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Personagem

Cássio

Quem é

Miguel Cássio, florentino, tenente de Otelo e segundo em comando. É o motivo declarado do ressentimento de Iago, o instrumento involuntário da calúnia contra Desdêmona, e o único dos alvos do plano que sai vivo, no comando de Chipre.

Trajetória

Na cena 2 do Ato I, é ele quem chega a Otelo com o chamado urgente do Duque. Na cena 1 do Ato II, desembarca primeiro em Chipre, antes de Desdêmona e de Otelo. Na cena 3 do Ato II, Otelo o põe no comando da guarda noturna. Sabendo-se fraco para a bebida, Cássio bebe com os cipriotas que Iago embriagava de propósito, e é provocado por Rodrigo, que ele persegue, ferindo Montano. Otelo o destitui do posto de tenente na hora.

Depois de embriagado e desonrado por uma briga armada por Iago, Cássio não chora o cargo nem o ferimento.

Sozinho com Iago depois da queda, Cássio resume a perda em três palavras repetidas: Reputação, reputação, reputação! Perdi toda a reputação! (II.3, v. 259)
Ato II: Chipre, a tempestade e a queda de Cássio

É o ponto exato em que ele se entrega, e Iago o percebe na hora: quem trata a reputação como bem supremo aceita qualquer caminho que prometa devolvê-la. O conselho que vem em seguida, pedir a intercessão de Desdêmona, é bom, e Iago o usa de armadilha: funciona exatamente como prometido, e é justamente por funcionar que destrói os três.

Sozinho, Iago admite ao público o que o conselho realmente prepara: E co'a sua bondade, engendrarei a rede / Que enredará aos três. (II.3, v. 363-364)
Ato II: Chipre, a tempestade e a queda de Cássio

Na cena 1 do Ato III, paga músicos para saudar o general ao amanhecer e manda o palhaço pedir uma entrevista a Emília e pede a Iago acesso a Desdêmona. Na cena 3 do Ato III, Desdêmona promete interceder por ele, e quando Otelo chega com Iago, Cássio se afasta às pressas: é esse gesto inocente que Iago explora. O sonho que Iago atribui a Cássio e o lenço com que Iago diz tê-lo visto secar a barba são a prova que Otelo aceita. Na cena 4 do Ato III, entra com Iago, insiste com Desdêmona e entrega o lenço a Bianca para copiar o desenho.

No teatro montado na cena 1 do Ato IV, Cássio fala de Bianca, e Otelo, escondido, ouve como se falasse de Desdêmona.

Otelo narra o sentido da cena antes de Iago terminar de encená-la: Iago está me fazendo um sinal. Agora começa a história. (IV.1, v. 135)
Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro

Na conversa com Bianca, ninguém mente sobre o próprio assunto: Cássio fala de Bianca, Bianca fala do lenço, e quem troca o referente é Otelo sozinho. Cássio é a prova viva de que a verdade dele, mal ouvida por um ouvinte já convencido, basta para a catástrofe, e as mentiras diretas de Iago na mesma cena (que Cássio já confessou, vv. 30-35) só a completam.

Na cena 1 do Ato V, é atacado na rua por Rodrigo e ferido por Iago, por trás:

Cássio sobrevive à estocada, mas Iago o fere pelas costas e foge: Estou aleijado pra sempre! Socorro. Assassino! (V.1, v. 28)
Ato V: A emboscada, o assassinato e a revelação
Otelo, ouvindo de longe, interpreta o grito como prova de que Iago o matou: Oh, bravo Iago, justo e honesto, / Julgaste com nobreza a afronta ao teu amigo. (V.1, vv. 32-33)
Ato V: A emboscada, o assassinato e a revelação

O grito de Cássio ferido é interpretado por Otelo, de longe, como prova de que Iago cumpriu a promessa de matá-lo, e é o último engano de uma peça inteira feita deles. Que o alvo original do ressentimento de Iago termine vivo e governando Chipre não é ironia solta: é o que mostra que o plano nunca teve um fim próprio além do estrago.

Na cena 2 do Ato V, explica a Otelo como achou o lenço no próprio quarto, e comenta a carta de Rodrigo contra Iago, que Ludovico lê. Ludovico lhe entrega o comando de Chipre.

Por que ser florentino importa

Os comentários do tradutor na edição registram que, ao chamar Cássio de florentino já na primeira cena, Iago aciona uma associação corrente no palco elisabetano: Florença era ligada ao seu cidadão mais célebre, Maquiavel, cujo pensamento político circulava mal compreendido na Inglaterra do século XVI.

A ironia é que o rótulo se cola no personagem errado. Quem opera como o tipo teatral do Machiavel é Iago, e é ele quem trata a vontade como capaz de moldar as paixões; Cássio é o oposto disso, um homem cuja honra depende inteiramente do que os outros pensam dele. Iago usa a estrangeiridade do rival para incitar a antipatia de Rodrigo, e de passagem atribui a Cássio o vício que é o seu.

O que ele perde, e o que ele acha que perdeu

Na cena 3 do Ato II, Cássio resume a perda em três palavras repetidas e não chora o cargo nem o ferimento, e a Honra e reputação que ele chora é a mesma que Iago vai usar contra Otelo.

O personagem que nunca mente e mesmo assim condena

Na conversa da cena 1 do Ato IV, Cássio e Bianca não mentem sobre o próprio assunto: Cássio fala de Bianca, e quem troca o referente é Otelo. O pedido de Cássio na cena 3 do Ato III é sincero, e a intercessão de Desdêmona é generosa. A tragédia está no uso que Iago faz dessas verdades, e nas mentiras que ele soma a elas.

O sobrevivente

Na cena 2 do Ato V, Ludovico entrega o comando de Chipre a Cássio, o alvo original do ressentimento de Iago.

Relações

  • Otelo: o general que o nomeia tenente, o destitui e o toma como amante de Desdêmona. Ao fim, passa a ele o comando.
  • Iago: quem o embriaga e o consola, e para quem Cássio é o motivo declarado do ódio.
  • Desdêmona: a quem ele pede ajuda e cuja generosidade o afunda e a afunda.
  • Emília: a camareira que o leva até Desdêmona na cena 1 do Ato III.
  • Rodrigo: o provocador da cena 3 do Ato II e o emboscador da cena 1 do Ato V.