Ato I: Veneza, a denúncia noturna e o juízo do senado
Iago fecha o argumento com a fórmula que rege toda a peça: Pra que o espicacem. Eu não sou o que sou.
(I.1, v. 64)
Iago descreve a união a Brabâncio em termos deliberadamente aviltantes: um carneiro preto, velho / Está cobrindo a sua ovelha branca. Levante,
(I.1, v. 87-88)
Quando Iago o manda se esconder, Otelo recusa e aposta no próprio valor: Meu valor, meu título, minha alma perfeita, / Servirão de apresentação.
(I.2, v. 31-32)
Otelo abre a defesa reconhecendo a própria falta de eloquência cortesã: Minha fala é rústica e pouco / Agraciada com o brando fraseado da paz,
(I.3, v. 83-84)
O resumo que Otelo dá do próprio cortejo, que se tornaria a fórmula mais citada da peça sobre amor e narrativa: Que ela me amou pelos perigos que passei, / E eu a amei pela sua pena das minhas penas.
(I.3, v. 168-169)
A resposta de Desdêmona ao pedido do pai para que diga a quem obedece: Meu nobre pai, / Eu noto aqui que o dever está dividido.
(I.3, v. 181-182)
O ato fecha com o plano de Iago já formulado, mirando o traço de caráter que ele vai explorar em Otelo: E é isso! Está engendrado! A noite e o inferno fundo / Trarão essa nascença monstra à luz do mundo.
(I.3, v. 408-409)
Ato II: Chipre, a tempestade e a queda de Cássio
Um dos dísticos improvisados por Iago no jogo de elogios: Se ela é bela e sábia, saber e belezura / Um é bom pra o uso, o outro para a usura.
(II.1, v. 130-131)
O reencontro de Otelo com Desdêmona é o ponto mais alto de contentamento de toda a peça, e ele mesmo desconfia da própria sorte: Que há entre inferno e céu. Se a morte viesse agora, / Seria a máxima alegria, pois eu temo
(II.1, v. 186-187)
Enquanto o casal se beija, Iago comenta a harmonia do reencontro em aparte: Hum, mas quanta afinação. Eu vou afrouxar / As cordas que fazem essa melodia, que é / Tão honesta quanto eu.
(II.1, v. 197-199)
Sozinho com Iago depois da queda, Cássio resume a perda em três palavras repetidas: Reputação, reputação, reputação! Perdi toda a reputação!
(II.3, v. 259)
Sozinho, Iago admite ao público o que o conselho realmente prepara: E co'a sua bondade, engendrarei a rede / Que enredará aos três.
(II.3, v. 363-364)
Ato III: A tentação e o lenço
Antes de Iago formular qualquer dúvida sobre Desdêmona, Otelo já enuncia o que está em jogo se o amor acabar, e a palavra que ele escolhe nomeia o abismo anterior a toda forma: Rica criatura! Que eu caia em perdição, Mas eu te amo! E quando eu deixar de te amar, Vai ser o Caos novamente.
(III.3, vv. 91-93)
Otelo pergunta se Iago acha Cássio honesto, e recebe de volta só o próprio eco: Honesto, senhor?
Otelo confirma sozinho, sem que Iago tenha dito nada: Honesto. Sim, honesto.
(III.3, vv. 105-106)
Iago formula a regra que vai justificar toda a manipulação seguinte: Um homem deveria ser o que parece; Mas se não for, se parecer com mais ninguém.
(III.3, vv. 130-131)
É aqui que nasce a imagem mais citada da peça inteira: Cuidado, senhor, com o ciúme. Ele é um monstro De olho verde que vive a escarnecer da carne Que o nutriu.
(III.3, vv. 170-172)
Iago explica por que um pano bordado basta como prova para quem já quer acreditar: Para o ciumento, são signos tão poderosos Quanto a Santa Escritura.
(III.3, vv. 330-331)
Convencido de que já sabe a verdade, Otelo se despede da própria vida militar num só verso: Adeus — a profissão de Otelo não é mais.
(III.3, v. 364)
Otelo já não pede consolo, exige a "prova válida" que havia jurado precisar: É bom que tu proves que ela é uma puta, E é bom que tu me tragas uma prova ocular,
(III.3, vv. 366-367) e é a partir dessa exigência que Iago fabrica a prova que não existe.
A prova de Iago é um sonho contado por ele próprio: Cássio, dormindo ao seu lado, teria murmurado “Minha doce Desdêmona, Sejamos prudentes, escondamos nosso amor”.
(III.3, vv. 425-426)
Otelo reduz o pedido de Desdêmona a uma única palavra repetida, cortando toda tentativa dela de falar de Cássio: O lenço!
(III.4, v. 95)
Antes de recusar o assunto, Otelo conta a origem mágica do objeto: Há muita magia naquelas tessituras. Uma sibila que havia somado no mundo Duzentos compassos completos pelo sol Teceu o lenço em meio ao seu furor profético,
(III.4, vv. 71-74)
Basta um ano ou dois, e os homens se revelam. São só estômagos, nós somos a comida: Eles nos devoram e, depois, empanturrados, Nos arrotam.
(III.4, vv. 105-108)
Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro
A fala de Otelo se desintegra até a convulsão: possível… Confessa? O lenço? Diabo!
(IV.1, v. 45)
Otelo enuncia a régua com que já condena a esposa, sem tê-la ouvido: Um homem com chifres é um monstro, é uma besta.
(IV.1, v. 65)
Otelo avisa Iago de que será astucioso no uso da paciência, mas também brutal: Mas — ouve — também brutal.
(IV.1, v. 95)
Cada gesto de Cássio vira, na cabeça de Otelo, peça de acusação: Então você me feriu, me marcou… Muito bem.
(IV.1, v. 130)
Otelo narra o sentido da cena antes de Iago terminar de encená-la: Iago está me fazendo um sinal. Agora começa a história.
(IV.1, v. 135)
A primeira sentença que ele imagina é lenta: Eu o faria morrer pouco a pouco por nove anos.
(IV.1, v. 185)
Iago propõe o método que será executado na cena V.2: Não, não use veneno; melhor é estrangulá-la
(IV.1, v. 214)
A carta detona a fúria antes de qualquer palavra dela justificar isso: Fogo e enxofre!
(IV.1, v. 240)
Otelo bate em Desdêmona diante de Ludovico logo depois de dizer: Me alegra… te ver louca.
(IV.1, v. 245)
Desdêmona responde com a única identidade que reivindica: Sua esposa, senhor, sua esposa casta e leal.
(IV.2, v. 35)
Otelo já não julga pelo que vê, só pelo que decidiu antes: O que os céus sabem é que és falsa como o inferno.
(IV.2, v. 40)
Ao sair, Otelo trata Emília como cafetina e deixa uma moeda pelo "serviço": Feita a rodada! Um troco aqui — pelo serviço.
(IV.2, v. 95)
Antes de cantar, Desdêmona diz que a canção não lhe sai da mente (vv. 29-30) e lembra a aia Bárbara, e a lembrança pode ser lida como presságio: Minha mãe teve uma aia que se chamava / Bárbara,
que amou um homem que enlouqueceu, e a deixou.
Um verso da canção resume o destino que a espera: No seu peito suas mãos e no rosto o estio!
(IV.3, v. 45)
Emília inverte a culpa da traição: Mas eu acho que a culpa é toda dos maridos / Se as mulheres traem.
(IV.3, v. 101)
Desdêmona fecha o ato com um verso que é também sua última vontade consciente: Não o mal pelo mal, mas pelo mal sanar.
(IV.3, v. 120)
Ato V: A emboscada, o assassinato e a revelação
Iago fecha em aparte o raciocínio sobre Cássio, e a frase vale para Cássio: Não: tem que morrer. Então, seja.
(V.1, v. 22)
Cássio sobrevive à estocada, mas Iago o fere pelas costas e foge: Estou aleijado pra sempre! Socorro. Assassino!
(V.1, v. 28)
Otelo, ouvindo de longe, interpreta o grito como prova de que Iago o matou: Oh, bravo Iago, justo e honesto, / Julgaste com nobreza a afronta ao teu amigo.
(V.1, vv. 32-33)
Iago apunhala Rodrigo diante de Ludovico e Graciano, tratando-o como um dos assassinos: Escravo assassino! Canalha!
(V.1, v. 62)
Otelo compara a decisão a apagar uma vela, mas a luz de Desdêmona não tem como ser reacesa (no último verso do trecho, o "irromper" é o da rosa, que o recorte pula): Poderei restaurar. Mas morta a tua luz, / [...] Nunca mais poderei fazê-la irromper,
(V.2, vv. 10-14)
Ele beija a esposa adormecida, misturando desejo e sentença: Fica assim quando morta, que eu te matarei / E depois te amarei.
(V.2, vv. 18-19)
Desdêmona nega até o fim: Não! Por minha vida e alma:
(V.2, v. 49)
No último fôlego, ela poupa o marido: Ninguém. Eu mesma. Adeus.
(V.2, v. 127)
Otelo confessa sem hesitar depois que Emília confirma a última fala de Desdêmona (vv. 132-133): Fui eu que a matei.
(V.2, v. 135)
Emília recusa a obediência que definiu Desdêmona o ato inteiro: Não tens metade do poder para me ferir / Que eu tenho pra ser ferida.
(V.2, vv. 165-166)
É Emília quem entrega a peça central do enredo: Eu o achei por acaso e dei ao meu marido,
(V.2, v. 230)
Iago a apunhala; ela morre repetindo o refrão da canção que Desdêmona cantara na mesma noite, "Ô, salgueiro": Serei o cisne / Que expira na canção.
(V.2, vv. 250-251)
Otelo recusa o pretexto do ciúme e pede um retrato sem retoque: Falem de mim como sou. Não abrandem nada, / Nem usem de malícia.
(V.2, vv. 347-348)
Ele se compara a quem jogou fora, por ignorância, o bem mais valioso: cuja mão, como a do pobre / E baixo indiano, jogou fora uma pérola / Mais cara que sua tribo
(V.2, vv. 351-353)
As últimas palavras repetem o gesto que abriu o assassinato: Eu te beijei, depois te matei: só o que deixo, / Matar a mim mesmo e morrer com um beijo.
(V.2, vv. 363-364)