O que é
A imagem do ciúme como monstro. Na cena 3 do Ato III, Iago o descreve como um monstro de olho verde que escarnece da carne que o nutre, e a frase se tornou a mais citada da peça. A mesma ideia de monstruosidade volta em outras bocas e em outras cenas: o plano que nasce monstro, o ciúme que se gera a si mesmo, o homem de chifres que é uma besta, o ato monstruoso do fim.
A nota da tradução de Lawrence Flores Pereira liga o monstro de olho verde à doutrina dos humores, em que o ciúme seria uma doença da bile que esverdeia a tez, e lembra que o verde está no olho porque a obsessão de Otelo é ver, achar uma prova ocular.
Onde aparece
Na cena 1 do Ato I, Iago descreve a Brabâncio a união de Otelo e Desdêmona em imagens de acasalamento animal, e a nota da tradução liga essa "besta de oito patas" à ideia de monstruosidade que atravessa a peça.
Na cena 3 do Ato I, ao fechar o plano, Iago diz que a noite e o inferno trarão à luz uma nascença monstra: o monstro aparece aqui como coisa engendrada.
O ato fecha com o plano de Iago já formulado, mirando o traço de caráter que ele vai explorar em Otelo:E é isso! Está engendrado! A noite e o inferno fundo / Trarão essa nascença monstra à luz do mundo.(I.3, v. 408-409)
Na cena 3 do Ato III, o monstro recebe nome e olho verde. Otelo reage ao relato do sonho com "Monstruoso, monstruoso!", e Iago, ao fingir que se demite, fala de um monstruoso mundo em que ser honesto não traz segurança.
É aqui que nasce a imagem mais citada da peça inteira:Cuidado, senhor, com o ciúme. Ele é um monstro De olho verde que vive a escarnecer da carne Que o nutriu.(III.3, vv. 170-172)
Na cena 4 do Ato III, Emília diz a Desdêmona que as almas ciumentas não precisam de motivo: o ciúme vem do ciúme, um monstro que a si mesmo gera e procria. Desdêmona pede que o céu mantenha esse monstro longe de Otelo.
Na cena 1 do Ato IV, Otelo enuncia a régua com que já condena a esposa, e Iago responde que nas grandes cidades há muitos monstros civilizados.
Otelo enuncia a régua com que já condena a esposa, sem tê-la ouvido:Um homem com chifres é um monstro, é uma besta.(IV.1, v. 65)
Na cena 2 do Ato V, a palavra muda de alvo: Montano chama o ato de monstruoso, Cássio chama Iago de monstro horrível e repulsivo, e Ludovico entrega Iago a Cássio como esse monstro infernal.
O que significa
Pereira nota que o ciúme é, na peça, uma monstruosidade mental que não precisa de causa e se autoprocria, como dizem Iago e Emília, e que a ideia de monstro aparece "engendrada", como no plano de Iago. A imagem também tem um lado social: a nota da tradução liga os "monstros civilizados" à natureza urbana de Otelo, negro e berbere, e liga o "assassino honrado" ao mesmo monstro civilizado.
O monstro nunca está onde cada um o aponta. Iago o nomeia como ciúme na cena em que o planta, Emília o descreve como coisa sem causa, Otelo o vê num marido enganado, e no fim os outros o apontam para Iago e para o ato. A imagem muda de dono como o lenço.