Otelo, Ato V: A emboscada, o assassinato e a revelação
Análise
O texto do Ato V (cenas I e II) vem de Otelo: Paixão e Interpretação, tradução, introdução e notas de Lawrence Flores Pereira, Penguin Companhia, 2017.
Cena I: A emboscada na rua escura
Resumo da seção
Numa rua de Chipre, Iago posta Rodrigo para matar Cássio e, em aparte, admite que lhe convém a morte de qualquer um dos dois. Rodrigo erra o golpe, Cássio o fere, e Iago, por trás, corta a perna de Cássio e foge. Otelo, ouvindo de longe, toma os gritos por sinal de que Iago cumpriu a palavra. Iago volta como socorrista, mata Rodrigo diante de Ludovico e Graciano e acusa Bianca, enquanto Emília chega.
Análise
Nos versos 122-3, a nota da tradução observa que não é certo que Bianca seja prostituta: todas as mulheres de Otelo são acusadas disso, e o próprio nome, ligado à pureza, e o amor dela por Cássio complicam a leitura.
Iago fecha em aparte o raciocínio sobre Cássio, e a frase vale para Cássio: Não: tem que morrer. Então, seja.
(V.1, v. 22)
Cássio sobrevive à estocada, mas Iago o fere pelas costas e foge: Estou aleijado pra sempre! Socorro. Assassino!
(V.1, v. 28)
Otelo, ouvindo de longe, interpreta o grito como prova de que Iago o matou: Oh, bravo Iago, justo e honesto, / Julgaste com nobreza a afronta ao teu amigo.
(V.1, vv. 32-33)
Iago apunhala Rodrigo diante de Ludovico e Graciano, tratando-o como um dos assassinos: Escravo assassino! Canalha!
(V.1, v. 62)
Otelo não age aqui, só ouve e conclui errado outra vez, como fez com o lenço no Ato IV.
Cena II: O quarto, o crime e o fim
Resumo da seção
Otelo entra no quarto, beija Desdêmona adormecida e a acusa de ter dado o lenço a Cássio. Ela nega até ser sufocada. Emília chega, ouve Desdêmona dizer que morre sem culpa e, ao saber por Otelo que o marido a acusou, desmascara Iago: foi ela quem lhe deu o lenço. Iago a mata e foge. Capturado, ele se cala; cartas de Rodrigo esclarecem a trama, e Otelo, sem o comando, se mata ao lado de Desdêmona.
O assassinato de Desdêmona
Análise
Para "falsely, falsely murdered" (v. 119), a tradução traz "injustamente, falsamente", e o segundo termo marca que Desdêmona é vítima de uma falsidade, de uma farsa, e não de um assassinato "justo" por outras razões.
Otelo compara a decisão a apagar uma vela, mas a luz de Desdêmona não tem como ser reacesa (no último verso do trecho, o "irromper" é o da rosa, que o recorte pula): Poderei restaurar. Mas morta a tua luz, / [...] Nunca mais poderei fazê-la irromper,
(V.2, vv. 10-14)
Ele beija a esposa adormecida, misturando desejo e sentença: Fica assim quando morta, que eu te matarei / E depois te amarei.
(V.2, vv. 18-19)
Desdêmona nega até o fim: Não! Por minha vida e alma:
(V.2, v. 49)
No último fôlego, ela poupa o marido: Ninguém. Eu mesma. Adeus.
(V.2, v. 127)
Otelo confessa sem hesitar depois que Emília confirma a última fala de Desdêmona (vv. 132-133): Fui eu que a matei.
(V.2, v. 135)
Otelo trata o crime como ato quase sacramental, a mesma linguagem de posse amorosa do início da peça, aplicada agora ao assassinato.
Emília revela a verdade
Análise
Emília recusa a obediência que definiu Desdêmona o ato inteiro: Não tens metade do poder para me ferir / Que eu tenho pra ser ferida.
(V.2, vv. 165-166)
É Emília quem entrega a peça central do enredo: Eu o achei por acaso e dei ao meu marido,
(V.2, v. 230)
Iago a apunhala; ela morre repetindo o refrão da canção que Desdêmona cantara na mesma noite, "Ô, salgueiro": Serei o cisne / Que expira na canção.
(V.2, vv. 250-251)
A canção do salgueiro, presságio do Ato IV (ver Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro), volta na boca de quem a ouviu cantar.
A queda de Iago e o fim de Otelo
Análise
Quando diz "Aquele que já foi Otelo?" (v. 286), ele devolve a si a condição de simples "mouro", e a nota da tradução lê aí o cancelamento da identidade veneziana. A nota aos vv. 347-61 cita T.S. Eliot: Otelo parece se animar a si mesmo, já deixou de pensar em Desdêmona e pensa em si.
Otelo recusa o pretexto do ciúme e pede um retrato sem retoque: Falem de mim como sou. Não abrandem nada, / Nem usem de malícia.
(V.2, vv. 347-348)
Ele se compara a quem jogou fora, por ignorância, o bem mais valioso: cuja mão, como a do pobre / E baixo indiano, jogou fora uma pérola / Mais cara que sua tribo
(V.2, vv. 351-353)
As últimas palavras repetem o gesto que abriu o assassinato: Eu te beijei, depois te matei: só o que deixo, / Matar a mim mesmo e morrer com um beijo.
(V.2, vv. 363-364)
Otelo não pede desculpa pelo ato: pede precisão.
Para discutir Otelo decidiu o método e o momento da morte de Desdêmona no Ato IV (ver Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro), mas neste ato hesita (vv. 1-22), ouve a súplica dela (vv. 79-84) e depara com a virada de Emília. O que cada um desses momentos muda na decisão?
Tema central
Resumo da seção
Quando a verdade finalmente aparece, ela chega tarde demais para salvar alguém, mas ainda a tempo de condenar quem mentiu: o que resta da justiça quando ela só serve para nomear a ruína, não para evitá-la?
Argumento a favor
Resumo da seção
Toda a arquitetura de Iago desmorona neste ato por acaso, não por investigação: as cartas incriminatórias já estavam no bolso de Rodrigo (vv. 312-320), e Emília só fala porque não consegue mais suportar o silêncio. Não há detetive: Iago, capturado, se cala, e a confissão de ter jogado o lenço no quarto de Cássio chega por Cássio (vv. 326-328), com os fragmentos que sobram de um plano que já tinha cumprido seu efeito principal.
Contra-argumento
Resumo da seção
A revelação de Emília não é acidente: é a única personagem do ato que escolhe falar sabendo o custo, contra a ordem direta do marido e contra o risco explícito da espada dele. Se a verdade chega tarde, chega porque alguém decide pagar o preço de dizê-la, não porque as peças caem sozinhas.
Consequências
Resumo da seção
A peça termina sem nenhum dos manipuladores sobrevivendo incólume: Rodrigo morto por quem o usou, Iago capturado e destinado à tortura, Otelo morto pela própria mão. Só Cássio, o alvo original do ressentimento de Iago, sai vivo e no comando de Chipre.
O corpo como última prova
Resumo da seção
Do lenço no Ato III ao corpo de Desdêmona neste ato, a peça inteira caminha de sinais interpretáveis (um pano, uma risada) para um fato que não admite dupla leitura. O corpo está em cena desde o v. 119, e Otelo segue acusando: a certeza fabricada por Iago só desmorona quando Emília fala (v. 230) e as cartas chegam (vv. 311-334).
A obediência que se rompe
Resumo da seção
Desdêmona morre protegendo o marido com a última mentira; Emília morre exatamente pelo movimento oposto, recusando a ordem do próprio marido de calar-se. As duas mulheres do ato encarnam as duas respostas possíveis à autoridade conjugal que Iago manipulou o ato inteiro, e é a desobediência de Emília, não a lealdade de Desdêmona, que resolve o enredo.