Clavis Libri

Otelo · Ato III

A tentação e o lenço

Otelo, Ato III: A tentação e o lenço

Análise

Edição de referência (Ato III, cenas I a IV): Otelo: Paixão e Interpretação, tradução, introdução e notas de Lawrence Flores Pereira, Penguin Companhia, 2017.

Cena I: Músicos, palhaço e súplica de Cássio

Resumo da seção

Cássio paga músicos para saudar o general ao amanhecer, e um palhaço os despacha com graça e dinheiro. Cássio manda o palhaço pedir uma entrevista a Emília e, quando Iago chega, pede-lhe acesso a Desdêmona; Iago promete afastar Otelo para dar liberdade à conversa. Emília chega, conta que Desdêmona já defende Cássio e o leva a um lugar onde possa falar a sós com ela.

Cássio pede a Desdêmona, por intermédio de Emília, uma audiência a sós.

Cena II: Otelo sai para as fortificações

Resumo da seção

Otelo entrega cartas a Iago para o piloto da nau e sai com os fidalgos para vistoriar as fortificações de Chipre. A cena dura poucos versos.

Análise

A cena II é a mais curta do ato, e só esvazia o palco: tira Otelo de cena para que Cássio possa falar com Desdêmona, diante de Emília, no início da cena seguinte. É esse instante inocente que Iago vai transformar em evidência.

Cena III: Iago tenta Otelo

Resumo da seção

Desdêmona promete a Cássio, diante de Emília, interceder por ele. Quando Otelo chega com Iago e Cássio se afasta às pressas, Iago insinua dúvidas, primeiro só ecoando e sugerindo, mas já com um "Nada, senhor" que é mentira (v. 37). Desdêmona deixa cair o lenço, que Emília entrega a Iago. Otelo exige uma prova ocular, e Iago responde com um sonho atribuído a Cássio e com o lenço com que diz ter visto Cássio secar a barba. Otelo jura vingança e nomeia Iago tenente.

Análise

Antes de Iago formular qualquer dúvida sobre Desdêmona, Otelo já enuncia o que está em jogo se o amor acabar, e a palavra que ele escolhe nomeia o abismo anterior a toda forma: Rica criatura! Que eu caia em perdição, Mas eu te amo! E quando eu deixar de te amar, Vai ser o Caos novamente. (III.3, vv. 91-93)

A fala vem logo depois de Desdêmona sair de cena e antes de Iago formular qualquer dúvida sobre ela, ou seja, a ruína total já está formulada pelo próprio Otelo enquanto ele ainda é feliz. Não é o ciúme que introduz o Caos na peça: o ciúme só cobra uma promessa que Otelo já tinha feito. E o termo não é ornamento, na mitologia grega o caos é o abismo primordial sem forma, e é para ele que a peça caminha.

Otelo pergunta se Iago acha Cássio honesto, e recebe de volta só o próprio eco: Honesto, senhor? Otelo confirma sozinho, sem que Iago tenha dito nada: Honesto. Sim, honesto. (III.3, vv. 105-106)

Nesta troca Iago ainda não mente: repete a última palavra de Otelo com um ponto de interrogação atrás, e deixa que a imaginação dele preencha o silêncio. É por isso que a insinuação sobrevive a qualquer teste de honestidade: não há frase para acusar de falsa. Mais adiante na mesma cena ele passa à mentira direta: o "Nada, senhor" (v. 37), a afirmação de que Desdêmona enganou o próprio pai (v. 212), o sonho de Cássio (vv. 420-432) e o lenço que diz ter visto na barba de Cássio (vv. 444-446).

Iago formula a regra que vai justificar toda a manipulação seguinte: Um homem deveria ser o que parece; Mas se não for, se parecer com mais ninguém. (III.3, vv. 130-131)

É aqui que nasce a imagem mais citada da peça inteira: Cuidado, senhor, com o ciúme. Ele é um monstro De olho verde que vive a escarnecer da carne Que o nutriu. (III.3, vv. 170-172)

Otelo responde a esse aviso dizendo que jamais viveria "as mutações da lua", que quer ver antes de duvidar e que, quando duvidar, quer prova. É um discurso de homem racional, e é justamente esse discurso que, poucos versos depois, ele mesmo abandona.

Desdêmona tenta enfaixar a testa de Otelo com o lenço que ganhou dele; ele o recusa, ela o deixa cair. Emília o acha, e entrega o original a Iago.

Iago explica por que um pano bordado basta como prova para quem já quer acreditar: Para o ciumento, são signos tão poderosos Quanto a Santa Escritura. (III.3, vv. 330-331)

O lenço não convence Otelo, ele só embala uma convicção que a insinuação de Iago já tinha fabricado sem nenhum objeto. Iago sabe disso, e por isso decide plantá-lo no quarto de Cássio antes mesmo de ter um plano para usá-lo.

Convencido de que já sabe a verdade, Otelo se despede da própria vida militar num só verso: Adeus — a profissão de Otelo não é mais. (III.3, v. 364)

Otelo já não pede consolo, exige a "prova válida" que havia jurado precisar: É bom que tu proves que ela é uma puta, E é bom que tu me tragas uma prova ocular, (III.3, vv. 366-367) e é a partir dessa exigência que Iago fabrica a prova que não existe.

A prova de Iago é um sonho contado por ele próprio: Cássio, dormindo ao seu lado, teria murmurado “Minha doce Desdêmona, Sejamos prudentes, escondamos nosso amor”. (III.3, vv. 425-426)

Iago avisa, na frase seguinte, que aquilo "era só o seu sonho". Otelo registra o aviso e o contorna: "Mas denota uma prévia consumação" (v. 434). É o ponto exato em que a cena deixa de ser sedução verbal e vira delírio compartilhado: os dois já constroem a mesma fantasia, um fabricando, o outro aceitando.

Para discutir Púchkin, citado por Os Irmãos Karamazov, lê o ciúme de Otelo como confiança traída, e na cena o próprio Otelo lista, sozinho, a cor, a idade e a falta de eloquência como razões para ser trocado (vv. 270-273). O que exatamente Iago manipula: um traço de Otelo, ou uma vulnerabilidade que qualquer marido teria diante da mesma insinuação?

Cena IV: O lenço pedido, o lenço negado

Resumo da seção

Desdêmona manda o palhaço procurar Cássio e percebe a falta do lenço. Otelo chega, pede o lenço e, ao ouvir que ela não o tem ali, conta a origem mágica do objeto e sai exigindo-o. Emília comenta o que pensa dos homens. Entram Iago e Cássio, e Desdêmona promete insistir por ele. Depois, Bianca encontra Cássio, que lhe entrega o lenço para copiar o desenho.

Otelo pede o lenço a Desdêmona e, ao ouvir que ela não o tem ali, insiste três vezes com a mesma palavra, sem deixá-la falar de Cássio.

Análise

Otelo reduz o pedido de Desdêmona a uma única palavra repetida, cortando toda tentativa dela de falar de Cássio: O lenço! (III.4, v. 95)

Antes de recusar o assunto, Otelo conta a origem mágica do objeto: Há muita magia naquelas tessituras. Uma sibila que havia somado no mundo Duzentos compassos completos pelo sol Teceu o lenço em meio ao seu furor profético, (III.4, vv. 71-74)

Otelo mesmo entrega a Desdêmona a chave de por que o lenço vale tanto, e ela, que já sabe tê-lo perdido (vv. 23-25), se assusta com a lenda (v. 80): o amuleto que a lenda garantia manter o marido fiel está perdido.

Cássio entrega o lenço a Bianca para copiar o desenho. Emília, a sós com Desdêmona, resume o que pensa dos homens.

Basta um ano ou dois, e os homens se revelam. São só estômagos, nós somos a comida: Eles nos devoram e, depois, empanturrados, Nos arrotam. (III.4, vv. 105-108)

É a réplica mais dura do ato, e vem de quem menos fala: Emília, casada com o próprio arquiteto do enredo, prevê o desfecho da peça sem saber que está falando do próprio marido.

Para discutir Desdêmona insiste no caso de Cássio justamente quando Otelo só quer saber do lenço. O que cada um escuta do que o outro diz?

Tema central

Resumo da seção

Como alguém convence um homem a duvidar da vida inteira sem prova verdadeira nenhuma, primeiro com perguntas incompletas e pausas calculadas, depois com mentira direta?

Argumento a favor

Resumo da seção

A cena III é construída para mostrar que a retórica sozinha basta: Nas primeiras insinuações Iago só ecoa a última palavra de Otelo e sugere, e deixa o silêncio trabalhar, mas já mente de frente em "Nada, senhor" (v. 37). Quando finalmente "prova" algo, a prova é um sonho relatado por ele mesmo e um lenço que diz ter visto na barba de Cássio.

Contra-argumento

Resumo da seção

O terreno já estava preparado antes de Iago abrir a boca. No solilóquio do meio da cena III (vv. 265-283), o próprio Otelo já lista, sozinho, a cor da pele e a idade como razões plausíveis para ser trocado.

Consequências

Resumo da seção

É só a partir desta cena que o lenço deixa de ser um objeto e vira sinal. Sem a conversa de III.3, o pano que Emília acha no chão em III.3 seria só um pano perdido.

A reviravolta da cena III

Resumo da seção

Cássio busca reconciliação e, ao consegui-la de Desdêmona, desencadeia exatamente a ruína que temia: é o pedido de reconciliação que, filtrado por Iago, condena o próprio Cássio e a mulher que intercedeu por ele.

O nome como propriedade, o pano como sinal

Resumo da seção

O mal desta peça dispensa qualquer sobrenatural, e o Ato III mostra o mecanismo verbal exato: uma palavra repetida (honesto) vira prova de caráter, e um pano bordado vira prova de traição. Nenhum dos dois objetos muda de sentido sozinho, é a insinuação de Iago que os carrega.