Clavis Libri · Caderno de estudos
William Shakespeare
Um caderno para ler o livro em 2 semanas: o que aconteceu, os temas, as citações, as questões e as perguntas para pensar.
Leia os capítulos da semana e depois responda à seção dela. Cada exercício tem um número; no fim do caderno, o gabarito traz a resposta com o mesmo número.
As perguntas "para discutir" não têm resposta certa: servem para pensar e conversar. As questões de múltipla escolha e a identificação das citações têm.
Semana 1 · Ato I: Veneza, a denúncia noturna e o juízo do senado a Ato III: A tentação e o lenço
Ao ler, observe: Repare em como Iago fala de cada um, e no que ele diz quando está sozinho.
... Eu não sou o que sou.
O lenço!
Por que Iago confessa a Rodrigo que serve a Otelo por interesse e não por lealdade?
Desdêmona insiste no caso de Cássio justamente quando Otelo só quer saber do lenço. O que cada um escuta do que o outro diz?
Semana 2 · Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro a Ato V: A emboscada, o assassinato e a revelação
Ao ler, observe: Repare em como uma suspeita cresce até parecer certeza.
Um homem com chifres é um monstro, é uma besta.
Eu te beijei, depois te matei: só o que deixo, / Matar a mim mesmo e morrer com um beijo.
No Ato III (ver Ato III: A tentação e o lenço), Iago leva Otelo da insinuação à exigência de prova. O que Iago ainda faz neste ato, e o que Otelo faz sem ele?
Otelo decidiu o método e o momento da morte de Desdêmona no Ato IV (ver Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro), mas neste ato hesita (vv. 1-22), ouve a súplica dela (vv. 79-84) e depara com a virada de Emília. O que cada um desses momentos muda na decisão?
Depois de ler o livro inteiro
Para cada personagem, diga quem é e como muda do começo ao fim do livro.
| Personagem | Quem é | Como muda |
|---|---|---|
| P1 Otelo | ||
| P2 Iago | ||
| P3 Desdêmona | ||
| P4 Cássio | ||
| P5 Emília | ||
| P6 Rodrigo |
Para cada tema, anote dois ou três momentos do livro em que ele aparece e escreva, em poucas linhas, o que o livro diz sobre ele.
Perguntas sobre a obra inteira. Escolha uma e responda num texto de 20 a 30 linhas.
Que cenas da peça sustentam cada leitura, e o que ela faz com a palavra "ciumento"?
A peça autoriza aproximar Iago do Satã de Milton, como faz Harold Bloom? O que, no texto, aproxima os dois, e o que os separa?
Iago diz a Rodrigo (I.1, I.3) e, em apartes, ao público que não é o que é, e só os apartes ficam sem ouvinte em cena. O que muda na peça por o público saber o que Otelo não sabe?
Desdêmona e Emília respondem de modos opostos ao que se deve ao marido. O que cada uma das duas respostas faz acontecer na peça?
Otelo aceita o lenço como prova sem dar crédito a Desdêmona. O que ele precisaria ver para duvidar de Iago?
Palavras do livro que podem travar a leitura, explicadas. Para consultar quando aparecerem.
Mouro. Palavra de origem latina (Mauri), usada na Europa medieval e moderna, sem rigor, para árabes, berberes, muçulmanos europeus e pessoas negras. Aplicou-se aos habitantes muçulmanos da Península Ibérica depois da conquista de 711. Em inglês, desde o século XIV, também era um termo racial para pessoas de pele escura. A Britannica de 1911 já observava que o termo não tinha valor etnológico real.
Tenente. Posto militar de quem auxilia e substitui o capitão no comando de uma unidade, o imediato logo abaixo dele. O português tirou a palavra do francês lieutenant, que significa literalmente 'aquele que ocupa o lugar de outro', e a raiz latina é tenere, 'ter, segurar'. Era, portanto, o segundo na cadeia de comando.
Duque. Na Veneza da peça, o Duque é o doge, chefe da República de Veneza, cargo que existiu de 697 a 1797. Doge vem do latim dux, a mesma raiz de duque. Era eleito para a vida toda, por um processo complexo de votação. Com o tempo seu poder real diminuiu e o cargo passou a ser sobretudo representativo, com decisões entregues a outros órgãos.
Feitiçaria. Crença de que alguém podia, com ervas, poções (os chamados filtros de amor) ou encantamentos, dobrar a vontade alheia e provocar paixão. Na Idade Média, bruxas e herboristas preparavam essas misturas, às vezes com plantas tóxicas como a beladona. Na época de Shakespeare, a lei inglesa de 1604 punia com a morte quem invocasse espíritos malignos ou tivesse trato com espíritos familiares.
Senado. Principal órgão legislativo da República de Veneza, criado por volta de 1229 com o nome de Consiglio dei Pregadi, 'Conselho dos Convidados'. O nome Senado só lhe foi dado no fim do século XIV. Tratava de impostos, comércio, política externa e operações militares. Por volta de 1500 reunia cerca de 300 nobres, e o doge participava dele por direito próprio.
Frota turca. Armada do Império Otomano, potência que dominava o Mediterrâneo oriental e disputava o mar com Veneza. Em 27 de junho de 1570, uma força de centenas de navios partiu rumo a Chipre, então posse veneziana. A guerra terminou em março de 1573, com um tratado pelo qual Chipre virou província otomana e Veneza pagou uma indenização de 300 mil ducados.
Chipre. Ilha do Mediterrâneo oriental que Veneza passou a controlar em 1489, quando a rainha Caterina Cornaro abdicou. Para a República era sobretudo uma base militar, e suas cidades, como Nicósia e Famagusta, receberam muralhas e bastiões pensados para resistir à artilharia, diante da ameaça dos otomanos, que atacavam a ilha com frequência.
Sibila. Profetisa da Antiguidade grega e romana, que anunciava mensagens divinas em estado de transe extático. A mais importante para os romanos era a Sibila de Cumas, perto de Nápoles, que segundo a lenda vendeu os livros sibilinos a Tarquínio, o Soberbo, último rei de Roma. Os romanos reconheciam dez sibilas, listadas pelo estudioso Varrão no século I a.C.
Chifres. No imaginário europeu da época moderna, o marido traído era o cornudo, de quem se dizia que usava chifres. A imagem vem do cervo que, vencido por um rival, perde suas fêmeas. Era motivo de zombaria pública contra o marido. A expressão existe em várias línguas: cornuto em italiano, porter des cornes em francês, corno em português.
Canção do salgueiro. Balada popular inglesa, conservada num manuscrito da Biblioteca Britânica (Add. MS 15117), em oito estrofes. O salgueiro era, na tradição, emblema de luto e de amor rejeitado. Na versão antiga, quem canta é um homem que sofre com a crueldade e a infidelidade da amada. Shakespeare adaptou a balada, trocando o cantor por uma mulher.
Gabarito
Na rua, de noite, diante da casa de Brabâncio, Iago explica a Rodrigo por que serve Otelo: por cálculo, não por lealdade. Foi preterido no posto de tenente, que Otelo deu a Cássio, e diz que, se os seus atos de fora mostrassem o coração que tem por dentro, logo o entregaria às gralhas para que o bicassem. Fecha o argumento com a fórmula acima. Pode-se ler a frase como a verdade sobre ele em forma de enigma: o que Iago parece ser, um alferes obediente, não é o que ele é.
O que dá peso à frase é quem a ouve. Iago a diz a Rodrigo, seu instrumento, antes de vestir qualquer máscara diante de Otelo ou de Brabâncio. O público sai da primeira cena sabendo que a palavra dele não vale pelo que diz, e passa a peça inteira vendo os outros acreditarem nela. A ação seguinte já é a frase posta em prática: Iago manda Rodrigo acordar Brabâncio aos gritos e se afasta antes que o pai volte, para não ser achado ali.
A fórmula toca o tema da verdade e da mentira e também o ressentimento que a peça trata como inveja, nascido de um posto que Iago julga seu. No Ato III, ele diz a Otelo, como sabedoria, que um homem deveria ser o que parece. Pode-se ler o resto da obra como a prática de uma frase que afirma o contrário: quem declara que não é o que é acaba aparecendo, para os outros, como honesto.
Otelo pede um lenço a Desdêmona, com a desculpa de um incômodo, e ela diz que não o tem ali. Ele então conta a origem do objeto: uma egípcia o deu à mãe dele, com a promessa de que, enquanto o guardasse, seria amada, e de que perdê-lo ou dá-lo faria o marido olhá-la com ódio. Depois exige: "Traga o lenço." Desdêmona, que já se perguntara onde o perdera, diz que ele não está perdido e tenta falar de Cássio. A cada tentativa, Otelo reduz tudo a uma só palavra, "O lenço!", três vezes, e sai.
A cena é um diálogo de surdos. Desdêmona só quer falar de Cássio e acredita defender um amigo do marido; Otelo só ouve o lenço, que já é, para ele, o teste da fidelidade. Nenhum dos dois entende o que o outro está dizendo, e o público sabe mais do que ambos: o lenço já saiu das mãos dela e foi parar nas de Iago. Pode-se ouvir na palavra repetida um eco do "honesto" de Iago: agora é Otelo quem repete uma palavra, e ela vale por uma acusação. Desdêmona, que sabe que o perdeu, diz que não está perdido, uma pequena inverdade que se pode ler como susto diante da lenda e do tom do marido.
Aqui o pano vale pela história que se conta dele, e é por isso que pode virar prova. Pode-se ler a cena como o ponto em que o lenço deixa de ser um presente e vira sinal, e em que o amor de Otelo, que já era de tudo ou nada, passa a exigir uma prova.
1.10 a 1.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Em Chipre, Iago fala a Otelo de lenço e de "mentindo" até ele, repetindo "o lenço, as confissões", cair em convulsão. Ao despertar, Iago lhe pede que enfrente a sorte como um homem, e Otelo responde com a régua com que já condena a esposa: um homem com chifres, isto é, traído, é um monstro, é uma besta. Diz isso sem ter ouvido a defesa de Desdêmona. Iago aproveita a deixa: nas grandes cidades, responde, há muitas bestas e muitos monstros civilizados.
A frase mostra como Otelo mede a própria honra. Para ele o homem traído deixa de ser inteiramente homem, vira besta, e por isso a suspeita de traição pesa em reputação e não só em amor. Pode-se ler nos "monstros civilizados" de Iago uma alusão a Otelo e à ideia de monstruosidade animalizada, a mesma ordem de imagens do carneiro preto, do Ato I, agora na conversa dos dois.
A imagem também fecha um círculo. No Ato III o ciúme era o monstro de olho verde, uma coisa exterior que se devia evitar; aqui o monstro é o próprio homem enganado. Pode-se ler a frase como o instante em que Otelo se torna aquilo que temia, pois adiante decide matar a esposa. Em seguida, escondido, ouve Iago conversar com Cássio sobre Bianca, e a risada de Cássio, para ele, vira confissão sobre Desdêmona: a cena mostra um homem que escreve sozinho o roteiro e depois o lê como se fosse prova.
São as últimas palavras de Otelo. Ele acaba de contar que, certa vez em Aleppo, golpeou um turco que difamava o Estado, e se apunhala no meio do relato. Pode-se ler aí um retorno irônico à identidade primeira: o "turco pernicioso" é, no fundo, ele próprio. Diz então a Desdêmona que a beijou antes de matá-la e que só lhe resta matar-se e morrer com um beijo, e morre ao lado dela. Repete, assim, o gesto que abriu o assassinato: no quarto, ele a beijara e dissera que ficasse assim, quando morta, que ele a mataria e depois a amaria.
A frase mostra um Otelo que organiza a própria morte como um desfecho simétrico, de modo a dar sentido ao que não o tem. Pode-se ler isso como o último ato de um homem que precisa ver o amor e o crime como parte da mesma história, porque a alternativa, o crime sem amor, é insuportável. O verso também é de uma economia seca, quase aritmética: beijei, matei, resta me matar. O que começou como beijo e sentença termina como beijo e suicídio.
A cena é difícil de resolver. Pode-se ler o discurso que antecede a morte como o de um homem que parece animar a si mesmo e pensar mais em si do que em Desdêmona. Ainda assim, o beijo final é o que o liga a ela, e a peça o deixa morrer junto do corpo dela. O amor, que a peça apresentou como o laço que unia o casal, é também o que o destrói, e o fim reúne os dois sentidos numa única imagem.
2.10 a 2.12: perguntas abertas, sem gabarito.
Otelo é o general mouro a serviço de Veneza, casado com Desdêmona, filha do senador Brabâncio. Soldado desde os sete anos, já foi escravizado e resgatado, e a república o chama no meio da noite porque precisa dele de imediato contra a frota turca. Vai a Chipre com a esposa e com o tenente Cássio, e ali perde, em poucas cenas, a confiança que tinha nos dois, convencido por Iago de que ela o trai. Mata a mulher na cama, descobre o engano pela boca de Emília e pelas cartas de Rodrigo, é destituído do comando, que passa a Cássio, e se mata com uma arma que ainda traz escondida.
Como muda
Na cena 2 do Ato I, Iago o avisa de que Brabâncio é poderoso e pode desfazer o casamento, e Otelo recusa se esconder: confia nos serviços prestados à Signoria e no que os outros pensam dele. Quando Brabâncio chega com homens armados e tenta prendê-lo por feitiçaria, manda guardar as espadas, não briga, e aceita ir ao Senado, onde o Duque o espera de qualquer modo.
Na cena 3 do Ato I, o Duque precisa dele contra os turcos, e a acusação de Brabâncio vira julgamento. Otelo admite que levou a filha e se casou com ela, diz que a sua fala é rústica, feita para os campos de batalha, e responde à acusação de feitiços contando a própria vida: as batalhas, o cativeiro e as histórias que contou na casa de Brabâncio, que levaram Desdêmona a amá-lo pelos perigos que ele passou, enquanto ele a amou pela pena que ela sentiu. O Duque observa que afirmar não é provar e, ouvida Desdêmona, manda Otelo a Chipre naquela mesma noite. Brabâncio o previne de que quem enganou o pai pode enganar o esposo, e Otelo responde que aposta a vida na fidelidade dela e, na mesma fala, entrega a esposa ao honesto Iago.
Na cena 1 do Ato II, depois da tempestade que afunda a frota turca, desembarca por último e reencontra Desdêmona no auge da felicidade. Diz que, se a morte viesse agora, seria a máxima alegria, porque teme que nada depois se iguale a esse instante. Na cena 2 do Ato II, o arauto proclama a vitória, e Otelo decreta festa e banquete públicos, em celebração dupla, da vitória e do casamento. Na cena 3 do Ato II, põe Cássio no comando da guarda noturna e se retira com a esposa. O tumulto o acorda, e ele destitui Cássio do posto de tenente na hora.
Na cena 2 do Ato III, entrega cartas a Iago e sai com os fidalgos para vistoriar as fortificações, o que deixa o palco livre para Cássio e Desdêmona na cena seguinte. A cena 3 do Ato III é a cena da queda. Antes de Iago formular qualquer dúvida sobre Desdêmona, e depois que ela sai, ele diz que, no dia em que deixar de amá-la, será o Caos de novo:
Quando Cássio se afasta às pressas, Iago devolve a Otelo as próprias palavras em forma de pergunta e o avisa contra o ciúme, e Otelo diz que não viveria nas mutações da lua: quer ver antes de duvidar e, quando duvidar, quer prova. Sozinho, pouco depois, repassa as razões que podem ter feito Desdêmona deixá-lo: ser negro, não ter a conversa dos cortesãos, já ter descido o vale da idade. Recusa o lenço com que ela tenta enfaixar-lhe a testa, e o lenço cai. Despede-se da profissão de soldado, exige a prova ocular que jurara exigir, aceita o sonho que Iago atribui a Cássio, jura vingança e nomeia Iago tenente. Na cena 4 do Ato III, pede o lenço a Desdêmona e, ao ouvir que ela não o tem ali, conta a origem mágica do objeto e repete a mesma palavra sem deixá-la falar de Cássio.
Na cena 1 do Ato IV, a fala se desfaz até a convulsão, diante de Iago que fala de lenço e de "mentindo". De pé, Otelo se esconde para ouvir Iago e Cássio falarem de Bianca e toma a risada de Cássio por confissão sobre Desdêmona. Reconhece o lenço quando Bianca o devolve, decide matar a esposa e aceita o método que Iago propõe, o estrangulamento. Chega Ludovico com a carta do Duque que o chama de volta a Veneza, e Otelo bate em Desdêmona diante dele. Na cena 2 do Ato IV, interroga Emília, que jura a honestidade da senhora, depois trata Desdêmona como prostituta e, ao sair, paga Emília como cafetina. Na cena 3 do Ato IV, manda a esposa para a cama e dispensar a acompanhante.
Na cena 1 do Ato V, ouve de longe os gritos de Cássio ferido e conclui que Iago cumpriu a palavra. Na cena 2 do Ato V, entra no quarto, beija Desdêmona adormecida e a acusa de ter dado o lenço a Cássio. Ela nega até ser sufocada. Quando Emília chega, Otelo confessa que a matou e diz que o honesto Iago lhe contou da infidelidade. Emília revela que foi ela quem achou o lenço e o deu ao marido, Otelo corre até Iago e é desarmado por Montano. Iago apunhala Emília e foge, e Otelo diz ter outra arma no quarto, uma espada de Espanha. Capturado Iago, Otelo o fere e lhe tiram a espada. Lidas as cartas de Rodrigo, Ludovico lhe retira o comando, que passa a Cássio, e Otelo, antes de se apunhalar com uma arma que ninguém viu, pede que falem dele como é:
Morre ao lado de Desdêmona.
Alferes de Otelo, preterido no posto de tenente em favor de Cássio, e o único personagem da peça que age: todos os outros reagem ao que ele arma. É o vilão que faz o estrago inteiro sem sobrenatural nenhum, só com a palavra, que primeiro insinua e depois mente de frente. Serve a Otelo só por conveniência, vive da bolsa de Rodrigo, recebe de Emília, a própria mulher, o lenço de Desdêmona e o planta no quarto de Cássio. Capturado no fim, cala-se, e Veneza o destina ao tormento.
Como muda
Na cena 1 do Ato I, Iago anuncia a própria natureza logo na primeira cena, e só a Rodrigo, antes de vestir qualquer máscara diante dos outros. Diz que odeia Otelo por ter dado o posto de tenente a Cássio, e que o serve só por conveniência.
Depois grita, com Rodrigo, sob a janela de Brabâncio, para denunciar a fuga da filha com Otelo, em imagens degradantes de acasalamento animal, e se afasta antes que o pai volte. Na cena 2 do Ato I, avisa Otelo de que Brabâncio é poderoso e pode desfazer o casamento.
Na cena 3 do Ato I, Otelo indica Iago como escolta de Desdêmona a Chipre, o Duque aprova, e Otelo a entrega ao honesto Iago. A sós com Rodrigo, que cogita se afogar, Iago o convence a vender as terras e seguir a Chipre, prometendo ajudá-lo a conquistar Desdêmona, e o ato fecha com o plano já formulado:
Na cena 1 do Ato II, em Chipre, Iago troca dísticos misóginos com Desdêmona e, enquanto o casal se beija, comenta a harmonia do reencontro em aparte. Ele não fabrica desarmonia do nada: a imagem que ele mesmo escolhe é musical, e é de afrouxar cordas afinadas.
Convence Rodrigo a provocar Cássio na guarda e, em solilóquio, revela o plano de incriminar Cássio aos olhos de Otelo por suposta proximidade com Desdêmona, alimentado por uma suspeita não confirmada de que o próprio Otelo se deitou com Emília. Na cena 3 do Ato II, embriaga Cássio e os cipriotas, deixa que Rodrigo o provoque e, depois da queda de Cássio, o aconselha a pedir a Desdêmona que interceda por ele, e diz a sós o que o conselho prepara:
Na cena 3 do Ato III, o passo seguinte é o eco: repetir a palavra de Otelo em forma de pergunta, no começo sem afirmar nada, e deixar que ele mesmo conclua; mais adiante na cena passa à mentira direta, com o sonho e o lenço visto na barba de Cássio.
A frase da primeira cena volta invertida, quando ele oferece a Otelo, como sabedoria, exatamente o princípio que viola.
Avisa Otelo contra o ciúme, recebe de Emília o lenço que Desdêmona deixou cair, e quando Otelo exige a prova ocular responde com um sonho atribuído a Cássio e com o lenço com que diz ter visto Cássio secar a barba. Otelo o nomeia tenente. Na cena 4 do Ato III, manda Cássio insistir com Desdêmona quando Otelo está fora.
Na cena 1 do Ato IV, fala a Otelo de lenço e de "mentindo" até ele, repetindo "o lenço, as confissões", cair em convulsão, monta o teatro em que Cássio ri de Bianca e Otelo ouve a risada como confissão sobre a esposa. A partir daí o instrumento muda: ele propõe o método da morte, e logo executa por conta própria as duas que o plano exige.
Na cena 2 do Ato IV, consola Desdêmona, que lhe pergunta o que fazer para tê-lo de volta, e contém Rodrigo, que cobra as joias, prometendo-lhe uma noite de ação contra Cássio. Quando Emília diz que algum biltre manipulou o Mouro, manda que fale baixo e a chama de imbecil.
Na cena 1 do Ato V, posta Rodrigo para matar Cássio e admite, em aparte, que lhe convém a morte de qualquer um dos dois. Fere Cássio por trás e, ao voltar como socorrista, apunhala Rodrigo e acusa Bianca.
Na cena 2 do Ato V, Emília o desmascara, e ele a mata e foge. Capturado, diz que não responderá nada. Ludovico lê as cartas de Rodrigo e entrega o comando de Chipre a Cássio, e decreta para Iago a requintada crueldade que o conserve vivo.
Filha de Brabâncio, senador veneziano, e mulher de Otelo por escolha própria, contra o pai e contra a cidade. É a personagem em que as duas leituras críticas da edição mais divergem, e a que a peça mata sem que ela entenda a acusação a tempo de se defender. Segue a Chipre escoltada por Iago, intercede por Cássio com generosidade e perde o lenço que Otelo lhe deu, a prova física de que Iago precisava. Nega até o fim e, com o último fôlego, poupa quem a matou.
Como muda
Na cena 3 do Ato I, chamada a testemunhar diante do Senado, Desdêmona não nega a autoridade do pai: ela a desloca, e o faz em termos de dever, não de paixão.
Na cena 1 do Ato II, desembarca em Chipre e reencontra Otelo em plena felicidade, e na espera troca gracejos com Iago sobre mulheres, em dísticos que ela mesma chama de pilhéria boba para divertir os simplórios nas tabernas. Na cena 3 do Ato II, Otelo se retira com ela depois de pôr Cássio na guarda, e, como Emília conta na cena 1 do Ato III, ela já defende Cássio junto ao general.
Na cena 3 do Ato III, promete a Cássio, diante de Emília, interceder por ele. Quando Otelo chega com Iago e Cássio se afasta às pressas, ela diz ao marido que esteve falando com um pleiteante que sofre com a rejeição dele e tenta enfaixar-lhe a testa com o lenço. Ele recusa, e o lenço cai. Na cena 4 do Ato III, percebe a falta do lenço e pergunta onde o perdeu, e quando Otelo o pede e ouve que ela não o tem ali, ela insiste em falar de Cássio.
Na cena 1 do Ato IV, é esbofeteada por Otelo na frente de Ludovico. Na cena 2 do Ato IV, é tratada como prostituta no interrogatório da alcova, e responde com a única identidade que reivindica:
Pede que Emília estenda os lençóis nupciais e chame Iago, e pergunta a ele o que fazer para tê-lo de volta. Na cena 3 do Ato IV, lembra a aia Bárbara, que amou um homem que enlouqueceu, e canta a canção do salgueiro:
Pergunta a Emília se há mulheres que traem os maridos por tudo o que há no mundo, e fecha a cena com a ética oposta à de Emília:
Na cena 2 do Ato V, é beijada por Otelo adormecida, acusada de ter dado o lenço a Cássio e, sem prova nenhuma, sufocada. Nega:
Antes de morrer, revive para uma última fala:
Miguel Cássio, florentino, tenente de Otelo e segundo em comando. É o motivo declarado do ressentimento de Iago, o instrumento involuntário da calúnia contra Desdêmona, e o único dos alvos do plano que sai vivo, no comando de Chipre.
Como muda
Na cena 2 do Ato I, é ele quem chega a Otelo com o chamado urgente do Duque. Na cena 1 do Ato II, desembarca primeiro em Chipre, antes de Desdêmona e de Otelo. Na cena 3 do Ato II, Otelo o põe no comando da guarda noturna. Sabendo-se fraco para a bebida, Cássio bebe com os cipriotas que Iago embriagava de propósito, e é provocado por Rodrigo, que ele persegue, ferindo Montano. Otelo o destitui do posto de tenente na hora.
Depois de embriagado e desonrado por uma briga armada por Iago, Cássio não chora o cargo nem o ferimento.
É o ponto exato em que ele se entrega, e Iago o percebe na hora: quem trata a reputação como bem supremo aceita qualquer caminho que prometa devolvê-la. O conselho que vem em seguida, pedir a intercessão de Desdêmona, é bom, e Iago o usa de armadilha: funciona exatamente como prometido, e é justamente por funcionar que destrói os três.
Na cena 1 do Ato III, paga músicos para saudar o general ao amanhecer e manda o palhaço pedir uma entrevista a Emília e pede a Iago acesso a Desdêmona. Na cena 3 do Ato III, Desdêmona promete interceder por ele, e quando Otelo chega com Iago, Cássio se afasta às pressas: é esse gesto inocente que Iago explora. O sonho que Iago atribui a Cássio e o lenço com que Iago diz tê-lo visto secar a barba são a prova que Otelo aceita. Na cena 4 do Ato III, entra com Iago, insiste com Desdêmona e entrega o lenço a Bianca para copiar o desenho.
No teatro montado na cena 1 do Ato IV, Cássio fala de Bianca, e Otelo, escondido, ouve como se falasse de Desdêmona.
Na conversa com Bianca, ninguém mente sobre o próprio assunto: Cássio fala de Bianca, Bianca fala do lenço, e quem troca o referente é Otelo sozinho. Cássio é a prova viva de que a verdade dele, mal ouvida por um ouvinte já convencido, basta para a catástrofe, e as mentiras diretas de Iago na mesma cena (que Cássio já confessou, vv. 30-35) só a completam.
Na cena 1 do Ato V, é atacado na rua por Rodrigo e ferido por Iago, por trás:
O grito de Cássio ferido é interpretado por Otelo, de longe, como prova de que Iago cumpriu a promessa de matá-lo, e é o último engano de uma peça inteira feita deles. Que o alvo original do ressentimento de Iago termine vivo e governando Chipre não é ironia solta: é o que mostra que o plano nunca teve um fim próprio além do estrago.
Na cena 2 do Ato V, explica a Otelo como achou o lenço no próprio quarto, e comenta a carta de Rodrigo contra Iago, que Ludovico lê. Ludovico lhe entrega o comando de Chipre.
Emília é a mulher de Iago e a camareira de Desdêmona, a quem chama de senhora e de ama. Acompanha a senhora de Veneza a Chipre, aproxima-a de Cássio quando ele pede ajuda e, na cena 3 do Ato III, acha o lenço que Desdêmona deixou cair e o entrega ao marido, que lhe pedira cem vezes que o furtasse, sem saber o que ele fará. Cala-se sobre o lenço diante da senhora, ouve o ciúme de Otelo crescer sem entendê-lo e, só diante do cadáver, fala. Revela o lenço, desmascara o marido e morre apunhalada por ele, cantando o verso do salgueiro.
Como muda
Na cena 1 do Ato II, desembarca em Chipre com Desdêmona e Iago, e Iago a trata, junto com as outras mulheres, em dísticos de taberna. Ela retruca: diz que ele tem poucas razões para falar assim e que não quer os elogios dele. No solilóquio que fecha a cena, Iago confessa suspeitar, sem confirmação, que o próprio Otelo se deitou com ela.
Na cena 1 do Ato III, Cássio manda o palhaço pedir uma entrevista a Emília e depois pede a Iago acesso a Desdêmona. Emília chega, conta que a senhora já defende Cássio junto ao general e o leva a um lugar onde possa falar a sós com ela. Na cena 3 do Ato III, está na sala quando Desdêmona promete interceder, e é ali, depois que Otelo e Desdêmona saem, que acha o lenço, o primeiro presente de Otelo, que a senhora carregava para beijar e conversar com ele. Diz que vai mandá-lo copiar e entregá-lo a Iago, e acrescenta que só os céus sabem o que ele fará com ele. Quando Iago chega, ela quer saber o que vai receber em troca. Entrega o lenço, pergunta para que ele serve e é mandada embora.
Na cena 4 do Ato III, Desdêmona pergunta onde perdeu o lenço e Emília responde que não sabe. Desdêmona diz que o Mouro é um espírito reto, sem as baixezas dos ciumentos, e Emília pergunta se ele é ciumento. Depois que Otelo sai, ela resume o que pensa dos homens: revelam-se em um ano ou dois, são só estômagos e devoram as mulheres como comida.
Ela fala sem saber que descreve o próprio casamento.
Na cena 2 do Ato IV, Otelo a interroga, e ela jura nada ter visto nem ouvido de mau na senhora e aposta a alma nisso. Ele a trata como cafetina e lhe deixa uma moeda. Mais tarde, diante de Iago, ela diz que algum biltre torpe manipulou o Mouro e pede que o céu açoite essa corja. Iago manda que fale baixo, e ela responde que um sujeito desses também lhe virou a cabeça e o fez suspeitar dela com o Mouro. Ele a chama de imbecil. Na cena 3 do Ato IV, despe a senhora, estende os lençóis nupciais e, diante da pergunta de Desdêmona sobre trair o marido por tudo o que há no mundo, diz que a culpa é dos maridos:
Na cena 1 do Ato V, chega depois do ataque na rua escura, é mandada por Iago saber de Cássio e depois à cidadela, e xinga Bianca de rameira. Na cena 2 do Ato V, está no quarto quando Desdêmona diz que morre sem culpa. Ao ouvir de Otelo que foi Iago quem acusou a senhora, nega a calúnia e diz que o marido vive da mentira. Quando Montano, Graciano e Iago chegam, Iago manda que ela se cale e vá para casa. Ela não obedece: diz que é apropriado obedecê-lo, mas não agora. Chama Otelo de Mouro obtuso e conta o que sabe:
Iago a apunhala e foge. Ela pede que a deitem ao lado da senhora, canta o verso do salgueiro, diz a Otelo que Desdêmona era casta e o amava, e morre.
Rodrigo é um veneziano abastado e crédulo, rejeitado como pretendente de Desdêmona por Brabâncio, que já o proibira de rondar a casa. Iago vive da bolsa dele, lhe promete a mão de Desdêmona e o usa como peão: primeiro para acordar o senador, depois para provocar Cássio e, por fim, para emboscá-lo. Rodrigo nunca consegue nada. É morto por Iago na cena 1 do Ato V, e as cartas achadas no seu bolso entregam a trama.
Como muda
Na cena 1 do Ato I, reclama de Iago, que usou a bolsa dele e sabia de tudo sem avisá-lo. Brabâncio o reconhece e o repreende: lembra que já o proibira de rondar a porta e que a filha não era para ele. Rodrigo e Iago gritam sob a janela e, quando o pai volta, Rodrigo vai com ele atrás de Otelo. Na cena 2 do Ato I, chega com o senador e os homens armados, e Iago o puxa para o seu lado.
Na cena 3 do Ato I, a sós com Iago, cogita se afogar por desespero amoroso. Iago o convence a vender as terras e seguir para Chipre, prometendo ajudá-lo a conquistar Desdêmona: é engano puro, e o dinheiro é isca. Na cena 1 do Ato II, Iago convence Rodrigo de que Desdêmona vai se cansar do Mouro e preferir Cássio, e o instrui a provocar Cássio na guarda. Rodrigo diz que fará o que ele mandar se Iago arranjar o ensejo. Na cena 3 do Ato II, é ele quem provoca Cássio, que o persegue e fere Montano.
Na cena 2 do Ato IV, Rodrigo cobra de Iago as joias que lhe confiou para dar a Desdêmona, metade das quais bastaria para corromper uma freira, e ameaça se apresentar à própria Desdêmona para pedi-las de volta. Iago o desarma com elogios e propõe a saída: matar Cássio, que uma comissão de Veneza quer pôr no lugar de Otelo, para que Otelo e Desdêmona não deixem Chipre. Rodrigo diz que quer ouvir mais motivos.
Na cena 1 do Ato V, posto na rua para emboscar Cássio, diz em aparte que não sente grande devoção pela ação. Iago, em outro aparte, calcula que ganha se um matar o outro e que Rodrigo vivo lhe cobraria o ouro e as joias que ele lhe surrupiou (vv. 14-17). A frase "tem que morrer" (v. 22) fecha o raciocínio sobre Cássio, não sobre Rodrigo.
Rodrigo ataca Cássio e é ferido por ele, e Iago o apunhala, e Rodrigo, caído, o chama de cachorro bestial. Na cena 2 do Ato V, Ludovico mostra três papéis achados no bolso dele: duas cartas, uma delas sobre a morte de Cássio, que ele devia executar, e uma folha repleta de queixas contra Iago, que ele queria enviar. Cássio acrescenta que, antes de morrer, Rodrigo disse que Iago o instilou e feriu.
Fechamento: perguntas abertas, sem gabarito.