Clavis Libri

Símbolo

Os animais

O que é

As imagens de bicho com que a peça fala de gente. Desde a primeira cena, Iago descreve a união de Otelo e Desdêmona como acasalamento de animais: um carneiro preto cobrindo uma ovelha branca, um cavalo da Barbária montando a filha de Brabâncio, a "besta de oito patas". Mais tarde a mesma linguagem volta e muda de dono: Otelo se diz melhor sapo do que marido enganado, compara Desdêmona a uma águia que se solta ao vento, declara que o homem traído é uma besta, e no fim os outros chamam Iago de cão e de réptil. Os animais mudam conforme quem fala e de quem se fala: bichos de carga e de criação para os criados e para o casal na boca de Iago, uma ave de caça para Desdêmona, sapos e bodes para o marido traído, cães e répteis para Iago no desfecho. Em quase todas as vezes, o animal serve para rebaixar alguém, o outro ou a si mesmo, e aparece quando quem fala já decidiu o que vê.

Onde aparece

Na cena 1 do Ato I, Iago diz a Rodrigo que há criados que, como asnos, se matam de servir por uma ração, manda "jogar moscas" em Otelo e grita a Brabâncio que um carneiro preto, velho, cobre a sua ovelha branca e que a filha dele é montada por um cavalo da Barbária. Diz também que, se mostrasse o coração por fora, o entregaria às gralhas para que o bicassem.

Iago descreve a união a Brabâncio em termos deliberadamente aviltantes: um carneiro preto, velho / Está cobrindo a sua ovelha branca. Levante, (I.1, v. 87-88)
Ato I: Veneza, a denúncia noturna e o juízo do senado

Na cena 3 do Ato I, Iago diz a Rodrigo que prefere trocar de condição com um babuíno a se afogar por amar uma franguinha-guiné, que se afoga um gato ou um cachorrinho cego, e conta ao público que Otelo, por sua franqueza, se deixará levar pelo nariz, como um asno.

Na cena 1 do Ato II, Iago diz em aparte que vai prender Cássio, uma mosca graúda, numa teia fina, e na cena 3 diz que Cássio bêbado ficará mais abusado que o cachorrinho da sua mulher. O próprio Cássio, depois da briga, lamenta que o vinho faça dos homens bestas e que dele só tenha restado a parte bestial.

Na cena 3 do Ato III, Otelo usa os animais contra si e contra Desdêmona. Diz a Iago que, se ela for uma águia sem doma, a solta ao vento para que se vire na sorte; que prefere ser um sapo num calabouço fétido a guardar um canto do amor para o uso alheio; e que Iago pode trocá-lo por um bode se ele se pôs a cismar sem motivo. Iago, para dizer a Otelo como seria uma prova ocular, fala de pessoas lascivas como cabras, ardentes como símios, no cio como lobos.

Na cena 1 do Ato IV, Otelo declara que um homem com chifres é um monstro, uma besta, diz que as lágrimas de mulher, se nutrissem a terra, fariam brotar um crocodilo a cada gota, e sai chamando de bodes e macacos os que o cercam. No mesmo ato, Cássio chama Bianca de cadela perfumada, e Bianca manda Cássio levar o lenço para a sua "eguinha". Na cena 2, Otelo compara Desdêmona a uma mosca de verão em abatedouro e diz que o lugar onde pôs o coração virou uma poça para sapos sórdidos.

Otelo enuncia a régua com que já condena a esposa, sem tê-la ouvido: Um homem com chifres é um monstro, é uma besta. (IV.1, v. 65)
Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro

Na cena 1 do Ato V, Rodrigo, apunhalado, chama Iago de cachorro bestial. Na cena 2, Ludovico, ao ver Iago preso, o chama de cão espartano e de réptil, e a mesma linguagem que servira para rebaixar o casal passa a ser aplicada ao homem que a espalhou.

O que significa

Os animais dão a quem fala uma maneira de classificar sem provar. Chamar alguém de carneiro, cão ou sapo é dizer o que ele é antes de qualquer fato, e é por isso que a imagem precede, em cada cena, o argumento. Na boca de Iago, o bicho serve para ferir e para agir: abre a peça acordando um pai com um acasalamento de animais. Na de Otelo, serve para se castigar: quando duvida de Desdêmona, ele se compara ao sapo e ao bode, e quando se convence, a compara a uma mosca de verão no abatedouro.

Os animais mudam de dono como o lenço e o monstro. No Ato I são de Iago e rebaixam os outros; no Ato III Otelo os vira contra si, sapo, bode, águia que se solta; no Ato IV os aplica ao marido enganado e à esposa; no fim são os outros que os aplicam a Iago. Em cada passagem, quem fala de bicho já decidiu o que o outro é.

Relações