Clavis Libri · Caderno de estudos · Gabarito do professor

Otelo

William Shakespeare

As respostas de cada exercício do caderno, tiradas do guia da obra.

Gabarito

Gabarito

As respostas vêm do guia da obra no Clavis Libri. Nas questões abertas, o gabarito mostra o que se espera encontrar, não a única resposta possível. As perguntas "para discutir" e "E você?" não têm gabarito.

Semana 1

1.1O que aconteceu.
Ato I: Veneza, a denúncia noturna e o juízo do senadoNa rua, de noite, diante da casa de Brabâncio, Rodrigo reclama de Iago, que usou a bolsa dele e sabia de tudo sem avisá-lo. Iago diz odiar Otelo por ter dado o posto de tenente a Cássio, e confessa que o serve só por conveniência. Os dois acordam Brabâncio aos gritos para avisar que a filha fugiu com o Mouro. Iago se afasta antes que o pai volte, e Brabâncio sai com criados atrás da fugitiva.
Ato II: Chipre, a tempestade e a queda de CássioEm Chipre, Montano e os fidalgos observam o mar em fúria e concluem que a frota turca se perdeu na tempestade. Cássio chega primeiro, seguido por Desdêmona, Iago, Emília e Rodrigo; Otelo é o último a desembarcar e reencontra a esposa em plena felicidade. Iago zomba das mulheres, convence Rodrigo a provocar Cássio na guarda e, sozinho, revela que quer destruir Cássio e Otelo.
Ato III: A tentação e o lençoCássio paga músicos para saudar o general ao amanhecer, e um palhaço os despacha com graça e dinheiro. Cássio manda o palhaço pedir uma entrevista a Emília e, quando Iago chega, pede-lhe acesso a Desdêmona; Iago promete afastar Otelo para dar liberdade à conversa. Emília chega, conta que Desdêmona já defende Cássio e o leva a um lugar onde possa falar a sós com ela.
1.2Temas da semana: Ciúme, Preconceito, Verdade e mentira, Honra e reputação, Inveja, Amor.
1.3Iago, Ato I: Veneza, a denúncia noturna e o juízo do senado.

Na rua, de noite, diante da casa de Brabâncio, Iago explica a Rodrigo por que serve Otelo: por cálculo, não por lealdade. Foi preterido no posto de tenente, que Otelo deu a Cássio, e diz que, se os seus atos de fora mostrassem o coração que tem por dentro, logo o entregaria às gralhas para que o bicassem. Fecha o argumento com a fórmula acima. Pode-se ler a frase como a verdade sobre ele em forma de enigma: o que Iago parece ser, um alferes obediente, não é o que ele é.

O que dá peso à frase é quem a ouve. Iago a diz a Rodrigo, seu instrumento, antes de vestir qualquer máscara diante de Otelo ou de Brabâncio. O público sai da primeira cena sabendo que a palavra dele não vale pelo que diz, e passa a peça inteira vendo os outros acreditarem nela. A ação seguinte já é a frase posta em prática: Iago manda Rodrigo acordar Brabâncio aos gritos e se afasta antes que o pai volte, para não ser achado ali.

A fórmula toca o tema da verdade e da mentira e também o ressentimento que a peça trata como inveja, nascido de um posto que Iago julga seu. No Ato III, ele diz a Otelo, como sabedoria, que um homem deveria ser o que parece. Pode-se ler o resto da obra como a prática de uma frase que afirma o contrário: quem declara que não é o que é acaba aparecendo, para os outros, como honesto.

1.4Otelo, Ato III: A tentação e o lenço.

Otelo pede um lenço a Desdêmona, com a desculpa de um incômodo, e ela diz que não o tem ali. Ele então conta a origem do objeto: uma egípcia o deu à mãe dele, com a promessa de que, enquanto o guardasse, seria amada, e de que perdê-lo ou dá-lo faria o marido olhá-la com ódio. Depois exige: "Traga o lenço." Desdêmona, que já se perguntara onde o perdera, diz que ele não está perdido e tenta falar de Cássio. A cada tentativa, Otelo reduz tudo a uma só palavra, "O lenço!", três vezes, e sai.

A cena é um diálogo de surdos. Desdêmona só quer falar de Cássio e acredita defender um amigo do marido; Otelo só ouve o lenço, que já é, para ele, o teste da fidelidade. Nenhum dos dois entende o que o outro está dizendo, e o público sabe mais do que ambos: o lenço já saiu das mãos dela e foi parar nas de Iago. Pode-se ouvir na palavra repetida um eco do "honesto" de Iago: agora é Otelo quem repete uma palavra, e ela vale por uma acusação. Desdêmona, que sabe que o perdeu, diz que não está perdido, uma pequena inverdade que se pode ler como susto diante da lenda e do tom do marido.

Aqui o pano vale pela história que se conta dele, e é por isso que pode virar prova. Pode-se ler a cena como o ponto em que o lenço deixa de ser um presente e vira sinal, e em que o amor de Otelo, que já era de tudo ou nada, passa a exigir uma prova.

1.5C. Iago conta que três nobres da cidade foram pedir a Otelo, de chapéu na mão, que o nomeasse tenente. Otelo desconversou com rodeios pomposos e escolheu Cássio, um florentino que, segundo Iago, nunca comandou um esquadrão no campo. É esse ressentimento que Iago apresenta como motivo do ódio e que vai mover o que ele faz a partir daí.
1.6B. Iago planeja insuflar em Otelo que Cássio é íntimo demais de Desdêmona, e conta com um traço dele: o caráter aberto e liberal, que acredita honesto quem só parece ser. Importa porque a mesma franqueza que convenceu o Senado é a que a peça vai usar contra ele.
1.7C. O fidalgo anuncia que a guerra acabou: o temporal bateu tanto nos turcos que eles sustaram o ataque, e uma nau de Veneza viu o naufrágio e a confusão geral da frota. Cássio já está em terra e Otelo ainda em alto-mar, e a peça vai reunir o casal num momento de alegria que dura pouco.
1.8B. Iago admite ao público que o conselho é bom e que ninguém o chamaria de vilão por ele, e compara-se ao diabo, que começa encenando uma peça angelical quando quer vestir pecados negros. Ele diz que faz agora o mesmo: dá um bom conselho para que a bondade de Desdêmona engendre a rede.
1.9D. Iago promete afastar Otelo para que Cássio possa falar com Desdêmona à vontade. Logo depois, Otelo sai para vistoriar as fortificações, e Cássio fala com ela diante de Emília. É esse instante inocente que Iago vai transformar em evidência.

1.10 a 1.12: perguntas abertas, sem gabarito.

Semana 2

2.1O que aconteceu.
Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiroEm Chipre, Iago fala a Otelo de "lenço" e de "mentindo" até ele, repetindo "o lenço, as confissões", cair em convulsão. De pé de novo, Otelo se esconde para ouvir Iago conversar com Cássio sobre Bianca; Cássio ri, e Otelo toma a risada por confissão sobre Desdêmona. Quando Bianca devolve um lenço, ele o reconhece e decide matar a esposa, e Iago sugere o estrangulamento. Chega Ludovico, com a carta do Duque que chama Otelo de volta a Veneza, e Otelo bate em Desdêmona diante dele.
Ato V: A emboscada, o assassinato e a revelaçãoNuma rua de Chipre, Iago posta Rodrigo para matar Cássio e, em aparte, admite que lhe convém a morte de qualquer um dos dois. Rodrigo erra o golpe, Cássio o fere, e Iago, por trás, corta a perna de Cássio e foge. Otelo, ouvindo de longe, toma os gritos por sinal de que Iago cumpriu a palavra. Iago volta como socorrista, mata Rodrigo diante de Ludovico e Graciano e acusa Bianca, enquanto Emília chega.
2.2Temas da semana: Ciúme, Preconceito, Verdade e mentira, Honra e reputação, Inveja, Amor.
2.3Otelo, Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro.

Em Chipre, Iago fala a Otelo de lenço e de "mentindo" até ele, repetindo "o lenço, as confissões", cair em convulsão. Ao despertar, Iago lhe pede que enfrente a sorte como um homem, e Otelo responde com a régua com que já condena a esposa: um homem com chifres, isto é, traído, é um monstro, é uma besta. Diz isso sem ter ouvido a defesa de Desdêmona. Iago aproveita a deixa: nas grandes cidades, responde, há muitas bestas e muitos monstros civilizados.

A frase mostra como Otelo mede a própria honra. Para ele o homem traído deixa de ser inteiramente homem, vira besta, e por isso a suspeita de traição pesa em reputação e não só em amor. Pode-se ler nos "monstros civilizados" de Iago uma alusão a Otelo e à ideia de monstruosidade animalizada, a mesma ordem de imagens do carneiro preto, do Ato I, agora na conversa dos dois.

A imagem também fecha um círculo. No Ato III o ciúme era o monstro de olho verde, uma coisa exterior que se devia evitar; aqui o monstro é o próprio homem enganado. Pode-se ler a frase como o instante em que Otelo se torna aquilo que temia, pois adiante decide matar a esposa. Em seguida, escondido, ouve Iago conversar com Cássio sobre Bianca, e a risada de Cássio, para ele, vira confissão sobre Desdêmona: a cena mostra um homem que escreve sozinho o roteiro e depois o lê como se fosse prova.

2.4Otelo, Ato V: A emboscada, o assassinato e a revelação.

São as últimas palavras de Otelo. Ele acaba de contar que, certa vez em Aleppo, golpeou um turco que difamava o Estado, e se apunhala no meio do relato. Pode-se ler aí um retorno irônico à identidade primeira: o "turco pernicioso" é, no fundo, ele próprio. Diz então a Desdêmona que a beijou antes de matá-la e que só lhe resta matar-se e morrer com um beijo, e morre ao lado dela. Repete, assim, o gesto que abriu o assassinato: no quarto, ele a beijara e dissera que ficasse assim, quando morta, que ele a mataria e depois a amaria.

A frase mostra um Otelo que organiza a própria morte como um desfecho simétrico, de modo a dar sentido ao que não o tem. Pode-se ler isso como o último ato de um homem que precisa ver o amor e o crime como parte da mesma história, porque a alternativa, o crime sem amor, é insuportável. O verso também é de uma economia seca, quase aritmética: beijei, matei, resta me matar. O que começou como beijo e sentença termina como beijo e suicídio.

A cena é difícil de resolver. Pode-se ler o discurso que antecede a morte como o de um homem que parece animar a si mesmo e pensar mais em si do que em Desdêmona. Ainda assim, o beijo final é o que o liga a ela, e a peça o deixa morrer junto do corpo dela. O amor, que a peça apresentou como o laço que unia o casal, é também o que o destrói, e o fim reúne os dois sentidos numa única imagem.

2.5B. Iago manda Otelo se esconder e reparar nas graçolas e chacotas que aparecerão no rosto de Cássio. Na verdade, Iago pergunta a Cássio sobre Bianca, e Cássio ri dela; é Otelo, que não ouve, quem troca o assunto e toma a risada por confissão sobre Desdêmona.
2.6A. Ludovico diz que a carta provavelmente ordena que Otelo retorne a Veneza e entrega o governo de Chipre a Cássio. Desdêmona se alegra com a reconciliação possível, e Otelo, que lê outra coisa, a ofende e a esbofeteia diante de Ludovico. Importa porque a carta explica por que Otelo precisa agir naquela noite.
2.7B. Desdêmona pede que, se morrer antes de Emília, a envolva nos mesmos lençóis que ela estendeu na cama. Logo depois conta de Bárbara, a aia da mãe, que morreu cantando a canção do salgueiro, e canta. O pedido e a canção funcionam como presságio, e o Ato V vai voltar a eles.
2.8D. Iago diz que, se Rodrigo matar Cássio, ou Cássio matar Rodrigo, ou os dois se massacrarem, ele ganha de qualquer modo: se Rodrigo vive, cobra as joias, e se Cássio vive, Otelo pode expor Iago. Conclui que Cássio tem que morrer. Importa porque a peça mostra aqui que Iago também usa quem o serve.
2.9C. Otelo conta que em Aleppo golpeou um turco que difamava Veneza e, no mesmo gesto, se apunhala. Suas últimas palavras repetem o gesto que abriu o assassinato: beijou, depois matou, e agora mata a si mesmo e morre com um beijo. Ludovico manda cobrir o leito, Cássio fica no governo e Iago é preso.

2.10 a 2.12: perguntas abertas, sem gabarito.

Personagens

P1Otelo.

Otelo é o general mouro a serviço de Veneza, casado com Desdêmona, filha do senador Brabâncio. Soldado desde os sete anos, já foi escravizado e resgatado, e a república o chama no meio da noite porque precisa dele de imediato contra a frota turca. Vai a Chipre com a esposa e com o tenente Cássio, e ali perde, em poucas cenas, a confiança que tinha nos dois, convencido por Iago de que ela o trai. Mata a mulher na cama, descobre o engano pela boca de Emília e pelas cartas de Rodrigo, é destituído do comando, que passa a Cássio, e se mata com uma arma que ainda traz escondida.

Como muda

Na cena 2 do Ato I, Iago o avisa de que Brabâncio é poderoso e pode desfazer o casamento, e Otelo recusa se esconder: confia nos serviços prestados à Signoria e no que os outros pensam dele. Quando Brabâncio chega com homens armados e tenta prendê-lo por feitiçaria, manda guardar as espadas, não briga, e aceita ir ao Senado, onde o Duque o espera de qualquer modo.

Na cena 3 do Ato I, o Duque precisa dele contra os turcos, e a acusação de Brabâncio vira julgamento. Otelo admite que levou a filha e se casou com ela, diz que a sua fala é rústica, feita para os campos de batalha, e responde à acusação de feitiços contando a própria vida: as batalhas, o cativeiro e as histórias que contou na casa de Brabâncio, que levaram Desdêmona a amá-lo pelos perigos que ele passou, enquanto ele a amou pela pena que ela sentiu. O Duque observa que afirmar não é provar e, ouvida Desdêmona, manda Otelo a Chipre naquela mesma noite. Brabâncio o previne de que quem enganou o pai pode enganar o esposo, e Otelo responde que aposta a vida na fidelidade dela e, na mesma fala, entrega a esposa ao honesto Iago.

Na cena 1 do Ato II, depois da tempestade que afunda a frota turca, desembarca por último e reencontra Desdêmona no auge da felicidade. Diz que, se a morte viesse agora, seria a máxima alegria, porque teme que nada depois se iguale a esse instante. Na cena 2 do Ato II, o arauto proclama a vitória, e Otelo decreta festa e banquete públicos, em celebração dupla, da vitória e do casamento. Na cena 3 do Ato II, põe Cássio no comando da guarda noturna e se retira com a esposa. O tumulto o acorda, e ele destitui Cássio do posto de tenente na hora.

Na cena 2 do Ato III, entrega cartas a Iago e sai com os fidalgos para vistoriar as fortificações, o que deixa o palco livre para Cássio e Desdêmona na cena seguinte. A cena 3 do Ato III é a cena da queda. Antes de Iago formular qualquer dúvida sobre Desdêmona, e depois que ela sai, ele diz que, no dia em que deixar de amá-la, será o Caos de novo:

Quando Cássio se afasta às pressas, Iago devolve a Otelo as próprias palavras em forma de pergunta e o avisa contra o ciúme, e Otelo diz que não viveria nas mutações da lua: quer ver antes de duvidar e, quando duvidar, quer prova. Sozinho, pouco depois, repassa as razões que podem ter feito Desdêmona deixá-lo: ser negro, não ter a conversa dos cortesãos, já ter descido o vale da idade. Recusa o lenço com que ela tenta enfaixar-lhe a testa, e o lenço cai. Despede-se da profissão de soldado, exige a prova ocular que jurara exigir, aceita o sonho que Iago atribui a Cássio, jura vingança e nomeia Iago tenente. Na cena 4 do Ato III, pede o lenço a Desdêmona e, ao ouvir que ela não o tem ali, conta a origem mágica do objeto e repete a mesma palavra sem deixá-la falar de Cássio.

Na cena 1 do Ato IV, a fala se desfaz até a convulsão, diante de Iago que fala de lenço e de "mentindo". De pé, Otelo se esconde para ouvir Iago e Cássio falarem de Bianca e toma a risada de Cássio por confissão sobre Desdêmona. Reconhece o lenço quando Bianca o devolve, decide matar a esposa e aceita o método que Iago propõe, o estrangulamento. Chega Ludovico com a carta do Duque que o chama de volta a Veneza, e Otelo bate em Desdêmona diante dele. Na cena 2 do Ato IV, interroga Emília, que jura a honestidade da senhora, depois trata Desdêmona como prostituta e, ao sair, paga Emília como cafetina. Na cena 3 do Ato IV, manda a esposa para a cama e dispensar a acompanhante.

Na cena 1 do Ato V, ouve de longe os gritos de Cássio ferido e conclui que Iago cumpriu a palavra. Na cena 2 do Ato V, entra no quarto, beija Desdêmona adormecida e a acusa de ter dado o lenço a Cássio. Ela nega até ser sufocada. Quando Emília chega, Otelo confessa que a matou e diz que o honesto Iago lhe contou da infidelidade. Emília revela que foi ela quem achou o lenço e o deu ao marido, Otelo corre até Iago e é desarmado por Montano. Iago apunhala Emília e foge, e Otelo diz ter outra arma no quarto, uma espada de Espanha. Capturado Iago, Otelo o fere e lhe tiram a espada. Lidas as cartas de Rodrigo, Ludovico lhe retira o comando, que passa a Cássio, e Otelo, antes de se apunhalar com uma arma que ninguém viu, pede que falem dele como é:

Morre ao lado de Desdêmona.

P2Iago.

Alferes de Otelo, preterido no posto de tenente em favor de Cássio, e o único personagem da peça que age: todos os outros reagem ao que ele arma. É o vilão que faz o estrago inteiro sem sobrenatural nenhum, só com a palavra, que primeiro insinua e depois mente de frente. Serve a Otelo só por conveniência, vive da bolsa de Rodrigo, recebe de Emília, a própria mulher, o lenço de Desdêmona e o planta no quarto de Cássio. Capturado no fim, cala-se, e Veneza o destina ao tormento.

Como muda

Na cena 1 do Ato I, Iago anuncia a própria natureza logo na primeira cena, e só a Rodrigo, antes de vestir qualquer máscara diante dos outros. Diz que odeia Otelo por ter dado o posto de tenente a Cássio, e que o serve só por conveniência.

Depois grita, com Rodrigo, sob a janela de Brabâncio, para denunciar a fuga da filha com Otelo, em imagens degradantes de acasalamento animal, e se afasta antes que o pai volte. Na cena 2 do Ato I, avisa Otelo de que Brabâncio é poderoso e pode desfazer o casamento.

Na cena 3 do Ato I, Otelo indica Iago como escolta de Desdêmona a Chipre, o Duque aprova, e Otelo a entrega ao honesto Iago. A sós com Rodrigo, que cogita se afogar, Iago o convence a vender as terras e seguir a Chipre, prometendo ajudá-lo a conquistar Desdêmona, e o ato fecha com o plano já formulado:

Na cena 1 do Ato II, em Chipre, Iago troca dísticos misóginos com Desdêmona e, enquanto o casal se beija, comenta a harmonia do reencontro em aparte. Ele não fabrica desarmonia do nada: a imagem que ele mesmo escolhe é musical, e é de afrouxar cordas afinadas.

Convence Rodrigo a provocar Cássio na guarda e, em solilóquio, revela o plano de incriminar Cássio aos olhos de Otelo por suposta proximidade com Desdêmona, alimentado por uma suspeita não confirmada de que o próprio Otelo se deitou com Emília. Na cena 3 do Ato II, embriaga Cássio e os cipriotas, deixa que Rodrigo o provoque e, depois da queda de Cássio, o aconselha a pedir a Desdêmona que interceda por ele, e diz a sós o que o conselho prepara:

Na cena 3 do Ato III, o passo seguinte é o eco: repetir a palavra de Otelo em forma de pergunta, no começo sem afirmar nada, e deixar que ele mesmo conclua; mais adiante na cena passa à mentira direta, com o sonho e o lenço visto na barba de Cássio.

A frase da primeira cena volta invertida, quando ele oferece a Otelo, como sabedoria, exatamente o princípio que viola.

Avisa Otelo contra o ciúme, recebe de Emília o lenço que Desdêmona deixou cair, e quando Otelo exige a prova ocular responde com um sonho atribuído a Cássio e com o lenço com que diz ter visto Cássio secar a barba. Otelo o nomeia tenente. Na cena 4 do Ato III, manda Cássio insistir com Desdêmona quando Otelo está fora.

Na cena 1 do Ato IV, fala a Otelo de lenço e de "mentindo" até ele, repetindo "o lenço, as confissões", cair em convulsão, monta o teatro em que Cássio ri de Bianca e Otelo ouve a risada como confissão sobre a esposa. A partir daí o instrumento muda: ele propõe o método da morte, e logo executa por conta própria as duas que o plano exige.

Na cena 2 do Ato IV, consola Desdêmona, que lhe pergunta o que fazer para tê-lo de volta, e contém Rodrigo, que cobra as joias, prometendo-lhe uma noite de ação contra Cássio. Quando Emília diz que algum biltre manipulou o Mouro, manda que fale baixo e a chama de imbecil.

Na cena 1 do Ato V, posta Rodrigo para matar Cássio e admite, em aparte, que lhe convém a morte de qualquer um dos dois. Fere Cássio por trás e, ao voltar como socorrista, apunhala Rodrigo e acusa Bianca.

Na cena 2 do Ato V, Emília o desmascara, e ele a mata e foge. Capturado, diz que não responderá nada. Ludovico lê as cartas de Rodrigo e entrega o comando de Chipre a Cássio, e decreta para Iago a requintada crueldade que o conserve vivo.

P3Desdêmona.

Filha de Brabâncio, senador veneziano, e mulher de Otelo por escolha própria, contra o pai e contra a cidade. É a personagem em que as duas leituras críticas da edição mais divergem, e a que a peça mata sem que ela entenda a acusação a tempo de se defender. Segue a Chipre escoltada por Iago, intercede por Cássio com generosidade e perde o lenço que Otelo lhe deu, a prova física de que Iago precisava. Nega até o fim e, com o último fôlego, poupa quem a matou.

Como muda

Na cena 3 do Ato I, chamada a testemunhar diante do Senado, Desdêmona não nega a autoridade do pai: ela a desloca, e o faz em termos de dever, não de paixão.

Na cena 1 do Ato II, desembarca em Chipre e reencontra Otelo em plena felicidade, e na espera troca gracejos com Iago sobre mulheres, em dísticos que ela mesma chama de pilhéria boba para divertir os simplórios nas tabernas. Na cena 3 do Ato II, Otelo se retira com ela depois de pôr Cássio na guarda, e, como Emília conta na cena 1 do Ato III, ela já defende Cássio junto ao general.

Na cena 3 do Ato III, promete a Cássio, diante de Emília, interceder por ele. Quando Otelo chega com Iago e Cássio se afasta às pressas, ela diz ao marido que esteve falando com um pleiteante que sofre com a rejeição dele e tenta enfaixar-lhe a testa com o lenço. Ele recusa, e o lenço cai. Na cena 4 do Ato III, percebe a falta do lenço e pergunta onde o perdeu, e quando Otelo o pede e ouve que ela não o tem ali, ela insiste em falar de Cássio.

Na cena 1 do Ato IV, é esbofeteada por Otelo na frente de Ludovico. Na cena 2 do Ato IV, é tratada como prostituta no interrogatório da alcova, e responde com a única identidade que reivindica:

Pede que Emília estenda os lençóis nupciais e chame Iago, e pergunta a ele o que fazer para tê-lo de volta. Na cena 3 do Ato IV, lembra a aia Bárbara, que amou um homem que enlouqueceu, e canta a canção do salgueiro:

Pergunta a Emília se há mulheres que traem os maridos por tudo o que há no mundo, e fecha a cena com a ética oposta à de Emília:

Na cena 2 do Ato V, é beijada por Otelo adormecida, acusada de ter dado o lenço a Cássio e, sem prova nenhuma, sufocada. Nega:

Antes de morrer, revive para uma última fala:

P4Cássio.

Miguel Cássio, florentino, tenente de Otelo e segundo em comando. É o motivo declarado do ressentimento de Iago, o instrumento involuntário da calúnia contra Desdêmona, e o único dos alvos do plano que sai vivo, no comando de Chipre.

Como muda

Na cena 2 do Ato I, é ele quem chega a Otelo com o chamado urgente do Duque. Na cena 1 do Ato II, desembarca primeiro em Chipre, antes de Desdêmona e de Otelo. Na cena 3 do Ato II, Otelo o põe no comando da guarda noturna. Sabendo-se fraco para a bebida, Cássio bebe com os cipriotas que Iago embriagava de propósito, e é provocado por Rodrigo, que ele persegue, ferindo Montano. Otelo o destitui do posto de tenente na hora.

Depois de embriagado e desonrado por uma briga armada por Iago, Cássio não chora o cargo nem o ferimento.

É o ponto exato em que ele se entrega, e Iago o percebe na hora: quem trata a reputação como bem supremo aceita qualquer caminho que prometa devolvê-la. O conselho que vem em seguida, pedir a intercessão de Desdêmona, é bom, e Iago o usa de armadilha: funciona exatamente como prometido, e é justamente por funcionar que destrói os três.

Na cena 1 do Ato III, paga músicos para saudar o general ao amanhecer e manda o palhaço pedir uma entrevista a Emília e pede a Iago acesso a Desdêmona. Na cena 3 do Ato III, Desdêmona promete interceder por ele, e quando Otelo chega com Iago, Cássio se afasta às pressas: é esse gesto inocente que Iago explora. O sonho que Iago atribui a Cássio e o lenço com que Iago diz tê-lo visto secar a barba são a prova que Otelo aceita. Na cena 4 do Ato III, entra com Iago, insiste com Desdêmona e entrega o lenço a Bianca para copiar o desenho.

No teatro montado na cena 1 do Ato IV, Cássio fala de Bianca, e Otelo, escondido, ouve como se falasse de Desdêmona.

Na conversa com Bianca, ninguém mente sobre o próprio assunto: Cássio fala de Bianca, Bianca fala do lenço, e quem troca o referente é Otelo sozinho. Cássio é a prova viva de que a verdade dele, mal ouvida por um ouvinte já convencido, basta para a catástrofe, e as mentiras diretas de Iago na mesma cena (que Cássio já confessou, vv. 30-35) só a completam.

Na cena 1 do Ato V, é atacado na rua por Rodrigo e ferido por Iago, por trás:

O grito de Cássio ferido é interpretado por Otelo, de longe, como prova de que Iago cumpriu a promessa de matá-lo, e é o último engano de uma peça inteira feita deles. Que o alvo original do ressentimento de Iago termine vivo e governando Chipre não é ironia solta: é o que mostra que o plano nunca teve um fim próprio além do estrago.

Na cena 2 do Ato V, explica a Otelo como achou o lenço no próprio quarto, e comenta a carta de Rodrigo contra Iago, que Ludovico lê. Ludovico lhe entrega o comando de Chipre.

P5Emília.

Emília é a mulher de Iago e a camareira de Desdêmona, a quem chama de senhora e de ama. Acompanha a senhora de Veneza a Chipre, aproxima-a de Cássio quando ele pede ajuda e, na cena 3 do Ato III, acha o lenço que Desdêmona deixou cair e o entrega ao marido, que lhe pedira cem vezes que o furtasse, sem saber o que ele fará. Cala-se sobre o lenço diante da senhora, ouve o ciúme de Otelo crescer sem entendê-lo e, só diante do cadáver, fala. Revela o lenço, desmascara o marido e morre apunhalada por ele, cantando o verso do salgueiro.

Como muda

Na cena 1 do Ato II, desembarca em Chipre com Desdêmona e Iago, e Iago a trata, junto com as outras mulheres, em dísticos de taberna. Ela retruca: diz que ele tem poucas razões para falar assim e que não quer os elogios dele. No solilóquio que fecha a cena, Iago confessa suspeitar, sem confirmação, que o próprio Otelo se deitou com ela.

Na cena 1 do Ato III, Cássio manda o palhaço pedir uma entrevista a Emília e depois pede a Iago acesso a Desdêmona. Emília chega, conta que a senhora já defende Cássio junto ao general e o leva a um lugar onde possa falar a sós com ela. Na cena 3 do Ato III, está na sala quando Desdêmona promete interceder, e é ali, depois que Otelo e Desdêmona saem, que acha o lenço, o primeiro presente de Otelo, que a senhora carregava para beijar e conversar com ele. Diz que vai mandá-lo copiar e entregá-lo a Iago, e acrescenta que só os céus sabem o que ele fará com ele. Quando Iago chega, ela quer saber o que vai receber em troca. Entrega o lenço, pergunta para que ele serve e é mandada embora.

Na cena 4 do Ato III, Desdêmona pergunta onde perdeu o lenço e Emília responde que não sabe. Desdêmona diz que o Mouro é um espírito reto, sem as baixezas dos ciumentos, e Emília pergunta se ele é ciumento. Depois que Otelo sai, ela resume o que pensa dos homens: revelam-se em um ano ou dois, são só estômagos e devoram as mulheres como comida.

Ela fala sem saber que descreve o próprio casamento.

Na cena 2 do Ato IV, Otelo a interroga, e ela jura nada ter visto nem ouvido de mau na senhora e aposta a alma nisso. Ele a trata como cafetina e lhe deixa uma moeda. Mais tarde, diante de Iago, ela diz que algum biltre torpe manipulou o Mouro e pede que o céu açoite essa corja. Iago manda que fale baixo, e ela responde que um sujeito desses também lhe virou a cabeça e o fez suspeitar dela com o Mouro. Ele a chama de imbecil. Na cena 3 do Ato IV, despe a senhora, estende os lençóis nupciais e, diante da pergunta de Desdêmona sobre trair o marido por tudo o que há no mundo, diz que a culpa é dos maridos:

Na cena 1 do Ato V, chega depois do ataque na rua escura, é mandada por Iago saber de Cássio e depois à cidadela, e xinga Bianca de rameira. Na cena 2 do Ato V, está no quarto quando Desdêmona diz que morre sem culpa. Ao ouvir de Otelo que foi Iago quem acusou a senhora, nega a calúnia e diz que o marido vive da mentira. Quando Montano, Graciano e Iago chegam, Iago manda que ela se cale e vá para casa. Ela não obedece: diz que é apropriado obedecê-lo, mas não agora. Chama Otelo de Mouro obtuso e conta o que sabe:

Iago a apunhala e foge. Ela pede que a deitem ao lado da senhora, canta o verso do salgueiro, diz a Otelo que Desdêmona era casta e o amava, e morre.

P6Rodrigo.

Rodrigo é um veneziano abastado e crédulo, rejeitado como pretendente de Desdêmona por Brabâncio, que já o proibira de rondar a casa. Iago vive da bolsa dele, lhe promete a mão de Desdêmona e o usa como peão: primeiro para acordar o senador, depois para provocar Cássio e, por fim, para emboscá-lo. Rodrigo nunca consegue nada. É morto por Iago na cena 1 do Ato V, e as cartas achadas no seu bolso entregam a trama.

Como muda

Na cena 1 do Ato I, reclama de Iago, que usou a bolsa dele e sabia de tudo sem avisá-lo. Brabâncio o reconhece e o repreende: lembra que já o proibira de rondar a porta e que a filha não era para ele. Rodrigo e Iago gritam sob a janela e, quando o pai volta, Rodrigo vai com ele atrás de Otelo. Na cena 2 do Ato I, chega com o senador e os homens armados, e Iago o puxa para o seu lado.

Na cena 3 do Ato I, a sós com Iago, cogita se afogar por desespero amoroso. Iago o convence a vender as terras e seguir para Chipre, prometendo ajudá-lo a conquistar Desdêmona: é engano puro, e o dinheiro é isca. Na cena 1 do Ato II, Iago convence Rodrigo de que Desdêmona vai se cansar do Mouro e preferir Cássio, e o instrui a provocar Cássio na guarda. Rodrigo diz que fará o que ele mandar se Iago arranjar o ensejo. Na cena 3 do Ato II, é ele quem provoca Cássio, que o persegue e fere Montano.

Na cena 2 do Ato IV, Rodrigo cobra de Iago as joias que lhe confiou para dar a Desdêmona, metade das quais bastaria para corromper uma freira, e ameaça se apresentar à própria Desdêmona para pedi-las de volta. Iago o desarma com elogios e propõe a saída: matar Cássio, que uma comissão de Veneza quer pôr no lugar de Otelo, para que Otelo e Desdêmona não deixem Chipre. Rodrigo diz que quer ouvir mais motivos.

Na cena 1 do Ato V, posto na rua para emboscar Cássio, diz em aparte que não sente grande devoção pela ação. Iago, em outro aparte, calcula que ganha se um matar o outro e que Rodrigo vivo lhe cobraria o ouro e as joias que ele lhe surrupiou (vv. 14-17). A frase "tem que morrer" (v. 22) fecha o raciocínio sobre Cássio, não sobre Rodrigo.

Rodrigo ataca Cássio e é ferido por ele, e Iago o apunhala, e Rodrigo, caído, o chama de cachorro bestial. Na cena 2 do Ato V, Ludovico mostra três papéis achados no bolso dele: duas cartas, uma delas sobre a morte de Cássio, que ele devia executar, e uma folha repleta de queixas contra Iago, que ele queria enviar. Cássio acrescenta que, antes de morrer, Rodrigo disse que Iago o instilou e feriu.

Temas

T1Ciúme: o plano de Iago na cena 1 do Ato II, o monstro de olho verde na cena 3 do Ato III e o ciúme que já interpreta sozinho na cena 1 do Ato IV. Aparece em: Ato II: Chipre, a tempestade e a queda de Cássio; Ato III: A tentação e o lenço; Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro; Ato V: A emboscada, o assassinato e a revelação.
T2Preconceito: o carneiro preto na cena 1 do Ato I, a acusação de feitiçaria na cena 3 do Ato I e os monstros civilizados na cena 1 do Ato IV. Aparece em: Ato I: Veneza, a denúncia noturna e o juízo do senado; Ato III: A tentação e o lenço; Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro; Ato V: A emboscada, o assassinato e a revelação.
T3Verdade e mentira: o "não sou o que sou" da cena 1 do Ato I, o eco de "honesto" na cena 3 do Ato III e a revelação de Emília na cena 2 do Ato V. Aparece em: Ato I: Veneza, a denúncia noturna e o juízo do senado; Ato II: Chipre, a tempestade e a queda de Cássio; Ato III: A tentação e o lenço; Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro; Ato V: A emboscada, o assassinato e a revelação.
T4Honra e reputação: a reputação perdida por Cássio na cena 3 do Ato II, a bofetada diante de Ludovico na cena 1 do Ato IV e o pedido de Otelo na cena 2 do Ato V. Aparece em: Ato II: Chipre, a tempestade e a queda de Cássio; Ato III: A tentação e o lenço; Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro; Ato V: A emboscada, o assassinato e a revelação.
T5Inveja: o ressentimento pelo posto dado a Cássio na cena 1 do Ato I e a beleza assídua de Cássio, que torna Iago mais feio, na cena 1 do Ato V. Aparece em: Ato I: Veneza, a denúncia noturna e o juízo do senado; Ato V: A emboscada, o assassinato e a revelação.
T6Amor: o cortejo contado ao Senado na cena 3 do Ato I, o reencontro em Chipre na cena 1 do Ato II e o beijo antes do crime na cena 2 do Ato V. Aparece em: Ato I: Veneza, a denúncia noturna e o juízo do senado; Ato II: Chipre, a tempestade e a queda de Cássio; Ato III: A tentação e o lenço; Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro; Ato V: A emboscada, o assassinato e a revelação.

Fechamento: perguntas abertas, sem gabarito.