Quem é
Brabâncio é um senador veneziano, pai de Desdêmona. Já proibira Rodrigo de rondar a casa, e é acordado de madrugada por Iago com a notícia de que a filha fugiu com o Mouro. Acusa Otelo de feitiçaria, perde no Senado e entrega a filha com uma advertência que a peça cumpre: quem enganou o pai pode enganar o esposo. Não volta a aparecer. Na cena 2 do Ato V, Graciano conta que ele morreu de pesar pelo casamento.
Trajetória
Na cena 1 do Ato I, Rodrigo e Iago gritam sob a janela de Brabâncio, e Iago o desperta com imagens de acasalamento animal. Brabâncio reconhece Rodrigo e o repreende: já o proibira de rondar a porta, a filha não é para ele. Quando Iago se afasta, Brabâncio volta de camisola e confirma que a filha se foi. Diz que tudo o que lhe resta é amargura, adverte os pais a não confiar no que as filhas parecem fazer, fala de feitiços capazes de abusar da honra e do decoro de uma jovem, manda chamar o irmão, acordar a família e convocar a ronda noturna. Parte com Rodrigo e criados armados.
A fala de Iago que o desperta:
Iago descreve a união a Brabâncio em termos deliberadamente aviltantes:um carneiro preto, velho / Está cobrindo a sua ovelha branca. Levante,(I.1, v. 87-88)
Na cena 2 do Ato I, chega com Rodrigo e oficiais com tochas e armas, e Otelo manda guardar as espadas e lhe diz que a idade inspira mais comando que as armas. Brabâncio chama Otelo de ladrão e diz que a filha, bela, terna e avessa ao casamento, jamais o escolheria sem feitiço. Dá voz de prisão por poções e artes proibidas. Ao saber que o Duque reuniu o conselho, leva Otelo consigo e diz que o Duque e os pares não tolerarão a ofensa, ou o Estado será governado por servos e pagãos.
Na cena 3 do Ato I, chega ao Senado e declara que a dor pessoal devora todas as outras. A filha, diz, foi roubada e corrompida por filtros, porque a essência dela, sem feitiço, não faria erro tão crasso. Ouvida Desdêmona, que diz ter o dever dividido, Brabâncio cede, entrega a Otelo, de todo o coração, o que lhe negaria se ela já não fosse dele, e diz estar contente de não ter outros filhos, pois a fuga o ensinaria a ser tirano e a acorrentá-los. Quando o Duque tenta consolá-lo com máximas em dísticos, responde que então os turcos tomem Chipre. Antes de sair, adverte Otelo a ficar de olho, pois quem enganou o pai pode enganar o esposo.
Na cena 2 do Ato V, só é mencionado: Graciano, tio de Desdêmona, olha para o corpo da sobrinha e diz que fica feliz de o pai estar morto, porque a união foi fatal para ele e o puro pesar lhe cortou o fio da vida.
Temas que encarna
O tradutor lê a fúria de Brabâncio como a de um pai traído, figura tradicional do teatro cômico, mas que na peça vai a julgamento. Comenta que ele vê elo intrínseco entre cor, paganismo e escravidão, e lembra que a acusação de feitiçaria, por ser excepcional, dispensava a prova ocular e se contentava com indícios. O Duque, ao pedir prova aberta, tira o caso desse terreno.
A advertência de Brabâncio ao genro, no fim da cena 3 do Ato I, é a única fala dele que a peça devolve em forma de acontecimento: Otelo responde que aposta a vida na fidelidade da esposa e, na mesma fala, entrega-a ao homem que a destruirá. Na cena 2 do Ato V, a notícia da morte do pai fecha o outro lado: Brabâncio morre antes de ver o fim.
Brabâncio é o primeiro a dizer em voz alta o que a peça vai fazer com Otelo: tratar a cor e a origem dele como razões para duvidar de uma união. O Preconceito dele é de classe e de sangue, e a Honra e reputação da casa é o que ele defende quando chama a filha de roubada. Ao fim, a peça lhe dá razão pelas razões erradas: Desdêmona não o enganou, quem enganou Otelo foi Iago, e a frase do pai se cumpre por um caminho que ele jamais imaginou.
Relações
- Desdêmona: a filha, que ele diz perdida e entrega a Otelo com amargura. Ela lhe responde que o dever está dividido.
- Otelo: o genro, a quem acusa de feitiçaria, perde no Senado e adverte.
- Rodrigo: o pretendente que ele proibira de rondar a casa e que o ajuda a procurar Otelo.
- Iago: o alferes que o acorda aos gritos e se afasta antes que ele volte.