Quem é
Otelo é o general mouro a serviço de Veneza, casado em segredo com Desdêmona, filha do senador Brabâncio. Soldado desde os sete anos, já foi escravizado e resgatado, e a república o chama no meio da noite porque precisa dele de imediato contra a frota turca. Vai a Chipre com a esposa e com o tenente Cássio, e ali perde, em poucas cenas, a confiança que tinha nos dois, convencido por Iago de que ela o trai. Mata a mulher na cama, descobre o engano pela boca de Emília e pelas cartas de Rodrigo, é destituído do comando, que passa a Cássio, e se mata com uma arma que ainda traz escondida.
Trajetória
Na cena 2 do Ato I, Iago o avisa de que Brabâncio é poderoso e pode desfazer o casamento, e Otelo recusa se esconder: confia nos serviços prestados à Signoria e no que os outros pensam dele. Quando Brabâncio chega com homens armados e tenta prendê-lo por feitiçaria, manda guardar as espadas, não briga, e aceita ir ao Senado, onde o Duque o espera de qualquer modo.
Na cena 3 do Ato I, o Duque precisa dele contra os turcos, e a acusação de Brabâncio vira julgamento. Otelo admite que levou a filha e se casou com ela, diz que a sua fala é rústica, feita para os campos de batalha, e responde à acusação de feitiços contando a própria vida: as batalhas, o cativeiro e as histórias que contou na casa de Brabâncio, que levaram Desdêmona a amá-lo pelos perigos que ele passou, enquanto ele a amou pela pena que ela sentiu. O Duque observa que afirmar não é provar e, ouvida Desdêmona, manda Otelo a Chipre naquela mesma noite. Brabâncio o previne de que quem enganou o pai pode enganar o esposo, e Otelo responde que aposta a vida na fidelidade dela e, na mesma fala, entrega a esposa ao honesto Iago.
Na cena 1 do Ato II, depois da tempestade que afunda a frota turca, desembarca por último e reencontra Desdêmona no auge da felicidade. Diz que, se a morte viesse agora, seria a máxima alegria, porque teme que nada depois se iguale a esse instante. Na cena 2 do Ato II, o arauto proclama a vitória, e Otelo decreta festa e banquete públicos, em celebração dupla, da vitória e do casamento. Na cena 3 do Ato II, põe Cássio no comando da guarda noturna e se retira com a esposa. O tumulto o acorda, e ele destitui Cássio do posto de tenente na hora.
Na cena 2 do Ato III, entrega cartas a Iago e sai com os fidalgos para vistoriar as fortificações, o que deixa o palco livre para Cássio e Desdêmona na cena seguinte. A cena 3 do Ato III é a cena da queda. Antes de Iago formular qualquer dúvida sobre Desdêmona, e depois que ela sai, ele diz que, no dia em que deixar de amá-la, será o Caos de novo:
Antes de Iago formular qualquer dúvida sobre Desdêmona, Otelo já enuncia o que está em jogo se o amor acabar, e a palavra que ele escolhe nomeia o abismo anterior a toda forma:Rica criatura! Que eu caia em perdição, Mas eu te amo! E quando eu deixar de te amar, Vai ser o Caos novamente.(III.3, vv. 91-93)
Quando Cássio se afasta às pressas, Iago devolve a Otelo as próprias palavras em forma de pergunta e o avisa contra o ciúme, e Otelo diz que não viveria nas mutações da lua: quer ver antes de duvidar e, quando duvidar, quer prova. Sozinho, pouco depois, repassa as razões que podem ter feito Desdêmona deixá-lo: ser negro, não ter a conversa dos cortesãos, já ter descido o vale da idade. Recusa o lenço com que ela tenta enfaixar-lhe a testa, e o lenço cai. Despede-se da profissão de soldado, exige a prova ocular que jurara exigir, aceita o sonho que Iago atribui a Cássio, jura vingança e nomeia Iago tenente. Na cena 4 do Ato III, pede o lenço a Desdêmona e, ao ouvir que ela não o tem ali, conta a origem mágica do objeto e repete a mesma palavra sem deixá-la falar de Cássio.
Na cena 1 do Ato IV, a fala se desfaz até a convulsão, diante de Iago que fala de lenço e de "mentindo". De pé, Otelo se esconde para ouvir Iago e Cássio falarem de Bianca e toma a risada de Cássio por confissão sobre Desdêmona. Reconhece o lenço quando Bianca o devolve, decide matar a esposa e aceita o método que Iago propõe, o estrangulamento. Chega Ludovico com a carta do Duque que o chama de volta a Veneza, e Otelo bate em Desdêmona diante dele. Na cena 2 do Ato IV, interroga Emília, que jura a honestidade da senhora, depois trata Desdêmona como prostituta e, ao sair, paga Emília como cafetina. Na cena 3 do Ato IV, manda a esposa para a cama e dispensar a acompanhante.
Na cena 1 do Ato V, ouve de longe os gritos de Cássio ferido e conclui que Iago cumpriu a palavra. Na cena 2 do Ato V, entra no quarto, beija Desdêmona adormecida e a acusa de ter dado o lenço a Cássio. Ela nega até ser sufocada. Quando Emília chega, Otelo confessa que a matou e diz que o honesto Iago lhe contou da infidelidade. Emília revela que foi ela quem achou o lenço e o deu ao marido, Otelo corre até Iago e é desarmado por Montano. Iago apunhala Emília e foge, e Otelo diz ter outra arma no quarto, uma espada de Espanha. Capturado Iago, Otelo o fere e lhe tiram a espada. Lidas as cartas de Rodrigo, Ludovico lhe retira o comando, que passa a Cássio, e Otelo, antes de se apunhalar com uma arma que ninguém viu, pede que falem dele como é:
Otelo recusa o pretexto do ciúme e pede um retrato sem retoque:Falem de mim como sou. Não abrandem nada, / Nem usem de malícia.(V.2, vv. 347-348)
Morre ao lado de Desdêmona.
Temas que encarna
No Ato I Otelo vence pela palavra onde faltava prova. O Duque diz que afirmar não é provar e pede evidência aberta, e o que Otelo oferece é uma história, que basta. Pereira lembra que o termo da evidência aberta (overt) volta mais tarde à boca do próprio Otelo, como a prova ocular que ele exigirá de Iago.
A convicção chega antes da prova. Na cena 1 do Ato IV, ele narra o sentido da cena antes de Iago terminar de encená-la: Cássio fala de Bianca, Bianca do lenço, e quem troca o referente é Otelo sozinho. Na cena 2 do Ato IV, mesmo a resposta mais límpida de Desdêmona só confirma, para ele, a mentira que ele espera ouvir.
O tradutor registra que, ao falar de si como aquele que já foi Otelo, ele devolve a si a condição de simples mouro, o que a edição lê como cancelamento da identidade veneziana, e cita T. S. Eliot: Otelo parece estar se animando, já deixou de pensar em Desdêmona e pensa em si. O pedido por um retrato sem retoque, na cena 2 do Ato V, é o último movimento dessa autodefesa.
O ciúme em Otelo não aparece como um traço que Iago descobre, aparece como o outro lado de uma confiança sem reserva: quem entrega a esposa ao honesto Iago e promete jamais duvidar sem prova não tem onde pôr a dúvida quando ela chega. O Preconceito que o cerca desde a rua da cena 1 do Ato I, e que ele repassa a sós na cena 3 do Ato III quando lista a cor da pele e a idade, dá ao ciúme o terreno onde ele cresce. E o que ele defende a vida inteira é a Honra e reputação: a carreira, o título, a palavra dos outros sobre ele.
Relações
- Desdêmona: a esposa, ganha pela história que ele contou e perdida pela que Iago fabricou. Ele a trata como prostituta e a mata sufocada.
- Iago: o alferes em quem ele confia e a quem entrega a esposa, e que o conduz do aviso contra o ciúme à sentença.
- Cássio: o tenente que ele nomeia, destitui e toma como amante de Desdêmona. Ao fim, Cássio governa Chipre.
- Emília: a camareira de Desdêmona, que ele interroga e paga como cafetina, e que lhe diz a verdade sobre o lenço.
- Rodrigo: o pretendente que Iago usa, cujas cartas no bolso, depois de morto, expõem a trama.
- Brabâncio: o sogro que o acusa de feitiçaria e o previne de que a filha pode enganá-lo também.