurador régio por exercício ilegal da medicina, o cultiva como aliado para garantir o silêncio dele. No capítulo 7 da Parte II a mãe de Charles chega, diagnostica na nora falta de trabalho manual e corta a assinatura da biblioteca de Rouen.
No capítulo 11 da Parte II Homais o convence a operar o pé torto de Hippolyte, e o narrador eleva a incisão a uma escala de cirurgiões históricos.
Cinco dias depois começa a crise, a perna gangrena e Canivet amputa. Charles pede um beijo a Emma, ela explode, e o barómetro cai da parede. No capítulo 13 da Parte II, quando ela acorda perguntando pela carta de Rodolphe, ele só ouve delírio. Na ópera em Rouen, no capítulo 15 da Parte II, encontra Léon e insiste para que a mulher fique mais um dia.
No capítulo 2 da Parte III o pai dele morre, e Charles, incapaz de lidar com papelada, cede quando Emma, aconselhada por Lheureux, lhe traz o modelo de uma procuração geral para ela gerir e administrar os interesses do casal. No capítulo 5 da Parte III, quando a mãe descobre a procuração e a queima, ele toma pela primeira vez o partido da esposa contra a mãe e assina uma segunda procuração.
No capítulo 9 da Parte III cai num luto sem forma; no capítulo 11 da Parte III afunda nas dívidas que Emma deixou e responde com felicitações à participação do casamento de Léon.
Depois acha no sótão a carta de ruptura de Rodolphe Boulanger, que lê como prova de um amor platônico; só mais tarde, na escrivaninha de Emma, encontra as cartas de Léon e o retrato de Rodolphe.
Encontra Rodolphe por acaso e não o acusa.
No dia seguinte morre sozinho no jardim, segurando uma mecha do cabelo de Emma, e a filha o encontra.
O primeiro amante de Emma Bovary, a quem ela visita de madrugada em La Huchette. Entra em cena trazendo a Charles um camponês que quer ser sangrado porque "sentia formigueiros pelo corpo todo", e no caminho de volta decide a sedução antes de trocar uma frase a sós com ela.
Como muda
No capítulo 8 da Parte II faz a corte a Emma durante o comício agrícola, entre o discurso do conselheiro Lieuvain e o anúncio dos prêmios, e dispensa Lheureux, que tenta entrar na conversa.
No capítulo 9 da Parte II fica seis semanas sem voltar, esperando que a ausência trabalhe a seu favor.
Na visita em que volta, ainda em casa dela, diz a frase depois da qual o texto registra que era a primeira vez que Emma ouvia alguém dizer-lhe estas coisas; a rendição vem depois, na cavalgada no bosque.
No capítulo 12 da Parte II, com o tempo, deixa de distinguir Emma das outras mulheres que teve. Adia a fuga combinada semana a semana até ela ficar marcada para 4 de setembro, e decide sozinho não ir. No capítulo 13 da Parte II escreve a carta de ruptura testando frases pelo efeito e pinga água sobre a tinta para simular uma lágrima.
Depois da carta, Emma desmaia ao ver o tílburi azul dele passando na praça.
No capítulo 8 da Parte III Emma vai a La Huchette disposta a pedir a ele o que recusou a Guillaumin. Ele a recebe com afeto encenado e recusa com calma, e o narrador comenta o pedido.
No capítulo 11 da Parte III, depois da morte de Emma, Charles acha a carta de ruptura caída no chão do sótão e, tempos depois, encontra Rodolphe por acaso e o absolve.
Escrevente em Yonville quando Emma Bovary chega, depois estudante em Paris, e o amante dela em Rouen na Parte III. O sobrenome é Dupuis, e em Yonville é escriturário do tabelião Guillaumin. Liga-se a Rodolphe Boulanger pelo vocabulário: o que Léon diz com sinceridade reaparece quase idêntico na boca do outro.
Como muda
No capítulo 2 da Parte II constrói com Emma, no jantar de chegada, um repertório comum: o mar, cuja contemplação, diz ela, "nos eleva a alma e comunica ideias de infinito", os lagos e cascatas da Suíça de que ele ouviu falar, e os livros em que, diz ele, "o pensamento, enlaçando-se na ficção", se demora nos pormenores. No fim do capítulo 3 da Parte II, sozinho no Pasto, no alto da encosta de Argueil, resume o próprio tédio; a frase fecha o parágrafo da nota desse capítulo que trata do nome e do batismo de Berthe.
No capítulo 4 da Parte II, nos serões em casa de Homais, forma com Emma uma cumplicidade sem acontecimento: as plantas nas janelas, o tapete de presente que o povoado lê como prova de romance. Acha-a "tão virtuosa e inacessível" que abandona toda esperança, hesita, escreve cartas que rasga e parte para Paris sem se declarar. Na despedida, no capítulo 6 da Parte II, pede para beijar Berthe Bovary.
No capítulo 15 da Parte II reaparece no intervalo da ópera em Rouen, anunciado por Charles Bovary.
No capítulo 1 da Parte III volta de Paris sem a timidez de escriturário e calcula a cena da sedução, depois de seguir de longe o casal até a estalagem na véspera e passar a noite a meditar num plano.
Leva à catedral as primeiras flores que compra na vida para uma mulher, mas Emma se refugia numa capela para rezar e um guia incansável insiste em mostrar túmulos e relíquias. Ele foge da igreja com ela, e a fuga termina em O fiacre.
Passa com ela três dias no Hotel de Boulogne, no capítulo 3 da Parte III, e as quintas-feiras em Rouen. Quando Emma lhe pede versos, copia um soneto de um álbum, mais pelo desejo de lhe agradar do que por vaidade, e o capítulo 5 inverte os papéis.
No capítulo 6 da Parte III Homais o arrasta por horas em Rouen enquanto Emma espera, e o tédio chega aos dois.
No capítulo 7 da Parte III Emma lhe pede dinheiro depois da penhora, e ele promete e falha. Depois da morte dela se casa, e, no capítulo 11 da Parte III, Charles lhe escreve a felicitação sem saber quem ele foi.
O farmacêutico de Yonville, vizinho dos Bovary, já chamado uma vez à presença do procurador régio, em Rouen, por exercício ilegal da medicina, que escreve artigos para o Fanal de Rouen. A farmácia dele, e não a igreja do outro lado da rua, é o que mais atrai a vista na vila, com o nome dele em letras douradas no letreiro e repetido sobre a porta do laboratório.
Como muda
No capítulo 1 da Parte II é ele quem primeiro fala de religião, acusando de hipocrisia o Abade Bournisien assim que este sai da estalagem. No capítulo 3 da Parte II cultiva Charles Bovary como aliado, para garantir silêncio caso volte a ultrapassar os limites da lei; no capítulo 4 da Parte II, recebe nos serões de casa Emma Bovary e Léon e repete todo dia o mesmo "boa noite a todos". No comício do capítulo 8 da Parte II chama de "fanatismo" o gesto de Catherine Leroux de dar a medalha ao pároco.
No capítulo 11 da Parte II convence Charles a operar o pé torto de Hippolyte pelo artigo no jornal, e convence o próprio Hippolyte pela vaidade.
Na noite da operação lê em voz alta o artigo que vai mandar ao jornal.
A perna gangrena e é amputada, e ele sai do episódio sem dano. Na convalescença de Emma, no capítulo 14 da Parte II, é ele quem sugere a ida ao teatro em Rouen, onde ela reencontra Léon.
No capítulo 2 da Parte III, ao dar a notícia da morte do pai de Charles, grita antes sobre arsênico e sobre um livro proibido que Justin escondia. No capítulo 6 da Parte III aceita o convite que Léon, por delicadeza, lhe faz em troca dos jantares em casa dele, vai a Rouen e o arrasta por horas enquanto Emma espera.
No capítulo 8 da Parte III Emma come o arsênico do frasco azul no laboratório dele. No capítulo 9 da Parte III, logo depois da morte dela, volta para casa para escrever cartas e um artigo para o Fanal; mais tarde, diante do cadáver, diz não ter medo, porque "fazíamos ponche no anfiteatro das dissecações". No velório discute com Bournisien.
No enterro, no capítulo 10 da Parte III, lamenta não ter preparado "algumas palavras". No capítulo 11 da Parte III tenta compor o epitáfio a partir de "Sta viator", não completa a frase clássica e fica com "Amabilem conjugem calcas". Faz da cegueira do mendigo campanha pessoal de vingança. A última linha do livro é sobre ele.
O comerciante de tecidos que vende a crédito a Emma Bovary e cobra a dívida que a leva à penhora. É o personagem que decide o desfecho, e nunca discute moral. Ele é apresentado como prestativo e paciente.
Como muda
No capítulo 5 da Parte II aparece pela primeira vez como personagem próprio, não só como companheiro de viagem: entra com a caixa verde, exibe echarpes e colares e, quando Emma recusa comprar, não insiste.
No comício do capítulo 8 da Parte II acompanha Rodolphe Boulanger e Emma no passeio, tenta entrar na conversa e é despachado por Rodolphe.
No capítulo 12 da Parte II encarrega-se da encomenda da perna de pau que Emma oferece a Hippolyte, paga por Charles, e traz de Rouen o pingalim que ela quer dar a Rodolphe; no dia seguinte apresenta a fatura, e Emma acaba pagando com o dinheiro que Derozerays mandara a Charles.
No capítulo 2 da Parte III aparece em casa durante o luto pelo pai de Charles Bovary e sugere a Emma que o marido lhe passe uma procuração. Nos capítulos 4 e 5 da Parte III vende a ela cortinas e tapete, intermedeia a venda de um terreno em Barneville e a faz assinar letras de câmbio, trocando parte da dívida por dinheiro vivo que paga as quintas-feiras em Rouen. No capítulo 6 da Parte III chega a intimação de oito mil francos em vinte e quatro horas, e ele fecha a porta às súplicas de Emma.
No capítulo 7 da Parte III o oficial de diligências Hareng chega para inventariar a casa, e o cálculo de Lheureux pode ser lido como o primeiro dos cálculos alheios que arruínam Charles depois da morte de Emma.
Fechamento: perguntas abertas, sem gabarito.