O tema na obra
O que a peça mostra primeiro é ressentimento, e a inveja de Cássio só aparece no fim. Na cena 1 do Ato I, Iago diz a Rodrigo que odeia Otelo por ter dado o posto de tenente a Cássio, e que o serve só por conveniência: o ressentimento de quem foi preterido vem antes de qualquer prova, de qualquer acusação, de qualquer plano. Na cena 3 do Ato I, o ressentimento vira plano: Iago convence Rodrigo a vender as terras e segue para Chipre, e formula o que vai explorar em Otelo.
Na cena 1 do Ato V, a inveja aparece de forma explícita no cálculo de Iago em aparte: ele diz que a morte de qualquer um dos dois lhe convém, e que, se Cássio vive, tem na vida uma beleza assídua que o torna mais feio. Na cena 2 do Ato V, o desfecho é que só Cássio, o alvo original do ressentimento de Iago, sai vivo e no comando de Chipre.
Iago acumula motivos sem se fixar em nenhum: o posto dado a Cássio e o ódio ao Mouro (I.1, vv. 7-33), a suspeita de que Otelo se deitou com Emília (I.3, vv. 391-394; II.1, vv. 295-299) e, no fim, a beleza assídua de Cássio (V.1, vv. 18-20). O primeiro motivo é o preterimento, e a inveja só aparece no último, mas Cássio é o alvo dos dois.
Onde aparece
- Cena 1 do Ato I: Iago odeia Otelo por ter preferido Cássio para tenente.
- Cena 3 do Ato I: o ressentimento vira plano.
- Cena 1 do Ato V: a vida de Cássio torna Iago mais feio, e por isso Cássio tem de morrer.
- Cena 2 do Ato V: só Cássio, alvo original do ressentimento, sobrevive.
Passagens
Iago explica a Rodrigo por que serve a Otelo e fecha com um aviso sobre si:
Iago fecha o argumento com a fórmula que rege toda a peça:Pra que o espicacem. Eu não sou o que sou.(I.1, v. 64)
Ao fechar o plano, Iago já pensa nele como coisa gerada:
O ato fecha com o plano de Iago já formulado, mirando o traço de caráter que ele vai explorar em Otelo:E é isso! Está engendrado! A noite e o inferno fundo / Trarão essa nascença monstra à luz do mundo.(I.3, v. 408-409)
Na emboscada, a inveja pede morte:
Iago fecha em aparte o raciocínio sobre Cássio, e a frase vale para Cássio:Não: tem que morrer. Então, seja.(V.1, v. 22)