Quem é
Alferes de Otelo, preterido no posto de tenente em favor de Cássio, e o único personagem da peça que age: todos os outros reagem ao que ele arma. É o vilão que faz o estrago inteiro sem sobrenatural nenhum, só com a palavra, que primeiro insinua e depois mente de frente. Serve a Otelo só por conveniência, vive da bolsa de Rodrigo, recebe de Emília, a própria mulher, o lenço de Desdêmona e o planta no quarto de Cássio. Capturado no fim, cala-se, e Veneza o destina ao tormento.
Trajetória
Na cena 1 do Ato I, Iago anuncia a própria natureza logo na primeira cena, e só a Rodrigo, antes de vestir qualquer máscara diante dos outros. Diz que odeia Otelo por ter dado o posto de tenente a Cássio, e que o serve só por conveniência.
Iago fecha o argumento com a fórmula que rege toda a peça:Pra que o espicacem. Eu não sou o que sou.(I.1, v. 64)
Depois grita, com Rodrigo, sob a janela de Brabâncio, para denunciar a fuga da filha com Otelo, em imagens degradantes de acasalamento animal, e se afasta antes que o pai volte. Na cena 2 do Ato I, avisa Otelo de que Brabâncio é poderoso e pode desfazer o casamento.
Na cena 3 do Ato I, Otelo indica Iago como escolta de Desdêmona a Chipre, o Duque aprova, e Otelo a entrega ao honesto Iago. A sós com Rodrigo, que cogita se afogar, Iago o convence a vender as terras e seguir a Chipre, prometendo ajudá-lo a conquistar Desdêmona, e o ato fecha com o plano já formulado:
O ato fecha com o plano de Iago já formulado, mirando o traço de caráter que ele vai explorar em Otelo:E é isso! Está engendrado! A noite e o inferno fundo / Trarão essa nascença monstra à luz do mundo.(I.3, v. 408-409)
Na cena 1 do Ato II, em Chipre, Iago troca dísticos misóginos com Desdêmona e, enquanto o casal se beija, comenta a harmonia do reencontro em aparte. Ele não fabrica desarmonia do nada: a imagem que ele mesmo escolhe é musical, e é de afrouxar cordas afinadas.
Enquanto o casal se beija, Iago comenta a harmonia do reencontro em aparte:Hum, mas quanta afinação. Eu vou afrouxar / As cordas que fazem essa melodia, que é / Tão honesta quanto eu.(II.1, v. 197-199)
Convence Rodrigo a provocar Cássio na guarda e, em solilóquio, revela o plano de incriminar Cássio aos olhos de Otelo por suposta proximidade com Desdêmona, alimentado por uma suspeita não confirmada de que o próprio Otelo se deitou com Emília. Na cena 3 do Ato II, embriaga Cássio e os cipriotas, deixa que Rodrigo o provoque e, depois da queda de Cássio, o aconselha a pedir a Desdêmona que interceda por ele, e diz a sós o que o conselho prepara:
Sozinho, Iago admite ao público o que o conselho realmente prepara:E co'a sua bondade, engendrarei a rede / Que enredará aos três.(II.3, v. 363-364)
Na cena 3 do Ato III, o passo seguinte é o eco: repetir a palavra de Otelo em forma de pergunta, no começo sem afirmar nada, e deixar que ele mesmo conclua; mais adiante na cena passa à mentira direta, com o sonho e o lenço visto na barba de Cássio.
Otelo pergunta se Iago acha Cássio honesto, e recebe de volta só o próprio eco:Honesto, senhor?Otelo confirma sozinho, sem que Iago tenha dito nada:Honesto. Sim, honesto.(III.3, vv. 105-106)
A frase da primeira cena volta invertida, quando ele oferece a Otelo, como sabedoria, exatamente o princípio que viola.
Iago formula a regra que vai justificar toda a manipulação seguinte:Um homem deveria ser o que parece; Mas se não for, se parecer com mais ninguém.(III.3, vv. 130-131)
Avisa Otelo contra o ciúme, recebe de Emília o lenço que Desdêmona deixou cair, e quando Otelo exige a prova ocular responde com um sonho atribuído a Cássio e com o lenço com que diz ter visto Cássio secar a barba. Otelo o nomeia tenente. Na cena 4 do Ato III, manda Cássio insistir com Desdêmona quando Otelo está fora.
Na cena 1 do Ato IV, fala a Otelo de lenço e de "mentindo" até ele, repetindo "o lenço, as confissões", cair em convulsão, monta o teatro em que Cássio ri de Bianca e Otelo ouve a risada como confissão sobre a esposa. A partir daí o instrumento muda: ele propõe o método da morte, e logo executa por conta própria as duas que o plano exige.
Iago propõe o método que será executado na cena V.2:Não, não use veneno; melhor é estrangulá-la(IV.1, v. 214)
Na cena 2 do Ato IV, consola Desdêmona, que lhe pergunta o que fazer para tê-lo de volta, e contém Rodrigo, que cobra as joias, prometendo-lhe uma noite de ação contra Cássio. Quando Emília diz que algum biltre manipulou o Mouro, manda que fale baixo e a chama de imbecil.
Na cena 1 do Ato V, posta Rodrigo para matar Cássio e admite, em aparte, que lhe convém a morte de qualquer um dos dois. Fere Cássio por trás e, ao voltar como socorrista, apunhala Rodrigo e acusa Bianca.
Iago apunhala Rodrigo diante de Ludovico e Graciano, tratando-o como um dos assassinos:Escravo assassino! Canalha!(V.1, v. 62)
Na cena 2 do Ato V, Emília o desmascara, e ele a mata e foge. Capturado, diz que não responderá nada. Ludovico lê as cartas de Rodrigo e entrega o comando de Chipre a Cássio, e decreta para Iago a requintada crueldade que o conserve vivo.
Temas que encarna
Iago não esconde o método, ele o enuncia duas vezes: a Rodrigo, na cena 1 do Ato I, e em aparte, na cena 1 do Ato II, onde ninguém em cena o ouve. O aviso funciona como confissão dirigida ao público, que é o único a saber o que está por vir, e essa assimetria é o que produz a tensão da cena 3 do Ato III inteira.
O mecanismo começa por não ser o autor da acusação. Iago fornece o palco, a pausa e a insinuação, e o texto da calúnia é escrito em boa parte pelo próprio ciumento (a mentira de frente vem aos poucos: o "Nada, senhor" do v. 37, depois, quando Otelo exige prova, o sonho e o lenço na barba de Cássio), e é por isso que Otelo não consegue localizar a origem da suspeita para desfazê-la.
O alvo escolhido não é uma fraqueza de Otelo, é uma virtude dele: a franqueza que convenceu o Senado inteiro na cena 3 do Ato I é a mesma que o entrega na cena 3 do Ato III. Iago explora o crédito que a honestidade dá à aparência de honestidade.
Rodrigo morre porque sabe demais e Emília porque fala, e a de Rodrigo é de surpresa, coerente com quem evita o confronto direto. O plano desmorona não por investigação, mas porque uma testemunha decide pagar o preço de falar.
A voz em que ele foi traduzido
O tradutor desta edição conta em que registro buscou o Iago em português, e a resposta liga a peça ao Fausto.
enquanto traduzia Iago, seus versos ressoavam em meus ouvidos, assim como o Mefistófeles de Haroldo de Campos.
A aproximação com Mefistófeles não é analogia de leitor, é decisão de quem verteu o texto: a voz que se ouve em português foi calibrada pela do Mefistófeles de Haroldo de Campos. O que os dois têm em comum, e que justifica a escolha, é a agudeza que zomba enquanto argumenta, mais o hábito de dizer a verdade sobre si mesmo sem ser levado a sério.
Como ele é lido
O curinga no baralho tira Iago do registro da vingança e o põe no do pregador de trotes, cujo prazer é revelar aos outros que agiam como marionetes sem saber. As três leituras abaixo convergem num ponto e divergem noutro: todas recusam a vingança como motivo, e discordam sobre o que fica no lugar dela.
Iago como a régua do mal, fora da própria peça
Enone, em Fedra, calunia mas ainda tem motivo humano, e por isso é menos que Iago; Orestes, em Eumênides, é absolvido porque há legitimidade no crime dele, o que um Iago nunca teria; ao tratar de Tartufo ele lembra que são pouquíssimas as personagens de Shakespeare inteiramente más, e põe Iago entre elas ao lado de Edmundo; e Shylock, em O Mercador de Veneza, é o único que ele chega a considerar pior.
O padrão só aparece cruzando aulas, e diz mais sobre o método do expositor do que sobre a peça: Iago funciona, para ele, como unidade de medida já calibrada no ouvinte, o que dispensa definir maldade toda vez. Vale notar o efeito colateral, que é o de achatar o personagem no ponto extremo da escala e perder justamente o que a peça constrói, um mal que age por linguagem e não por poder. Ele mesmo desfaz isso quando trata da obra por inteiro, onde Iago ganha o livre-arbítrio da parábola do jardim.
Ali ele deixa de ser exemplo de vilania e vira um tipo, o de quem não suporta a felicidade que não construiu.
Relações
- Otelo: o general que o preteriu e que ele conduz, com o eco e a insinuação, da confiança ao assassinato.
- Cássio: o tenente que ficou com o posto, o motivo declarado do ressentimento e o instrumento involuntário da calúnia.
- Desdêmona: a esposa do general, que ele aproveita pela mediação generosa em favor de Cássio.
- Emília: a mulher, que lhe entrega o lenço e é a única a derrubar o plano, ao falar.
- Rodrigo: o parceiro de bolsa, usado como peão e morto antes de falar.
- Brabâncio: o pai que ele acorda na cena 1 do Ato I para dar início ao escândalo.