Otelo, Ato II: Chipre, a tempestade e a queda de Cássio
Análise
Edição de referência: Otelo: Paixão e Interpretação, tradução, introdução e notas de Lawrence Flores Pereira, Penguin Companhia, 2017.
Cena I: O casal se reencontra em Chipre
Resumo da seção
Em Chipre, Montano e os fidalgos observam o mar em fúria e concluem que a frota turca se perdeu na tempestade. Cássio chega primeiro, seguido por Desdêmona, Iago, Emília e Rodrigo; Otelo é o último a desembarcar e reencontra a esposa em plena felicidade. Iago zomba das mulheres, convence Rodrigo a provocar Cássio na guarda e, sozinho, revela que quer destruir Cássio e Otelo.
Enquanto esperam Otelo, Iago troca gracejos com Desdêmona sobre mulheres, numa série de dísticos misóginos que Desdêmona chama de pilhéria boba para divertir os simplórios nas tabernas.
Análise
Um dos dísticos improvisados por Iago no jogo de elogios: Se ela é bela e sábia, saber e belezura / Um é bom pra o uso, o outro para a usura.
(II.1, v. 130-131)
O reencontro de Otelo com Desdêmona é o ponto mais alto de contentamento de toda a peça, e ele mesmo desconfia da própria sorte: Que há entre inferno e céu. Se a morte viesse agora, / Seria a máxima alegria, pois eu temo
(II.1, v. 186-187)
Otelo teme a própria felicidade antes de qualquer motivo real de ciúme existir: já intui que nada vai igualar aquele instante. Shakespeare planta a queda no momento exato do auge, sem precisar de nenhuma intervenção de Iago ainda.
Enquanto o casal se beija, Iago comenta a harmonia do reencontro em aparte: Hum, mas quanta afinação. Eu vou afrouxar / As cordas que fazem essa melodia, que é / Tão honesta quanto eu.
(II.1, v. 197-199)
A imagem musical (cordas afinadas que ele promete desafinar) é a assinatura de Iago: ele não inventa desarmonia do nada, ele degrada uma harmonia que já existia. "Tão honesta quanto eu" repete, em aparte, o aviso da Cena I do Ato I: ali Iago dizia a Rodrigo que não era o que era, e aqui só o público ouve.
Depois de combinar com Rodrigo a provocação a Cássio, Iago revela em solilóquio o plano: incriminar Cássio aos olhos de Otelo por suposta proximidade com Desdêmona, alimentado por uma suspeita não confirmada de que o próprio Otelo teria se deitado com Emília.
Para discutir Otelo diz que, se a morte viesse agora, seria a máxima alegria, pois teme que nenhum conforto futuro se iguale a este. O que essa fala mostra sobre o modo como ele vive a felicidade?
Cena II: O arauto proclama vitória e núpcias
Resumo da seção
A cena é só a proclamação pública: a frota turca está destruída, e Otelo decreta festejo e banquete público até as onze da noite, em celebração dupla, a vitória e o próprio casamento.
Cena III: A bebedeira que derruba Cássio
Resumo da seção
Otelo põe Cássio no comando da guarda noturna e se retira com Desdêmona. Iago convence Cássio, que se sabe fraco para bebida, a beber com um grupo de cipriotas que ele mesmo já vinha embriagando de propósito. Rodrigo, instigado por Iago, provoca Cássio, que o persegue e acaba ferindo Montano quando este tenta contê-lo. O tumulto acorda Otelo, que destitui Cássio do posto de tenente na hora.
Análise
Sozinho com Iago depois da queda, Cássio resume a perda em três palavras repetidas: Reputação, reputação, reputação! Perdi toda a reputação!
(II.3, v. 259)
Cássio chora a reputação, não o ferimento nem o cargo em si, e Iago aproveita exatamente esse ponto: chama a reputação de "imposição infundada e falsa" para depois, no ato seguinte, destruir a de Otelo pela mesma via. É o primeiro uso do que se tornará o instrumento central da tragédia: a honra como algo que existe só na opinião alheia.
Iago aconselha Cássio a pedir a Desdêmona que interceda por ele junto a Otelo, apresentando o conselho como puro gesto de amizade.
Sozinho, Iago admite ao público o que o conselho realmente prepara: E co'a sua bondade, engendrarei a rede / Que enredará aos três.
(II.3, v. 363-364)
O conselho que Iago dá a Cássio é bom e vai funcionar exatamente como prometido, e a sinceridade com que ele o oferece é encenada (jura a Cássio uma estima que não tem, vv. 298-300 e 329-330, e confessa a sós que o conselho prepara a rede). Esse é o mecanismo mais perturbador da peça: Iago não precisa de um conselho falso, só precisa escolher quem vai interpretar o bom para Otelo depois. A mesma bondade de Desdêmona que a peça celebrou no Ato I (Ato I: Veneza, a denúncia noturna e o juízo do senado) vira, aqui, a arma que Iago pretende usar contra ela.
Para discutir Iago diz a Cássio que reputação é imposição infundada e falsa, e que ele não perdeu nada. Por que Cássio não aceita esse consolo?
Tema central
Análise
A imagem das cordas dá a chave do ato. Pereira liga a fala de Iago ao soneto 8 de Shakespeare, em que a harmonia musical figura a união entre marido e mulher: ao prometer afrouxar as cordas, Iago promete desafinar justamente o que acaba de ser mostrado afinado.
O reencontro do porto existe na peça para ser desmontado.
Na Cena III, Iago embriaga Cássio, provoca-o por meio de Rodrigo e finge não saber quem ele perseguira (vv. 281-283), consola-o com uma estima que é encenada (vv. 298-300 e 329-330) e dá um conselho que funciona. Diante de Otelo, Pereira vê a tática de quem finge, por lealdade, estar impedido de dizer tudo o que sabe, e assim ganha a confiança do general e atiça a curiosidade dele.
O solilóquio que fecha a Cena I acumula motivos sem se fixar em nenhum: Iago diz amar Desdêmona "pela dieta própria da vingança", suspeita que Otelo se deitou com Emília e, se tudo falhar, ao menos quer lançar o Mouro num ciúme que lhe tire o juízo. O que fica firme é o plano, não a causa, e o ato termina com a rede já armada para os três.