O tema na obra
O preconceito chega antes de qualquer ato de Otelo. Na cena 1 do Ato I, Iago descreve a união a Brabâncio em imagens de acasalamento animal, um carneiro preto cobrindo uma ovelha branca, e o insulto precede qualquer prova. Na cena 3 do Ato I, Brabâncio acusa Otelo de ter conquistado a filha por poções e feitiços, e a nota da tradução de Lawrence Flores Pereira lembra que Iago, Rodrigo e o próprio Brabâncio veem a união como algo anômalo, de natureza mista.
Na cena 3 do Ato III, o próprio Otelo lista, sozinho, a cor da pele, a idade e a falta de eloquência como razões plausíveis para ser trocado (vv. 270-273). Na cena 1 do Ato IV, a nota da tradução vê, na fala de Iago sobre as grandes cidades e seus monstros civilizados, o elo entre a natureza urbana de Otelo, negro e berbere, e a ideia de monstruosidade animalizada.
Na cena 2 do Ato V, ao perguntar se aquele é o que já foi Otelo, ele devolve a si a condição de simples mouro, e a nota da tradução lê aí o cancelamento da identidade veneziana.
O preconceito não age só de fora. Veneza o fornece logo na primeira cena, Iago o usa como insulto e como argumento, e no Ato III Otelo já o carrega por dentro, como razão para duvidar de ser amado. Iago encontra o terreno pronto.
Onde aparece
- Cena 1 do Ato I: Iago descreve a união a Brabâncio com imagens de acasalamento animal.
- Cena 3 do Ato I: a acusação de feitiçaria diante do Senado.
- Cena 3 do Ato III: Otelo lista a cor da pele e a idade entre as razões para ser traído.
- Cena 1 do Ato IV: os monstros civilizados e a natureza urbana de Otelo.
- Cena 2 do Ato V: Otelo devolve a si a condição de mouro.
Passagens
Iago escolhe a imagem antes de saber se ela é falsa:
Iago descreve a união a Brabâncio em termos deliberadamente aviltantes:um carneiro preto, velho / Está cobrindo a sua ovelha branca. Levante,(I.1, v. 87-88)
A régua com que Otelo julga o homem enganado:
Otelo enuncia a régua com que já condena a esposa, sem tê-la ouvido:Um homem com chifres é um monstro, é uma besta.(IV.1, v. 65)