Clavis Libri · Caderno de estudos
Mikhail Bulgákov
Um caderno para ler o livro em 7 semanas: o que aconteceu, os temas, as citações, as questões e as perguntas para pensar.
Leia os capítulos da semana e depois responda à seção dela. Cada exercício tem um número; no fim do caderno, o gabarito traz a resposta com o mesmo número.
As perguntas "para discutir" não têm resposta certa: servem para pensar e conversar. As questões de múltipla escolha e a identificação das citações têm.
Semana 1 · Primeira Parte, capítulo 1: Nunca falem com estranhos a Primeira Parte, capítulo 5: Aconteceu na Griboiêdov
Ao ler, observe: Repare em quem, em Moscou, só acredita no que pode ser provado, e em como o estrangeiro se diverte com isso.
É, o ser humano é mortal, mas isso ainda seria só metade da desgraça. O ruim é que às vezes ele é mortal de repente, aí é que mora o perigo! E em geral ele não pode nem dizer o que fará na tarde de hoje.
…logo compreendia como era boa a vida dos felizardos membros da Massolit e logo começava a se morder de inveja, atormentado. E logo dirigia queixas amargas aos céus por não tê-lo premiado, ao nascer, com o talento literário, sem o qual, naturalmente, não podia nem sonhar em ser dono de uma carteirinha de membro da Massolit, cor de café, que cheira a couro caro e tem um largo debrum dourado
Por que o romance escolhe fazer a profecia mais exata da obra ser dita por um estrangeiro sem nome, a dois homens que acabaram de negar que exista qualquer poder além do humano?
A notícia da morte de Berlioz faz a banda de jazz silenciar, mas logo "estamos vivos, ora!" passa a valer mais do que o luto, e o restaurante volta à sua noite normal. O que essa rapidez diz sobre a Massolit, e como o narrador espera que o leitor reaja?
Semana 2 · Primeira Parte, capítulo 6: Esquizofrenia, como foi dito a Primeira Parte, capítulo 10: Notícias de Ialta
Ao ler, observe: Repare como cada um explica o estranho com a desculpa que mais o protege.
O problema não é que sejam ofensivas, e sim que encerram a verdade.
Deixe eu lhe dar um beijinho
O médico pergunta a Ivan pela vela e pelo ícone e depois diz a Riúkhin que se trata de esquizofrenia, com alcoolismo por cima. O que a cena mostra sobre o que acontece com quem conta uma verdade impossível a quem só sabe escutar por sintomas?
O capítulo termina com a fala da moça ruiva, "Deixe eu lhe dar um beijinho", e com o desmaio de Variênukha antes de o beijo acontecer. Por que o narrador interrompe a cena nesse ponto, e o que isso faz com o medo e com a comédia?
Semana 3 · Primeira Parte, capítulo 11: A duplicação de Ivan a Primeira Parte, capítulo 14: Glória ao galo!
Ao ler, observe: Repare no que o público do teatro revela quando recebe de graça o que deseja.
Um idiota!
O galo, com a voz treinada, cocoricava anunciando que o dia se aproximava de Moscou vindo do leste.
Ivan desiste da denúncia porque cada versão tropeça na palavra "falecido" aplicada a Berlioz. O que essa dificuldade revela sobre a distância entre saber que algo aconteceu e conseguir dizê-lo na linguagem oficial?
Rímski só escapa porque um galo canta, e depois foge de trem para Leningrado. O que o capítulo diz sobre o papel do acaso e da ordem natural diante das forças que o romance pôs em cena?
Semana 4 · Primeira Parte, capítulo 15: O sonho de Nikanor Ivânovitch a Primeira Parte, capítulo 18: Os visitantes azarados
Ao ler, observe: Repare em como o medo decide o que cada um faz, tanto em Jerusalém quanto em Moscou.
Uma criança, uma carta anônima, um panfleto, uma bomba-relógio e sabe-se lá o que mais, mas ninguém se desfaria de quatrocentos dólares
Não seria melhor organizar uma festa com esses vinte e sete mil e, depois de tomar veneno, passar para o outro mundo sob o som de cordas, cercado de belas mulheres embriagadas e amigos alegres?
No sonho de Nikanor, o animador pede que a plateia entregue o dinheiro estrangeiro: quem confessa é aplaudido, e quem nega é desmentido pela própria amante. Que retrato de uma sociedade essa cena compõe, e por que o romance o mostra em sonho?
Woland pergunta a Sókov "Quanto tem de economia?" e depois propõe organizar uma festa com o dinheiro antes da morte. A proposta é cínica, sensata ou as duas coisas, e o que ela revela sobre o modo como Woland julga os moscovitas?
Semana 5 · Segunda Parte, capítulo 19: Margarida a Segunda Parte, capítulo 23: O grande baile de satanás
Ao ler, observe: Repare no que Margarida aceita perder para reencontrar quem ama.
Quem lhe disse que não existe no mundo o verdadeiro, o fiel, o eterno amor? Pois que cortem a língua desse mentiroso infame!
Isso é fato. E um fato é a coisa mais teimosa do mundo.
Margarida vive com um marido rico e bom, e o narrador diz dela: "Tinha que ou esquecê-lo, ou morrer." O que essa alternativa extrema diz sobre o tipo de amor que o romance põe em cena?
Woland diz à cabeça de Berlioz que existe uma teoria segundo a qual "a cada um é dado de acordo com a sua crença" e o manda para a inexistência. Que tipo de justiça é essa, que dá a Berlioz exatamente o que ele sustentava, e é castigo ou cumprimento do que ele queria?
Semana 6 · Segunda Parte, capítulo 24: O resgate do mestre a Segunda Parte, capítulo 28: As últimas aventuras de Korôviev e Behemoth
Ao ler, observe: Repare em quem pede algo para si e em quem pede pelos outros.
Nunca peça nada! Nunca peça nada, principalmente àqueles que são fortes. Eles vão oferecer por conta própria e darão tudo também.
…está trajando um terno social lilás, está inchado de tanto salmão, mas tem dinheiro estrangeiro, e o nosso, o nosso?!
Woland diz: "Nunca peça nada, principalmente àqueles que são fortes." Logo depois, o primeiro pedido de Margarida é por Frida, não pelo mestre. O que a máxima de Woland e a escolha de Margarida dizem, cada uma, sobre o que vale pedir e a quem?
Na Casa Griboiêdov, Korôviev protesta contra o pedido de documentos dizendo: "Não são as identidades que definem um escritor, mas aquilo que ele escreve!" Por que a frase soa tão certa e, dita por ele naquele lugar, tão irônica?
Semana 7 · Segunda Parte, capítulo 29: O destino do mestre e de Margarida é decidido a Epílogo
Ao ler, observe: Repare na diferença entre receber a luz e receber a paz.
…o que faria a sua bondade se não existisse a maldade, como seria a terra se dela sumissem as sombras
Terminou assim, meu discípulo
Woland pergunta a Levi o que faria a bondade dele "se não existisse a maldade" e como seria a terra sem as sombras. O argumento convence, e o que ele deixa de fora?
Aloísi Mogarytch, o vizinho que denunciou o mestre para ficar com o apartamento dele, acaba no cargo de diretor financeiro do Teatro de Variedades, que Rímski recusou. O que esse destino diz sobre o que o romance pensa dos delatores e da justiça, e é ironia, castigo ou outra coisa?
Depois de ler o livro inteiro
Para cada personagem, diga quem é e como muda do começo ao fim do livro.
| Personagem | Quem é | Como muda |
|---|---|---|
| P1 O mestre | ||
| P2 Margarida | ||
| P3 Woland | ||
| P4 Korôviev | ||
| P5 Behemoth | ||
| P6 Azazello |
Para cada tema, anote dois ou três momentos do livro em que ele aparece e escreva, em poucas linhas, o que o livro diz sobre ele.
Perguntas sobre a obra inteira. Escolha uma e responda num texto de 20 a 30 linhas.
cabeça doendo, "pensa na morte")?Palavras do livro que podem travar a leitura, explicadas. Para consultar quando aparecerem.
Massolit. Sigla, em russo, de "literatura de massa": nome inventado pelo romance para uma associação de escritores de Moscou, sob tutela do Estado soviético. Era modelada em organizações reais da época, que regulavam o que os escritores publicavam e, portanto, como viviam. Distribuía carteirinha de membro, licenças criativas, casas de veraneio, restaurante e temporadas em balneários como Ialta.
Procurador. Título de certos funcionários da Roma antiga, que não eram magistrados, encarregados das finanças de uma província ou do governo de uma província imperial menor. O cargo era da ordem equestre, e não da senatorial. O historiador Tácito chama Pôncio Pilatos de procurador da Judeia, embora a inscrição da chamada Pedra de Pilatos o dê como prefeito.
Sumo sacerdote. Chefe religioso do Templo de Jerusalém e presidente do Sinédrio, o órgão supremo de governo e justiça da comunidade judaica. Sob o domínio romano, as autoridades de Roma nomeavam e depunham os sumos sacerdotes, e o cargo mudava de mãos com frequência. Caifás foi nomeado em 18 d.C. e ficou no posto cerca de dezoito anos, até ser deposto.
Páscoa. Festa judaica de Pessach, que lembra a saída dos hebreus do Egito e cai na primavera. Começa ao pôr do sol que encerra o dia 14 de Nissan, primeiro mês do calendário religioso judaico, e o dia 15 é o primeiro da festa. Segundo os Evangelhos, Pilatos tinha o costume de soltar um preso nessa festa; fora deles o costume não é atestado.
Hegemon. Palavra grega que significa guia, chefe, governante. No Novo Testamento passou a designar autoridades romanas, como procuradores, prefeitos e legados. É o tratamento que o prisioneiro é obrigado a usar ao falar com o procurador romano no interrogatório, e que depois volta nas falas dele.
Casa Griboiêdov. Nome do sobrado de Moscou onde fica a sede da Massolit, dito ter pertencido a uma tia do dramaturgo Aleksandr Griboiêdov (1795-1829), poeta e diplomata russo. A casa não existiu: inspira-se na Casa Herzen, no número 25 do Bulevar Tverskoi, que abrigou organizações de escritores nos anos 1920 e, até 1931, um restaurante para escritores.
Loteria. Na União Soviética, os cidadãos eram obrigados a comprar bilhetes do Estado no local de trabalho. Como incentivo, o Estado sorteava de tempos em tempos alguns números desses bilhetes, e os vencedores recebiam uma quantia significativa. A palavra, aqui, remete a esse sorteio estatal ligado aos bilhetes, e não a um jogo de azar comum.
Gólgota. Colina fora da cidade de Jerusalém onde, segundo os quatro Evangelhos, Jesus foi crucificado. O nome vem do aramaico e significa caveira, talvez por uma pilha de crânios ou pelo formato do terreno. O local tradicional está hoje dentro da Igreja do Santo Sepulcro, construída por ordem de Constantino entre 326 e 335.
Tetradracma. Grande moeda de prata nascida na Grécia antiga, equivalente a quatro dracmas, como diz o próprio nome. No padrão ático pesava cerca de 17 gramas. Tornou-se a principal moeda de comércio do Mediterrâneo e serviu de dinheiro internacional, usada sobretudo em pagamentos de valor alto.
Torgsin. Rede estatal soviética de lojas, criada em 1931 e extinta em 1936, cujo nome vem de "comércio com estrangeiros". Trocava alimentos e outros bens de consumo por moeda estrangeira, ouro, prata e pedras preciosas, primeiro só para estrangeiros e, depois, para qualquer cidadão que tivesse esses valores. Em 1º de janeiro de 1934 somava 1.477 pontos de venda.
Gabarito
Num fim de tarde quente, em Patriarchi Prudý, Berlioz, editor e presidente da associação literária Massolit, repreende o jovem poeta Ivan por ter escrito um poema antirreligioso em que Jesus aparece com traços negativos: o certo seria negar que ele tenha existido. Um estrangeiro de olhos desparelhados se junta à conversa, defende uma das provas clássicas da existência de Deus e pergunta quem, então, administra a vida humana. Berlioz, ateu, já preparava a réplica do bom senso, a de que o homem é mortal, mas nem chega a dizê-la: o estrangeiro se adianta e responde à objeção antes que ela seja pronunciada.
O que ela faz é acrescentar um advérbio. Ninguém discute que o ser humano morre; o que o estrangeiro aponta é que ele morre de repente e que não sabe nem o que fará à tarde. A frase sugere que a questão do capítulo não é a mortalidade, e sim a impossibilidade de administrar o próprio prazo: quem não responde pela própria tarde dificilmente governa coisa alguma. É dessa brecha que sai a pergunta sobre quem manda na vida de cada um.
O livro não responde a Berlioz com um argumento, responde com um acontecimento. Minutos depois, ele escorrega no óleo de girassol derramado e morre sob um bonde, sem chegar à reunião marcada para aquela noite. A frase, que soa como conversa de bar, pode ser lida como a primeira prova de que o interlocutor sabe mais do que diz, e abre o tema do sobrenatural: a cidade que decidiu que o diabo não existe vai passar o romance inteiro tentando explicar o que não cabe em suas explicações.
O capítulo descreve a casa Griboiêdov, onde funcionam os escritórios e o melhor restaurante de Moscou, ambos ligados à Massolit. O narrador se demora no efeito que a sede produz sobre o visitante de fora: ele sente inveja dos membros e se queixa dos céus por não ter nascido com talento literário, sem o qual não poderia sonhar com uma carteirinha de couro e debrum dourado. A frase fala em tom de pena, quase de simpatia, pelo infeliz que não tem talento e, por isso, não tem acesso a nada.
A ironia mora no que o narrador finge admitir, que o privilégio seria prêmio de talento literário. O capítulo mostra que a Massolit não distribui nada por talento: o que se inveja ali é uma carteirinha, e a frase permite que o leitor veja que o objeto desejado é o cartão, não a obra. O narrador parece defender a ordem das coisas, e é justamente assim que a desmonta. O talento aparece como uma exigência de fachada, e o privilégio, como o que realmente importa.
A mesma sede vai receber Berlioz, que não chega à reunião das dez, e Ivan, descalço, de ceroulas e com a vela acesa, aos gritos. A notícia da morte de Berlioz interrompe o jazz por poucos minutos, e a noite volta ao normal. A frase pode ser lida como a chave dessa sátira: a literatura soviética do livro funciona como uma repartição de benefícios. É nesse mundo que o romance do mestre, mais adiante, será recusado e atacado.
1.10 a 1.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Riúkhin, poeta que ajudou a levar Ivan amarrado até a clínica, volta sozinho para Moscou num caminhão, remoendo os xingamentos que o amigo lhe jogou. O que ele sente, descobre, não é raiva da grosseria. É o desconforto de alguém que ouve de um doente a descrição exata do que não ousava admitir. A frase diz isso com economia: as ofensas não doem por serem ofensas, doem por conterem a verdade.
O momento é importante porque quem ouve a verdade é um poeta de carreira feita, e quem a diz é o internado. Riúkhin entende que Ivan, delirando, acertou. A cena mostra o avesso do que o capítulo narra: enquanto o médico examina Ivan e pergunta pela vela e pelo ícone, pode-se ler que o doente é, antes, a relação de Riúkhin com a própria arte.
Passando diante da estátua de Púchkin, Riúkhin se convence de que a glória nunca virá a quem escreve mal e de que ele não acredita numa palavra do que escreve. O romance liga assim o tema da arte a um critério de honestidade: o que importa é o que o autor crê, não o que a repartição aceita. É a pergunta que o livro depois parece fazer ao mestre, que escreve por convicção, perde tudo e, mesmo assim, recebe de volta o manuscrito.
No Teatro de Variedades, Rímski e Variênukha tentam localizar Stiôpa, que sumiu, enquanto telegramas cada vez mais delirantes chegam de Ialta com a letra dele. Variênukha, que devia levá-los à polícia, é arrastado por Azazello e Behemoth até o apartamento 50. No vestíbulo, uma jovem totalmente nua, ruiva e de olhos fosforescentes, põe as mãos geladas em seus ombros e fala com ternura. O que ela diz é um pedido de beijo, feito num tom que seria de namorada e que aqui é o do pavor.
A graça cruel da frase está na distância entre o que se diz e o que se vive. A fala é doce, quase brincalhona, e o corpo de Variênukha responde com o horror que a situação pede: os cabelos se encrespam, ele sente o frio das mãos através da camisa e desmaia antes do beijo. O narrador interrompe a cena ali, e a interrupção faz a comédia e o medo trabalharem juntos, porque o leitor completa o que o personagem não viu.
Tudo indica que a jovem seja Hella, ainda sem nome nesta parte: mais adiante o livro aponta a ruiva nua do apartamento 50, com uma cicatriz rósea no pescoço, como a mesma vampira que o galo afugentou na noite de Rímski. A frase mostra que o terror, em Moscou, pode chegar em tom de intimidade, e que ele não poupa o funcionário comum, o administrador do teatro.
2.10 a 2.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Durante uma tempestade, Ivan desiste de escrever a denúncia à polícia: toda vez que tenta falar de Berlioz, tropeça na palavra falecido, como se ele ainda fosse sujeito de uma frase. À noite, deitado, trava consigo um debate em voz alta entre o Ivan de ontem, que quer capturar o consultor, e um Ivan novo, mais cínico, para quem a morte de um editor não muda nada no mundo. Quando o novo pergunta ao antigo, com escárnio, quem ele próprio seria nesse caso, uma voz que não pertence a nenhum dos dois responde com uma única palavra.
A resposta, um idiota, chega com a voz grave e nítida do consultor, e Ivan nem se ofende, até se admira. O capítulo mostra por dentro a mudança que a clínica produz: o Ivan que acreditava deixa de acreditar, e a dúvida é arbitrada por uma voz de fora. A frase pode ser lida como o diagnóstico de quem sabe mais, ou como a última faísca do Ivan antigo, que não aceita o conformismo do novo. O texto não decide, e essa ambiguidade é parte do efeito.
O capítulo termina com a grade da varanda se movendo e uma figura pedindo silêncio, o mestre, que só se apresentará no seguinte. A voz que chama Ivan de idiota prepara a mudança dele: o poeta que começou o livro negando o diabo, e que a clínica tenta curar de acreditar, será o discípulo do mestre e, no Epílogo, o professor que guarda no corpo o que a razão descartou. A frase é a primeira brecha nessa conversão.
Na noite de pânico no Teatro de Variedades, o diretor financeiro Rímski descobre que o administrador Variênukha, que voltou de uma missão com uma história cada vez mais falsa, não projeta sombra de cabeça no chão. Uma jovem de cabelos ruivos, com manchas de decomposição no corpo, entra pela janela, e Variênukha tranca a porta para impedir a fuga. Os dois só recuam quando, no jardim vizinho, um galo canta pela primeira vez, e o narrador descreve o canto dizendo que a ave, com a voz treinada, anunciava que o dia se aproximava de Moscou vindo do leste.
O canto do galo como limite que as forças da escuridão não ultrapassam é motivo antigo do folclore eslavo e cristão, e Bulgákov o usa sem explicação. A beleza da frase está no deslocamento de escala: a ameaça é vampírica, o cenário é uma repartição, e o que salva Rímski é um animal que faz o que sempre fez. O narrador trata o canto com um respeito quase solene, e pode-se ler que o amanhecer vindo do leste aparece como uma autoridade que a escuridão acata.
A cena também mostra os limites do poder da comitiva. Eles parecem poder tudo à noite, mas obedecem ao relógio, e a jovem ruiva, que o livro depois nomeará Hella, será lembrada no capítulo 22, já na intimidade do apartamento 50, como aquela que se assustara com o galo. Rímski, envelhecido de susto numa só noite, foge para Leningrado, e a frase fica como o ponto em que o terror cede ao dia, ainda que por pouco tempo. É um dos raros momentos em que o sobrenatural recua.
3.10 a 3.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Na clínica, sedado, Nikanor Ivânovitch sonha que sobe ao palco de um teatro onde um apresentador cordial pede à plateia de moscovitas que entregue o dinheiro estrangeiro escondido em casa. Nikanor jura que não tem nada e, quando o apresentador pergunta de onde saíram os quatrocentos dólares do banheiro, responde que foram forças impuras, o sujeito de roupa xadrez. O apresentador ironiza e pergunta aos doleiros presentes o que alguém pode deixar na casa dos outros. Alguém grita que uma criança, e ele confirma, ampliando: uma criança, uma carta anônima, um panfleto, uma bomba-relógio, mas ninguém se desfaria de quatrocentos dólares.
A lista é um raciocínio por absurdo. Gente deixa na porta alheia um bebê, uma denúncia, até uma bomba, mas dinheiro estrangeiro ninguém joga fora, e por isso a desculpa de Nikanor não se sustenta. A frase sugere, com ironia, que o apego à moeda estrangeira vence qualquer outro instinto. O sonho é, ao mesmo tempo, comédia e sátira: Kanávkin é aplaudido por entregar os mil dólares, e Duntchil, que nega, é traído pela própria amante, que aponta o esconderijo.
A cena satiriza uma política real da União Soviética no fim dos anos 1920 e início dos 1930, as campanhas de confisco de ouro e moeda estrangeira, apoiadas em delação e prisão. O dinheiro estrangeiro é, no livro, um símbolo da armadilha: aparece onde a pessoa mais teme ser flagrada, e vira prova contra ela. Pode-se ler o sonho como um tribunal de plateia que refaz, em tom de comédia, o que o capítulo 9 mostrou na vida real, quando Nikanor foi preso por dólares que dizia nunca ter tocado.
Andrei Fokitch Sókov, gerente da lanchonete do teatro, vai ao apartamento 50 reclamar do dinheiro que virou papel picado. Woland o recebe e o interroga em tom íntimo sobre as economias, e uma voz do quarto ao lado revela a soma exata, em poupanças e em moedas de ouro sob o assoalho, e a data e a causa da morte do gerente: nove meses, câncer de fígado. Diante da recusa dele em gastar o próprio dinheiro, Woland lhe propõe o que ele jamais consideraria, uma festa com cordas, belas mulheres embriagadas e amigos alegres, e depois o veneno.
A frase é crueldade e conselho ao mesmo tempo. Woland não ameaça: faz as contas. Se o gerente morrerá em nove meses, e o dinheiro não poderá ser usado depois, o que ele guarda não serve para nada. A proposta é um espelho invertido da vida de Sókov, feita de poupança, medo e hospital, e a ironia está em que o diabo oferece o prazer, e o homem prudente o recusa. Pode-se ler que o que a cena condena não é o dinheiro, é a avareza de quem guarda para uma vida que não vai viver.
O desfecho completa a sátira: Sókov sai com o dinheiro restituído, mas perseguido por uma última humilhação, o chapéu que vira um gatinho agarrado à careca. Em seguida corre a um médico de verdade, que não encontra vestígio de câncer e o manda cuidar dos nervos. A cena sugere o método de Woland: ele diz a verdade sobre o que o personagem é e deixa que a própria pessoa tire as consequências. Sókov não as tira, e o romance, com um sorriso, o deixa assim.
4.10 a 4.12: perguntas abertas, sem gabarito.
A Segunda Parte começa com o narrador chamando o leitor pelo braço, recurso raro no romance: venha comigo, leitor, e ele oferece o que vai mostrar. Antes de apresentar Margarida Nikoláievna, casada com um marido bom a quem não ama e de luto há meses por um homem que ninguém sabe se está vivo, ele faz uma pergunta desafiadora: quem disse que não existe no mundo o amor verdadeiro, fiel, eterno? Que cortem a língua desse mentiroso infame. É a frase que abre o capítulo, antes de qualquer cena.
O tom é de juramento e de maldição ao mesmo tempo, e muda o registro do livro. A Primeira Parte foi sobretudo sátira, com a narração falando de Moscou em tom de ironia. Agora o narrador se dirige a quem lê como um contador de histórias e promete provar uma tese. A promessa é ousada: depois de ver o livro tratar a cidade como um conjunto de gente comum corrompida, o leitor é convidado a ver alguém que, ao que tudo indica, não se corrompe. A frase prepara Margarida como a prova viva.
O que o capítulo mostra depois sustenta a frase. Margarida acorda com o pressentimento de que algo vai mudar, vai a um banco junto ao muro do Kremlin e ouve de Azazello o convite para um baile à noite, com a promessa de saber do mestre. Pode-se ler que o amor, aqui, não é sentimento doméstico, é a coragem de aceitar o preço: ela abandonará o marido, tornar-se-á bruxa e rainha de um baile de mortos. O narrador declara a tese antes, e o romance a cumpre. O mestre, que acreditava que ela o esquecera, estava enganado.
No fim do baile, Woland recebe num prato a cabeça decepada de Berlioz e se dirige a ela com suavidade, chamando-a pelo nome e pelo patronímico. Os olhos do falecido se abrem, vivos, conscientes e cheios de sofrimento. Woland resume o que aconteceu: a cabeça foi cortada por uma mulher, o encontro não aconteceu, e ele, Woland, está morando no apartamento de Berlioz. Isso é fato, diz, e um fato é a coisa mais teimosa do mundo. Depois lembra que interessa agora o futuro, não o fato consumado.
A frase devolve o leitor ao capítulo 1, onde Berlioz, editor e ateu, ouvira a profecia como brincadeira. O que o estrangeiro anunciara, a cabeça cortada e a reunião perdida, aconteceu, e a palavra fato tem aqui um peso irônico: é a palavra do racionalista, e é com ela que Woland o encurrala. Em seguida, porém, ele não discute a teoria de Berlioz, a de que a morte é o fim de tudo. Elogia-a como sólida e original e a aplica ao próprio autor: se a cada um é dado segundo a sua crença, que Berlioz vá para a inexistência.
A cabeça se transforma então em uma taça, e o símbolo se fecha: o que começou com a morte de Berlioz no capítulo 3 termina como objeto de baile. Pode-se ler a cena como o centro do argumento do livro sobre o sobrenatural: o romance não refuta a descrença com um debate, dá a ela o destino de quem a defendeu, e a refutação é, ao mesmo tempo, cruel e cômica.
5.10 a 5.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Na despedida, Margarida não pede nada e se diz pronta a servir. Os olhos dela se enchem de lágrimas, e Woland grita, com a voz retumbante, que ela tem toda a razão, que aquilo era uma prova. Diz então a frase que resume a ética de toda a comitiva diante dos humanos: nunca peça nada, principalmente àqueles que são fortes, pois eles oferecem por conta própria e dão tudo também. Manda que ela se sente, mulher orgulhosa, e só depois pergunta o que ela quer como paga.
A máxima inverte a lógica do pedido. Quem pede se coloca em dívida e em posição inferior, e quem espera oferece o que tem de melhor. A frase soa menos como conselho de resignação do que como lição de dignidade: o poderoso reconhece quem não mendiga. Margarida passou no teste sem saber que estava sendo testada, e o orgulho dela, que Woland nomeia, é o que a faz merecer o direito de pedir.
O gesto de Margarida se liga ao que o livro faz com a justiça: o mestre, que recuou, será resgatado, e Pilatos, que tinha todo o poder, ficará preso. A frase combina com a recusa que Margarida acabara de fazer à oferta de Azazello e Behemoth de ir atrás de Latunski. Em Moscou, onde todos pedem, delatam e invejam, o diabo premia quem não pede. Pode-se ler aí uma oposição entre a cidade que negocia tudo e uma oferta que, no fim, é um dom.
Korôviev e Behemoth entram na loja Torgsin, onde um porteiro avisa que a venda é só com dinheiro estrangeiro. O gato come frutas e doces do balcão sem pagar, e Korôviev, diante do público, passa a defender o pobre faminto. Em vez de justificar o furto, ele expõe o critério de entrada: aponta para um gorducho de terno social lilás, inchado de tanto salmão, e diz que ele tem dinheiro estrangeiro, e o nosso, o nosso. Em seguida uiva, como um padrinho de casamento, que é amargura, amargura, amargura.
O alvo do discurso não é o vendedor, é o cliente que pode pagar. A frase mostra o que a loja faz: separa os que têm moeda estrangeira, que entram e comem salmão, dos que só têm rublos, que ficam do lado de fora. O efeito cômico vem de ouvir um demônio fingindo indignação social, e o efeito crítico, de a indignação ter um fundo de verdade. O leitor ri e, ao mesmo tempo, reconhece o critério.
A loja não é invenção: as lojas Torgsin existiram e vendiam comida a quem entregasse ouro, prata ou moeda estrangeira, e funcionaram durante a fome. A sátira só põe dois demônios na fila e deixa que o critério fale por si. O dinheiro estrangeiro, que no capítulo 9 e no sonho de Nikanor era armadilha, aparece aqui como regra de acesso. Pode-se ler que a frase fecha o percurso do símbolo: o que condena Nikanor é o que a loja exige, e o que ela exige faz de Moscou um lugar de privilégio.
6.10 a 6.12: perguntas abertas, sem gabarito.
No terraço de um dos prédios mais bonitos de Moscou, Woland observa a cidade ao lado de Azazello e comenta com ironia a fumaça que sobe da casa Griboiêdov. Surge então Mateus Levi, hostil e sujo, que o chama de espírito do mal e soberano das sombras. Woland o corrige com uma pergunta: o que faria a sua bondade se não existisse a maldade, como seria a terra se dela sumissem as sombras? Em seguida lembra que as sombras são das pessoas e dos objetos, e mostra a da própria espada.
Pode-se ler a frase como resumo da função de Woland no romance: ele não é o oposto de Yeshua, é o que torna a bondade visível, porque sem contraste não haveria o que escolher. A pergunta de Woland é uma lição de lógica, e a imagem das sombras a torna física, embora Levi, que falava em tom de acusação, se recuse a discutir e o chame de velho sofista. Pode-se ler que o livro vê o mal como parte da ordem, não como erro dela.
Esse argumento é o contraponto da tese de Yeshua. Para Yeshua, não há pessoas más. Para Woland, não há bem sem mal. O livro deixa os dois sem síntese. O diálogo mostra também o tom do capítulo, em que os dois lados negociam o destino do mestre como diplomatas, e não como inimigos. A frase sugere a relação entre os dois mundos, o de Yeshua e o de Woland, como uma divisão de funções, não de forças.
Depois de sonhar com Pilatos e Yeshua, Ivan sonha com o mestre e Margarida. A trilha lunar ferve e dela jorra um rio lunar, em que se forma uma mulher de beleza infinita que leva Ivan pela mão até o homem de barba, o paciente do quarto 118, seu visitante noturno. Ivan estende as mãos para ele no sonho e pergunta avidamente se terminou assim. O mestre responde que sim, chamando-o de discípulo. Margarida beija a testa de Ivan, e tudo, diz ela, será como deve ser.
A frase tem a simplicidade de uma confirmação de que o drama acabou. A palavra discípulo faz de Ivan o herdeiro do mestre, e a resposta pode ser lida como um adeus tardio: no capítulo 30, o mestre já o chamara de discípulo ao se despedir. A repetição transforma o sonho em ritual. Ivan, que começou o livro como poeta que escrevia por encomenda e negava o diabo, termina como o homem que carrega, sem escolha, o que viu.
O Epílogo dá ao leitor duas versões do mundo: a oficial, em que hipnotizadores explicam tudo, e a de Ivan, em que o sonho guarda o que a razão descartou. A frase do mestre fica entre as duas. Pode-se ler que o romance termina num gesto de transmissão: o mestre, que desistiu da obra, a entregou a quem a repetirá, e o beijo na testa é o selo. A data que fecha o texto, de 1929 a 1940, marca os onze anos de composição do livro.
7.10 a 7.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Historiador e tradutor que ganhou cem mil rublos numa bonificação de loteria, largou o museu, alugou dois cômodos no subsolo de uma casinha perto da Arbat e passou a escrever, isolado, um romance sobre Pôncio Pilatos. Recusa o próprio nome e se apresenta pelo título que a amada lhe deu.
Como muda
No capítulo 13 entra à noite pela varanda do quarto de Ivan no hospício, ouve o relato de Patriarchi Prudý e conta a própria história: o encontro na rua com a mulher das flores amarelas, o romance recusado, os artigos de Ariman, Latunski e Mstislav Lavrôvitch, o medo do escuro, o manuscrito (ver O manuscrito) queimado no forno numa noite de outubro e a internação voluntária na clínica de Stravinski (ver A clínica de Stravinski).
No capítulo 24 é trazido do hospício ao quarto de Woland, ainda de roupão e gorro, a pedido de Margarida. Behemoth tira o romance intacto de baixo do próprio corpo, a comitiva apaga o rastro de Aloísi Mogarytch, o vizinho que o denunciou para tomar o apartamento, e o casal volta ao porão da Arbat.
No capítulo 29 o destino dele é decidido sem a presença dele, no terraço, pelo recado que Mateus Levi traz a Woland.
No capítulo 30 bebe o Falerno de Azazello, morre com Margarida e despede-se de Ivan no hospital; no capítulo 31 sente nas colinas dos Pardais o "pressentimento de paz permanente"; e no capítulo 32, diante de Pilatos, recebe de Woland a decisão sobre ele e o liberta com uma frase. Depois segue para a casa eterna, enquanto a memória dele, "perfurada de agulhas", começa a se apagar.
No Epílogo volta nos sonhos de Ivan, ao lado de Margarida.
Margarida Nikoláievna, trinta anos, casada com um marido rico e bom a quem não ama, que vive há meses de luto pelo mestre, desaparecido depois de queimar o romance. No capítulo 13 ela aparece o tempo todo sem nome, só como "ela"; a partir do capítulo 19 é quem conduz a ação, e é por ela que as duas tramas do livro se encontram.
Como muda
No capítulo 13, pela voz do mestre, é a desconhecida das flores amarelas, que passa a visitá-lo todos os dias, lê os manuscritos, começa a chamá-lo de mestre e chega a tempo de salvar do fogo só um maço de folhas queimadas.
No capítulo 19 aceita o convite de Azazello sem saber a quem se entrega; no capítulo 20 passa o creme, rejuvenesce, escreve o bilhete ao marido e sai voando. No capítulo 21 destrói o apartamento de Latunski com um martelo e para diante de um menino assustado no escuro. No capítulo 22 é escolhida entre cento e vinte e uma Margaridas de Moscou e no capítulo 23 preside o baile da lua (ver A lua) cheia; no capítulo 24, na hora da paga, pede primeiro por Frida; só no segundo pedido, concedido de graça, pede o mestre.
No capítulo 29, no terraço, Mateus Levi pede que ela, que amou e sofreu pelo mestre, seja levada junto com ele.
No capítulo 30 morre com o mestre depois do brinde com o Falerno de Azazello; no capítulo 31 olha para trás nas colinas dos Pardais e já não vê Moscou; no capítulo 32 pede clemência para Pilatos e guia o mestre até a casa eterna pela ponte de pedra. No Epílogo aparece com o mestre nos sonhos de Ivan e o beija na testa.
Estrangeiro de olhos desparelhados, um verde e um preto, que chega a Moscou como consultor contratado para decifrar os manuscritos do necromante Gerbert D'Aurillac e diz ser especialista em magia negra. Do cartão de visita, Ivan só consegue ler a inicial do sobrenome, um "W"; o nome inteiro ele mesmo dá a Stiopa Likhodêiev no apartamento 50 (ver O apartamento 50), e é o mestre quem diz a Ivan quem ele é.
Como muda
No capítulo 1 senta-se ao lado de Berlioz e Ivan em Patriarchi Prudý, lembra a sexta prova de Kant, que ele diz ter criticado ao próprio Kant num café da manhã, anuncia a Berlioz a morte e o óleo de Ánnuchka; no capítulo 2 narra o interrogatório de Pilatos como quem estava lá.
No capítulo 7 aparece ao lado da cama de Stiopa com um contrato de sete apresentações no Teatro de Variedades, instala a comitiva no apartamento 50 e, no capítulo 12, na sessão de magia negra, depois da chuva de dinheiro sobre a plateia, dá o veredito sobre os moscovitas.
No capítulo 18 recebe Sókov, o gerente da lanchonete do teatro, pergunta quanto ele tem de economia e quando pretende morrer, e uma voz do quarto ao lado anuncia prazo e causa da morte, com a mesma segurança com que Woland sentenciara Berlioz.
No capítulo 22 Margarida o encontra deitado, doente, numa camisa suja e remendada, com Hella cuidando do joelho. No capítulo 23, no fim do baile, recebe num prato a cabeça de Berlioz (ver A cabeça de Berlioz), que transforma em taça; no capítulo 24, depois do jantar, quando Margarida gasta o pedido perdoando ela mesma Frida, declara que aquilo não conta, porque ele não fez nada, e lhe pergunta o que deseja para si; e recusa a explicação do mestre de que o romance foi destruído no fogo.
No capítulo 29 observa do terraço a fumaça da Casa Griboiêdov, recebe Mateus Levi, que o chama de "espírito do mal e soberano das sombras", e concorda em levar consigo o mestre e Margarida.
No capítulo 31 espera o casal a cavalo nas colinas dos Pardais; no capítulo 32 apresenta o homem da poltrona de pedra, devolve ao mestre a decisão sobre ele e oferece ao mestre não Yerushalaim nem Moscou, mas a casa com parreiras e música de Schubert.
Homem alto de pincenê quebrado, da comitiva de Woland, que se apresenta como intérprete dele e, no Teatro de Variedades, também como Fagot. É ele quem negocia o apartamento 50 (ver O apartamento 50) com Nikanor Ivânovitch e quem recebe Margarida para o baile, e no capítulo 32 a lua (ver A lua) revela por baixo dele um cavaleiro sombrio que paga por "uma brincadeira infeliz" com um trocadilho sobre luz e trevas.
Como muda
No capítulo 4 aparece, junto ao estrangeiro, um sujeito de roupa xadrez e pincenê rachado que se apresenta como ex-regente de coral, ainda sem nome.
No capítulo 7 aparece no espelho de Stiopa Likhodêiev; no capítulo 9 recebe Nikanor Ivânovitch sentado à mesa do finado Berlioz, aluga o apartamento 50 por uma semana, põe-lhe na mão um maço extra de rublos e depois o denuncia por telefone, passando-se por um vizinho: o maço vira dólares (ver O dinheiro estrangeiro) e Nikanor é preso. No capítulo 12, na sessão de magia negra, está no palco ao lado de Woland e Behemoth.
No capítulo 17 ele mesmo, de calça xadrez e pincenê quebrado, faz-se de regente e deixa os funcionários de uma filial administrativa cantando em coro sem conseguir parar, e no capítulo 18 é ele quem recebe Poplavski no apartamento 50 com um choro teatral.
No capítulo 22 recebe Margarida com uma lamparina, explica a quinta dimensão que faz caber um salão de baile no apartamento e a condição de que a dona do baile se chame Margarida. No capítulo 24, depois do baile, joga na lareira o prontuário do mestre, decretando que quem não tem documento não existe, e apaga Aloísi Mogarytch do livro de registro residencial.
No capítulo 28 reaparece com Behemoth no centro de Moscou: na loja Torgsin discursa em defesa do "pobre faminto", e na Griboiêdov a dupla assina com os nomes trocados de dois críticos do século XIX, Panáev e Skabitchévski. No capítulo 29 volta ao terraço com Behemoth, que traz um cálice, um avental chamuscado e um salmão.
No capítulo 31 disputa com Behemoth quem assobia mais forte nas colinas dos Pardais, e o assobio dele arranca um carvalho pela raiz e racha a terra até o rio. No Epílogo, a investigação de Moscou atribui tudo a uma quadrilha de hipnotizadores, e as suspeitas pesam sobre ele.
O gato preto enorme da comitiva de Woland, que anda nas patas traseiras, joga xadrez com peças vivas e fala. Aparece mais por episódios do que por falas; a fala que se atribui a ele sem ambiguidade é a do tiroteio no apartamento 50 (ver O apartamento 50). No capítulo 32 a lua (ver A lua) revela por baixo dele um jovem pajem demoníaco.
Como muda
No capítulo 4 aparece, junto ao estrangeiro, um gato preto enorme que anda nas patas traseiras e tenta pagar o bonde com uma moeda, ainda sem nome.
No capítulo 7 está na comitiva que decreta que Stiopa sobra no apartamento 50, no capítulo 10 arrasta Variênukha com Azazello e, no capítulo 12, na sessão de magia negra, arranca a cabeça do mestre de cerimônias Bengálski, devolvida ilesa quando a plateia pede perdão por ele.
No capítulo 18 exige o passaporte de Poplavski, nega-lhe direito à herança e chama Azazello para expulsá-lo.
No capítulo 22 joga xadrez com peças vivas quando Margarida chega e, no capítulo 24, no quarto de Woland, tira de baixo do próprio corpo o romance do mestre, intacto.
Antes da partida do casal, é ele quem dita a Hella a declaração que Nikolai Ivânovitch exige para a polícia e para a esposa, e a assina.
No capítulo 27 é o único que a equipe armada encontra no apartamento 50: troca tiros sem ferir ninguém, finge-se ferido, cura-se com gasolina do fogareiro, incendeia o apartamento e foge pela janela. No capítulo 28, com Korôviev, come sem pagar na loja Torgsin e a incendeia derramando a gasolina do fogareiro; na Griboiêdov, o fogo do fogareiro queima a casa inteira.
No capítulo 31 disputa com Korôviev quem assobia mais forte nas colinas dos Pardais. No voo noturno do capítulo 32, a noite lhe arranca o rabo e o pelo, e o narrador diz o que ele era.
Membro da comitiva de Woland, ruivo e de canino aparente, que aparece quase só pelo que executa: convites, expulsões, uma morte no baile e o vinho final. É quem vai buscar Margarida e quem a leva, com o mestre, para fora de Moscou.
Como muda
No capítulo 7 aparece com a comitiva no quarto de Stiopa Likhodêiev e, no capítulo 10, com Behemoth, arrasta Variênukha até o apartamento 50 (ver O apartamento 50).
No capítulo 18 é chamado pelo gato para expulsar Poplavski do apartamento 50.
No capítulo 19 aborda Margarida perto do cortejo de Berlioz e entrega-lhe o creme numa caixinha de ouro; no capítulo 23 mata no baile o barão Meigel, delator e espião; e no capítulo 24 acompanha de carro o mestre e Margarida até o pátio do porão da Arbat. No jantar depois do baile, ainda no capítulo 24, de costas para o travesseiro e sem se virar, acerta com um tiro a carta que Margarida marcou e Hella escondeu sob o travesseiro.
No capítulo 29 está no terraço com Woland quando Mateus Levi chega, e é a ele que Woland manda resolver o destino do casal.
No capítulo 30 leva ao subsolo um Falerno que diz ser o vinho do procurador da Judeia, brinda com o casal a Woland e, depois que os dois morrem, leva-os, no capítulo 31, às colinas dos Pardais.
No voo do capítulo 32, a lua (ver A lua) desfaz o canino e o olho torto, que se revelam falsos, e mostra a figura verdadeira dele.
Fechamento: perguntas abertas, sem gabarito.