Otelo, Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro
Análise
O texto do Ato IV (cenas I a III) vem de Otelo: Paixão e Interpretação, tradução, introdução e notas de Lawrence Flores Pereira, Penguin Companhia, 2017.
Cena I: A convulsão, o teatro e a bofetada
Resumo da seção
Em Chipre, Iago fala a Otelo de "lenço" e de "mentindo" até ele, repetindo "o lenço, as confissões", cair em convulsão. De pé de novo, Otelo se esconde para ouvir Iago conversar com Cássio sobre Bianca; Cássio ri, e Otelo toma a risada por confissão sobre Desdêmona. Quando Bianca devolve um lenço, ele o reconhece e decide matar a esposa, e Iago sugere o estrangulamento. Chega Ludovico, com a carta do Duque que chama Otelo de volta a Veneza, e Otelo bate em Desdêmona diante dele.
Análise
Na tradução de Lawrence Flores Pereira, "mentindo" e "metido" fazem o papel do trocadilho inglês entre lie with e lie on (vv. 33-38): Otelo ouve "mentir" e lê "deitar com ela".
Na fala de Iago sobre as "grandes cidades" e seus "monstros civilizados" (vv. 66-67), a nota da tradução vê o elo entre a natureza urbana de Otelo, como negro e berbere, e a ideia de monstruosidade animalizada.
A convulsão, o teatro e a sentença
Análise
A fala de Otelo se desintegra até a convulsão: possível… Confessa? O lenço? Diabo!
(IV.1, v. 45)
Otelo enuncia a régua com que já condena a esposa, sem tê-la ouvido: Um homem com chifres é um monstro, é uma besta.
(IV.1, v. 65)
Otelo avisa Iago de que será astucioso no uso da paciência, mas também brutal: Mas — ouve — também brutal.
(IV.1, v. 95)
Cada gesto de Cássio vira, na cabeça de Otelo, peça de acusação: Então você me feriu, me marcou… Muito bem.
(IV.1, v. 130)
Otelo narra o sentido da cena antes de Iago terminar de encená-la: Iago está me fazendo um sinal. Agora começa a história.
(IV.1, v. 135)
A primeira sentença que ele imagina é lenta: Eu o faria morrer pouco a pouco por nove anos.
(IV.1, v. 185)
Iago propõe o método que será executado na cena V.2: Não, não use veneno; melhor é estrangulá-la
(IV.1, v. 214)
Na conversa de Cássio com Bianca ninguém mente sobre o próprio assunto (Cássio fala de Bianca, Bianca do lenço); é Otelo quem troca o referente sozinho. Iago, porém, mente de frente na cena: diz que Cássio já confessou o que fez (vv. 30-35) e que foi Desdêmona quem deu o lenço a Cássio (vv. 181-184). O diálogo falso da risada é escrito pelo ciúme de Otelo, e o método de matar já sai decidido antes de qualquer confronto.
Ludovico chega, e a bofetada pública
Análise
A carta detona a fúria antes de qualquer palavra dela justificar isso: Fogo e enxofre!
(IV.1, v. 240)
Otelo bate em Desdêmona diante de Ludovico logo depois de dizer: Me alegra… te ver louca.
(IV.1, v. 245)
Ludovico funciona como a plateia que transforma a violência doméstica em escândalo público: sem essa testemunha, o tapa seria só mais uma cena entre os dois.
Para discutir No Ato III (ver Ato III: A tentação e o lenço), Iago leva Otelo da insinuação à exigência de prova. O que Iago ainda faz neste ato, e o que Otelo faz sem ele?
Cena II: O interrogatório da alcova e Rodrigo
Resumo da seção
Otelo interroga Emília, que jura nada ter visto de errado e garante a honestidade de Desdêmona. Sozinho com Desdêmona, ele a trata como prostituta e, ao sair, paga Emília como cafetina. Desdêmona pede que Emília estenda os lençóis nupciais e chame Iago; diante dele, Emília denuncia o canalha que forjou a calúnia. Iago consola Desdêmona e depois contém Rodrigo, que cobra as joias entregues: promete-lhe uma noite de ação e o põe a vigiar Cássio, para matá-lo.
Análise
No verso 85, "vaso" (vessel) designa o corpo da mulher: a nota da tradução lembra que a imagem é bíblica (1 Tessalonicenses 4, 4-5).
Desdêmona responde com a única identidade que reivindica: Sua esposa, senhor, sua esposa casta e leal.
(IV.2, v. 35)
Otelo já não julga pelo que vê, só pelo que decidiu antes: O que os céus sabem é que és falsa como o inferno.
(IV.2, v. 40)
Ao sair, Otelo trata Emília como cafetina e deixa uma moeda pelo "serviço": Feita a rodada! Um troco aqui — pelo serviço.
(IV.2, v. 95)
Otelo já tem o veredito: mesmo a resposta mais direta ("sua esposa casta e leal") só confirma a mentira que ele espera ouvir. A imagem do bordel reimagina o quarto conjugal como cena do crime.
Cena III: O canto do salgueiro
Resumo da seção
Depois que Ludovico se despede, Otelo manda Desdêmona ir para a cama e dispensar a acompanhante. Emília a despe; Desdêmona pede que, se morrer, a envolvam nos lençóis nupciais, lembra a aia Bárbara e canta a canção do salgueiro. Em seguida pergunta se há mulheres que traem os maridos por tudo o que há no mundo. Emília diz que talvez ela própria traísse e defende que a culpa é dos maridos, que traem, batem e restringem. Desdêmona se despede pedindo aprender a não pagar o mal com o mal.
Análise
O longo discurso de Emília (vv. 101-18) consta do Fólio e falta no Quarto, e é verso onde ela vinha falando em prosa; a nota da tradução o lê como reivindicação do desejo feminino, não como ironia.
Antes de cantar, Desdêmona diz que a canção não lhe sai da mente (vv. 29-30) e lembra a aia Bárbara, e a lembrança pode ser lida como presságio: Minha mãe teve uma aia que se chamava / Bárbara,
que amou um homem que enlouqueceu, e a deixou.
Um verso da canção resume o destino que a espera: No seu peito suas mãos e no rosto o estio!
(IV.3, v. 45)
Emília inverte a culpa da traição: Mas eu acho que a culpa é toda dos maridos / Se as mulheres traem.
(IV.3, v. 101)
Desdêmona fecha o ato com um verso que é também sua última vontade consciente: Não o mal pelo mal, mas pelo mal sanar.
(IV.3, v. 120)
Emília estende os lençóis nupciais, e na cena 2 do Ato V Otelo chama Desdêmona de "alva como os teus lençóis" (vv. 275-276): a canção da mulher morta de amor enlouquecido não é ornamento, é presságio. A mesma lógica reaparece na loucura cantada de Ofélia em Hamlet, embora ali a morte seja por água. E é a única cena em que alguém enuncia, sem rodeio, que a fidelidade depende do tratamento do marido: Emília descreve, sem saber, o próprio casamento com Iago, e Desdêmona responde com a ética contrária que a peça testa a seguir.
Para discutir Desdêmona diz que jamais trairia o marido por nada no mundo, e Emília diz que talvez trairia: o que cada uma entende por dever dentro do casamento?
Tema central
Resumo da seção
Um homem que já decidiu a sentença antes do julgamento: o que resta da prova, da confissão ou da defesa, quando o veredito precede a evidência?
Argumento a favor
Resumo da seção
Toda a cena de espionagem com Cássio e Bianca (IV.1) mostra Otelo interpretando um diálogo que não ouve de fato: ele preenche o silêncio e as risadas com o roteiro que já escreveu sozinho. A bofetada diante de Ludovico e o interrogatório da cena II confirmam que nenhuma resposta de Desdêmona teria peso: "sua esposa casta e leal" é descartada com a mesma certeza que qualquer outra frase seria.
Contra-argumento
Resumo da seção
A cena III mostra que a peça não reduz Desdêmona a vítima passiva nem Emília a coro de fundo: as duas debatem, com posições opostas e articuladas, se a traição é vício de caráter ou resposta a maus-tratos. É a única cena do ato em que alguém fala sem estar sob interrogatório, e por isso é onde a peça respira antes do desfecho.
Consequências
Resumo da seção
O método de matar (estrangular na cama) e o momento (a noite após o jantar com Veneza) ficam decididos aqui, na cena I, muito antes do confronto da cena V.2. Quando a peça chegar ao quarto de Desdêmona, o leitor já sabe exatamente o que vai acontecer e como.
A convicção que não precisa de prova
Resumo da seção
Diferente do Ato III, em que Iago ainda constrói insinuação por insinuação, aqui ele já pode se dar ao luxo de armar cenas inteiras (a convulsão, o teatro de Cássio) porque Otelo faz o trabalho interpretativo sozinho. É o mesmo mecanismo que já operava no Ato III, a insinuação que abre caminho para a mentira direta, mas agora em escala de encenação, não de sussurro.
O corpo como campo de punição
Resumo da seção
Do tapa diante de Ludovico na cena I ao xingamento de prostituta na alcova na cena II, a humilhação deste ato é sempre corporal antes de ser, no ato seguinte, letal e privada. A canção do salgueiro marca a passagem de uma violência para a outra.