Clavis Libri

Tema em Otelo

Ciúme

O medo de perder para outro quem se ama: ciúme amoroso e conjugal.

O tema na obra

O ciúme entra na peça como projeto antes de ser sentimento. Na cena 1 do Ato II, Iago diz em solilóquio que, se tudo falhar, quer ao menos lançar o Mouro num ciúme que lhe tire o juízo, e o mesmo ato mostra Otelo temendo a própria felicidade antes de qualquer motivo.

Na cena 3 do Ato III, Iago dá nome ao ciúme, um monstro de olho verde, e Otelo responde que quer ver antes de duvidar e que, quando duvidar, quer prova. Poucos versos depois ele abandona o discurso e exige uma prova ocular, que Iago fabrica com um sonho e um lenço. Na cena 4 do Ato III, Emília diz a Desdêmona que as almas ciumentas não precisam de motivo: o ciúme vem do ciúme, um monstro que a si mesmo gera.

Na cena 1 do Ato IV, o ciúme já interpreta sozinho: Otelo cai em convulsão, depois ouve escondido a risada de Cássio sobre Bianca como confissão sobre Desdêmona e, por fim, bate nela diante de Ludovico. Na cena 2 do Ato V, ele a mata, e quando enfim se vê pede que falem dele como alguém pouco dado ao ciúme que, enganado, foi longe demais.

O ciúme da peça é efeito de uma montagem: Iago o planeja na cena 1 do Ato II, o nomeia na cena 3 do Ato III e o encontra pronto na cena 1 do Ato IV. A própria peça avisa, pela boca de Emília, que ele não precisa de causa, e o que Otelo chama de prova já é o ciúme em funcionamento.

Onde aparece

  • Cena 1 do Ato II: Iago projeta lançar Otelo num ciúme que lhe tire o juízo.
  • Cena 3 do Ato III: o monstro de olho verde recebe nome, e Otelo passa de duvidar a exigir prova.
  • Cena 4 do Ato III: Emília diz que o ciúme se gera a si mesmo.
  • Cena 1 do Ato IV: Otelo toma a risada de Cássio por confissão e bate em Desdêmona.
  • Cena 2 do Ato V: o ciúme termina em crime, e Otelo se descreve como pouco dado a ele.

Passagens

Iago dá ao ciúme a imagem que a peça inteira repete:

É aqui que nasce a imagem mais citada da peça inteira: Cuidado, senhor, com o ciúme. Ele é um monstro De olho verde que vive a escarnecer da carne Que o nutriu. (III.3, vv. 170-172)
Ato III: A tentação e o lenço

Na cena do teatro, Otelo narra o sentido antes que ele aconteça:

Otelo narra o sentido da cena antes de Iago terminar de encená-la: Iago está me fazendo um sinal. Agora começa a história. (IV.1, v. 135)
Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro

No fim, Otelo pede um retrato sem retoque:

Otelo recusa o pretexto do ciúme e pede um retrato sem retoque: Falem de mim como sou. Não abrandem nada, / Nem usem de malícia. (V.2, vv. 347-348)
Ato V: A emboscada, o assassinato e a revelação