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Personagem

Desdêmona

Quem é

Filha de Brabâncio, senador veneziano, e mulher de Otelo por escolha própria, contra o pai e contra a cidade. É a personagem em que as duas leituras críticas da edição mais divergem, e a que a peça mata sem que ela entenda a acusação a tempo de se defender. Segue a Chipre escoltada por Iago, intercede por Cássio com generosidade e perde o lenço que Otelo lhe deu, a prova física de que Iago precisava. Nega até o fim e, com o último fôlego, poupa quem a matou.

Trajetória

Na cena 3 do Ato I, chamada a testemunhar diante do Senado, Desdêmona não nega a autoridade do pai: ela a desloca, e o faz em termos de dever, não de paixão.

A resposta de Desdêmona ao pedido do pai para que diga a quem obedece: Meu nobre pai, / Eu noto aqui que o dever está dividido. (I.3, v. 181-182)
Ato I: Veneza, a denúncia noturna e o juízo do senado

Na cena 1 do Ato II, desembarca em Chipre e reencontra Otelo em plena felicidade, e na espera troca gracejos com Iago sobre mulheres, em dísticos que ela mesma chama de pilhéria boba para divertir os simplórios nas tabernas. Na cena 3 do Ato II, Otelo se retira com ela depois de pôr Cássio na guarda, e, como Emília conta na cena 1 do Ato III, ela já defende Cássio junto ao general.

Na cena 3 do Ato III, promete a Cássio, diante de Emília, interceder por ele. Quando Otelo chega com Iago e Cássio se afasta às pressas, ela diz ao marido que esteve falando com um pleiteante que sofre com a rejeição dele e tenta enfaixar-lhe a testa com o lenço. Ele recusa, e o lenço cai. Na cena 4 do Ato III, percebe a falta do lenço e pergunta onde o perdeu, e quando Otelo o pede e ouve que ela não o tem ali, ela insiste em falar de Cássio.

Na cena 1 do Ato IV, é esbofeteada por Otelo na frente de Ludovico. Na cena 2 do Ato IV, é tratada como prostituta no interrogatório da alcova, e responde com a única identidade que reivindica:

Desdêmona responde com a única identidade que reivindica: Sua esposa, senhor, sua esposa casta e leal. (IV.2, v. 35)
Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro

Pede que Emília estenda os lençóis nupciais e chame Iago, e pergunta a ele o que fazer para tê-lo de volta. Na cena 3 do Ato IV, lembra a aia Bárbara, que amou um homem que enlouqueceu, e canta a canção do salgueiro:

Antes de cantar, Desdêmona diz que a canção não lhe sai da mente (vv. 29-30) e lembra a aia Bárbara, e a lembrança pode ser lida como presságio: Minha mãe teve uma aia que se chamava / Bárbara, que amou um homem que enlouqueceu, e a deixou.
Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro

Pergunta a Emília se há mulheres que traem os maridos por tudo o que há no mundo, e fecha a cena com a ética oposta à de Emília:

Desdêmona fecha o ato com um verso que é também sua última vontade consciente: Não o mal pelo mal, mas pelo mal sanar. (IV.3, v. 120)
Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro

Na cena 2 do Ato V, é beijada por Otelo adormecida, acusada de ter dado o lenço a Cássio e, sem prova nenhuma, sufocada. Nega:

Desdêmona nega até o fim: Não! Por minha vida e alma: (V.2, v. 49)
Ato V: A emboscada, o assassinato e a revelação

Antes de morrer, revive para uma última fala:

No último fôlego, ela poupa o marido: Ninguém. Eu mesma. Adeus. (V.2, v. 127)
Ato V: A emboscada, o assassinato e a revelação

Temas que encarna

Na cena 3 do Ato I, a resposta dela ao Senado é o único registro que ele consegue validar, e ela o usa com precisão: invoca o exemplo da própria mãe, que preferiu o marido ao pai, para tornar a escolha uma repetição da ordem e não uma ruptura dela. A autonomia aparece vestida de obediência, que é o que a torna irrespondível ali.

As respostas da cena 2 do Ato IV e da cena 2 do Ato V são diretas e nenhuma tem peso, porque o veredito precede a evidência: no interrogatório da alcova, a resposta mais límpida possível só confirma, para Otelo, a mentira que ele já espera ouvir. Na alcova ela não chega a saber do que é acusada, e só no quarto, quando já é tarde, ouve falar do lenço e de Cássio: é isso, não a morte, que faz a sequência um dos pontos mais cruéis da peça.

O verso da cena 3 do Ato IV é a resposta dela à tese de Emília de que a traição responde a maus-tratos, e o da cena 2 do Ato V é a mesma ética levada ao limite: no último fôlego ela usa a única coisa que ainda controla, a própria fala, para inocentar quem a matou. A coerência entre as duas falas é o argumento de quem a lê como figura de autonomia, e não de passividade.

A história da aia Bárbara, que amou um homem que enlouqueceu, é contada por Desdêmona como lembrança e funciona como presságio: ela canta a canção da mulher morta de amor enlouquecido na própria noite em que morre assim. Emília estende os lençóis nupciais, e na cena 2 do Ato V Otelo chama Desdêmona de "alva como os teus lençóis" (vv. 275-276); depois Emília morre citando a mesma canção.

Onde os dois críticos da edição discordam

Introdução a Otelo a lê como heroína de autonomia real, comparável a Cordélia, e cita O curinga no baralho pelo nome como exemplo do vício que a introdução inteira descreve: Auden a julga com dureza, e a especulação dele sobre ela é chamada de realismo cínico com espírito de Iago. É a mesma personagem lida em polos opostos dentro do mesmo volume, e a divergência é o que a torna interessante de estudar.

Relações

  • Otelo: o marido, ganho pela escolha dela contra o pai e perdido por uma história que ela nunca ouve inteira.
  • Iago: quem a escolta a Chipre, e a quem ela, na cena 2 do Ato IV, pergunta como reaver o marido.
  • Cássio: o tenente por quem ela intercede e cuja amizade é usada como prova contra ela.
  • Emília: a camareira que a serve, apanha o lenço dela do chão sem saber o que ele vale e depois morre falando em nome dela.
  • Brabâncio: o pai a quem ela diz que o dever está dividido.