Gabarito
Gabarito
As respostas vêm do guia da obra no Clavis Libri. Nas questões abertas, o gabarito mostra o que se espera encontrar, não a única resposta possível. As perguntas "para discutir" e "E você?" não têm gabarito.
Semana 1
1.1O que aconteceu.
Primeira Parte, capítulo 1: Nunca falem com estranhosBerlioz, editor de revista e presidente do conselho da associação literária Massolit, e o jovem poeta
Ivan Nikoláievitch Bezdômny discutem, num entardecer quente em Patriarchi Prudý, o poema antirreligioso que Ivan escreveu por encomenda: Berlioz quer que o poeta pare de retratar um Jesus com traços negativos e passe a negar que ele tenha existido, citando Fílon de Alexandria e Flávio Josefo como historiadores que jamais o mencionaram.
Primeira Parte, capítulo 2: Pôncio PilatosO procurador da Judeia,
Pôncio Pilatos, sofre de uma enxaqueca insuportável e odeia o cheiro de óleo de rosas que o persegue desde o amanhecer, na manhã em que recebe para julgamento o prisioneiro
Yeshua Ha-Notzri, acusado de incitar o povo a destruir o templo de Yerushalaim. Yeshua o chama de "bom homem", e Pilatos manda o centurião Marcos, apelidado Mata-ratos, ensinar-lhe a chamá-lo de Hegemon, com um golpe de chicote que o derruba no chão.
Primeira Parte, capítulo 3: A sétima provaDe volta a Patriarchi, já noite, o estrangeiro termina de narrar a cena de
Pôncio Pilatos com a mesma frase que a fechou.
Primeira Parte, capítulo 4: A perseguiçãoIvan Nikoláievitch Bezdômny, ainda no banco, vê a cena e enlouquece de horror. Ao ouvir uma mulher gritar o nome de Ánnuchka, encadeia o óleo derramado, a mulher que cortaria a cabeça de Berlioz (ver
A cabeça de Berlioz) e a condutora do bonde, e conclui que o estrangeiro sabia de tudo com antecedência.
Primeira Parte, capítulo 5: Aconteceu na GriboiêdovA casa Griboiêdov é a sede da Massolit, dividida entre escritórios que administram os privilégios da associação (viagens, casas de veraneio, licenças criativas) e um restaurante considerado o melhor de Moscou. O narrador se demora no efeito que isso produz em quem chega de fora, e o objeto que concentra o privilégio é uma carteirinha.
1.2Temas da semana: Bem e mal, Sobrenatural, Arte, Coragem e heroísmo, Poder.
1.3O estrangeiro (Woland, ainda sem nome), Primeira Parte, capítulo 1: Nunca falem com estranhos.
Num fim de tarde quente, em Patriarchi Prudý, Berlioz, editor e presidente da associação literária Massolit, repreende o jovem poeta Ivan por ter escrito um poema antirreligioso em que Jesus aparece com traços negativos: o certo seria negar que ele tenha existido. Um estrangeiro de olhos desparelhados se junta à conversa, defende uma das provas clássicas da existência de Deus e pergunta quem, então, administra a vida humana. Berlioz, ateu, já preparava a réplica do bom senso, a de que o homem é mortal, mas nem chega a dizê-la: o estrangeiro se adianta e responde à objeção antes que ela seja pronunciada.
O que ela faz é acrescentar um advérbio. Ninguém discute que o ser humano morre; o que o estrangeiro aponta é que ele morre de repente e que não sabe nem o que fará à tarde. A frase sugere que a questão do capítulo não é a mortalidade, e sim a impossibilidade de administrar o próprio prazo: quem não responde pela própria tarde dificilmente governa coisa alguma. É dessa brecha que sai a pergunta sobre quem manda na vida de cada um.
O livro não responde a Berlioz com um argumento, responde com um acontecimento. Minutos depois, ele escorrega no óleo de girassol derramado e morre sob um bonde, sem chegar à reunião marcada para aquela noite. A frase, que soa como conversa de bar, pode ser lida como a primeira prova de que o interlocutor sabe mais do que diz, e abre o tema do sobrenatural: a cidade que decidiu que o diabo não existe vai passar o romance inteiro tentando explicar o que não cabe em suas explicações.
1.4O narrador, Primeira Parte, capítulo 5: Aconteceu na Griboiêdov.
O capítulo descreve a casa Griboiêdov, onde funcionam os escritórios e o melhor restaurante de Moscou, ambos ligados à Massolit. O narrador se demora no efeito que a sede produz sobre o visitante de fora: ele sente inveja dos membros e se queixa dos céus por não ter nascido com talento literário, sem o qual não poderia sonhar com uma carteirinha de couro e debrum dourado. A frase fala em tom de pena, quase de simpatia, pelo infeliz que não tem talento e, por isso, não tem acesso a nada.
A ironia mora no que o narrador finge admitir, que o privilégio seria prêmio de talento literário. O capítulo mostra que a Massolit não distribui nada por talento: o que se inveja ali é uma carteirinha, e a frase permite que o leitor veja que o objeto desejado é o cartão, não a obra. O narrador parece defender a ordem das coisas, e é justamente assim que a desmonta. O talento aparece como uma exigência de fachada, e o privilégio, como o que realmente importa.
A mesma sede vai receber Berlioz, que não chega à reunião das dez, e Ivan, descalço, de ceroulas e com a vela acesa, aos gritos. A notícia da morte de Berlioz interrompe o jazz por poucos minutos, e a noite volta ao normal. A frase pode ser lida como a chave dessa sátira: a literatura soviética do livro funciona como uma repartição de benefícios. É nesse mundo que o romance do mestre, mais adiante, será recusado e atacado.
1.5C. O estrangeiro concede a mortalidade e acrescenta um advérbio: a metade pior da desgraça é morrer de repente, sem poder dizer nem o que se fará na tarde de hoje. Fica a pergunta para pensar: o que muda em quem entende que a morte pode chegar antes do fim do dia?
1.6D. Pilatos pergunta pela verdade em abstrato, e Yeshua responde com a verdade daquele momento: a dor do procurador, o pensamento de morte, o cachorro que ele quer chamar. O secretário, de olhos arregalados, para de escrever. Fica a pergunta para pensar: por que uma verdade dita sobre a pessoa diante de nós pesa mais do que uma definição geral?
1.7D. O narrador diz que tudo estava explicado: o café da manhã com o falecido Kant, o papo-furado do óleo de girassol e de Ánnuchka, as profecias sobre a cabeça cortada, tudo era coisa de louco. Fica a pergunta para pensar: quando uma explicação razoável aparece, o que ela nos permite deixar de ver?
1.8B. O narrador diz que não restava sombra de dúvida de que o consultor sabia com antecedência de toda a cena. Ivan pensa, então, duas coisas: que o professor não tem nada de louco e que talvez ele mesmo tenha armado tudo. Fica a pergunta para pensar: se alguém prevê um acaso com exatidão, ainda é acaso?
1.9B. O narrador finge compaixão: sem talento, o visitante não pode sonhar com a carteirinha de membro da Massolit, cor de café, que cheira a couro caro e é conhecida em toda Moscou. O que se inveja é o objeto e tudo que ele abre, e o capítulo descreve filas, férias, restaurante, mas nenhum livro. Fica a pergunta para pensar: a inveja do visitante é de quem escreve ou de quem tem a carteirinha?
1.10 a 1.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Semana 2
2.1O que aconteceu.
Primeira Parte, capítulo 6: Esquizofrenia, como foi ditoMadrugada adentro, um médico de plantão, de cavanhaque pontudo (ver
A clínica de Stravinski) interroga
Ivan Nikoláievitch Bezdômny na clínica psiquiátrica para onde foi trazido amarrado, e a cada resposta (o ícone pendurado no peito, a vela acesa, a perseguição de ceroulas) confirma o diagnóstico que já trazia pronto antes de ouvir a primeira palavra.
Primeira Parte, capítulo 7: Um apartamento sinistroStiôpa Likhodiêiev acorda de ressaca profunda no apartamento 50 (ver
O apartamento 50), que já tinha fama de sinistro antes dele (moradores anteriores somem sem deixar rastro), e encontra sentado ao lado da própria cama um estranho de boina preta que afirma ter fechado com ele, na véspera, um contrato de sete apresentações no Teatro de Variedades. O estranho se apresenta.
Primeira Parte, capítulo 8: O duelo entre o professor e o poetaDe volta à clínica,
Ivan Nikoláievitch Bezdômny tenta convencer o doutor Stravinski (ver
A clínica de Stravinski) de que viu um estrangeiro que sabia da morte de
Berlioz de antemão e conhecera
Pôncio Pilatos pessoalmente. Stravinski nunca contesta a história de frente: oferece a alta se Ivan apenas disser que é normal e, quando Ivan o diz, percorre com ele, ação por ação, tudo o que fez na véspera (o ícone, a queda da cerca, a vela, o tapa no restaurante, o pedido de metralhadoras) e pergunta se é assim que se prende um criminoso. Diante da lógica encadeada, Ivan entende que, solto, iria de ceroulas à polícia falar de Pôncio Pilatos e voltaria ao mesmo quarto, e aceita ficar: o doutor lhe propõe pôr no papel as suspeitas contra o estrangeiro, com a condição de pensar menos em Pôncio Pilatos.
Primeira Parte, capítulo 9: Truques de KorôvievNikanor Ivânovitch Bossôi, presidente da associação de moradores do prédio, é assediado por trinta e duas reclamações de vizinhos querendo os cômodos vagos de
Berlioz. Ao entrar no apartamento lacrado para verificar, encontra
Korôviev sentado à mesa do finado, que se apresenta como intérprete de
Woland e propõe alugar o apartamento inteiro por uma semana.
Primeira Parte, capítulo 10: Notícias de IaltaNo Teatro de Variedades, o diretor financeiro Rímski e o administrador Variênukha tentam localizar Stiôpa, que sumiu depois de prometer voltar em meia hora, enquanto telegramas cada vez mais delirantes chegam de Ialta assinados por ele, pedindo confirmação de identidade e dizendo ter sido largado ali sob hipnose de
Woland. A letra bate com a de Stiôpa, mas a distância entre Moscou e Ialta torna a história logicamente impossível, e os dois nunca chegam a uma explicação. Instruído por telefone a não levar os telegramas à polícia, Variênukha ignora o aviso e é arrastado por
Azazello e
Behemoth até o próprio apartamento 50 (ver
O apartamento 50), onde uma jovem ruiva o intercepta no vestíbulo. É
Hella, ainda sem nome nesta parte, e é ela quem fecha o capítulo.
2.2Temas da semana: Bem e mal, Sobrenatural, Arte.
2.3Riúkhin (pensamento), Primeira Parte, capítulo 6: Esquizofrenia, como foi dito.
Riúkhin, poeta que ajudou a levar Ivan amarrado até a clínica, volta sozinho para Moscou num caminhão, remoendo os xingamentos que o amigo lhe jogou. O que ele sente, descobre, não é raiva da grosseria. É o desconforto de alguém que ouve de um doente a descrição exata do que não ousava admitir. A frase diz isso com economia: as ofensas não doem por serem ofensas, doem por conterem a verdade.
O momento é importante porque quem ouve a verdade é um poeta de carreira feita, e quem a diz é o internado. Riúkhin entende que Ivan, delirando, acertou. A cena mostra o avesso do que o capítulo narra: enquanto o médico examina Ivan e pergunta pela vela e pelo ícone, pode-se ler que o doente é, antes, a relação de Riúkhin com a própria arte.
Passando diante da estátua de Púchkin, Riúkhin se convence de que a glória nunca virá a quem escreve mal e de que ele não acredita numa palavra do que escreve. O romance liga assim o tema da arte a um critério de honestidade: o que importa é o que o autor crê, não o que a repartição aceita. É a pergunta que o livro depois parece fazer ao mestre, que escreve por convicção, perde tudo e, mesmo assim, recebe de volta o manuscrito.
2.4Hella, Primeira Parte, capítulo 10: Notícias de Ialta.
No Teatro de Variedades, Rímski e Variênukha tentam localizar Stiôpa, que sumiu, enquanto telegramas cada vez mais delirantes chegam de Ialta com a letra dele. Variênukha, que devia levá-los à polícia, é arrastado por Azazello e Behemoth até o apartamento 50. No vestíbulo, uma jovem totalmente nua, ruiva e de olhos fosforescentes, põe as mãos geladas em seus ombros e fala com ternura. O que ela diz é um pedido de beijo, feito num tom que seria de namorada e que aqui é o do pavor.
A graça cruel da frase está na distância entre o que se diz e o que se vive. A fala é doce, quase brincalhona, e o corpo de Variênukha responde com o horror que a situação pede: os cabelos se encrespam, ele sente o frio das mãos através da camisa e desmaia antes do beijo. O narrador interrompe a cena ali, e a interrupção faz a comédia e o medo trabalharem juntos, porque o leitor completa o que o personagem não viu.
Tudo indica que a jovem seja Hella, ainda sem nome nesta parte: mais adiante o livro aponta a ruiva nua do apartamento 50, com uma cicatriz rósea no pescoço, como a mesma vampira que o galo afugentou na noite de Rímski. A frase mostra que o terror, em Moscou, pode chegar em tom de intimidade, e que ele não poupa o funcionário comum, o administrador do teatro.
2.5B. Riúkhin conclui que o que o atormenta são as palavras ofensivas que Ivan lhe jogou na cara, e o problema não é que sejam ofensivas, é que encerram a verdade. Fica a pergunta para pensar: por que uma verdade dita por quem foi tomado por louco pesa tanto em quem a ouve?
2.6A. Woland apresenta a comitiva e, sem alterar a voz, diz que alguém está sobrando no apartamento e que é justamente Stiôpa. A sentença vem depois de uma conversa cortês, com vodca e tira-gosto servidos. Fica a pergunta para pensar: o que a naturalidade com que Woland decide quem sobra diz sobre o poder dele?
2.7A. Stravinski oferece a alta na hora, se Ivan disser que é normal, e frisa que não precisa provar. Ivan pensa, repensa e responde com firmeza: "Eu sou normal". É a resposta que Stravinski queria para começar a raciocinar logicamente com ele. Fica a pergunta para pensar: o que vale uma afirmação de sanidade que só pede para ser dita, e depois é usada contra quem a diz?
2.8B. Korôviev não responde sim nem não: diz que ser oficial ou não depende do ponto de vista, que tudo é relativo e instável, e que hoje é não oficial, mas amanhã, quem sabe, oficial. Nikanor conclui que ele é um desocupado, mas aceita seguir a conversa. Fica a pergunta para pensar: o que um discurso assim, que dissolve a diferença entre oficial e não oficial, consegue fazer com quem está acostumado a perguntar apenas por documentos?
2.9B. O texto diz que era necessário achar, imediatamente e sem sair do lugar, explicações comuns para fenômenos incomuns, e é isso que Rímski passa o capítulo tentando: avião, caça, hipnose, delírio. Para pensar: o que leva uma pessoa a preferir a explicação mais banal, mesmo quando ela já não fecha com os fatos?
2.10 a 2.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Semana 3
3.1O que aconteceu.
Primeira Parte, capítulo 11: A duplicação de IvanDurante uma tempestade,
Ivan Nikoláievitch Bezdômny desiste de escrever a denúncia à polícia (cada versão emperra na mesma dificuldade: como falar de
Berlioz, "o falecido", como se ele ainda fosse sujeito de uma frase) e chora entre as folhas espalhadas pelo chão; o médico lhe aplica uma injeção no braço e, passada a tempestade, ele se acalma. À noite, deitado, trava consigo mesmo um debate em voz alta, dividido entre o Ivan de ontem, que quer capturar o consultor, e um Ivan novo, mais cínico, para quem a morte de um editor não muda nada no mundo. Quando o novo Ivan pergunta ao velho, com escárnio, "quem sou eu nesse caso?", quem responde não é nenhum dos dois.
Primeira Parte, capítulo 12: Magia negra e sua revelaçãoNo Teatro de Variedades,
Woland,
Korôviev (que se apresenta também como Fagot) e
Behemoth abrem a sessão com Woland perguntando a Fagot se os moscovitas mudaram por dentro, não por fora. Uma chuva de dinheiro cai da cúpula sobre o público, que se atropela para catar as notas; o mestre de cerimônias Bengálski tenta racionalizar o número como "hipnose em massa" e tem a cabeça arrancada pelo próprio Behemoth, devolvida ilesa só depois que a plateia, comovida, pede perdão por ele. Diante dos pedidos de perdão, antes de mandar devolver a cabeça, Woland pronuncia o veredito que resume toda a noite.
Primeira Parte, capítulo 13: Surge o heróiUm homem descalço, de roupão de paciente, entra à noite pela varanda do quarto de
Ivan Nikoláievitch Bezdômny no hospício e se apresenta aos poucos: ao saber que Ivan está ali por causa de Pôncio Pilatos, pede que ele lhe conte tudo o que aconteceu em Patriarchi Prudý. Ouve o relato inteiro com um interesse cada vez mais próximo do êxtase, reconhece no consultor descrito
Woland e, ao final, confirma o que Ivan ainda resiste a aceitar.
Primeira Parte, capítulo 14: Glória ao galo!No Teatro de Variedades, o diretor financeiro Rímski, já abalado pelo escândalo da sessão de mágica, recebe um telefonema anônimo que o ameaça.
3.2Temas da semana: Bem e mal, Sobrenatural, Perdão, Arte, Coragem e heroísmo, Amor.
3.3Uma voz grave, parecida com a de Woland, Primeira Parte, capítulo 11: A duplicação de Ivan.
Durante uma tempestade, Ivan desiste de escrever a denúncia à polícia: toda vez que tenta falar de Berlioz, tropeça na palavra falecido, como se ele ainda fosse sujeito de uma frase. À noite, deitado, trava consigo um debate em voz alta entre o Ivan de ontem, que quer capturar o consultor, e um Ivan novo, mais cínico, para quem a morte de um editor não muda nada no mundo. Quando o novo pergunta ao antigo, com escárnio, quem ele próprio seria nesse caso, uma voz que não pertence a nenhum dos dois responde com uma única palavra.
A resposta, um idiota, chega com a voz grave e nítida do consultor, e Ivan nem se ofende, até se admira. O capítulo mostra por dentro a mudança que a clínica produz: o Ivan que acreditava deixa de acreditar, e a dúvida é arbitrada por uma voz de fora. A frase pode ser lida como o diagnóstico de quem sabe mais, ou como a última faísca do Ivan antigo, que não aceita o conformismo do novo. O texto não decide, e essa ambiguidade é parte do efeito.
O capítulo termina com a grade da varanda se movendo e uma figura pedindo silêncio, o mestre, que só se apresentará no seguinte. A voz que chama Ivan de idiota prepara a mudança dele: o poeta que começou o livro negando o diabo, e que a clínica tenta curar de acreditar, será o discípulo do mestre e, no Epílogo, o professor que guarda no corpo o que a razão descartou. A frase é a primeira brecha nessa conversão.
3.4O narrador, Primeira Parte, capítulo 14: Glória ao galo!.
Na noite de pânico no Teatro de Variedades, o diretor financeiro Rímski descobre que o administrador Variênukha, que voltou de uma missão com uma história cada vez mais falsa, não projeta sombra de cabeça no chão. Uma jovem de cabelos ruivos, com manchas de decomposição no corpo, entra pela janela, e Variênukha tranca a porta para impedir a fuga. Os dois só recuam quando, no jardim vizinho, um galo canta pela primeira vez, e o narrador descreve o canto dizendo que a ave, com a voz treinada, anunciava que o dia se aproximava de Moscou vindo do leste.
O canto do galo como limite que as forças da escuridão não ultrapassam é motivo antigo do folclore eslavo e cristão, e Bulgákov o usa sem explicação. A beleza da frase está no deslocamento de escala: a ameaça é vampírica, o cenário é uma repartição, e o que salva Rímski é um animal que faz o que sempre fez. O narrador trata o canto com um respeito quase solene, e pode-se ler que o amanhecer vindo do leste aparece como uma autoridade que a escuridão acata.
A cena também mostra os limites do poder da comitiva. Eles parecem poder tudo à noite, mas obedecem ao relógio, e a jovem ruiva, que o livro depois nomeará Hella, será lembrada no capítulo 22, já na intimidade do apartamento 50, como aquela que se assustara com o galo. Rímski, envelhecido de susto numa só noite, foge para Leningrado, e a frase fica como o ponto em que o terror cede ao dia, ainda que por pouco tempo. É um dos raros momentos em que o sobrenatural recua.
3.5C. Ivan escreve que foi a Patriarchi "com o falecido" Berlioz e percebe o absurdo: os mortos não vão a lugar algum, e podem tomá-lo por louco. Para pensar: o que acontece com a verdade quando, para ser dita, ela precisa soar plausível a quem vai ouvi-la?
3.6D. Ivan já imaginava uma palmeira em sua perna de elefante e um gato alegre quando a grade se move e surge, na varanda, uma figura que desvia da luz da lua, acena com o dedo e sussurra "Shh!". É o gancho para o capítulo seguinte da clínica.
3.7D. Primeiro a alegria, depois a admiração tomam conta do teatro: a palavra "dinheiro" soa por todos os lados, alguns rastejam farejando embaixo das poltronas, e de um balcão sai a briga ("é minha!") que termina em bofetada e num policial levando alguém. Para pensar: o que o dinheiro faz com uma plateia que, minutos antes, só queria ser divertida?
3.8A. O visitante responde que não pode escapar não porque seja alto, mas porque não tem para onde ir. A clínica é um refúgio, não uma prisão. Para pensar: o que significa estar livre para sair quando já não há lugar para onde se queira voltar?
3.9A. A voz insinuante e vulgar diz: não ligue para ninguém, Rímski, será pior. Importa porque tira dele o único recurso que ainda pensava em usar, pedir ajuda, e o deixa sozinho no prédio vazio, onde logo aparece Variênukha.
3.10 a 3.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Semana 4
4.1O que aconteceu.
Primeira Parte, capítulo 16: A execuçãoNo monte Gólgota, sob calor insuportável, três condenados aguardam a morte em suas cruzes: Dismas, Gestas e
Yeshua Ha-Notzri. Um cerco duplo de soldados romanos afasta os curiosos, e apenas um homem,
Mateus Levi, permanece próximo, sentado numa pedra, sem coragem nem meios para agir.
Primeira Parte, capítulo 17: O dia intranquiloNo dia seguinte à sessão, uma fila de um quilômetro se forma diante do Teatro de Variedades, mas Likhodiêiev, Rímski e Variênukha sumiram, o contrato do misterioso mago não está em pasta alguma, o cão farejador da polícia perde a pista no ponto de táxi e o espetáculo é cancelado. O tesoureiro Vassili Stepánovitch vai levar o relatório à comissão de espetáculos e encontra o presidente, Prokhor Petrovitch, reduzido a um terno vazio que despacha papéis atrás da mesa, enquanto a secretária Anna Ritchardovna chora que ele não está dentro dele.
Primeira Parte, capítulo 18: Os visitantes azaradosMaksimilian Andrêievitch Poplavski, tio de
Berlioz e morador de Kíev, viaja a Moscou depois de receber um telegrama confuso sobre a morte do sobrinho. O narrador não deixa dúvida sobre o real motivo da viagem.
4.2Temas da semana: Bem e mal, Sobrenatural, Coragem e heroísmo, Poder.
4.3O apresentador do sonho de Nikanor Ivânovitch, Primeira Parte, capítulo 15: O sonho de Nikanor Ivânovitch.
Na clínica, sedado, Nikanor Ivânovitch sonha que sobe ao palco de um teatro onde um apresentador cordial pede à plateia de moscovitas que entregue o dinheiro estrangeiro escondido em casa. Nikanor jura que não tem nada e, quando o apresentador pergunta de onde saíram os quatrocentos dólares do banheiro, responde que foram forças impuras, o sujeito de roupa xadrez. O apresentador ironiza e pergunta aos doleiros presentes o que alguém pode deixar na casa dos outros. Alguém grita que uma criança, e ele confirma, ampliando: uma criança, uma carta anônima, um panfleto, uma bomba-relógio, mas ninguém se desfaria de quatrocentos dólares.
A lista é um raciocínio por absurdo. Gente deixa na porta alheia um bebê, uma denúncia, até uma bomba, mas dinheiro estrangeiro ninguém joga fora, e por isso a desculpa de Nikanor não se sustenta. A frase sugere, com ironia, que o apego à moeda estrangeira vence qualquer outro instinto. O sonho é, ao mesmo tempo, comédia e sátira: Kanávkin é aplaudido por entregar os mil dólares, e Duntchil, que nega, é traído pela própria amante, que aponta o esconderijo.
A cena satiriza uma política real da União Soviética no fim dos anos 1920 e início dos 1930, as campanhas de confisco de ouro e moeda estrangeira, apoiadas em delação e prisão. O dinheiro estrangeiro é, no livro, um símbolo da armadilha: aparece onde a pessoa mais teme ser flagrada, e vira prova contra ela. Pode-se ler o sonho como um tribunal de plateia que refaz, em tom de comédia, o que o capítulo 9 mostrou na vida real, quando Nikanor foi preso por dólares que dizia nunca ter tocado.
4.4Woland, Primeira Parte, capítulo 18: Os visitantes azarados.
Andrei Fokitch Sókov, gerente da lanchonete do teatro, vai ao apartamento 50 reclamar do dinheiro que virou papel picado. Woland o recebe e o interroga em tom íntimo sobre as economias, e uma voz do quarto ao lado revela a soma exata, em poupanças e em moedas de ouro sob o assoalho, e a data e a causa da morte do gerente: nove meses, câncer de fígado. Diante da recusa dele em gastar o próprio dinheiro, Woland lhe propõe o que ele jamais consideraria, uma festa com cordas, belas mulheres embriagadas e amigos alegres, e depois o veneno.
A frase é crueldade e conselho ao mesmo tempo. Woland não ameaça: faz as contas. Se o gerente morrerá em nove meses, e o dinheiro não poderá ser usado depois, o que ele guarda não serve para nada. A proposta é um espelho invertido da vida de Sókov, feita de poupança, medo e hospital, e a ironia está em que o diabo oferece o prazer, e o homem prudente o recusa. Pode-se ler que o que a cena condena não é o dinheiro, é a avareza de quem guarda para uma vida que não vai viver.
O desfecho completa a sátira: Sókov sai com o dinheiro restituído, mas perseguido por uma última humilhação, o chapéu que vira um gatinho agarrado à careca. Em seguida corre a um médico de verdade, que não encontra vestígio de câncer e o manda cuidar dos nervos. A cena sugere o método de Woland: ele diz a verdade sobre o que o personagem é e deixa que a própria pessoa tire as consequências. Sókov não as tira, e o romance, com um sorriso, o deixa assim.
4.5C. Nikanor admite que aceitou dinheiro, mas era dinheiro soviético, e que fez registro por dinheiro, e jura que não tocou em dinheiro estrangeiro; diz que Korôviev é o diabo. Importa porque mostra o homem e o golpe: quem é pego com dólares é um presidente que já aceitava propina.
4.6D. O animador diz que a guarda secreta de dólares não faz sentido porque ninguém pode usá-los em nenhuma circunstância, e dá o exemplo de Duntchil: bom salário, apartamento magnífico, esposa e amante, e mesmo assim guardava o tesouro em Khárkov até ser exposto diante de todos. Fica a pergunta para pensar: o que leva alguém a esconder, e a arriscar tudo por isso, algo que não pode gastar?
4.7A. O texto diz que Dismas sofria mais pois a consciência não o deixava, enquanto Gestas enlouquecera com as moscas e o sol e Yeshua era o mais resignado. Para pensar: por que estar consciente é o que torna a dor maior?
4.8A. Atrás da enorme mesa estava o terno vazio, que escrevia com a pena seca pelo papel e falava com a voz de Prokhor Petrovitch; do bolso aparecia uma caneta, mas sobre a gola não havia pescoço nem cabeça. Para pensar: o que sobra de uma repartição quando o terno continua trabalhando sem ninguém dentro?
4.9B. Quando Poplavski pergunta a Korôviev se foi ele quem mandou o telegrama, Korôviev aponta o gato, e o gato responde de pé, com a pata estendida, que foi ele. O tio de Berlioz tinha tomado o texto por um erro de redação; era uma isca da comitiva de Woland, que o recebe com choro fingido, humilha-o e o põe porta afora.
4.10 a 4.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Semana 5
5.1O que aconteceu.
Segunda Parte, capítulo 19: MargaridaMargarida Nikoláievna, trinta anos, casada com um marido rico e bom a quem não ama, vive há meses de luto por um homem que ninguém sabe se está vivo, o
O mestre, que sumiu sem deixar rastro depois de queimar o próprio romance.
Segunda Parte, capítulo 20: O creme de AzazelloÀ noite, sozinha em casa (o marido viajou),
Margarida passa o creme no rosto e no corpo: passa a aparentar uns vinte anos, perde a dor que carregava desde o desaparecimento do mestre e ganha o poder de levitar. Antes de sair escreve um bilhete ao marido.
Segunda Parte, capítulo 21: O vooMargarida sobrevoa Moscou, quebra sem querer o vidro de um relógio de rua e, ao ler no mural do prédio da Casa da Dramlit o nome do crítico
Latunski (o homem cujo artigo destruiu a publicação do romance do mestre, e com isso o próprio mestre), grita.
Segunda Parte, capítulo 22: À luz de velasDe volta a Moscou, no apartamento 50 (ver
O apartamento 50) da rua Sadôvaia, o apartamento sinistro do
capítulo 7,
Korôviev recebe
Margarida com uma lamparina e explica, tagarela, a quinta dimensão que permite ao apartamento caber um salão de baile inteiro. Ali ela é apresentada à comitiva completa:
Azazello,
Hella (cuidando do joelho doente de
Woland) e
Behemoth, o gato preto que joga xadrez com peças vivas. Por fim conhece Woland, deitado, doente, numa camisa suja e remendada.
Segunda Parte, capítulo 23: O grande baile de satanásMargarida, banhada em sangue e depois em óleo de rosas, coroada, recebe os convidados do baile por três horas: enforcados, envenenadoras, assassinos e traidores da história europeia, todos mortos, que sobem em fila por uma escada infinita a partir da lareira. Entre eles está
Frida, condenada há trinta anos a encontrar todas as noites, na própria mesinha de cabeceira, o lenço (ver
O lenço de Frida) com que sufocou o filho recém-nascido; ela só repete o próprio nome, como quem pede socorro.
5.2Temas da semana: Bem e mal, Sobrenatural, Perdão, Arte, Amor.
5.3O narrador, Segunda Parte, capítulo 19: Margarida.
A Segunda Parte começa com o narrador chamando o leitor pelo braço, recurso raro no romance: venha comigo, leitor, e ele oferece o que vai mostrar. Antes de apresentar Margarida Nikoláievna, casada com um marido bom a quem não ama e de luto há meses por um homem que ninguém sabe se está vivo, ele faz uma pergunta desafiadora: quem disse que não existe no mundo o amor verdadeiro, fiel, eterno? Que cortem a língua desse mentiroso infame. É a frase que abre o capítulo, antes de qualquer cena.
O tom é de juramento e de maldição ao mesmo tempo, e muda o registro do livro. A Primeira Parte foi sobretudo sátira, com a narração falando de Moscou em tom de ironia. Agora o narrador se dirige a quem lê como um contador de histórias e promete provar uma tese. A promessa é ousada: depois de ver o livro tratar a cidade como um conjunto de gente comum corrompida, o leitor é convidado a ver alguém que, ao que tudo indica, não se corrompe. A frase prepara Margarida como a prova viva.
O que o capítulo mostra depois sustenta a frase. Margarida acorda com o pressentimento de que algo vai mudar, vai a um banco junto ao muro do Kremlin e ouve de Azazello o convite para um baile à noite, com a promessa de saber do mestre. Pode-se ler que o amor, aqui, não é sentimento doméstico, é a coragem de aceitar o preço: ela abandonará o marido, tornar-se-á bruxa e rainha de um baile de mortos. O narrador declara a tese antes, e o romance a cumpre. O mestre, que acreditava que ela o esquecera, estava enganado.
5.4Woland, Segunda Parte, capítulo 23: O grande baile de satanás.
No fim do baile, Woland recebe num prato a cabeça decepada de Berlioz e se dirige a ela com suavidade, chamando-a pelo nome e pelo patronímico. Os olhos do falecido se abrem, vivos, conscientes e cheios de sofrimento. Woland resume o que aconteceu: a cabeça foi cortada por uma mulher, o encontro não aconteceu, e ele, Woland, está morando no apartamento de Berlioz. Isso é fato, diz, e um fato é a coisa mais teimosa do mundo. Depois lembra que interessa agora o futuro, não o fato consumado.
A frase devolve o leitor ao capítulo 1, onde Berlioz, editor e ateu, ouvira a profecia como brincadeira. O que o estrangeiro anunciara, a cabeça cortada e a reunião perdida, aconteceu, e a palavra fato tem aqui um peso irônico: é a palavra do racionalista, e é com ela que Woland o encurrala. Em seguida, porém, ele não discute a teoria de Berlioz, a de que a morte é o fim de tudo. Elogia-a como sólida e original e a aplica ao próprio autor: se a cada um é dado segundo a sua crença, que Berlioz vá para a inexistência.
A cabeça se transforma então em uma taça, e o símbolo se fecha: o que começou com a morte de Berlioz no capítulo 3 termina como objeto de baile. Pode-se ler a cena como o centro do argumento do livro sobre o sobrenatural: o romance não refuta a descrença com um debate, dá a ela o destino de quem a defendeu, e a refutação é, ao mesmo tempo, cruel e cômica.
5.5C. O narrador pergunta quem disse que não existe no mundo o verdadeiro, o fiel, o eterno amor, manda cortar a língua do mentiroso e promete mostrar esse amor ao leitor que o acompanhar. Fica a pergunta para pensar: o que o romance quer que o leitor veja em Margarida para começar assim?
5.6D. No espelho aparece uma mulher de uns vinte anos, de sobrancelhas negras; a ruga que surgira em outubro, quando o mestre sumiu, desaparece. Depois do corpo, os músculos se fortalecem, o corpo perde peso, e Margarida pula e fica suspensa no ar, para ser puxada de volta.
5.7B. A lista, que terminava com as palavras Casa do Dramaturgo e do Literato, a faz soltar um grito selvagem e o porteiro olha espantado para o quadro. Latunski é o crítico cujo artigo sobre o romance destruiu o mestre. Importa porque é desse ódio que nasce toda a destruição que segue: ela sobe correndo, repetindo Latunski, oitenta e quatro.
5.8C. Korôviev diz que é o menos difícil de tudo e conta de um inquilino de Moscou que, sem saber de quinta dimensão, multiplicou cômodos por trocas e foi interrompido. Importa porque o espaço do apartamento 50 passa a não ter limite, e o salão do baile que vem a seguir depende disso.
5.9D. Korôviev pede que ela não dispense a ninguém tratamento diferente, que não expresse no rosto qualquer antipatia, que não deixe ninguém escapar e que dê pelo menos um sorriso ou um aceno. A rainha do baile será recompensada, diz ele, e quem for desatendido pode adoecer. Importa porque é a regra da noite, e a cena que a quebra, com Frida, mostra o que Margarida faz com ela.
5.10 a 5.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Semana 6
6.1O que aconteceu.
Segunda Parte, capítulo 24: O resgate do mestreJá no quarto de
Woland,
Margarida janta com a comitiva.
Azazello mostra a pontaria atirando de costas, por cima do ombro, numa carta escondida sob o travesseiro.
Segunda Parte, capítulo 25: Como o procurador tentou salvar Judas de KeriothUma tempestade cai sobre Yerushalaim enquanto
Pôncio Pilatos, insone e nervoso, espera a visita de
Afrânio, o chefe de sua guarda secreta, recém-chegado do Gólgota. Depois de confirmar que
Yeshua Ha-Notzri está morto, Afrânio repete ao procurador a última coisa que o condenado disse, e é a frase que decide o destino de Pilatos no romance inteiro.
Segunda Parte, capítulo 26: O sepultamentoÀ noite, atormentado,
Pôncio Pilatos brinca com o cão Banga na varanda enquanto
Afrânio põe o plano em movimento: destaca soldados para fora da cidade, veste-se de civil e vai até a Cidade Baixa combinar algo com uma mulher chamada Niza. É Niza quem, horas depois, atrai
Judas de Kerioth para o jardim de Getsêmani com a promessa de um encontro, e o abandona ali. Dois homens saltam da escuridão, cravam a faca em Judas depois de arrancar-lhe a bolsa de trinta tetradracmas, e um terceiro, encapuzado, supervisiona a cena e entrega o bilhete que os assassinos embrulham junto com a bolsa.
Segunda Parte, capítulo 27: O fim do apartamento número 50De volta a Moscou,
Margarida termina ao amanhecer a leitura de um capítulo do romance do mestre, tranquila depois da noite do baile, sem qualquer perturbação pelo que viveu, enquanto num prédio oficial uma comissão de investigadores tenta reconstruir, depoimento por depoimento, os episódios provocados por
Woland e seu séquito. Os relatos se acumulam e se contradizem: Sempleiárov e sua sessão vergonhosa, Rímski fugido para Leningrado, Stiôpa Likhodiêiev devolvido de avião da Crimeia trajando pijama, Variênukha confessando aos poucos o encontro com os vampiros, Ánnuchka insistindo que a nota que recebeu era de dez rublos e não de dólares (ver
O dinheiro estrangeiro).
Segunda Parte, capítulo 28: As últimas aventuras de Korôviev e BehemothKorôviev e
Behemoth reaparecem no centro de Moscou e provocam dois incêndios em sequência. No primeiro, a loja Torgsin, Behemoth come frutas e doces do balcão sem pagar, Korôviev discursa em defesa do "pobre faminto" diante do público, e a confusão termina com a loja em chamas depois que o gato derrama a gasolina do fogareiro sobre o balcão.
6.2Temas da semana: Bem e mal, Sobrenatural, Perdão, Arte, Coragem e heroísmo, Poder, Amor.
6.3Woland, Segunda Parte, capítulo 24: O resgate do mestre.
Na despedida, Margarida não pede nada e se diz pronta a servir. Os olhos dela se enchem de lágrimas, e Woland grita, com a voz retumbante, que ela tem toda a razão, que aquilo era uma prova. Diz então a frase que resume a ética de toda a comitiva diante dos humanos: nunca peça nada, principalmente àqueles que são fortes, pois eles oferecem por conta própria e dão tudo também. Manda que ela se sente, mulher orgulhosa, e só depois pergunta o que ela quer como paga.
A máxima inverte a lógica do pedido. Quem pede se coloca em dívida e em posição inferior, e quem espera oferece o que tem de melhor. A frase soa menos como conselho de resignação do que como lição de dignidade: o poderoso reconhece quem não mendiga. Margarida passou no teste sem saber que estava sendo testada, e o orgulho dela, que Woland nomeia, é o que a faz merecer o direito de pedir.
O gesto de Margarida se liga ao que o livro faz com a justiça: o mestre, que recuou, será resgatado, e Pilatos, que tinha todo o poder, ficará preso. A frase combina com a recusa que Margarida acabara de fazer à oferta de Azazello e Behemoth de ir atrás de Latunski. Em Moscou, onde todos pedem, delatam e invejam, o diabo premia quem não pede. Pode-se ler aí uma oposição entre a cidade que negocia tudo e uma oferta que, no fim, é um dom.
6.4Korôviev, Segunda Parte, capítulo 28: As últimas aventuras de Korôviev e Behemoth.
Korôviev e Behemoth entram na loja Torgsin, onde um porteiro avisa que a venda é só com dinheiro estrangeiro. O gato come frutas e doces do balcão sem pagar, e Korôviev, diante do público, passa a defender o pobre faminto. Em vez de justificar o furto, ele expõe o critério de entrada: aponta para um gorducho de terno social lilás, inchado de tanto salmão, e diz que ele tem dinheiro estrangeiro, e o nosso, o nosso. Em seguida uiva, como um padrinho de casamento, que é amargura, amargura, amargura.
O alvo do discurso não é o vendedor, é o cliente que pode pagar. A frase mostra o que a loja faz: separa os que têm moeda estrangeira, que entram e comem salmão, dos que só têm rublos, que ficam do lado de fora. O efeito cômico vem de ouvir um demônio fingindo indignação social, e o efeito crítico, de a indignação ter um fundo de verdade. O leitor ri e, ao mesmo tempo, reconhece o critério.
A loja não é invenção: as lojas Torgsin existiram e vendiam comida a quem entregasse ouro, prata ou moeda estrangeira, e funcionaram durante a fome. A sátira só põe dois demônios na fila e deixa que o critério fale por si. O dinheiro estrangeiro, que no capítulo 9 e no sonho de Nikanor era armadilha, aparece aqui como regra de acesso. Pode-se ler que a frase fecha o percurso do símbolo: o que condena Nikanor é o que a loja exige, e o que ela exige faz de Moscou um lugar de privilégio.
6.5D. Woland diz que a estavam testando e só então pergunta o que ela quer por ter sido dona da casa. Ele a manda sentar de novo e a chama de mulher orgulhosa. Fica a pergunta para pensar: por que quem tem o poder de dar prefere que não lhe peçam?
6.6C. Pilatos pergunta A quem?, e Afrânio responde que ele não disse. Antes de morrer, o condenado agradece e não culpa ninguém. Fica a pergunta para pensar: o que significa agradecer e não culpar quem o condena?
6.7D. O narrador diz que Pilatos entende logo a origem do seu sofrimento, mas tenta enganar a si mesmo: quer se convencer de que as ações da noite valem tanto quanto a sentença da manhã, e o faz sem muita competência. Fica a pergunta: por que quem sabe que errou prefere acreditar que ainda pode compensar o erro, em vez de admitir o que não tem volta?
6.8A. O narrador diz que Margarida não se perturba com o baile, com o mestre devolvido nem com o romance que surgiu das cinzas: conhecer Woland não lhe trouxe prejuízo psíquico, e tudo está como se assim devesse ser. Pouco adiante, Rímski, Variênukha e Stiôpa pedem para ser trancados numa câmara blindada. Fica a pergunta: por que o mesmo sobrenatural enlouquece uns e deixa Margarida em paz?
6.9B. O porteiro avisa com voz rouca que a venda é só com dinheiro estrangeiro, e Korôviev pergunta se ele julga pelo terno e o ameaça com uma reclamação ao gerente. Importa porque é essa regra, e não a tangerina que Behemoth come, o alvo da fala de Korôviev logo depois.
6.10 a 6.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Semana 7
7.1O que aconteceu.
Segunda Parte, capítulo 29: O destino do mestre e de Margarida é decididoNo fim da tarde, no terraço de um dos prédios mais bonitos de Moscou,
Woland observa a cidade ao lado de
Azazello, comentando com ironia a fumaça que sobe da Casa Griboiêdov. É então que surge, vindo de trás da torre,
Mateus Levi, hostil e sujo, chamando Woland de "espírito do mal e soberano das sombras".
Segunda Parte, capítulo 30: Está na hora! Está na hora!O mestre e
Margarida acordam ao pôr do sol no subsolo, ainda incrédulos com a noite no baile de
Woland, e o mestre, que se diz um homem doente e miserável, pede que ela volte para casa; Margarida recusa.
Azazello chega, bebe conhaque com eles, transmite o convite de Woland para um passeio e entrega um Falerno que diz ser o vinho que o procurador da Judeia bebeu, e os três brindam a Woland.
Segunda Parte, capítulo 31: Nas colinas dos pardaisWoland,
Korôviev e
Behemoth esperam montados em cavalos pretos no alto da colina, olhando Moscou do outro lado do rio, e
Azazello chega com o
O mestre e
Margarida. Woland manda o mestre se despedir da cidade ("Está na nossa hora"), e ele caminha até a beira do abismo e sente, em sequência, tristeza, indiferença orgulhosa e por fim um pressentimento de paz permanente. Enquanto isso Behemoth, com o aval de Margarida, e depois Korôviev disputam quem assobia mais forte, e o assobio de Korôviev arranca um carvalho pela raiz, racha a terra até o rio e lança ao leito um pedaço da margem, sem ferir os passageiros do barco que passava. Assustado, o mestre volta correndo e diz a Woland que se despediu.
Segunda Parte, capítulo 32: Perdão e refúgio eternoO capítulo abre com uma invocação do próprio narrador, fora da voz de qualquer personagem, sobre o cansaço de quem carregou um fardo pesado pela terra.
EpílogoDepois que
Woland deixa a capital, no anoitecer de sábado, Moscou tenta explicar o inexplicável: a investigação atribui tudo a uma quadrilha de hipnotizadores e ventríloquos, com as suspeitas pesando sobre
Korôviev, capaz de convencer as pessoas de que coisas e gente estavam onde não estavam. A cidade prende dezenas de sobrenomes parecidos, mata gatos pretos por toda parte por suspeita de bruxaria, e nunca descobre quem era o "doente mental" sequestrado da clínica sob o número 118. Os personagens menores acomodam-se em destinos discretamente irônicos: Bengálski se aposenta incapaz de voltar ao palco, Stiôpa Likhodiêiev vira gerente de mercearia em Rostov, Rímski se demite para o teatro de bonecos, e Aloísi Mogarytch, o delator que denunciou o
O mestre por seu apartamento, termina exatamente no cargo que Rímski recusou, o de diretor financeiro do Teatro de Variedades.
7.2Temas da semana: Bem e mal, Sobrenatural, Perdão, Arte, Coragem e heroísmo, Amor.
7.3Woland, Segunda Parte, capítulo 29: O destino do mestre e de Margarida é decidido.
No terraço de um dos prédios mais bonitos de Moscou, Woland observa a cidade ao lado de Azazello e comenta com ironia a fumaça que sobe da casa Griboiêdov. Surge então Mateus Levi, hostil e sujo, que o chama de espírito do mal e soberano das sombras. Woland o corrige com uma pergunta: o que faria a sua bondade se não existisse a maldade, como seria a terra se dela sumissem as sombras? Em seguida lembra que as sombras são das pessoas e dos objetos, e mostra a da própria espada.
Pode-se ler a frase como resumo da função de Woland no romance: ele não é o oposto de Yeshua, é o que torna a bondade visível, porque sem contraste não haveria o que escolher. A pergunta de Woland é uma lição de lógica, e a imagem das sombras a torna física, embora Levi, que falava em tom de acusação, se recuse a discutir e o chame de velho sofista. Pode-se ler que o livro vê o mal como parte da ordem, não como erro dela.
Esse argumento é o contraponto da tese de Yeshua. Para Yeshua, não há pessoas más. Para Woland, não há bem sem mal. O livro deixa os dois sem síntese. O diálogo mostra também o tom do capítulo, em que os dois lados negociam o destino do mestre como diplomatas, e não como inimigos. A frase sugere a relação entre os dois mundos, o de Yeshua e o de Woland, como uma divisão de funções, não de forças.
7.4O mestre (no sonho de Ivan), Epílogo.
Depois de sonhar com Pilatos e Yeshua, Ivan sonha com o mestre e Margarida. A trilha lunar ferve e dela jorra um rio lunar, em que se forma uma mulher de beleza infinita que leva Ivan pela mão até o homem de barba, o paciente do quarto 118, seu visitante noturno. Ivan estende as mãos para ele no sonho e pergunta avidamente se terminou assim. O mestre responde que sim, chamando-o de discípulo. Margarida beija a testa de Ivan, e tudo, diz ela, será como deve ser.
A frase tem a simplicidade de uma confirmação de que o drama acabou. A palavra discípulo faz de Ivan o herdeiro do mestre, e a resposta pode ser lida como um adeus tardio: no capítulo 30, o mestre já o chamara de discípulo ao se despedir. A repetição transforma o sonho em ritual. Ivan, que começou o livro como poeta que escrevia por encomenda e negava o diabo, termina como o homem que carrega, sem escolha, o que viu.
O Epílogo dá ao leitor duas versões do mundo: a oficial, em que hipnotizadores explicam tudo, e a de Ivan, em que o sonho guarda o que a razão descartou. A frase do mestre fica entre as duas. Pode-se ler que o romance termina num gesto de transmissão: o mestre, que desistiu da obra, a entregou a quem a repetirá, e o beijo na testa é o selo. A data que fecha o texto, de 1929 a 1940, marca os onze anos de composição do livro.
7.5B. Woland pergunta o que faria a bondade de Levi se não existisse a maldade e como seria a terra sem sombras. Lembra que as sombras não são só das pessoas e dos objetos, mas também das árvores e das coisas vivas: sem elas, seria preciso devastar o globo e deixá-lo nu, só por fantasia. Fica a pergunta: o que seria da bondade num mundo sem aquilo que lhe faz sombra?
7.6B. O mestre diz a Margarida que não teme nada porque já passou por tudo: assustaram-no com muita coisa e agora não podem mais assustá-lo. Teme só por ela, e por isso manda que volte para casa. Margarida chora e responde que ele a manda embora depois de tudo o que ela fez por ele. Fica a pergunta: o que sobra de uma pessoa que já não se pode assustar com nada?
7.7B. Woland diz que tiveram de incomodá-los, que não vão ficar zangados nem se arrepender, e pede ao mestre que se despeça da cidade, porque está na hora. Importa porque a despedida é o centro do capítulo: a viagem só começa depois dela.
7.8C. Woland diz que o cavaleiro, certa vez, fez uma brincadeira infeliz, um trocadilho sobre a luz e as trevas, e por isso teve de brincar mais tempo do que supôs; hoje é a noite do acerto de contas, e ele pagou e fechou a sua conta. Fica a pergunta: por que uma brincadeira sobre luz e trevas, dita à toa, cobra tanto, e o que isso diz sobre falar de leve de coisas graves?
7.9B. As pessoas cultas defendiam o ponto de vista da investigação: era uma quadrilha de hipnotizadores e ventríloquos. O narrador lembra, porém, que o fato era fato: alguém tinha estado em Moscou, e os restos carbonizados da casa Griboiêdov confirmavam. Fica a pergunta: o que uma explicação por hipnose consegue explicar, e o que ela precisa deixar de fora?
7.10 a 7.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Personagens
P1O mestre. Historiador e tradutor que ganhou cem mil rublos numa bonificação de loteria, largou o museu, alugou dois cômodos no subsolo de uma casinha perto da Arbat e passou a escrever, isolado, um romance sobre Pôncio Pilatos. Recusa o próprio nome e se apresenta pelo título que a amada lhe deu.
Como muda
No capítulo 13 entra à noite pela varanda do quarto de Ivan no hospício, ouve o relato de Patriarchi Prudý e conta a própria história: o encontro na rua com a mulher das flores amarelas, o romance recusado, os artigos de Ariman, Latunski e Mstislav Lavrôvitch, o medo do escuro, o manuscrito (ver O manuscrito) queimado no forno numa noite de outubro e a internação voluntária na clínica de Stravinski (ver A clínica de Stravinski).
No capítulo 24 é trazido do hospício ao quarto de Woland, ainda de roupão e gorro, a pedido de Margarida. Behemoth tira o romance intacto de baixo do próprio corpo, a comitiva apaga o rastro de Aloísi Mogarytch, o vizinho que o denunciou para tomar o apartamento, e o casal volta ao porão da Arbat.
No capítulo 29 o destino dele é decidido sem a presença dele, no terraço, pelo recado que Mateus Levi traz a Woland.
No capítulo 30 bebe o Falerno de Azazello, morre com Margarida e despede-se de Ivan no hospital; no capítulo 31 sente nas colinas dos Pardais o "pressentimento de paz permanente"; e no capítulo 32, diante de Pilatos, recebe de Woland a decisão sobre ele e o liberta com uma frase. Depois segue para a casa eterna, enquanto a memória dele, "perfurada de agulhas", começa a se apagar.
No Epílogo volta nos sonhos de Ivan, ao lado de Margarida.
P2Margarida. Margarida Nikoláievna, trinta anos, casada com um marido rico e bom a quem não ama, que vive há meses de luto pelo mestre, desaparecido depois de queimar o romance. No capítulo 13 ela aparece o tempo todo sem nome, só como "ela"; a partir do capítulo 19 é quem conduz a ação, e é por ela que as duas tramas do livro se encontram.
Como muda
No capítulo 13, pela voz do mestre, é a desconhecida das flores amarelas, que passa a visitá-lo todos os dias, lê os manuscritos, começa a chamá-lo de mestre e chega a tempo de salvar do fogo só um maço de folhas queimadas.
No capítulo 19 aceita o convite de Azazello sem saber a quem se entrega; no capítulo 20 passa o creme, rejuvenesce, escreve o bilhete ao marido e sai voando. No capítulo 21 destrói o apartamento de Latunski com um martelo e para diante de um menino assustado no escuro. No capítulo 22 é escolhida entre cento e vinte e uma Margaridas de Moscou e no capítulo 23 preside o baile da lua (ver A lua) cheia; no capítulo 24, na hora da paga, pede primeiro por Frida; só no segundo pedido, concedido de graça, pede o mestre.
No capítulo 29, no terraço, Mateus Levi pede que ela, que amou e sofreu pelo mestre, seja levada junto com ele.
No capítulo 30 morre com o mestre depois do brinde com o Falerno de Azazello; no capítulo 31 olha para trás nas colinas dos Pardais e já não vê Moscou; no capítulo 32 pede clemência para Pilatos e guia o mestre até a casa eterna pela ponte de pedra. No Epílogo aparece com o mestre nos sonhos de Ivan e o beija na testa.
P3Woland. Estrangeiro de olhos desparelhados, um verde e um preto, que chega a Moscou como consultor contratado para decifrar os manuscritos do necromante Gerbert D'Aurillac e diz ser especialista em magia negra. Do cartão de visita, Ivan só consegue ler a inicial do sobrenome, um "W"; o nome inteiro ele mesmo dá a Stiopa Likhodêiev no apartamento 50 (ver O apartamento 50), e é o mestre quem diz a Ivan quem ele é.
Como muda
No capítulo 1 senta-se ao lado de Berlioz e Ivan em Patriarchi Prudý, lembra a sexta prova de Kant, que ele diz ter criticado ao próprio Kant num café da manhã, anuncia a Berlioz a morte e o óleo de Ánnuchka; no capítulo 2 narra o interrogatório de Pilatos como quem estava lá.
No capítulo 7 aparece ao lado da cama de Stiopa com um contrato de sete apresentações no Teatro de Variedades, instala a comitiva no apartamento 50 e, no capítulo 12, na sessão de magia negra, depois da chuva de dinheiro sobre a plateia, dá o veredito sobre os moscovitas.
No capítulo 18 recebe Sókov, o gerente da lanchonete do teatro, pergunta quanto ele tem de economia e quando pretende morrer, e uma voz do quarto ao lado anuncia prazo e causa da morte, com a mesma segurança com que Woland sentenciara Berlioz.
No capítulo 22 Margarida o encontra deitado, doente, numa camisa suja e remendada, com Hella cuidando do joelho. No capítulo 23, no fim do baile, recebe num prato a cabeça de Berlioz (ver A cabeça de Berlioz), que transforma em taça; no capítulo 24, depois do jantar, quando Margarida gasta o pedido perdoando ela mesma Frida, declara que aquilo não conta, porque ele não fez nada, e lhe pergunta o que deseja para si; e recusa a explicação do mestre de que o romance foi destruído no fogo.
No capítulo 29 observa do terraço a fumaça da Casa Griboiêdov, recebe Mateus Levi, que o chama de "espírito do mal e soberano das sombras", e concorda em levar consigo o mestre e Margarida.
No capítulo 31 espera o casal a cavalo nas colinas dos Pardais; no capítulo 32 apresenta o homem da poltrona de pedra, devolve ao mestre a decisão sobre ele e oferece ao mestre não Yerushalaim nem Moscou, mas a casa com parreiras e música de Schubert.
P4Korôviev. Homem alto de pincenê quebrado, da comitiva de Woland, que se apresenta como intérprete dele e, no Teatro de Variedades, também como Fagot. É ele quem negocia o apartamento 50 (ver O apartamento 50) com Nikanor Ivânovitch e quem recebe Margarida para o baile, e no capítulo 32 a lua (ver A lua) revela por baixo dele um cavaleiro sombrio que paga por "uma brincadeira infeliz" com um trocadilho sobre luz e trevas.
Como muda
No capítulo 4 aparece, junto ao estrangeiro, um sujeito de roupa xadrez e pincenê rachado que se apresenta como ex-regente de coral, ainda sem nome.
No capítulo 7 aparece no espelho de Stiopa Likhodêiev; no capítulo 9 recebe Nikanor Ivânovitch sentado à mesa do finado Berlioz, aluga o apartamento 50 por uma semana, põe-lhe na mão um maço extra de rublos e depois o denuncia por telefone, passando-se por um vizinho: o maço vira dólares (ver O dinheiro estrangeiro) e Nikanor é preso. No capítulo 12, na sessão de magia negra, está no palco ao lado de Woland e Behemoth.
No capítulo 17 ele mesmo, de calça xadrez e pincenê quebrado, faz-se de regente e deixa os funcionários de uma filial administrativa cantando em coro sem conseguir parar, e no capítulo 18 é ele quem recebe Poplavski no apartamento 50 com um choro teatral.
No capítulo 22 recebe Margarida com uma lamparina, explica a quinta dimensão que faz caber um salão de baile no apartamento e a condição de que a dona do baile se chame Margarida. No capítulo 24, depois do baile, joga na lareira o prontuário do mestre, decretando que quem não tem documento não existe, e apaga Aloísi Mogarytch do livro de registro residencial.
No capítulo 28 reaparece com Behemoth no centro de Moscou: na loja Torgsin discursa em defesa do "pobre faminto", e na Griboiêdov a dupla assina com os nomes trocados de dois críticos do século XIX, Panáev e Skabitchévski. No capítulo 29 volta ao terraço com Behemoth, que traz um cálice, um avental chamuscado e um salmão.
No capítulo 31 disputa com Behemoth quem assobia mais forte nas colinas dos Pardais, e o assobio dele arranca um carvalho pela raiz e racha a terra até o rio. No Epílogo, a investigação de Moscou atribui tudo a uma quadrilha de hipnotizadores, e as suspeitas pesam sobre ele.
P5Behemoth. O gato preto enorme da comitiva de Woland, que anda nas patas traseiras, joga xadrez com peças vivas e fala. Aparece mais por episódios do que por falas; a fala que se atribui a ele sem ambiguidade é a do tiroteio no apartamento 50 (ver O apartamento 50). No capítulo 32 a lua (ver A lua) revela por baixo dele um jovem pajem demoníaco.
Como muda
No capítulo 4 aparece, junto ao estrangeiro, um gato preto enorme que anda nas patas traseiras e tenta pagar o bonde com uma moeda, ainda sem nome.
No capítulo 7 está na comitiva que decreta que Stiopa sobra no apartamento 50, no capítulo 10 arrasta Variênukha com Azazello e, no capítulo 12, na sessão de magia negra, arranca a cabeça do mestre de cerimônias Bengálski, devolvida ilesa quando a plateia pede perdão por ele.
No capítulo 18 exige o passaporte de Poplavski, nega-lhe direito à herança e chama Azazello para expulsá-lo.
No capítulo 22 joga xadrez com peças vivas quando Margarida chega e, no capítulo 24, no quarto de Woland, tira de baixo do próprio corpo o romance do mestre, intacto.
Antes da partida do casal, é ele quem dita a Hella a declaração que Nikolai Ivânovitch exige para a polícia e para a esposa, e a assina.
No capítulo 27 é o único que a equipe armada encontra no apartamento 50: troca tiros sem ferir ninguém, finge-se ferido, cura-se com gasolina do fogareiro, incendeia o apartamento e foge pela janela. No capítulo 28, com Korôviev, come sem pagar na loja Torgsin e a incendeia derramando a gasolina do fogareiro; na Griboiêdov, o fogo do fogareiro queima a casa inteira.
No capítulo 31 disputa com Korôviev quem assobia mais forte nas colinas dos Pardais. No voo noturno do capítulo 32, a noite lhe arranca o rabo e o pelo, e o narrador diz o que ele era.
P6Azazello. Membro da comitiva de Woland, ruivo e de canino aparente, que aparece quase só pelo que executa: convites, expulsões, uma morte no baile e o vinho final. É quem vai buscar Margarida e quem a leva, com o mestre, para fora de Moscou.
Como muda
No capítulo 7 aparece com a comitiva no quarto de Stiopa Likhodêiev e, no capítulo 10, com Behemoth, arrasta Variênukha até o apartamento 50 (ver O apartamento 50).
No capítulo 18 é chamado pelo gato para expulsar Poplavski do apartamento 50.
No capítulo 19 aborda Margarida perto do cortejo de Berlioz e entrega-lhe o creme numa caixinha de ouro; no capítulo 23 mata no baile o barão Meigel, delator e espião; e no capítulo 24 acompanha de carro o mestre e Margarida até o pátio do porão da Arbat. No jantar depois do baile, ainda no capítulo 24, de costas para o travesseiro e sem se virar, acerta com um tiro a carta que Margarida marcou e Hella escondeu sob o travesseiro.
No capítulo 29 está no terraço com Woland quando Mateus Levi chega, e é a ele que Woland manda resolver o destino do casal.
No capítulo 30 leva ao subsolo um Falerno que diz ser o vinho do procurador da Judeia, brinda com o casal a Woland e, depois que os dois morrem, leva-os, no capítulo 31, às colinas dos Pardais.
No voo do capítulo 32, a lua (ver A lua) desfaz o canino e o olho torto, que se revelam falsos, e mostra a figura verdadeira dele.
Temas
T1Bem e mal: a epígrafe e a tese de que Woland não corrompe, só dá a cada um o que já queria, em
Segunda Parte, caps. 25-29 - Judas de Kerioth e o fim do apartamento 50.
Aparece em: Primeira Parte, capítulo 2: Pôncio Pilatos; Primeira Parte, capítulo 9: Truques de Korôviev; Primeira Parte, capítulo 12: Magia negra e sua revelação; Primeira Parte, capítulo 15: O sonho de Nikanor Ivânovitch; Primeira Parte, capítulo 16: A execução; Primeira Parte, capítulo 18: Os visitantes azarados; Segunda Parte, capítulo 21: O voo; Segunda Parte, capítulo 22: À luz de velas; Segunda Parte, capítulo 23: O grande baile de satanás; Segunda Parte, capítulo 26: O sepultamento; Segunda Parte, capítulo 28: As últimas aventuras de Korôviev e Behemoth; Segunda Parte, capítulo 29: O destino do mestre e de Margarida é decidido.
T2Sobrenatural: a cidade que decidiu que o diabo não existe, a aposta de Berlioz no
capítulo 1 e a investigação do
Epílogo.
Aparece em: Primeira Parte, capítulo 1: Nunca falem com estranhos; Primeira Parte, capítulo 3: A sétima prova; Primeira Parte, capítulo 4: A perseguição; Primeira Parte, capítulo 6: Esquizofrenia, como foi dito; Primeira Parte, capítulo 7: Um apartamento sinistro; Primeira Parte, capítulo 8: O duelo entre o professor e o poeta; Primeira Parte, capítulo 10: Notícias de Ialta; Primeira Parte, capítulo 11: A duplicação de Ivan; Primeira Parte, capítulo 12: Magia negra e sua revelação; Primeira Parte, capítulo 13: Surge o herói; Primeira Parte, capítulo 14: Glória ao galo!; Primeira Parte, capítulo 17: O dia intranquilo; Primeira Parte, capítulo 18: Os visitantes azarados; Segunda Parte, capítulo 20: O creme de Azazello; Segunda Parte, capítulo 22: À luz de velas; Segunda Parte, capítulo 23: O grande baile de satanás; Segunda Parte, capítulo 27: O fim do apartamento número 50; Segunda Parte, capítulo 30: Está na hora! Está na hora!; Segunda Parte, capítulo 31: Nas colinas dos pardais; Epílogo.
T3Perdão: Pilatos solto depois de dois mil anos, no
capítulo 32.
Aparece em: Primeira Parte, capítulo 12: Magia negra e sua revelação; Segunda Parte, capítulo 23: O grande baile de satanás; Segunda Parte, capítulo 24: O resgate do mestre; Segunda Parte, capítulo 32: Perdão e refúgio eterno; Epílogo.
T4Arte: o manuscrito queimado no
capítulo 13 e devolvido intacto no
capítulo 24.
Aparece em: Primeira Parte, capítulo 1: Nunca falem com estranhos; Primeira Parte, capítulo 5: Aconteceu na Griboiêdov; Primeira Parte, capítulo 6: Esquizofrenia, como foi dito; Primeira Parte, capítulo 13: Surge o herói; Segunda Parte, capítulo 21: O voo; Segunda Parte, capítulo 24: O resgate do mestre; Segunda Parte, capítulo 28: As últimas aventuras de Korôviev e Behemoth; Segunda Parte, capítulo 29: O destino do mestre e de Margarida é decidido; Segunda Parte, capítulo 30: Está na hora! Está na hora!; Segunda Parte, capítulo 32: Perdão e refúgio eterno.
T5Coragem e heroísmo: a covardia como o pior defeito, de Yeshua a Pilatos e ao recuo do mestre, nos capítulos
25,
29 e
32.
Aparece em: Primeira Parte, capítulo 2: Pôncio Pilatos; Primeira Parte, capítulo 13: Surge o herói; Primeira Parte, capítulo 16: A execução; Segunda Parte, capítulo 25: Como o procurador tentou salvar Judas de Kerioth; Segunda Parte, capítulo 26: O sepultamento; Segunda Parte, capítulo 29: O destino do mestre e de Margarida é decidido; Segunda Parte, capítulo 32: Perdão e refúgio eterno.
T6Poder: a frase de Yeshua sobre o poder no
capítulo 2 e a covardia diante dele no
capítulo 32.
Aparece em: Primeira Parte, capítulo 2: Pôncio Pilatos; Primeira Parte, capítulo 15: O sonho de Nikanor Ivânovitch; Primeira Parte, capítulo 16: A execução; Primeira Parte, capítulo 17: O dia intranquilo; Segunda Parte, capítulo 25: Como o procurador tentou salvar Judas de Kerioth; Segunda Parte, capítulo 26: O sepultamento.
T7Amor: Margarida, que vai buscar o mestre ao custo de virar bruxa e rainha do baile, nos capítulos
13,
20 e
23.
Aparece em: Primeira Parte, capítulo 13: Surge o herói; Segunda Parte, capítulo 19: Margarida; Segunda Parte, capítulo 20: O creme de Azazello; Segunda Parte, capítulo 21: O voo; Segunda Parte, capítulo 24: O resgate do mestre; Segunda Parte, capítulo 29: O destino do mestre e de Margarida é decidido; Segunda Parte, capítulo 30: Está na hora! Está na hora!; Segunda Parte, capítulo 32: Perdão e refúgio eterno.
Fechamento: perguntas abertas, sem gabarito.